Quinto Teishô Sobre o Sutra Vimalakirti

Teisho nº5

Durante este sesshin, nós falamos do sutra de Vimalakirti. Vimalakirti é um leigo e não um monge, e este sutra é muito irônico e às vezes paradoxal. No fim das contas, para nos mostrar o que é a prática do bodhisattva, ele critica e questiona a prática de todos os discípulos do Buda e mesmo dos bodhisattvas. É engraçado, é um pouco como um espetáculo de palhaços.

Este sutra passa na peneira todas as práticas que não são exatamente aquelas do Hinayana, mas antes do budismo primitivo, que é o ensinamento mesmo do Buda. Aqueles que criticam os ensinamentos do Buda não são budistas, como ensinava Mestre Nyojo. Respeitar os ensinamentos do Buda é uma boa coisa, os compreender é o que conta. Criticar os demais não ajuda, ao contrário, é perder sua própria virtude. Dirigir críticas à sangha para que a prática melhore está bem, mas criticar outras sanghas, outros mestres, se comparar a eles, tudo isto indica a presença do ego.

No fim das contas, qual é a diferença entre um monge e um leigo? Para mim o mais importante para os monges é transmitir o Dharma aos demais. É a única coisa que conta. Claro que os leigos também podem ensinar, mas não são especialistas e por outro lado, tampouco têm que ser.

Todas as manhãs nós recitamos a linhagem dos budas e patriarcas. Pelos seus intermédios o Dharma foi transmitido até nós. Se este Dharma não for transmitido através de você, todas estas práticas dos budas e dos mestres terminam com você. Isso é um grande pecado. Claro, podemos continuar a praticar, mas assegurar a transmissão a uma outra pessoa, a uma outra geração, isso é a coisa mais difícil.

Na nossa época, esta transmissão do mundo oriental ao mundo ocidental pode ser comparada a um vinho velho re-envasado para uma nova garrafa. Isso é muito bom.

Eu digo a vocês, e eu realmente acho isso, no Japão esta transmissão não é senão um documento burocrático, e está grandemente ameaçada. É bem verdade que ainda existe uma prática elementar durante três ou seis meses, ou pelo período de um ango. Mestre Sawaki já tinha consciência disto e pratica essencialmente com os leigos, e quando Mestre Deshimaru veio para a França, ele também sentiu que a motivação dos praticantes era completamente diferente.

Existem dois tipos de transmissões do Dharma. 1) Garan denpo sangha – continuar a transmissão dos templos, assegurar a transmissão pelos templos. Os mestres responsáveis por estes templos estão essencialmente preocupados somente com o fato destes templos continuarem. Nos dias de hoje, os templos se transmitem de pai a filho, depois ao neto e assim por diante. 2) Nin-denpo: transmissão de uma pessoa para outra. Neste caso, o discípulo não permanece forçosamente no mesmo mosteiro que seu mestre. Depois de ter recebido a transmissão ele vai a outra parte qualquer e criando um novo templo, o Dharma pode se difundir amplamente. Aqui se trata de uma transmissão autêntica do Dharma e na escola Soto, os mestres se ocupavam muito de seus discípulos a fim de assegurar esta transmissão.

Neste sutra existem muitos paradoxos. O fato de viver com sua família numa cidade, de trabalhar, de estar em contato com diferentes pessoas, de ter atividades, ir ao teatro, encontrar com os amigos… Este Vimalakirti podia se encontrar como leigo entre todas estas pessoas, não importa em que lugar. Poder-se-ia achar que esta vida está em contradição com aquela de um praticante.

Tomemos nosso exemplo: nós estamos sentados aqui neste dojo parisiense, para o sesshin de fim de semana. O lugar é relativamente calmo, mas de tempos em tempos podemos ouvir o choro de uma criança ou os gritos de um adulto, ou o som da televisão, todos estes barulhos que provém dos apartamentos vizinhos. Achamos então que seria preferível praticar o zazen num lugar silencioso, onde não estivesse nem quente nem frio, onde não houvesse muito vento, ou de trovões, mas no fim das contas, por que não? É possível praticar em qualquer lugar que seja.

Na época do buda Gautama dizima que os mosteiros não deviam estar nem muito perto nem muito longe das grandes cidades. Nem longe demais para que os leigos pudessem chegar facilmente ali, ou para que os monges pudessem praticar a mendicância nas cidades; nem perto demais para não serem perturbados pelo barulho, ou para desencorajar os visitantes que poderiam aparecer para atrapalhar a prática.

