Terceiro Teishô Sobre o Sutra do Lótus (Yui-butsu-yo-butsu)

TEISHÔ Nº3

Leitura do capítulo Yui-butsu-yo-butsu, p. 214

Quando o estado supremo de bodhi é uma pessoa, nós o chamamos de “buda”, nós o chamamos de “estado supremo de bodhi”. Se não chegarmos a reconhecer o caráter deste momento onde nos encontramos na verdade, isso poderia ser estúpido. Estas pessoas, com efeito, estão sem sujeira. A pureza, isso não quer dizer tentar como um forçado não ter objetivo e estar livre de apegos e estar livre de apegos e desapegos; isso não quer dizer manter algo que seja outra coisa que um objetivo. Na realidade, se estar dirigido em direção a um objetivo, sem estar apegado a algo ou desapegado de algo, a pureza existe.

É muito difícil que Dogen Zenji utilize o termo “satori”, mas aqui ele fala disto e diz: Quando o satori último é realizado, esta pessoa é chamada de um buda.

Na tradução inglesa de Nishijima Roshi, a palavra japonesa fuzenna foi traduzida por “sem sujeiras”. De minha parte, eu a traduziria como “não contaminada”. Com efeito, em fuzenna, não existe qualquer intenção seja de pegar ou de rejeitar, seja de se esforçar de fazer ou de não fazer, isso se torna simplesmente assim, sem apego, sem desapego, de forma que praticando a pessoa percebe duas coisas: a prática e realização, contanto que não contaminem uma à outra, se tornam prática-realização.

Quando Mestre Nangaku foi ao Sexto Patriarca (Eno), este último lhe perguntou: “O que é que vem desta forma?” Mestre Nangaku não pode responder. Depois de oito anos, ele foi ao mestre novamente e lhe disse: “Agora eu compreendo. Na primeira vez você me perguntou: ‘O que é que vem assim’?” Eno disse: “E como você o compreende?” Nangaku respondeu: “Se eu disser algo, não será exatamente aquilo”.

No capítulo “Jisho-zanmai” (volume 4, cap. 75, p.31) está dito:

O Velho Buda Sokei perguntou a um monge: “Você depende da prática e realização ou não?” O monge disse: “Não é que a prática e a realização não existam, mas é impossível misturá-las ao que quer que seja”.

Hoje o assunto do teishô é fuzenna “sem sujeiras”. É a teoria de base de Mestre Dogen que disse que a prática e a iluminação não são duas coisas separadas, a prática e realização não estão contaminadas. Quando praticamos, isso é o satori. O objetivo de nossa prática não é obter o despertar, esta prática é o despertar. As pessoas comuns acham que existe algo que seja externa ao caminho, e esta é a razão porque existe tanto sofrimento. Somente um buda pode compreender isto.

Quanto a isto, vou tomar um koan do Mumonkan. É o caso “A mente cotidiana é o caminho” que fala do encontro entre Joshu e Nansen.

Chao-chou perguntou a Nan-chuan: “O que é o caminho?” Nan-chuan disse: “A mente cotidiana é o Caminho”. Chao-Chou disse: “Como chegamos a isto?” Chuan disse: “Se você tem a intenção de se dirigir em direção a isto, imediatamente perde o Caminho”. Chou disse: “Se não tiver a intenção, como posso saber que é o Caminho?” Chuan disse: “O Caminho não pertence a saber e a não saber. Saber é ilusão e não saber é falta de discriminação. Se você realmente chegar ao Caminho, é como o grande céu vazio, vasto e transparente. Como poderia você julgar isto de forma discriminatória?” Com esta palavra, Chou realizou a Iluminação instantaneamente.

Este koan é uma explicação muito excelente de fuzenna. Quando Joshu (Chao-chou) perguntou a Nansen (Nan-chuan): “O que é o caminho?” Nansen disse: “A mente cotidiana, este é o caminho”. Joshu perguntou: “Como posso ganhar isto?” A resposta foi: “Se você tem a intenção de obter isso, imediatamente você perdeu o caminho”. Perder o caminho quer dizer “contaminado”.

Se praticarmos com a intenção de obter o satori ou o kensho, o fato mesmo de querer utilizar a prática com o objetivo de atingir o satori se torna um obstáculo ao satori. Utilizar a força de vontade ou a vontade faz com que a prática e o satori se tornem duas coisas separadas, a expressão sendo: é como querer acrescentar uma outra cabeça àquela cabeça que já existe.

Na origem existia este estado de fuzenna “sem sujeiras” e é por isso que Mestre Dogen fala shikantaza “somente sentar”. Mas é muito difícil de crer nisto, porque nós continuamos a pensar: no zen, a pessoa senta e nada acontece! Eu fiquei sentado durante anos sem que nada tivesse acontecido. Alguma coisa está errada..

Neste capítulo “Jisho-zanmai”, ele diz que se você tiver uma intenção, isso é um obstáculo, mas que estar sem intenção também é um problema.

