Visão Global do Budismo Mahayana

(publicado originalmente na Flor do Vazio #7)

Instituto Procurar-se em 23 de março 1998 – Belo Horizonte, Minas Gerais

Boa Noite.

Primeiramente eu gostaria de agradecer a presença de todos, porque graças à organização do Instituto Procurar-se, conseguimos levantar este segundo Mosteiro Zen, Serra do Trovão, Lavras Novas – MG.

No último momento antes da saída de Paris, ouvi dizer que o Brasil estava passando por dificuldades econômicas, assim desistimos do primeiro projeto, que era o de levantar aquela casa pré-fabricada desmontada, levando de Ouro Preto para Lavras Novas. Mas, repentinamente com todas as ajudas, vamos conseguir o objetivo até o final de abril. Infelizmente eu não posso ficar até vê-lo pronto, em pé. No final, com o cálculo do orçamento acredito que poderemos levantar. No ano que vem voltarei de novo, inclusive entrando no Angô, um período de treinamento tradicional de 90 dias intensivos, e eu gostaria de ficar lá direto um mês todo.

Hoje o tema é introdução ao Budismo Mahayana, à filosofia do Budismo Mahayana. Este tema é um pouco acadêmico, não sei se as pessoas já ouviram esta palavra Mahayana. Talvez seja preciso explicar.

Mahayana significa Grande Veículo, em contraste com o Hinayana, que seria o Pequeno Veículo. O Budismo começou na Índia, mais ou menos em 600 A.C. Depois de 100 anos aproximadamente se dividiu em linhas, seitas diferentes. Dezesseis seitas, algo assim, e eles começaram a pesquisar aqueles sermões do Buda, principalmente na interpretação de preceitos, e com isto se subdividiram ainda mais em várias linhas. O que lhes preocupava compreender era o que Buda falou e através disto se tornarem Arhats.

Existem quatro estados de iluminação, mas o mais elevado é o Arhat. Já é quase como iluminado. Este Arhat busca esta prática da iluminação para si mesmo. Acontece que as pessoas estudavam no mosteiro, na montanha, se compararmos com filosofia ocidental seriam os eruditos daquela época, só dedicados para estudar profundamente, interpretando os Sutras, pesquisando e dividindo cada vez mais. Este estudo se chama Abidharma . Dharma é Sutra, Abi é contra. Estudando o Dharma desta maneira ficou muito formal, muito sistemático, muito especializado e perdeu o contato com as outras pessoas, as pessoas mundanas. Só eles ficavam quietos no mosteiro, no fundo, é só livro, livro e livro. Mais tarde, na época do Rei Kanishika, mais ou menos no século I, aconteceu este movimento Mahayanista. Mahayanistas, com aquela filosofia da idéia do Bodhisattva.

Bodhisattva tem muitos significados, mas o que se entende hoje em dia por Bodhisattva é o ser que, antes de salvar a si mesmo, quer salvar os outros. Originalmente esta palavra Bodhisattva, Mahasattva, queria dizer uma grande figura, que desejava salvar os outros. O Buda ganhou iluminação e se tornou Buda. Aí surgiu esta idéia de que ele se tornou Buda nesta vida, mas talvez nas suas vidas passadas já fazia certos treinamentos, práticas, senão como poderia se tornar Buda nesta? Com isto iam começando a inventar do passado para o presente, do presente para o futuro, numa maneira como criação da mitologia, no mesmo sentido, e assim criaram-se as Jatacas , que é um grupo de Sutras. Jatacas são fábulas, são muitas histórias e estudos sobre animais, veados, coelhos, leões, se sacrificando ou fazendo carinho, generosidade para com os outros, às vezes sacrificando sua própria vida para salvar os outros. Tem muitas pequenas histórias para crianças. Em todo caso no final destas estórias conta-se que este leão era o Bodhisattva Gautama Sidarta, hoje Buda.

Tem esta idéia de que fazendo este tipo de treinamento, esta prática para os demais, se pode tornar num Buda. Primeiramente esta idéia da palavra Bodhisattva significava isto, especificamente para Gautama Sidarta, o passado do Gautama Sidarta, antes de se tornar Buda se chamava Bodhisattva. Mas esta palavra Bodhisattva, quando entrou no Mahayana, ampliou mais o sentido, porque Buda se tornou Buda porque viu o Dharma. Então, o importante não é Buda, é este Dharma, porque é deste Dharma que se faz o Buda. Como o Buda dizia, vocês podem não me respeitar, com a minha aparência, meu ensinamento, mas vocês precisam experimentar minhas palavras praticando, e com isto constatarem os resultados. Quer dizer, experimentando ouro dentro de fogo, você vai entender. Não é me respeitando, porque este ensinamento é o Dharma. Portanto, quando esta linha chega até o Zen, a Escola Soto Zen principalmente consiste em somente sentar, porque sentando dessa maneira você entra dentro de samadhi e terá a mesma experiência religiosa original, transcendental. Então não fala muito do que vai acontecer, ou estas coisas, mas só senta, e com este método como portão de entrada, você consegue penetrar dentro deste mundo do Dharma. Com isto, a gente faz a prática de meditação, aliás esta prática de meditação, com a sabedoria e os preceitos, são as três coisas fundamentais para o Budismo.

Eu vou falar um pouco da filosofia Mahayana, mas esta filosofia não é somente filosofia como pensamos, um exercício intelectual, vem sempre junto com a prática naturalmente.

Não sei, hoje em dia não se sabe como surgiram esses Sutras Mahayanistas. Sutra geralmente é o sermão que o Buda pregou. Hoje em dia todo mundo sabe que os Sutras Mahayanistas não são falados pelo Buda, Gautama Buda, o Buda histórico. Surgiram em algum momento, em algum lugar, não sei como; mais ou menos tenho idéias de como surgiram.

