Terceiro Teishô Sobre o Sutra Vimalakirti

Teisho nº3

Durante este sesshin, nós estamos abordando o sutra Vimalakirti (j. Yuimakyo).
Ontem nós vimos que Vimalakirti estando doente, o Buda convidou seus dez grandes discípulos a lhe visitarem, mas nenhum dentre eles se sentiu à altura. O primeiro a ir à casa de Vimalakirti foi Sariputra, em seguida Maudgalyayana (Mokuren), em seguida Mahakasyapa (Daikasho), Subhuti, Aniruddha (“o olho divino”), Upali, Ananda…

Mahakasyapa era especialista de zuta “mendicância e o fato de simplificar a existência material”. Ele provinha de uma casta de brâmanes, uma família extremamente rica, da qual se dizia que sua fortuna era equivalente àquela de quatro reis juntos. Quando se tornou monge, fazia takuhatsu (mendicância) essencialmente entre os pobres, negligenciando os ricos, fato pelo qual era muito criticado por ter uma visão dualista.

Com efeito, quando se pratica o takuhatsu, é preciso visitar todas as famílias e mesmo se, com experiência, soubermos quem dá muito e quem jamais dá nada, não se os deve evitar, é preciso tocar em todas as portas. Este takuhatsu praticado em estações muito frias é chamado Kangyo “a prática da estação fria”. Calçado de sandálias de palha e munidos de uma tigela e de um pequeno sino, avançamos em fila indiana, como aquela em que os patos seguem uns aos outros voando. O responsável do takuhatsu sempre caminha atrás, com um bastão. Durante o kangyo não se vai à casa das pessoas, não cantamos sutras, entoamos somente o Ho “Dharma”. Às vezes atravessamos rios, às vezes marchamos nos campos, ou nas ruas, nos mercados, marchamos muito, até doze quilômetros, e acontece às vezes até subir montanhas. É a força do zazen e sem tal força seria impossível levar a cabo tal marcha. É o zazen em movimento ou o movimento no interior do zazen. Estas duas coisas se tornam “uma”.

Para voltar a Mahakasyapa, dizem que ele visitava somente os pobres. Jesus Cristo ele mesmo não se interessava senão pelos pobres e pelos doentes, aos leprosos por exemplo.

Não sei se a seguinte história é verdadeira: quando Mahakasyapa pedia esmolas, ele se encontrou com um leproso que comia sua refeição. No momento em que este leproso lhe dava uma parte da refeição aconteceu que parte do dedo do leproso caiu na tigela de Mahakasyapa. Este último aceitou e comeu diante daquele que havia doado. Havia igualmente uma história de uma velhinha que nunca havia dado nada e que estava prestes a morrer. Mahakasyapa sentiu isto e insistiu para que ela lhe desse algo. Pela primeira vez lhe surgiu a vontade de dar um presente, mas ela nada tinha além de um pouco de arroz apodrecido. Ele teve vergonha de dar um tal alimento, mas Mahakasyapa insistiu – tudo isso se passou somente com olhares, sem que uma palavra tenha sido pronunciada – e finalmente ela aceitou lhe dar aquele alimento que Mahakasyapa comeu ali mesmo, porque se tivesse se distanciado, ela poderia ter pensado que ela a jogaria fora no caminho de volta. Assim ele lhe mostrava que podia consumir tal alimento. Mas ele recebia críticas…
Pelo ângulo deste confronto com Vimalakirti, o sutra vai se desenvolvendo e explica claramente cada uma das práticas, específica a cada um dos dez grandes discípulos do Buda: Ananda, Upali… e é muito interessante.

Em japonês para descrever todas estas coisas que nós praticamos, por exemplo, as cerimônias, dizemos: “Não sabemos que uma coisa da qual compreendemos somente a metade”. É como carregar uma tábua nos ombros: somente um lado fica visível. Quando batemos na madeira, no unpan, ou no gongo, ou os sinos, não se trata somente de uma formalidade, mas de realmente compreender o que querem dizer todos estes sons.
Assim, diante de Vimalakirti, todos os discípulos do Buda perderam.
Em seguida chegaram os bodhisattvas, o primeiro dos quais era Maitreya:

Leitura do capítulo IV “Os bodhisattvas” p. 63-65

O Buda então pediu ao bodhisattva Maitreya que fosse visitar Vimalakirti para perguntar sobre sua saúde, mas Maitreya respondeu:
“Venerável pelo mundo, não posso aceitar tal convite, e vou dizer por quê.
Eu me lembro de um dia quando eu explicava a prática das terras onde não se volta mais aos soberanos dos deuses de Tusita e a sua corte, quando apareceu Vimalakirti que se aproximou de mim e me disse”:

“Reverendo Maitreya, o venerável pelo mundo predisse a você que renasceria somente mais uma vez antes de atingir o insuperável Despertar autêntico e perfeito. Mas de qual nascimento fala tal predição? De um nascimento passado, futuro ou presente?