Na China, na época quando todos os imperadores queriam instaurar o taoísmo como religião oficial, o budismo zen foi muito atacado e criticado, a um tal ponto que os monges e os mestres fugiram e se esconderam nas montanhas. Como eles não tinham sutras, instrumentos de acompanhar sutras, estátuas, a transmissão era feita pela palavra. Não podendo praticar a mendicância, para sobreviver, começaram a trabalhar a terra com agricultura, introduzindo assim um novo aspecto da prática.

Daisetz Suzuki dizia que o Dharma devia ir para as grandes cidades. No cristianismo dos tempos antigos, existiam muitas ordens diferentes: no interior, as abadias eram praticamente autônomas e mantinham contato umas com as outras. Mais tarde apareceram novas ordens – franciscanos e dominicanos – que eram ordens mendicantes. Tal contato direto com os demais permitia compreender os problemas dos habitantes das grandes cidades.

Num lugar retirado, se pode concentrar essencialmente no estudo e no trabalho, mas por um outro lado, é preciso que entremos em contato com todos os níveis da sociedade. Praticar a sentada de zazen num mosteiro de montanha não quer dizer que estejamos cortados do resto do mundo já que quando estamos sentados, sentamos com todo o mundo. No que nos toca, está muito bem termos nossa sangha parisiense, e a sangha de Eitai-ji. Neste momento Eitai-ji está um pouco assim, balançando, mas veremos o que vai acontecer, é muito interessante.

Este sutra de Vimalakirti nos ensina que todas estas dificuldades da vida cotidiana que nós às vezes chamamos de “diabólicas”, com isso nós aprendemos que o diabo é também um bodhisattva, porque somente um bodhisattva pode testar os bodhisattvas. Dizem que o asno não pode repelir o leão ou o elefante. Então quando estamos confrontados com dilemas, quando recebemos críticas que são a maneira do diabo, se podemos aceitar tudo isso com calma, então a pessoa que nós achávamos que fosse nossa inimiga, se torna um bodhisattva, pela prática, se manifestando como tal. Dizem que o diabo aparece com uma máscara de buda ou que o Buda se manifesta com a máscara do diabo. É preciso reconhecer que esta teoria não é sempre fácil de ser aplicada porque às vezes nos achamos em situações das quais não é tão fácil de sair.

Quando temos uma família, seus parentes podem ficar tristes vendo vocês partindo para ir fazer um sesshin. Como se adaptar e quais são os limites? Para os monges, isso é fácil. Se o caminho de Vimalakirti é o melhor, por que o Buda ele mesmo renunciou ao seu trono, ao seu palácio, sua família e seu filho? E por que todos os patriarcas, todos os grandes mestres fizeram o mesmo? Podemos nos imaginar vivendo, como eles fizeram, durante trinta anos na montanha? O Dharma é algo muito profundo, mas o realizar completamente demanda largos períodos de prática.

Na grande cidade, é difícil não se dispersar, mas se conseguirmos nos concentrar, então adquirimos muita força. Se a prática do mosteiro (ou a prática do Takuhatsu, “a mendicância”) é forte, ela nos dá uma grande energia, se bem que de fato não seja lá grande coisa. Quando praticamos a mendicância, as pessoas vêm a nós com muito respeito e nos fazem uma doação de dinheiro.

Vestir o koromo, o grande kesa ou usar o rakusu muda o espírito. Depois do sesshin, nós mudamos de roupa e voltamos a ser pessoas “normais”. Mesmo assim, sem que estejamos conscientes de tal, nosso contato com os outros fica diferente, o que é uma boa coisa. Como viver hoje em dia, na montanha ou na grande cidade. Pensem sobre isto. No Japão, é comum hoje em dia que monges e mestres se casem e quando permanecem celibatários, todo mundo desconfia deles, achando que certamente o fazem porque têm problemas, que são instáveis, etc.

Todas as dificuldades que nós encontramos na vida cotidiana são benéficas. São os problemas que nos levam a compreender o ser humano, a se compreender a si mesmo, e compreendendo os demais, ficamos mais gentis. Quando somos jovens, criticamos todo mundo, inclusive nosso próprio mestre. A crítica é muito fácil: porque as coisas não se passam como se desejaria, criticamos o outro e ocultamos nossos próprios erros. Mas com o tempo, percebemos que estamos reproduzindo estes mesmos erros que achávamos nos demais e lamentamos que nosso mestre tenha que ter agüentado nossa intolerância.