Talvez começaram com um grupo de leigos. Peregrinavam, visitavam, aquela torre, stupa , pagode, onde guardavam ossos póstumos do Buda, nós chamamos de sharira , cabelos e unhas de Buda. Respeitando isto, fazendo peregrinações, chegando até lá, fazendo oferendas. Naturalmente muitas pessoas morando lá, como aqui no Brasil tem certos santos, Santana, Nossa Senhora da Aparecida. As pessoas vão, e naturalmente aparece alguém que começa a explicar o que é isto, como foi a história, quem foi Buda, etc. etc. Talvez dentro deste grupo apareceram especialistas dedicando a vida para este tipo de ensinamentos. Não só monges e com isto surgiu a idéia de que o Buda respeita a reza, que é muito importante, que depois desta vida você renascerá no paraíso, sei lá. Mas na verdade é preciso praticar o Dharma, não é só escutar. Escutar o Dharma, ponderá-lo, praticá-lo e ainda realizá-lo e depois esquecê-lo, este é o Caminho. Não precisa fazer veneração para Buda, mas para este Sutra de Prajnaparamita, Sabedoria Suprema, Sutra de Paramita, falando sobre visão Sunya, vazio, tudo é vazio. Esta idéia de vazio também é vazia, não tem nenhuma coisa fixa, com substância. Sobre estas coisas, Gautama Buda, Buda Shakyamuni, mantinha silêncio, se depois da vida tem outra vida ou não, ele não respondia. Mas depois do Séc. I, II, apareceu uma grande figura chamada Bodhisattva Nagarjuna. Ele é considerado o fundador de oito escolas budistas, tanto Tibetano quanto Zen. É um dos patriarcas da Escola Zen, todo dia pela manhã nós recitamos o nome dele, Nagarjuna Daiosho, grande reverendo. Ele começou a pregar esta filosofia de Sunya. Interpretando este Sutra Mahayana, Mahaprajnaparamita Sutra. Tem um grupo grande de Sutras de Prajna, visão da suprema sabedoria, como Sutra do Coração, Sutra do Diamante, muito famoso e outros, muitos e muitos Sunyas dentro do grupo de Sutras, Suprema Sabedoria. Nagarjuna começou a interpretar este Sutra. Hoje em dia, em Paris, estamos lendo um dos livros de Nagarjuna, em francês, Etiènne la Motte, grande professor de Lübech na Bélgica. Agora me parece muito engraçado, vocês pensam que nós estamos aprendendo budismo através do japonês ou tibetano, coreano, orientais, Birmânia, Tailândia, Ceilão, não, estamos aprendendo budismo através de ocidentais, Inglês, Francês, Alemão, Holandês, etc. porque de certo modo hoje em dia, saindo um pouco do assunto, o budismo japonês está dividido em seitas, escolas diferentes, e o que é mais importante ali é que tem aprender o que era a vida de fundador de sua própria escola, não tem nada a ver com Buda, este desapareceu, o fundador da escola é o mais importante, então Buda e aquelas histórias, os Sutras, praticamente desapareceram, o que o fundador falou é o que fica muito importante, depois vem o Budismo, mas isto é secundário. Primeiro aprende teorias da própria escola, depois outra coisa, budismo em geral, aí fica assim. Então estamos aprendendo budismo original através de leitura de ocidentais, através do Francês, Alemão e Inglês.

Bom, então mestre Nagarjuna está falando de filosofia de Sunya , isto se chama Madyamika, escola Madyamika. Madyamika seria o caminho do meio. Não é isto nem aquilo. Nem isto nem não isto e nem aquilo. Colocando aquela lógica hindu, como grego, não chega a alterar aquilo, mesmo negando mil vezes, cem mil vezes, não afeta o que é isto. Como se fossem cem cegos tocando num elefante, quem tocou a barriga, quem tocou o rabo, quem tocou as pernas, o nariz ou as orelhas, cada um tem uma experiência diferente: O que é o elefante? Cada um comenta totalmente diferente, dependendo da parte que tocou. Os cegos não sabem o que é uma garça, aquela garça branca, então outra pessoa explica carinhosamente para o cego o que é a garça. “A garça é um pássaro”. “O que é um pássaro?” “O pássaro voa”. Explica o que é voar. O que é a garça? “Ela é branca”. “O que é o branco?” “Branco é como leite, entendeu?” “Entendi.” Então o que é garça? “É leite”. Através das palavras tem certos limites para explicar, por isto Buda mantinha silêncio. Mas corajosamente Nagarjuna começou a explicar isto. Isto é a escola Madyamika, a escola do Caminho do Meio. Para aprender o que é Sunya, suprema sabedoria, então aprende este Sutra. Mas a Escola Madyamika não é uma escola como hoje em dia, a escola Soto, a escola Rinzai ou a escola Terra Pura, Tendai, Shingon, não é. Escola é como matérias de Universidade, então para aprender matemática você vai àquele departamento, depois filosofia, ou psicologia, ou anatomia, ou física. Cada um para completar suas próprias matérias ou pontos tem que visitar os professores. E assim cada templo tinha uma especialidade destes estudos, um monge podia visitar livremente o que queria, escolhendo a matéria e se especializava. Estudando, estudando, acabava entendendo de certo modo todas as idéias básicas do budismo Mahayana. Este é o sentido de escola na Índia, na China. Hoje em dia ficou muito egocêntrico, uma escola, parecendo um sectarismo, seita, isto não tem nada a ver com o que era originalmente.