“Se fala de um nascimento passado, não existe mais; se de um nascimento futuro, não chegou ainda, e se for de um nascimento presente, não tem duração.
“O Buda disse: ‘Neste preciso momento ó monges, vocês nascem, envelhecem e morrem.

“Se a predição que te diz respeito fala do nada do nascimento enquanto Exatidão, não Exatidão não existe predição a ser recebida nem do insuperável Despertar autêntico e perfeito a ser esperado. Então por que, Maitreya, foi predita a você um renascimento?

“Você recebeu tal predição em virtude do nascimento da Talidade? A menos que não seja em virtude de sua cessação? Se você a recebeu em virtude da cessação da Talidade, saiba também que a Talidade não nasce; se você a recebeu em virtude da cessação da Talidade, saiba também que a Talidade não cessa; tal é a Talidade de todos os seres e tal é a Talidade de todas as coisas; tal é a Talidade dos sábios e dos santos e tal é a sua Talidade também, Maitreya.

“Com efeito, Abençoado, se você recebeu a predição de seu Despertar, todos os seres também a deviam ter recebido, já que a Talidade não se desdobra e não diferencia. Ó Maitreya, se você atingir o Despertar insuperável e perfeito, todos os seres também o atingirão, já que todos os seres são a aparência mesma do Despertar. Ó Maitreya, se você chegar à cessação liberadora, todos os seres a atingirão também, já que os budas sabem que todos os seres, já extintos na paz última, estão na aparência mesma do Nirvana e não cessam mais.

“Em conseqüência, ó Maitreya, não engane os deuses com tais coisas, já que aquele que engendra o espírito do Despertar autêntico insuperável e perfeito e aquele que não mais regressa, não existem na realidade. Antes de tudo você devia ajudar aos deuses a se desembaraçarem de suas opiniões discriminatórias quanto ao Despertar”.

Assim, depois dos discípulos do Buda, chegaram os bodhisattvas, e notavelmente o Bodhisattva Maitreya. Maitreya é o Buda do futuro, e em sua próxima vida, ele chegará ao despertar sem limite. Dizem que Maitreya está hoje em dia praticando no trigésimo terceiro céu (jap. Tosotsu-ten, skrt. Tusita) e que ele virá depois do Buda Shakyamuni, milhões de anos depois.

No extrato que acabamos de ler, está dito: “Com qual vida você se tornará buda, já que do ponto de vista do zen é sempre ‘aqui e agora’? Dizemos costumeiramente: o Buda Shakyamuni e o Buda Maitreya praticam neste momento. É um koan. Neste koan, a idéia não é contar as histórias dos velhos mestres, mas de se tornar tal koan, de saber onde Maitreya está praticando agora.

Mestre Deshimaru deu explicações a este respeito: o Buda Shakyamuni e o Buda Maitreya são os servidores de um outro. Quem é este outro? No zen, nos apoiamos nestes sutras para explicar que não se trata de uma história de um outro, mas da sua mesmo, “este outro” não é nada mais do que você mesmo.

Mesmo estando conscientes que os sutras do Mahayana não são as palavras diretas do Buda, o budismo zen as utiliza, se apoiando por outro lado sobre os koans ou diálogos entre os mestres, para os fazer entrar diretamente na vida cotidiana, fazer com que não nos esqueçamos jamais do conhecimento dos sutras e da teoria em todos os aspectos da vida cotidiana.