A escola Rinzai pratica o sistema dos koans que consiste a empurrar a pessoa para um lugar onde não se possa escapar. E é necessário dar uma resposta! Como em geral não temos resposta, a não ser uma resposta intelectual, é necessário então sentar, porque é somente com o zazen que a resposta vem. É a razão porque o praticante vai sentar quando todos os demais já estão dormindo. É isso que chamamos de yaza “a prática noturna” no decurso da qual as pessoas vão para o lado de fora para sentar e praticar o koanmu” por exemplo. Parecem-se a epiléticos… Eles dizem de si para si: “É necessário que eu desperte antes do amanhecer, senão me matarei”.

Não se trata aqui de sentar-se como um cocô de vaca, esparramado e sem força. Às vezes, depois de sentar muito seriamente no alto da torre da entrada principal, alguns praticantes, não tendo conseguido realizar o que queriam na alvorada, se jogam no vazio no momento preciso da última batida dada no han, o sino de madeira, o que prova que levam muito seriamente seus treinamentos, se bem que seja uma coisa de extrema estupidez na escola Rinzai. Para evitar tal coisa, em vez de bater em decrescendo, se dá somente uma batida, deixando o fim em suspenso. Na escola Soto, quando fazemos o kaijo (carreira no sino de madeira) realmente batemos no han (sino de madeira).

Mestre Joshu realizou com Mestre Nansen, com o koan “a mente comum é o caminho”. Durante toda sua vida, Mestre Nansen utilizou este espírito da vida cotidiana. Quando lhe prestavam uma visita ele dizia: “Já comeram seus mingaus de arroz?” e quando o estudante respondia, “Sim”, ele acrescentava, “Então lavem a tigela”.

Existe um outro koan muito parecido: Um monge foi visitar Joshu. Joshu disse: “É a primeira vez que você vem aqui?” “Sim, Mestre”, disse o monge. “Então tome uma xícara de chá comigo”, disse Mestre Joshu. Um outro monge chegou: “Você já esteve aqui?” “Sim”. “Então tome uma xícara de chá comigo”. O assistente disse ao mestre: “Mestre, você disse ao primeiro monge para tomar chá, e igualmente ofereceu chá ao segundo. Entre os dois monges um era veterano e o outro veio pela primeira vez, por que você ofereceu chá aos dois?” O mestre se dirigiu ao assistente, dizendo: “Assistente, tome uma xícara de chá”. (Não se sabe aqui se o assistente compreendeu ou não). Mestre Joshu nunca utilizava o bastão nem o grito zen, mas utilizava a linguagem da vida cotidiana livremente.

Minha intenção não é criticar a escola Rinzai, mas eu gostaria de chamar a atenção para o seguinte problema: a saber, existe uma prática para ir em direção ao satori, mas por outro lado, o satori se manifesta com sua prática.

Mesmo se você praticar com toda a força, como por exemplo, durante o Rohatsu, mesmo que você utilize sua própria força de vontade, nada acontecerá. O satori é tathata, que se manifesta através de seu corpo. Quando e como se manifesta ninguém sabe. Esta teoria zazen e realização são uma só coisa, é do que Mestre Dogen fala no capítulo “Jisho Zanmai”. Decorrente mesmo do fato de se estar vivo, esta vida é a manifestação do tathata. Vocês compreendem isto? Este corpo com o qual eu obtive esta vida é particular, se bem que para obter esta vida foram necessárias centenas de milhões de condições.

Prosseguindo no capítulo, abordamos a questão da “grande terra”.

Extrato do capítulo “Yui-butsu-yo-butsu” (volume 4, capítulo 91, p. 215)

Um buda velho disse:

A terra inteira é o corpo verdadeiro do ser humano
A terra inteira é a porta da liberação
A terra inteira é o olho de Vairocana,
A terra inteira é nosso próprio corpo do Dharma.

Esta grande terra é nosso próprio dharmakaya. Na prática dos koans, aqueles da primeira categoria, este dharmakaya é a primeira experiência zen. Esta experiência consiste em sentar em zazen até que este corpo acabe por desaparecer e que se torne uma coisa só com o universo inteiro. Se evitarmos fazer discriminação achando, por exemplo: “Eu estou aqui e os outros estão lá”, nós constatamos que na realidade nós temos a mesma raiz, esta raiz é o dharmakaya, cada um de nós é o dharmakaya. Como será possível se tornar uma só coisa completamente? É possível. Para dizer de outro modo, cada um dentre nós é o centro do universo. Mas como é possível que cada um de nós seja o centro do universo? De fato, existem muitos “centros do universo”, este é o mundo do satori. Neste mundo, um não perturba o outro, não existem choques. Assim cada um de nós representa o universo inteiro por completo, e se fizermos uma amostragem, se bem que se possa ver que um é japonês, ou um francês, cada um deles representa o conjunto, cada um é seu próprio dharmakaya. A partir disto, não existe mais o problema de transmigração, já que cada um é o dharmakaya, a grande terra. Quando ela começou e quando terminará? De onde viemos e para onde vamos? Se bem que exista a vida e a morte, se experimentarmos o dharmakaya, não existe nem vida nem morte e a partir disto podemos vir livremente muitas vezes.