Depois do Madyamika, passando o tempo, séc. III, IV, apareceram outras grandes figuras, Asanga e Vasubandhu. Começaram a falar de um outro ponto de vista, hoje em dia considerado como psicologia do subconsciente ou inconsciente, já nos séculos III, IV, Asanga e Vasubandhu falavam disto. Para estudar isto leva mais ou menos oito anos, depois se estuda três anos de Abidharma kosha. Todos estes materiais são hoje em dia encontrados em Francês, Inglês, talvez. No Abidharma kosha se procura saber o que acontece dentro de nossa mente, explicando o inconsciente, de onde vem esta idéia de ego ou dualidade, da separação causada pelo ego, você e eu, mundo e natureza. Os japoneses chamam a este estudo de Yuishiki, a tradução seria “só consciência”, este mundo é só consciência, não existe coisa material, tudo mudando, só consciência. O que você vê, existe ou não? Antes de você vir aqui e vê-lo isto já existia, uma semana antes também já existia isto, não? Mas então isto existe na sua consciência, não no mundo. Para entender isto, tem que mergulhar muito também com prática de meditação, por isto esta escola se chamava Yogachara. Yogachara é a prática de meditação, ioga. Yogachara Vijnana Matra. Quer dizer, só consciência. Esta é uma outra escola Mahayanista. Em Nara, tem aquele templo do Buda da Medicina, tradicionalmente eles ensinam esta filosofia neste templo, é a especialidade desta escola, transmitem organizando cursos periodicamente, todo mundo hoje em dia pode visitar, mesmo leigos, para freqüentar os cursos. Mas de maneira bem tradicional, muito bonito. Isto também, é outra filosofia.

Estava falando do grupo de Sutras do Prajnaparamita, suprema sabedoria. Tem um outro grupo de Sutras chamado Kegon, em sânscrito se chama Avatansaka Sutra – a tradução seria Sutra das Flores Ornamentais. Estas flores são decorações ornamentais. Este mundo está ornamentado de flores, não importa que tipo de flores, como orquídeas ou crisântemos, flores grandes, luxuosas, raras, não necessáriamenteé? Qualquer flor, qualquer planta dá flor na primavera, mesmo ninguém vendo, no fundo da montanha, no fundo do vale, assim cada um de nós, não importa se você é inteligente ou rico, não importa, você dá flor. E com isto, decoramos este mundo, isto é visão global Kegon – Flores Ornamentais. Na verdade, este Sutra está falando do estado de satori do Buda. Logo depois de ganhar a iluminação o Buda estava apreciando, como falei na semana passada, aquele estado de satori , samadhi de outono e este estado é Kegon, como samadhi de Sagara , ou seja, do oceano, está totalmente parado, calmo e aí refletindo os fenômenos, todos os fenômenos deste mundo, e assim o Buda falou o Sutra de Vairochana, sobre o Dharmakaya, o corpo de Buda cósmico, não é o Buda histórico, Gautama Buda. Apareceram outros tipos de Budas que representam o Dharma, não é físico, já é cósmico, Dharmakaya. Vairochana representa a luz, como um grande sol, mas ele não fala, apenas senta calmamente. E outros Bodhisattvas recebendo esta energia começaram a falar o que é este estado. Tem sessenta capítulos, noutra tradução tem oitenta capítulos, um grande drama, espetacular. Mas principalmente dois capítulos são importantes. Como se pode entrar dentro do mundo do Dharma. Aí aparece um rapaz, começando a visitar 52 mestres, 53 na verdade, mas dois são a mesma pessoa, o Bodhisattva Monju, no começo e no final, portanto 52, ele começou a peregrinar, visitar 52 mestres. Agora, é muito interessante, entre os 52 mestres vocês pensam que um está no Japão, no Tibete, sei lá, grandes mestres, não. O que ele encontra é nada mais nada menos que vocês mesmos. Aparece mulher, criança, médico às vezes, até mendigo, mulheres que tem aquela profissão muito especial, dá para imaginar? Esta profissão, a mais antiga da história do ser humano. Eles são mestres, vocês aprendem com este tipo de pessoa e monges talvez apareçam somente em dois ou três casos, quer dizer, na realidade este Sutra está falando da vida quotidiana, o que você encontra com outros, com aquele choque, conflito, disputa, briga, luta, quem sabe? Esta pessoa é o seu mestre. A visão deste Sutra é assim. Avatamsaka Sutra. Então este Sutra fala do samadhi de sagara , quer dizer, do oceano, mar, e na semana passada eu falei um pouquinho daquela rede de Indra, não foi? Do Deus Indra, cujo palácio está coberto com aquela rede, e em todas os cruzamentos desta rede existem cristais, em todos os cruzamentos. Estes cristais se refletem uns nos outros como espelhos, nos quatro pontos cardeais e dentre todos estes, um é o centro de todos e ao mesmo tempo reflete todos os outros. Este um, é exatamente você. Você reflete seu vizinho, na frente e atrás, não somente Belo Horizonte, Rio, São Paulo, talvez sua família que mora em um lugar diferente, até no exterior, e assim tem relação refletindo, refletindo, um ao outro, infinitamente, cada um é o centro do universo, não tem conflito com o outro. Dá para imaginar, é maravilhoso. Porque isto é a símile para o estado de satori , por isto é tão bonito, mas hoje em dia de certo modo, a Escola Kegon não existe mais, não existe, porque isto tudo é tão maravilhoso, não é preciso fazer aquele sacrifício, treinamento duro, sofrendo, tudo já está feito, realizado! Por isso vem o outro lado, que é a Escola Terra Pura, que percebe aquela sujeira, lama, dores, confusões, estas coisas, isto é o que vem em seguida. Mas primeiramente vem este tipo de filosofia, de visão maravilhosa. Este samadhi tem dez tipos de características, um dos dez é: quando um aparece, o outro desaparece. Isto quer dizer, que no fundo do nosso dia a dia tem algo essencial, a gente pensa isto, teoria ou prática, ou teoria e aparência. Então quando um aparece, o outro desaparece, quando outro aparece, o primeiro desaparece. Isto acontece. Como acontece? Este Sutra explica o exemplo do ouro, uma imagem de leão feita de ouro. O que é isto? Leão! Isto não é um leão-isto como se chama? Se esta lâmpada aqui fosse fabricada de ouro, o que seria? Lâmpada? Não é, isto não é lâmpada, isto é ouro. Está vendo, quando você vê do ponto de vista do ouro, isto é ouro, nada de lâmpada. Então o que é isto?

