Vida após a Morte

Pergunta: No sesshin anterior, alguém lhe perguntou “Existe uma vida depois da morte? No Budismo Tibetano, se fala de reencarnação. O o que é que acontece depois da morte?” E você respondeu sobre este assunto de reencarnação: “Isto é uma ilusão.” Eu mesmo não creio na sobrevida da alma, eu estou de acordo com a sua resposta.

Resposta: É uma outra ilusão.

Pergunta: (mesma pessoa, continuando a pergunta) “Carta de Maha Muni número 10, você disse, “O encontro de um mestre com um discípulo é uma coisa de destino, e isso não diz respeito somente a esta vida mas talvez à vida passada e à vida futura.” Aparente-mente existe uma contradição.

Resposta: Para você, sim.

Pergunta: (seqüência da pergunta da mesma pessoa) Eu estou muito preocupado com esta pergunta. De fato, eu não creio em Deus, mas eu “falo” a Deus, eu creio que ele me ouve, é uma verdadeira conversa entre ele e eu. Minha mãe morreu, eu não acho que eu a encontrarei mais, ao contrário dos cristãos, para mim ela se extinguiu e ponto final. Mas eu ainda penso na minha mãe, eu tenho a impressão que ela me ouve, e aqui novamente nós temos uma verdadeira conversa. Existem pois dois graus diferentes que aparentemente são contraditórios, mas estes dois pontos de vista coexistem no meu espírito, eu creio que eles são possíveis, e isto não é um problema. Eu gostaria de saber o que você acha destes dois níveis.

Resposta: Tudo isto que você disse é muito interessante. Devo responder?

Intervenção coletiva: Sim, por favor, você deve.

Seqüência da resposta: Responder a uma tal pergunta levaria dez horas… Durante este sesshin, nós falamos de coisas fundamentais para o Budismo, a saber, a lei de causas e efeitos com circunstâncias secundárias, em uma palavra, a interdependência. Não existe uma pessoa “fixa”, eterna, absoluta. Estamos de acordo quanto a isto? Se vocês estão de acordo, a pergunta é: “O que é aquilo que reencarna?” É preciso pensar seriamente sobre este assunto. Eu disse que falar destes estados, este “fluxo de Buda”, tudo isto é mentira. Se vocês disserem: “Sim, a reencarnação existe”, isto é uma mentira, se vocês disserem, “Não, a reencarnação não existe,” isto também é uma mentira. Então o que, finalmente? Este é o segredo de Tathata, é o estado de iluminação interno realizado, somente o Buda o reconhece, isto leva tempo, mas finalmente chega.

Existem dois Budas Shakyamuni. Para nós, da escola Soto, o Buda Shakyamuni é o Buda histórico. Todas as manhãs, no mosteiro de Eitai-ji, nós lemos a última parte do “Sutra do Lotus” (Capítulo XVI) “Nyorai Juryo” sobre a vida do Tathagata eterno. Este Buda Eterno é também o Buda Shakyamuni, ele é eterno, mas ele é também o Buda Shakyamuni. Eu falo sempre sobre este assunto de “simultaneidade”. Se entramos nesta simultaneidade, então compreendemos que existem dois tipos de vida e morte.

A primeira é a nossa, aquela das pessoas comuns: Nasce-se, em algum lugar, numa dada época, podendo ser francês, japonês, belga, de um pai e mãe, e envelhece-se correspondentemente ao número de anos vividos. Nascemos e naturalmente morreremos um dia. Isto vale para todos nós.

Contudo, existe uma outra vida e morte. Uma vez que tenhamos entrado nesta simultaneidade, neste estado de Buda, podemos escolher nossa próxima vida, o local do nascimento, escolher um pai, uma mãe, o nível social de sua família, a época… a fim de recomeçar a trabalhar neste mundo. Podemos escolher o número de anos que nos serão necessários para realizar esta tarefa.

Este tipo de vida e morte do Bodhisattva, estas considerações, vêem com a prática dos “graus” onde compreendemos ou dominamos de alguma forma, as “seis forças sobrenaturais” ou os “seis poderes misteriosos.” Se isto lhes interessa, eu posso prosseguir um pouco mais, mas o tempo passa.

