Zen/Japão II

Pergunta: O Senhor acha que se Mestre Dogen voltasse hoje ao Japão e visitasse o Mosteiro de Eihei-ji, ele iria se lamentar de ser hoje em dia um mosteiro tão rico e grandioso?

Resposta: Acho que sim, como São Francisco, a quem isso aconteceu. Dentro do capítulo do Shobogenzo, “A prática incessante,” Mestre Dogen mostra vários mestres, mas dentre esses mestres ele cita alguns como sendo “Buda Velho,” e isto significa o máximo de respeito e admiração para Mestre Dogen.

Dentre estes, havia um que começou o treinamento aos 60 anos, começou a viajar, buscando o Dharma. Aos 80 anos, ainda não tinha um mosteiro próprio. Outros mestres lhe diziam, “Você é velho, por que não toma um templo?” Mas ele não queria e continuou viajando. E viveu até os 120 anos, então tinha mais 40 anos de vida. Realmente foi um gigante.

Outro mestre citado por Mestre Dogen, nesse capítulo, que se chamava Daibai, deixou uma poesia dizendo que queria se afastar desse convívio do mundo e entrar cada vez mais profundamen-te nas montanhas, morava perto de uma pequena lagoinha, tinha apenas folhas de lótus para se ves-tir e se alimentava de pinhões silvestres, e assim entrava fundo nas montanhas.

Mas isso tudo tambem é uma questão de tempo. Mestre Dogen viveu há 750 anos. Hoje em dia é diferente, mas o espírito tem de continuar sendo o mesmo. Quando Mestre Dogen voltou ao Japão, seu mestre lhe deu quatro frases para que vivesse: 1° Olhe sempre as montanhas verdes; 2° Não more em grandes cidades; 3° Não se aproxime de figuras importantes, como reis, ministros etc.; 4º Viva sempre com aquela pobreza sagrada.

E realmente a escola Soto Zen tem essas características. Mas dentro de outras escolas, também há os 4 estados tranqüilos: não se aproximar destas figuras importantes como presidentes, viúvas ou virgens, monges não entram em lugares de boêmia ou de zona. Nem entre ricos e milionários, mas eles também são gente. Precisam de ajuda espiritual. Essa pobreza que mencionamos não é para cobiçar. Através desse contato, não quer dizer que vamos nos aproveitar destas figuras ricas e importantes. Muitos médicos e políticos fazem isso, mas também existem médicos pobres que trabalham e que não cobram por isso, entrando na favela, tratando de graça.

Houve um médico que tratou de uma senhora que ficou doente. E esta senhora pagou bas-tante. Então ele anunciou: “Agora eu ganhei muito dinheiro. A quem devo dinheiro que se adiante agora para receber. Pagarei tudo.” Há essas coisas, essas figuras totalmente livres, esse espírito de pobreza.

Eu acho que na vida moderna nós temos que trabalhar dos dois lados, não rigorosamente pobre, isto também é uma alergia, ligado ainda com estas riquezas. Se você realmente transcende essas coisas, não será porque alguém é ministro ou importante ou rico, que você não terá ligação com ele, apenas e puramente como amigo, independentemente de posição e de dinheiro e de tudo mais. O que precisa falar, fala direto.