Existem outros Sutras dentro do movimento Mahayana. Como exemplo tomemos o Vimalakirti Nirdesa Sutra. Vimalakirti é um hindu, não é monge, é leigo. Ele é uma figura muito engraçada, porque encontra com os dez grandes discípulos do Buda, cada um com sua especialidade. Especialidade de meditação, especialidade de entender o que é o vazio. O que é aquele treinamento especial de pobreza. Outro tem especialidade de visão, do céu, de forças sobrenaturais, etc. etc. etc. Mas quando Vimalakirti encontra com eles, derrota todos os discípulos. “O que é meditação?” “Não é nada disso, porém meditação é assim…” E começa a explicar ponto de vista Mahayanista. Um dia ele ficou doente, então Buda disse aos seus discípulos especialistas: “Você pode ir visitar ele?” “Eu não posso porque eu perdi o debate com ele.” Todo mundo perdeu, quem não está ainda perdido? O Bodhisattva Manjusri, da sabedoria, ainda não está. Em seguida ele, montado num leão, visita a casa de Vimalakirti. E todo mundo quer ver essa conversa. Filas e filas de pessoas entram na casa do leigo. Aí ele está deitado num quarto de quatro tatames e meio, isso quer dizer dois metros e setenta. Dois metros e setenta, e ele está ali, deitado. Aí os Bodhisattvas entram, e mais de cem pessoas entram também dentro desse espaço e ainda sobrou espaço, como pode ser? Nesse mundo de Dharma pode acontecer algo assim. Hoje em dia na escola Zen onde o abade mora dentro do mosteiro, este espaço se chama hojô , exatamente 2,70m X 2,70m, e aí ele aceita entrevistas de discípulos, muitas perguntas, respostas. Vimalakirti estava voltando do mosteiro, de uma visita ao Buda, terminou a conversa e estava retornando para a cidade, aí vinha um dos discípulos voltando da cidade, da mendicância, voltando para a floresta, para o mosteiro. Encontrou com ele. “Onde está indo, Vimalakirti?” “Estou indo para o mosteiro.” “Hei! O mosteiro é na outra direção! Da direção de onde você está vindo. Aqui é a cidade.” “Pois é. Para mim o mosteiro é na cidade, onde eu trabalho, oficina, escritório, escola, fábrica, clínica, não sei onde.” Onde você trabalha dia a dia isso é o mosteiro. Este ponto de vista também está ligado com o Zen, entrando no mosteiro, saindo do mosteiro, passarinho voando no espaço não deixando marca, isso é o mosteiro. Todo o universo é o mosteiro, o treinamento pode ser levado à cabo em qualquer lugar. Indo, indo, indo como pássaro e todo lugar é mosteiro, é o universo inteiro. Isso vira mosteiro para nós. Mesmo assim, durante algum tempo, claro, tem que estar no mosteiro aprendendo o fundamental. Aquela energia que se ganha dentro do mosteiro, ou antes ou depois, com isso você segue o resto da sua vida. Por sorte se encontrar com um Mestre, com um Sutra, encontrando com o Mestre, você encontra metade de si mesmo. Se você esquece de si mesmo, você encontra perfeitamente a totalidade do Mestre. Quando encontra com a totalidade do Mestre você encontra sua própria totalidade. Esse encontro com Sutras, com alguns livros, pode mudar sua vida completamente. Com isto você resolveu, não é chegar ao ponto final da iluminação, não. Isto é o princípio, com isto eu posso seguir meu caminho sozinho, sem Mestre, pelo resto da minha vida e assim indo, indo, indo. Isso se chama samadhi de treinamento e iluminação. Também pode se chamar samadhi dos Budas e Patriarcas. E finalmente ele se tornará Buda e ao mesmo tempo Patriarca.

Aqui no Brasil tem grande espaço, tem grande oportunidade para isso, todos os brasileiros. Alguns monges estão treinando no Japão, inclusive um mineiro, José Costa, dentista, e a cara dele mudou totalmente, mas na realidade ele está morrendo de saudades de Belo Horizonte, mas ele ainda vai entrar na universidade para estudar filosofia budista. E alguns brasileiros, quem sabe, estão indo para fazer o treinamento. Minha missão era esta, mandar brasileiros para treinar lá. Mas europeus não quero mandar muitos discípulos para o Japão não, porque quando voltam eles começam a fazer competição entre si. No meu caso, graças a Deus, não tenho grandes problemas, porque apesar do budismo estar chegando muito para cá, meu trabalho, da primeira geração, ainda não é de fundação, é dentro da lama mesmo, tenho que colocar muitas pedras, muitas coisas para endurecer, depois brasileiros voltando do Japão, vão fazer a fundação, construir alguma coisa, isto em geral leva séculos e séculos. Não importa, o que se puder fazer é bom.

Outro Sutra com a visão Mahayanista é sobre uma rainha sofrendo com seu próprio filho, o príncipe, que queria matar seu pai e tirar-lhe o reino. Na prisão, rezando, a rainha escuta a voz de Buda, nesse Sutra Amithaba, o Sutra da Terra Pura. O Sutra mostra que todos nós temos a natureza de Buda. Temos a capacidade de nos tornar Buda. No fundo, no fundo tem ego, mas passando isso tem a natureza de Buda. Quer dizer, a possibilidade de se tornar Buda. Avançando mais vai aparecer outra filosofia budista que se chama Tathagata Garba, Tathagata budista é Buda. Tathagata significa Logos , seria “vem assim e vai assim”. Garba quer dizer depósito ou útero, que é o que dá esta capacidade, este Tathagata Garba explica isso, todos nós temos natureza de Buda. Como tratar isso? Tem que remover o ego. E assim muitas filosofias aparecem.