Eu fico muito nostálgico quando penso em meu mestre, Shingu Roshi. Quando ele estava no Brasil, todos os missionários japoneses o deixavam depois de um ano, no máximo três anos. Eu o encontrei pela primeira vez há mais de trinta e cinco anos, e fui o último a viver com ele. Ele faleceu já há dezessete anos e eu me lembro dele com nostalgia. Quando o discípulo partilha sua vida com o mestre, ele vê todos os erros do mestre, mas a relação deles não se quebra por isso: ao contrário, se torna mais profunda, por que este contato muito pessoal permite superar e minimizar os problemas da personalidade do mestre. Então quando a relação mestre e discípulo se torna calorosa, o negativo se torna positivo, o discípulo melhora e pode prosseguir. Ficar criticando nada mais faz do que entravar o avanço do caminho.
Estou muito curioso de ver como o Dharma se transmitirá aos franceses, aos europeus não importa que escola seja – zen, budismo tibetano, etc. Não devemos ficar orgulhosos de transmitir nossa linha, porque somos apenas uma parcela daquela grande onda que leva o budismo ao ocidente.

No zen também ouve uma tradição de mestres (os chamamos de sansho) que não tinham linha, realmente não tinham discípulos, mas apareceram assim mesmo e que ficam na história. Por exemplo, Ikkyu – uma figura muito forte; Ryokan, que todos os japoneses amam e que jamais teve discípulos. Tosui, que fazia parte da escola Soto, Bankei, que ensinava o fusho zen. Shozan, um samurai praticante do zen ou niozen, zen do guardião do Dharma. Todos são grandes mestres sem linhagem. É preciso também levar em conta este aspecto.

Acabou.

Pergunta: Ontem você colocou a pergunta de se havíamos pensado no futuro do Maha Muni. Eu percebi que desde que te conheço, cada vez que tentei me projetar no futuro, isso não funcionava. No começo me dizia: “Que sorte! Um mestre zen em Paris, é extraordinário! Em seguida houve a criação de Eitai-ji. Então fomos para Eitai-ji. Em seguida houve a renovação da casinha e pouco tempo depois sua mudança para Colonges. “Ah, que bom, Tokuda Sensei irá se instalar definitivamente em Eitai-ji! Finalmente houve o Brasil, tudo isto num período de cinco anos. No começo se podia projetar num período de digamos, alguns anos, mas ao cabo e ao rabo, se tornou impossível que fizéssemos projetos de mais de seis meses, e às vezes de mais de três meses, já que depois de outubro não temos mais certeza de sermos capazes de fazer um sesshin com você. O que quero dizer é que temos muita dificuldade de nos projetar no futuro por causa desta impermanência. Eis tudo. Deduzo disso tudo que a prática consiste em se projetar de mês em mês. É o único programa que podemos fazer no que toca à Maha-Muni.

Resposta: Do que você disse, depois de mim Maha Muni acabará. Contudo ainda resta uma possibilidade, aquela da auto-organização, a saber que ninguém sabe o que será o futuro. Vocês conhecem muito bem minha característica: me sinto muito próximo ao caminho de Mestre Sawaki, que mudou minha vida. Eu sempre disse que minha característica não era de ficar ali onde criei um templo ou uma associação e de ser o fundador daquilo. Mestre Sawaki nunca permaneceu num lugar onde pudessem acolher pessoas ou criar uma sangha. Cada ano ele ia templos diferentes onde era convidado a fazer sesshins e se possível, ser remunerado. Vocês devem compreender e aceitar que eu mudo de lugar sem parar, mas não esqueçam que constantemente eu faço sesshins tanto no Brasil quanto aqui. Não tenho a minha sangha, meus discípulos, minha comunidade, e se vocês ligarem para o Maha Muni, vocês é que têm que cuidar disto. E eu sempre volto… É tão agradável escapar! Eu aceito as suas críticas.