Para a escola Soto, as “forças sobrenaturais” (ou “poderes misteriosos”) são sem interesse, mas o fato é que estas coisas vêem naturalmente, quer o queiramos ou não. Uma delas é compreender sua vida passada e sua vida futura. O “Mumonkan,” um clássico do Zen, tem quarenta e oito capítulos. Um dos últimos capítulos, o capítulo quarenta e sete, se não me engano, fala das “Três barreiras de Tosotsu”: “Quando chega o momento em que suas pálpebras se fecham, isto é, quando chega a morte, como podemos saber para onde vamos, de onde viemos?” Esta pergunta diz respeito muito precisamente à vida e morte. Como eu acabei de dizer, responder a isto levaria horas.

Em conclusão: No “Bendowa” (ou no capítulo do “Shobogenzo” “Soku-Shin-Ze-Butsu”), Dogen Zenji cita o caso de Echu Kokushi (O mestre Nacional de Echu):

“Se vocês compreendem que no nosso corpo se acha a natureza completa e perfeita, este corpo será então como um hotel, e esta natureza no interior (do corpo), ou esta alma, ou quiçá este sopro, seria como um viajante: quando falece o corpo, o viajante continua e se muda para um outro hotel. Desta forma, podemos entrar no “oceano dos Budas,” perfeito, completo e não mais temeremos a morte.”

Esta idéia está de acordo com o Budismo ou não? Dogen Zenji (e o mestre Echu Kokushi) respondem: “Não! Esta não é absolutamente uma idéia Budista”. É a filosofia de Senika, um dos seis grandes mestres da época do Buda Shakyamuni.

Na Índia, na época do Buda, havia muitos mestres, assim como os filósofos da Grécia, e Senika era um deles, mas sua filosofia não era o Budismo.

A teoria fundamental do Budismo é engi, a “interdependência”, a necessidade de uma causa e de circunstâncias secundárias para se ter um efeito. Isto é o karma. O karma é uma energia. O que você fala, o que faz seu corpo, o que você pensa, idéias tais como “Eu vou matar aquele cara!”, mesmo que isto não seja visto, tudo isto é uma energia que vai produzir um efeito, e esta energia continua para sempre.

Chega uma outra pergunta. Aquilo que você disse, aquilo que você pensou durante toda sua vida, naturalmente continua para sempre, mesmo depois da morte. Assim, o que é esta reeencarnação? Depois da morte, algo continua, o que é aquilo que continua? Se dissermos “tudo acabou,” estamos errados, se dissermos “isto continua,” estamos errados. É um dilema. Como resolver isso? A resposta vem de Yuishiki (escola Yogachara). Venha estudar conosco… Aqueles do dojo de Paris devem fixar um dia por semana para a leitura da “A Soma do Grande Veículo de Asanga” que iremos estudar em Eitai-ji. Os teishos escritos de Eitai-ji nos permitirão de trocar informação quanto a isto. Até aqui tudo bem?

Resposta: Sim, tudo bem.

Tokuda Sensei (seqüência): A sua pergunta é muito importante, muito profunda. Mas não será a minha resposta que irá esclarecê-la, você mesmo é que tem que investigar isto e então tudo ficará límpido.

Se me perguntarem: “Existe uma vida depois da morte?” Eu responderei: “Não!” Aqueles influenciados pelas teorias tibetanas podem ficar muito surpresos e se escandalizar. Podem achar: “Tokuda é estúpido”. Tanto faz para mim, é somente um aspecto das coisas. Existe uma outra coisa que não deve ser esquecida (aqui novamente, se você não acreditar nisto, não fico perturbado de passar por estúpido).

Estas explicações muito simplistas sobre a reencarnação são uma fonte de perturbação. Imaginar que nossa experiência seja perpétua e aceitar estas idéias muito facilmente nos faz cair nestas teorias como a de Senika, e isto com certeza não é o Budismo. Um dos problemas desta crença na reencarnação é que quando tomamos consciência de seus limites, e não somos mais capazes de resolver um problema nesta vida, fazemos a pergunta: “Existirá uma vida depois da morte?” “Claro!” “Então resolverei este problema em uma outra existência”. Ora, se você não resolver este problema nesta vida, você não o resolverá nunca.

Eu chamo as sua atenção, eu sôo o alarme, eu lhes coloco em guarda contra estas teorias. Prestem atenção! Eu estou pronto a responder não importa qual pergunta sobre este assunto. Aqueles que sabem, sabem. Depois disso podemos discutir. Eu espero que vocês compreendam minha situação. Tudo que se diz sobre este assunto é automaticamente mentira. O perigo vem sobretudo da linguagem. Tomem por exemplo os jornalistas que isolam uma palavra de seu contexto: essa palavra começa a caminhar de forma incontrolada.