O que é o Sutra de Lótus? A filosofia do Sutra do Lótus já é outra filosofia. Sadharma pundarika Sutra. Sa quer dizer correto, maravilhoso. Dharma é Dharma, ensinamento. Pundarika é aquela flor branca do lótus que se abre dentro da lama, Sutra . Esse Sutra, aquela flor de lótus branca, pura, não se abre no planalto, só no brejo, várzea, lagoa, com muitas lamas, lama de nossas ignorâncias e que produz esta flor de lótus pura, branca, que não está contaminada. E nunca contamina. Quando coloca na água, cai. Esse Sutra tem 28 capítulos, e um brasileiro, Marcos, já traduziu para o Português. Mas este tipo de Sutra para publicar é muito difícil, financeiramente ninguém vai comprar. Ainda não chegou o momento. Quem sabe um dia? Por conta própria, publicando, descobrindo, são nossas idéias para o futuro. Mas não estamos com pressa. E é o que? Sutra do Lótus, ou o Sutra do diamante. Como um diamante corta todas as ignorâncias como aquela espada. Há perguntas?

Pergunta – “Você falou sobre os preceitos, são muitos?”

Resposta – “Originalmente existem 250 preceitos para monges e 360 para monjas. Monjas, mulheres, são mais complicadas. Isto não quer dizer que se esteja desprezando não. Eu sou médico chinês. A primeira coisa que tem que tratar é a mulher, porque tem muitos problemas mais do que o homem. Uma mulher se tornou monja, muito bem, ordenou, tal, tal, tal, tal. Aí, teve um filho. Depois de se tornar monja, nasceu um filho, porque estava grávida de seis meses. Se tornou monja, depois de três meses estava grávida, nove meses mais tarde nasceu o filho, aí não dá. Para se tornar monja tem que esperar pelo menos nove ou dez meses, desculpem. O homem não precisa disto. Portanto no caso de monjas, por estas razões especificamente, apareceram mais preceitos. Agora depende de interpretação esta questão de preceitos. Algumas seitas são mais rigorosas, outras mais relaxadas. E Buda antes de morrer, falecer, entrando no parinirvana, disse que quanto aos pequenos preceitos não é necessário se incomodar, não precisa, falou isso de verdade. Inclusive Buda, ele mesmo, não tinha nenhum preceito, e isso é muito importante. Porque depois do treinamento, ou ganhando a iluminação, você não pode mais quebrar aqueles preceitos, mesmo querendo, mesmo querendo matar não pode matar. Com a natureza de Buda realizada, não pode roubar mais. Tem que estar muito consciente de si mesmo. A gente rouba sem querer, se o outro não está vendo, não é por aí. Quem pratica não pode fazer isso. Quando chega nesse estado, o mal não existe. Esta é a interpretação dos preceitos no Zen. Se tornando uma só coisa, não se pode matar outros, porque não existem outros. É tudo si mesmo, self . Isso não é teoricamente, não. Viver neste mundo e chegando neste estado não se pode mais fazer o mal.”

Pergunta -“Com este menino no colo, eu gostaria que o senhor falasse sobre desapego.”

Resposta -“Pois é, não sei se isso é desse Sutra. Acho que é de um Sutra Tripitaka. Uma mulher perdeu a filha, menina, bebê. Ficou tão triste que não queria abandonar o corpo da criança, e com o tempo passando o corpo começou a apodrecer, mas não queria enterrar ou queimar de jeito nenhum. Aí deu um problema, então perguntou para o Buda: ‘Como se poderia reviver esta menininha?’ ‘Tem uma maneira sim.’ ‘Ah! Tem? Como?’ ‘Você visita todas as famílias que encontrar e traga aqui uma semente de mostarda com um pedaço de carvão de cada família que encontrar onde ninguém morreu.’ ‘Ah! Sim! É fácil, então vou.’ Ela foi indo e perguntando. ‘Ah! Sim mostarda? Pode levar? Mas aqui até agora ninguém morreu?’ ‘Como ninguém morreu? Meu vovô já morreu! Mãe, pai já morreram no ano passado, com 74 anos.’ ‘Ah! Então não dá.’ E começou visitando um por um, um por um, mas não encontrou nem uma família, nenhuma casa onde ninguém tivesse morrido. Aí passando, passando, passando. Estava triste, mas quando chegou o final deste dia ela entendeu. Entendeu e voltou para o Buda. ‘Você achou a semente de mostarda?’ ‘Não, mas não precisa mais.’ Quem sabe se ela tornou monja depois, não sei se é a mesma pessoa, às vezes é diferente. Desapego ela aprendeu.”

Pergunta -“Tokuda, pode falar sobre o que é o Dharma? Eu não entendi bem o que seja, é uma palavra que o mestre fala?”

Resposta -“Dharma hoje em dia tem muitos significados diferentes. Dependendo do Sutra, é usado de diferentes maneiras. Dharma na verdade é aquela idéia do universo, da primeira vez que o Buda viu a verdade. Mas isso não é uma substância, como Deus ou algo assim. Isso é, como podemos dizer, como a pura vida de Buda, mas não é parada, é dinâmica. Ele move e cresce, amadurece, dentro de nós. Neste momento o Dharma se manifesta através do corpo e mente, de nós próprios, isso é a iluminação. Não é nós buscarmos ganhar, repentinamente, como eu expliquei nesse retiro de Lavras Novas. Havia um grande mestre Zen, sofrendo, ‘Nesta vida não dá para ganhar a iluminação’. Mas entrou na ruína de um templo e varrendo o jardim, um pedaço de pedra bateu no bambu. Aquele som caiu como um raio em cima dele (tchaaaaa), é assim. O que está perguntando? Ah! Dharma, a lei do universo, verdade, verdade do universo, isso é Dharma, o que Buda percebeu. Depois ele falou sobre isso. Isso é Dharma, ensinamento. Esclarecimento é Dharma. Agora, todos os fenômenos deste mundo também são Dharma. Porque esse fenômeno apareceu aqui com certas razões de elementos, condições, causas. Mas isso não quer dizer que tem certas coisas como sementes, substâncias, materiais e com isso cria outra coisa. Não é nesse sentido. Isso é fenomenologia. Fenomenologia, a palavra é a mesma coisa, mas isso é diferente, isso é a visão do vazio. Portanto esse movimento, isso é como logos . Isso é Dharma, então tem muitos diferentes significados, usado noutras ocasiões. Por favor não precisa timidez, qualquer assunto, não só sobre esta palestra, mas aproveitando qualquer outras perguntas vocês tenham, dúvidas, podem perguntar, estamos aqui só para isso. Até dez horas tem mais vinte minutos.”