A questão é (e já mencionei isso várias vezes anteriormente): Por que Deus se fez homem? O Filho de toda a eternidade está à direita do Pai, por que Ele veio? Esta é a mesma pergunta: Por que Bodhidharma veio à China desde a Índia? A resposta é: não existe intenção alguma porque se houver a menor intenção, a pessoa não pode sobreviver. Bodhidharma veio à China na intenção de se tornar o primeiro patriarca da escola Zen? Veio para fundar o mosteiro de Shao-lin? Não, simplesmente ele veio assim, não existe um por quê. Nós devemos compreender que nós mesmos é que somos o dharmakaya.

Prosseguimento da leitura de “Yui-butsu-yo-butsu” (volume 4, capítulo 91, p. 214)

(…) (Mas,) por exemplo, quando nos encontramos com pessoas, fixamos em nossa mente suas feições, ou quando vemos uma flor ou a lua, nós ajuntamos pela nossa mente, sobre tais objetos, uma camada suplementar de luz ou de cor.

Tomei de um outro koan do Mumonkan, o caso 35 “Quando encontramos um mestre”

Wou-tsou (Fa-yen) disse: “Quando encontramos um mestre do Caminho pela frente, não o recebamos com palavras nem com o silêncio. Então, como o receberemos?”

Isto é um koan. Quando encontramos alguém, como o conhecer? Se vocês quiserem encontrar com um mestre zen, como fazer?

Em geral, é a o costume, quando você vai visitar um mestre zen importante, enquanto praticante, para nos tornar conhecido dele, você lhe diz que ouviu falar muito dele, que leu muitos livros de zen, sobre o budismo etc., em seguida você prossegue falando de você mesmo, blablabla, e assim você demonstra perfeitamente que nada compreendeu. Existem mesmo mestres, que querendo mostrar suas importâncias, comparecem a um congresso rodeados de numerosos discípulos… Com isso um outro mestre poderia perguntar: “Por que você está tão tenso? Relaxe um pouco, fique à vontade”. Então ele desaparece. Tudo isso para dizer que se, quando encontramos com alguém, tivermos uma intenção, um pensamento por trás, perdemos. Por que não se encontrar o mais simplesmente possível? Diante de um mestre zen verdadeiro, mesmo sem nada dizer, ele pode ver tudo que se passa em você. O problema é essa vontade de mostrar. Este congresso em Milão foi muito interessante…, todos os mestres europeus vieram, e um deles estava acompanhado de uma atriz de televisão muito bonita, se bem que um pouco idosa… Mas por que? É muito interessante. Isso acontece o tempo todo. É necessário que compreendamos e pratiquemos estes koans todos na vida cotidiana, mas essencialmente é necessário compreender fuzenna, a saber, que na origem nós somos todos completamente puros, o próprio dharmakaya, e os demais também. Fuzenna é praticar sem a intervenção de nossa vontade. No momento em que começa o querer, existe a intervenção de um eu. Aquilo que é supremo é o Buda, e somente um buda pode compreender um buda. Eis aí o que eu tinha a dizer.

Pergunta: Essa prática sem esforço, sem intenção, é muito difícil. Por outro lado, como fazer para não se desencorajar, para continuar a praticar? É verdadeiramente uma questão de fé, é mushotoku.

Resposta: Jogue fora aquilo que de humano existe em você, porque você já é um buda. Quando este buda começa a agir, tudo se torna mais fácil.

Pergunta (da mesma pessoa): E praticando assim, a fé se manifesta ela mesma?

Resposta: Sua prática, que é já a manifestação do dharmakaya, se tornará cada vez mais profunda. Não se trata de uma fé intelectual.

Existe uma diferença entre os mestres que praticam os koans e que possuem uma visão progressista e os mestres chineses (o que pode ser explicado constando que a China é um continente e o Japão é uma ilha).

Quando lemos o capítulo “Gyoji” do Shobogenzo constatamos que estes mestres que são citados ali, praticaram durante vinte, trinta ou quarenta anos e que para eles o despertar veio naturalmente. Se vocês praticarem assim, vocês mesmos não constatarão, mas alguém que esteja observando vocês verá a manifestação de tal despertar. Na escola Rinzai, praticamos para obter tal despertar e o obtemos, enquanto que para a escola Soto tudo começa a partir de tal despertar porque esta prática não é a prática de um ser humano comum, mas a prática de um buda. Se bem que não seja uma questão de pensar “Eu sou um buda” não se pode escapar disto. Um sesshin é a coisa mais estúpida, porque sentimos dores e mesmo assim voltamos para cá. “Polir a telha” para que ela vire um espelho é nossa prática. Uma telha não pode se tornar um espelho, mas no momento da prática, é um espelho. Isto não é lógico, mas é assim. Dentre todas estas pessoas que treinam ou que conhecem muitos koans etc, o mais importante é a grande compaixão. Nestes tempos de hoje em dia, esta grande compaixão está em perigo de se tornar extinta.

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