Pergunta: Não foi bem uma pergunta, mas mais um comentário sobre os meses que acabaram de transcorrer. De fato se tem a impressão que a sangha continuará a viver, eu acho que ela continuará a viver. Com a iniciativa de Anne Bouloc, vários praticantes foram convidados a vir se exprimir durante os “Zazens Matinais” que tomam lugar no dojo Mabillon em Paris em alguns domingos. Isso demonstra que o grupo tenta tomar conta da situação, de manter a solidariedade, para que a prática continue, é está evidente que ela continua.
Ontem, quando você falou do futuro do Maha Muni, eu me perguntei, se indo adiante com este estilo de comunicação pessoal, não se podia fazer reuniões sem um projeto específico, simplesmente para trocar coisas, poder ouvir as perguntas e respostas de uns e de outros. Eu sei que esta reflexão se faz dentro de um pequeno grupo, mas acho que um máximo de membros da sangha deviam se encontrar e debater a questão: Que queremos de nós mesmos? Que queremos nos tornar?

Resposta: Algumas pessoas ficam tristes de ver que uma sangha não cresça como esperavam, porque acham que uma sangha deveria aumentar seus membros. Eu acho o contrário, quanto menos pessoas estão ali, mais eu fico contente, e sou mesmo partidário de uma seleção muito estrita. Diga-me Stéphane: No último sesshin em Eitai-ji nós éramos quatro. Você teve a impressão que havia algo faltando? No que me toca, apesar de uma forte dor nos joelhos, eu tive o sentimento que tudo estava completo, as quatro ou cinco pessoas presentes sentando de forma perfeita. E eu diria que continuando desta forma, dentro de dez anos, estes praticantes terão a força de criar algo por si mesmos, onde quiserem. Michel já criou um grupo na Bélgica, e Robert propôs fazer um pequeno dojo em sua casa. Nós somos poucos, dez monges e cada um dos monges tem um dojo! No que me toca, eu acho que dentro de dez anos algo ocorrerá.

Por que o zen Soto é tão importante no momento presente? Na sangha de Mestre Dogen, havia somente sete ou oito pessoas, mas depois de três gerações, Keizan Zenji apareceu e teve dois grandes discípulos: Meiho Sotetsu (minha linhagem) e Gasan Joseki. Depois de Gasan Joseki, houve uma sucessão de dezesseis grandes discípulos, os quais permitiram que nossa escola se expandisse por todo o Japão, a tal ponto que certos templos da escola Shingon se tornaram templos da escola Soto. Nos dias de hoje, há dezesseis mil templos.

Os templos de Hokyoji e Enjakuzenji são da linhagem de Meiho Sotetsu, uma linha precisa se bem que pouco numerosa.

Finalmente, uma escola, uma linhagem se mantém com uma só pessoa, quem é tal pessoa? É uma dentre vocês? Não estou absolutamente preocupado, ao contrário, estou muito otimista, sinto que a energia está chegando, não acabou ainda, e como dizem: “Tudo está bem que acaba bem”.

Certas pessoas têm contatos muito bons comigo, e estas relações continuarão além da distância, porque nada pode nos separar mais. Nós criamos o mosteiro de Eitai-ji para produzir um monge verdadeiro e se não pudermos criar um só monge, então meio monge estará bem.
Ouvi falar que se disserem que eu não estiver mais em Eitai-ji, mais nenhuma mulher virá. Isso é maravilhoso! Não se constitui num problema.
Durante toda minha vida recebi críticas de pessoas que me achavam irresponsável, me criticando por estar sempre daqui para ali. Mas meu mestre me compreendia, e não via inconveniente nisto, me dizendo às vezes: “Você é como Hakuin Zenji, onde você for, nascerá um grupo de zen”. No Brasil, às vezes tinha que mudar de lugar por razões financeiras e o grupo se dissolvia, mas um outro grupo se formava ao redor de mim para onde eu ia. Vi voltar para mim pessoas que me haviam conhecido há quinze ou às vezes trinta anos atrás. Alguns deles haviam formado um grupo e voltavam às vezes com seus discípulos. Eu dizia para eles: “Encantado. Eu conheço bem vocês”. Pela internet? “Não, ali está a foto de vocês no dojo onde nós praticamos”.

Se vocês quiserem que este grupo cresça, ou se acharem que seria bom construir algo, não estou contra isto, mas o façam sem mim, porque meu caráter é um pouco diferente. Como vocês sabem, Kodo Sawaki era chamado Homeless Kodo (Kodo sem lar), quanto a mim, eu aceito – e fico orgulhoso – de ser nomeado Hopeless Tokuda (Tokuda sem esperança), verdadeiramente sem esperança. A partir daqui podemos começar a falar entre nós…