Pergunta -“Tem um psicólogo, eu não gostaria de citar o nome dele, de São Paulo, ele é bem conhecido, e eu já vi ele citando uma ou duas vezes que o Tokuda teria dito que para mulher se reencarnar como espírito, ela teria que voltar como homem. Isso tem algum fundamento? De onde pode ter surgido isso? Você ainda há pouco, citou o caso de uma mulher que se iluminou.”

Resposta -“Isso eu acho que é um costume da Índia, mulher, homem, considerando sua casta. Isso é, a Índia não resolveu essa diferença de castas. Para nós é absurdo, mas lá, se resolver isso dá grande confusão, me parece. Então o mesmo ensinamento de Buda, não está ciente disso de certo modo sabe? Naquela época, principalmente. Hoje em dia entre os árabes, as mulheres ainda não mostram seus rostos em certas ocasiões, a não ser para o marido. Isso nós não entendemos. Mas quem vive dentro deste mundo, é assim. Mas este tipo de pergunta, quando entra dentro do Zen, muda totalmente. Porque a mulher tem muitos problemas, mais do que os homem, na próxima vez que eu vier para este mundo, se tiver outra vida, eu gostaria de vir como uma Bikuni (monja). Porque o homem ou a mulher são assim? O mestre perguntou: ‘Desde quando você é mulher?’ Simplesmente isso. Então você pode responder. Se responder, problema de mulher desaparece. Desde quando você é homem? Isso chama samadhi de não-forma. Não-forma.”

Pergunta -“Mestre, eles disseram que quando a gente chega perto de um mestre, a gente tem direito de fazer um pedido.”

Resposta -“Ah, é? Eu não sou mestre.”

Pergunta – “Mas desde que as pessoas te chamam mestre…”

Resposta -“Candidato para mestre.”

Pergunta -“Eu queria te fazer um pedido: Qual o modo mais rápido que tem de ajudar essa flor?”

Resposta -“Essa o quê?”

Pergunta -“Essa flor desabrochar…”

Resposta -“Tem três maneiras, três tipos de flores. Primeira flor, flor da natureza, com dezesseis anos ou quinze anos, sei lá, aparece. Aqui no Brasil se começa a namorar muito cedo. Aí a flor da natureza brota. O rapaz simpatizando, namorando, com a moça, mas esta flor não vai durar muito. Com certa idade aparece o segundo tipo de flor, vivendo neste mundo, nalgum momento você tem sorte, momento de sorte. Mesmo errando, mesmo enganado. Mas isso vira para o bem, vira positivo. Então você pensa: ‘Ah! Eu tenho sorte. Ou eu sou assim, eu sou bom.’ Isso ainda não é verdadeira flor. Depois fica orgulhoso, às vezes difícil de recuperar. Por exemplo, tem novela, cada ano tem novelas diferentes, não posso esperar pela próxima para vê-la, aparece um grande sucesso. Aí terminando isso, aparece um outro papel. Então essa pessoa vive aquele sonho. Já não é mais a realidade, mas não pode descer mais. Está tão bom mas já não é mais. Sofrendo até aceitar isso. Sai as coisas negativas, ainda impossível. Mas isso negativo vira tudo positivo quando tem sorte. Até atrasou, foi sorte. Tudo assim. Este é o segundo. Agora no terceiro caso, está realmente sofrendo. Principalmente começando a entender o que é a vida. Não há uma maneira real para alcançar isso. É o dia-a-dia. Então, de certo modo, aparece terceira flor de verdade para sempre. Através de sua profissão, música, teatro, qualquer coisa, artes marciais, pode chegar. E naturalmente quando primavera chega, flores abrem. Sem falar, mesmo as flores não sabem, a borboleta vem. Portanto quanto mais demora essa primavera a chegar é melhor. Às vezes demora dez anos, é dureza. Não abre flor. Quanto mais demorar a chegar, melhor. Com minha experiência, eu posso dizer, com certeza. Não é resolver logo rápido. Não é por aí não. Uma verdadeira flor não é dessa forma, não tente, não tente.”

Pergunta -“É, eu tenho escutado falar… tem esses preceitos. Tem esse tipo de escolha da pessoa, de escolher a que se prender, então tá relacionado com a escolha que vem do coração. E eu tenho encontrado certa dificuldade em poder perceber essa escolha com o coração. Então, eu gostaria que o senhor falasse um pouco a respeito.”

Resposta -“Bom, esse encontro quase já é como destino. Encontrar um livro, ou encontrar uma pessoa, muda sua vida totalmente, 180 graus, ninguém pode calcular, como se você fosse escolhido por Deus, seu lugar é aqui, não é aqui. Agora você falou indo até o fim, mas o fim não existe. Se a linha é reta, sempre tem começo e fim, certo? Passado presente e futuro. Começou treinamento, ganhou iluminação, pronto. Mas principalmente dentro de nossa Escola Soto-esse ciclo é redondo como nos fala a psicologia gestaltista , agora presente, andando, andando, andando, olhando para trás o presente é passado. E girando mais, o passado é futuro. Portanto, no meio do caminho já está resolvido. Falta para você terminar, mas chegando ao fim não pare. Entende essa expressão? Isso chama samadhi de treinamento e iluminação. Dentro de treinamento, já existe iluminação. E chegando a iluminação existe treinamento. Por isso o Buda não parou de treinar, não parou de praticar. A expressão Zen para tal é: ‘Perturbado com o Dharma’. Perturbado geralmente se usa de uma maneira negativa. Mas quanto mais perturbado pelo Dharma estiver, melhor é. Quando você faz, o ego está presente, mais forte. Quando você é fraco é melhor. Então nesse caso, o Dharma perturba. É melhor. Esse tipo de experiência é um pouco engraçada.”