Para o budismo Hinayana se trata de despertar, se tornar um arhat (um grande ser) e ficar contente com isto. Para o Mahayana a questão é a seguinte: não destruir a ignorância, não sair do sansara, permanecer neste mundo das ilusões, sem se contaminar, como a flor do lótus que surge a partir da lama. É uma posição muito paradoxal, mas é assim mesmo que devemos viver neste mundo. A título de exemplo, se compararmos a prática num mosteiro e a prática numa grande cidade, é relativamente mais tranqüilo se viver num mosteiro, apesar do treinamento físico, os horários esdrúxulos (especialmente nos dois primeiros anos). Numa grande cidade é muito difícil permanecer concentrado, tentar estar presente a cada momento, ser si mesmo em face de pessoas tão diversificadas umas das outras. Mas se conseguirmos tal feito, sem nos perturbarmos, isto é, resolver tais problemas, os méritos gerados por isto são cem vezes maiores. Este espírito é a base, e se distanciar disto quer dizer não ser diferente dos demais. É necessário ser capaz de praticar o zen e o budismo Mahayana (que já está em ruínas) nesta selva de asfalto, com as greves, os engarrafamentos…

Estes dois aspectos: viver na grande cidade e ao mesmo tempo apreciar os pássaros que cantam de manhã como na montanha, é muito interessante.

Não vamos nos esquecer que o Buda Shakyamuni e o Buda Maitreya obtém o despertar juntamente com todos os seres. É a questão mahayanista: “Sempre com todos os seres”, e não: “cada um por si”. Cortando fora os demais se pode cair na “doença zen”, a saber que este despertar não somente nos deixa orgulhosos mas que ele se torna inútil e idiota.

O Buda Amitabha, sendo anteriormente o Bodhisattva Hozo que tinha feito quarenta e oito votos, dos quais o décimo oitavo foi particularmente importante: se todos os seres não se tornarem budas, eu não me tornarei buda. Finalmente ele se tornou o Buda Amita, o que quer dizer que todos os seres – do passado, presente e futuro – se tornaram budas, e que nós mesmos, estamos originalmente na iluminação. É um aspecto teórico.
No sutra de Vimalakirti, o Bodhisattva Monju, que nunca chegou a entrevistar Vimalakirti, foi o último a lhe prestar uma visita. Monju disse: “Como é possível que alguém como você, que está iluminado, tenha ficado doente?” Vimalakirti respondeu: “Estou doente porque todos os seres estão doentes (…)”.

Quando o filho único do dono da casa fica doente, seus parentes, tão ricos quanto possam ser, ficam de tal forma preocupados que também ficam doentes. O mesmo vale para Vimalakirti e os bodhisattvas e no caso destes últimos, a origem da doença é a grande compaixão.
É ainda um aspecto paradoxal: se finalmente entre nós pode realizar este despertar que conduz ao nirvana, por que é necessário auxiliar os outros? Dizem que se bem que o sutra Kegon e a escola do mesmo nome existem ainda hoje, estão diminuindo. O sutra Kegon descreve o mundo do despertar com um aspecto maravilhoso: se é assim, já que tudo está perfeito, de onde vem esta necessidade que nos empurra a auxiliar os outros?

É a questão do maha muni. Já que maha muni é este grande e absoluto silêncio eterno, da origem, por que se torna necessário despertar a si mesmo para em seguida trabalhar constantemente a fim de vir ajudar aos demais? Existe uma contradição entre esta quietude absoluta e esta vontade de engendrar movimento para o que tudo indica, ajudar aos outros. Como diz Dogen Zenji: eu mesmo e o eu mesmo dos outros não são duas coisas separadas. Peço que vocês considerem um pouco isso.

A todo momento nós arriscamos ficar doentes, porque temos um corpo e porque nos mosteiros há uma enfermaria (enjudo). Quando os estrangeiros vêm ao Japão para praticar o ango, eles com freqüência ficam doentes, porque além do choque cultural, eles perdem suas intimidades, suas vidas particulares e a enfermaria lhes permite de fazer uma pausa. A doença também faz parte do treinamento. Por que ficamos doentes? É uma oportunidade para refletir sobre o que não anda bem. Qual é a origem da doença? Este corpo é uma junção dos quatro grandes elementos.

Nasci e portanto vou morrer. Este “eu” não tem existência verdadeira, a crença neste “eu” está na origem das doenças. Como acabar com as doenças? Percebendo a inanidade do “eu”, abandonando a idéia de um “meu”, percebemos que a doença também é vacuidade. É um ponto de vista puramente teórico.