Pergunta -“Monge, quais são as maiores dificuldades para essa flor desabrochar e quais são os melhores nutrientes para ela crescer forte?”

Resposta -“Em primeiro lugar, o apego. E a ignorância, quer dizer, não tem a visão para o correto. Para encontrar isso, quando você tem certas dificuldades, como semana passada falei: Buda fala o sermão dentro das chamas. Essas chamas são dificuldades, sofrimentos, durezas. Dentro desse problema, dentro desse sofrimento, Buda na verdade está presente, falando Dharma, sermão. Se você tem visão, dentro de problemas do dia-a-dia você vai encontrar Buda, Dharma. Portanto o sofrimento é o animal mais veloz, rápido para chegar a encontrar Buda, Deus. Nós nascemos neste mundo, os budistas o chamam de terra da paciência. Dentro deste mundo quais são as cinco coisas mais importantes? A primeira coisa é a paciência. A segunda: paciência, terceiro paciência e quarto, não tem; e quinto é a paciência.”

Pergunta -“Monge, você fala de presente, que Buda, a iluminação é um presente, você fala da criação, você fala de Deus, como é isso no Budismo? Existe um Deus que criou, que deu de presente para a gente a iluminação, o que deu de presente ? O mundo?”

Resposta- “Como você interpreta Deus? Depende disto. Onde está Deus? Talvez todos os brasileiros achem o seu próprio. Quando um brasileiro está do outro lado, no Japão, isso dá problema. Ele parece Hindu. Onde está Deus? Então ele responde: aqui. Isso é interessante. Japonês: é aqui também. Então o que é Deus? Para isso você tem que abrir a Summa Teologica , de São Tomás de Aquino. Então ele definiu o que é Deus. Mas afinal de contas, ele queimou todo esse livro. Quando ele viu que sem aquela experiência, isto tudo não vale nada. O que ele viu? Ele não falou. Que pena. Agora existe a teoria da Trindade. Então pergunte para o padre: o que é a Trindade? Schhhhh…..( silêncio!) Isso é segredo. Ele não é a trindade. Hoje em dia existe um intercâmbio entre outras religiões ou diálogo intereligioso. Um padre católico escreveu um livro que se chama o arco-íris da religião. Então arco-íris do ocidente passando todo oceano, chegou até o oriente, oriente-ocidente, ocidente encontrou oriente, hoje em dia fisicamente tanto quanto de todas as outras maneiras. O ocidente está no oriente, o oriente está no ocidente. Este fundador-doador de Lavras Novas, professor de física de Minas Gerais, Fernando, foi o primeiro presidente de nossa associação Zen e o segundo foi Elisa, eles dois, e teve um grande congresso internacional de física, aí veio um japonês, figura muito importante dentro desse campo, física, e eles perguntaram, ‘O que acha do Zen?’ Perguntou para o japonês. ‘Zen? O que é isso?’ O japonês não sabia responder, nem sabia o que é Zen. Isto é o oriente está no ocidente e o ocidente está no oriente, já. Este próximo século será muito interessante. Isto é… o que estava falando antes? Ah! Deus! Quando se lê um livro de místicos cristãos, tanto como Meister Eckhart, São João da Cruz, São Francisco de Assis, tem outros muitos, muitos místicos, um Budista sente que lendo livro de cristianismo, apesar de língua diferente, religião diferente, país diferente, época diferente, mas aquela essência da experiência própria é a mesma, portanto a expressão é a mesma. Dentro do Islamismo, tem os Sufis, também a experiência mística Islâmica. Eles falam quase a mesma coisa. Olha isso é muito importante para nós, no fundo, no fundo, tem aquela experiência original religiosa, transcendental, isso é o Dharma, com outro nome também. Agora quando essa pessoa tem experiência e começa a expressar verbalmente, fala usando língua dessa religião, ou país, filosofia, então Deus aparece, Dharma, Buda, mas essa experiência mesma, eu posso dizer, é a mesma coisa. Então chamando de Deus, chamando de Buda, Tathagata, Dharma, Natureza de Buda, é a mesma coisa, Meister Eckhart coloca além da trindade (Gotheit), Gotheit é algo assim como a origem da trindade. Isso não tem mais personalidade, como Pai, Filho, Espírito Santo. Isso já é como Dharma, o Dharmakaya, algo cósmico, algo de pura vida, de movimento, que produz a criação, mas criação não é fixa, mudando, portanto esse Deus ou Dharma está trabalhando constantemente, de fato até agora Deus está a criar o mundo. Antes seis mil anos, depois seis mil anos, mas esses seis mil anos estão dentro deste momento absoluto. Isso é experiência mística cristã, e ao mesmo tempo do Zen. Por isso chama aqui, agora. Assim podemos entender Deus, se fosse possível. Ah! Não sei se padre católico aceitaria essa teoria.”

Pergunta -“Eu queria que você comentasse duas coisas, esse momento de dificuldade de estar aqui, que eu acho que maior ou menor intensidade todos passam, e a maior prova é só ver a quantidade de seitas e religiões em todo o planeta, é um volume muito grande e o caso da doença que fica esse conflito muito grande…”

Resposta -“É, exatamente a origem do budismo começa por aí. Apesar de Gautama Buda ter nascido como príncipe, tinha todas as coisas materiais que se poderia esperar, o que outros não tinham, casas para verão, primavera, inverno, palácio. Por que então foi embora? Exatamente porque encontrou o sofrimento. Ele tinha essa riqueza, ele tinha beleza, juventude, saúde, tinha tudo, tudo. Mas, encontrou um velho, um doente, um funeral, morte dentro de sua saúde, dentro da juventude, dentro da vida, encontrou morte, doença, envelhecimento. E ademais, próprio dessa vida, como você colocou, é o sofrimento. Quando você tem saúde, tem energia, tem desejos, isso é causa de doenças, causa de sofrimento, então finalmente vida é sofrimento. Como pode resolver esse sofrimento? Isto é o grande koan do Buda, começou por aí, ele buscou o caminho, abandonando, rei, palácio, esposa, filho, tudo o mais. Aí descobriu a resposta, isso é budismo, então este mundo é impermanente, isso é a causa do sofrimento.”

Pergunta -“Impermanente…”

Resposta -“Impermanente. E ele procurou o porquê disso, por que isso, por que isso? E finalmente encontrou que a ignorância é a causa do sofrimento, quando vê esse Dharma vazio tudo é assim, então ele transcende isso. Mas no catolicismo, principalmente Mestre Eckhart, especialidade isso eu posso dizer, ele também soube disto, como você exatamente colocou. Por que isso? Todo mundo fala: Se Deus quiser. Então isto está bom: Deus quer isto, não? Mas se Deus quisesse de outra maneira seria melhor. Em vez de doente, poderia ser pouco doente, não mortal, ou recuperável. Então não terminal, regressão é melhor. Mas isso é sua vontade, não é vontade de Deus. Então você reza para Deus: por favor faz isso. Às vezes responde, naquele momento. Ah! Que bom. Às vezes não responde. Deus não responde. O que faz? Não respondeu. Essa é a resposta de Deus. Quando chegar a união com Deus, até esse momento, este ponto de aceitar que isso é vontade de Deus. Quando se está sofrendo, se não tiver esse tipo de sofrimento para mim é melhor. Mas é difícil isso. Então, mesmo o sofrimento, se eu tiver força para agüentar isso, é melhor. Isso é como se fosse uma balança, tem um peso aqui e tem outro peso ali, e não mexe. Equilibrado. Isso é força, é bom. Parece que não está colocando peso, mas está. Mas você agüenta. Se você aceitar, Deus está com você. Então em vez de você carregar trinta quilos, até sessenta quilos, até então, você não sente, nada, porque Deus está carregando por você. Dá para perceber isso? Às vezes, por conta disso, não é você que está carregando não. Deus começa a carregar junto com você, então muito melhor. E muito mais peso, melhor. Você começa aceitar aquela imaginação, está junto com Deus. Dentro da prisão, de um campo de concentração, sua imaginação voa o mundo inteiro, universo inteiro junto com Deus, vendo aquele paraíso junto com anjos, arcanjos, sofrimento não alcança eles.”

Pergunta- “Tokuda, eu gostaria que você falasse um pouco do livro tibetano dos mortos, as três fases?”

Resposta -“Bom, eu não sou especialista de budismo tibetano, existe um livro da morte, o Bardo Todol. Existe o livro dos mortos egípcio, mas isso não é minha especialidade, portanto não posso responder. Mas de qualquer maneira, isso é preparação para morte, principalmente pessoas com doenças fatais. Na verdade, nós somos todos condenados para a morte, apenas não sabemos quando e portanto acho que esse livro é importante, então deve ter livro sobre isso e interpretação sobre isso. A primeira coisa tem que procurar é isso. Agora dentro de Shobogenzo de Mestre Dogen, tem um capítulo que chama Dôshin , mente do caminho, mente da iluminação, ou mente Bodhi, fala um pouquinho sobre isso. A questão é o número sete. Os católicos também tem missa de sétimo dia. Agora não sei o significado original disto no cristianismo. Mas no budismo também tem isto. Quando budistas morrem, se faz o funeral, depois de sete dias outra cerimônia. E a cada sete dias se faz outra e outra, e outra, sete vezes sete, sete dias até 49 dias. Esse estado se chama existência do meio. Então essa vida é a existência original, certo? Então morreu, 49 dias faz a passagem, viagem até entrar noutro mundo, outro nascimento, outra existência original. E portanto a gente canta Sutra para melhorar essa pessoa, em vez de entrar em algum mundo inferior, para entrar nalgum lugar mais elevado. Para ajudar isso cantamos Sutras. Entendendo Sutra de prajna , visão do vazio. Mas Monge que faz funeral tem que entender, senão perdendo o espírito, não sabe mais para onde vai o morto. Em certo momento, o monge Zen faz indô. Indô é a ida desse espírito da morte para aquele mundo de Buda correto. KAH! Gritando dessa maneira, família estava chorando: ai, ai, ai… KAAAH!( grito) Aí sente tranqüilo. Se o monge tiver força verdadeira, compreensão verdadeira, naquele momento os espíritos perdidos entram no mundo correto. Então porque esse sete? Me parece, eu não sei, talvez alguma anatomia pode explicar isso direito, me parece que seja filosofia hindu, quando a gente fica grávida, me parece que de 7 em 7 dias o corpo do bebê muda totalmente. Sete vezes sete, 49 dias. Não sei se é verdade ou não, mas teoricamente fala assim. Esse sete é mudança e de repente naquela vida passada, foi peixe ou baleia, não sei. Macaco muda repetindo aquela vida que seres humanos passaram. No quinto dia quando já chegou forma de gente e começa a crescer cada vez mais cinco dedinhos, o pé, pintinho, ou não tem pintinho. Nesses sete dias ele vai mudando, mudando para entrar noutro mundo. Isso é uma teoria.”

Pergunta -“Tokuda, você falou muitas vezes da paciência. A paciência é uma disciplina do eu, não é?”

Resposta -“É. Prática de Bodhisattva, seis paramitas: Primeiro Dhana paramita, doar, não-apego, disciplina, paciência, perseverança, meditação e sabedoria. Isso tudo é interligado. A primeira coisa é o desapego, dar as coisas. Disciplina, paciência, perseverança, meditação e quietude, calma e com isto vem a sabedoria. Quando se doa, a sabedoria está dentro, quando tem paciência, os demais já estão incluídos.”