Trabalhei durante muito tempo como médico da medicina chinesa tradicional e vi pessoas chegarem no estágio terminal, câncer, hepatite C, aids. Como acolher tais pacientes? Não é mais uma questão teórica. Às vezes me perguntavam: “Depois da morte existe ou não uma outra vida?” Que queriam que eu respondesse? Isto depende de cada pessoa individualmente. Às vezes precisava dizer não, mas se eu achasse que alguns doentes tinham uma necessidade verdadeira de se assegurarem então respondia: “Sim, existe uma vida depois da morte”. Aí está.

Certas senhoras ficavam desesperadas pensando no filho ou no marido que iam deixar, e elas faziam tudo para os preparar para uma separação iminente.
Quando se tem uma doença muito grave, o médico não é de auxílio nenhum mais, somente você mesmo se pode ajudar. O fato de voltar para a casa da mãe quando parece que a doença regride quer dizer querer uma válvula de escape.

Se você está melhorando, mude completamente seu estilo de vida, abandone seus antigos hábitos alimentares (por exemplo, se tornando vegetariano), pare de fumar cigarros, utilize seu corpo, se mova mais… e você terá uma chance de escapar. Eu sempre digo: Não combata a doença, aceite-a sem se revoltar. Quando somos jovens temos uma tendência de dizer: Se eu sou jovem, não tenho mais do que três meses para viver! Por que eu, por que será que é necessário que eu morra? A resposta é: não há porquê. Inútil se debater, de gastar forças inutilmente, aceite a realidade, e como eu freqüentemente digo, brinque com a doença, dialogue com ela:

“Hoje como está sua força? – estou sofrendo enormemente”. Mas se possível esqueça esta doença. Se não nos interessarmos pela doença, ela vai embora, desde um ponto de vista teórico claro. E quando chegar a hora, se bem que ninguém saiba como será sua reação diante da iminência da morte, e eu mesmo ignore também como será isto, então diremos: “Bem-vinda! Agora posso me dar uma pausa”.

Pergunta: Todas estas teorias sobre a vida e a morte, (como as por em prática), como apreender a morte, quando sofremos verdadeiramente fisicamente e muitas pessoas sofrem enormemente no fim de suas vidas. Há um momento onde não podemos mais brincar com a doença porque estamos a sofrer demais.

Resposta: Efetivamente, quando a morte chega, às vezes sofremos muito e vamos lutar contra tudo isto. Mesmo assim, é preciso se render às evidências, na história da humanidade todo mundo morre. Pode acontecer que uma mulher tenha perdido seu marido, morra por sua vez também, deixando várias crianças órfãs. Existem casos assim. É extraordinário, ninguém escapa disto e não importa quais sejam nossas emoções, não há nada a ser feito. O sofrimento – tomemos o sofrimento do Cristo – quantas horas ali gemendo? Meu problema de joelho, trinta minutos ainda dá para agüentar, mas os dez últimos minutos são uma verdadeira tortura.
Me lembro de ter visitado um mosteiro na Alemanha: No fundo da igreja estava exposta um tipo de gaiola de ferro suspensa na qual se aprisionavam o inimigo na época dos conflitos entre católicos e protestantes. O prisioneiro não podia nem esticar suas pernas, nem se deitar, nem ir ao banheiro, e claro, o deixavam sem se alimentar. Quantos dias antes que ele morresse? A tortura durava dias e dias. Esta imagem da gaiola ainda está no meu espírito. Dizem que a agonia do Cristo durou sete horas. Toda a humanidade tem que passar por isto. Existe um museu da tortura, onde se pode ver coisas inacreditáveis, mas não importa qual seja a causa da morte, todo mundo morre. Nossa vida o que é finalmente? Não respondo diretamente a esta pergunta.
Quando visitei o Vaticano não fiquei especialmente impressionado com este lugar, porque se sente que é um lugar do poder – exceto quando fui na cripta onde São Pedro foi enterrado. São Pedro pediu para ser crucificado de cabeça para baixo, porque ele se considerava como não tendo méritos para ser crucificado como o Cristo.
Aquele que viu sua morte assim mostra que viveu sua vida também assim, o instante da morte mostra exatamente como a pessoa viveu. Existe verdadeiramente muito sofrimento no mundo, como você vai morrer quando chegar o momento exato? A partir disto você poderá fazer algo para ajudar aos demais.