Segundo Teishô Sobre o Sutra Vimalakirti

Teishô nº2

Shishikai jikikun / Jirenka fujashi/ Shin shin jin joihi / Kisyurin bujoson

Esta frase, cantada no fim das refeições, e que termina com Kisyurin bujoson, vem do sutra de Vimalakirti:

Parecido com flores de lótus/ Que não toca nem a água nem a lama. / O sábio sai de toda esta impureza e se estabelece no sunyata, / E portanto eu me prosterno diante do despertar, o Que Vem Assim.

Esta vida no mundo no qual vivemos é de um lado uma vida mundana no mundo profano, de um outro lado uma vida no mundo sagrado.

O bodhisattva que vive na grande cidade está em contato com numerosas pessoas. A cada dia, vivemos experiências de todos os tipos, estamos confrontados com eventos provocados pelos três venenos: o apego (a avidez), a cólera, a ignorância, aos quais não se pode escapar. Às vezes dizemos para nós mesmos: “Seria maravilhoso habitar nas proximidades de uma praia!” Sim, mas de noite há o ruído incessante das ondas que perturba nosso sono. Então dizemos: “Isso é realmente infernal demais, vou viver nas montanhas”. Sim, mas na montanha há o vento, e o barulho feito pelo vento nas árvores nos perturba. Finalmente retornamos à cidade e ali nos deparamos com o ruído dos veículos, a agitação das multidões. O fato é que, se não tivermos o silêncio interno, onde quer que vamos será sempre barulhento, e mesmo se encontrarmos um local muito silencioso, este mesmo silêncio acabará perturbando. Viver neste mundo com simultaneamente um lado que toca no profano e um lado que toca no sagrado, isto exatamente é o zazen e o keka-fusa: a perna direita se torna a perna esquerda, a perna esquerda se torna a perna direita, o que quer dizer que um lado toca o tempo, o outro a eternidade. No fim das contas, a eternidade é este instante. A vacuidade não consiste em alcançar o que seja (muga), é ser mushotoku (sem objetivo), sentir exatamente este instante, o agora, e é isto que permite entrar neste samadhi.

A vacuidade quer dizer a “ausência de forma”. Como diz o sutra do Diamante: não existe forma, nem masculina nem feminina. Chamamos isto de os três samadhis: entramos na vacuidade que é a ausência de forma, onde não existe nem o masculino nem o feminino, não esperamos nada, porque este nada não é criado, é o não nascido. Estar no não nascido quer dizer um zazen muito rico, é a liberdade ou os “três tipos de liberdade”.

No começo do sutra de Vimalakirti que, como acabamos de ver, é um leigo, Vimalakirti tomba doente. Dentre os discípulos do Buda, alguns foram lhe visitar, e os primeiros designados para fazer isto eram os dez grandes discípulos do Buda, cada um dentre eles dominava uma especialidade. Sariputra era especialista na sabedoria ou no zazen. A história nos diz que estes discípulos designados para se encontrarem com Vimalakirti já o haviam encontrado anteriormente e todos haviam perdido suas discussões com ele.

Leitura de um extrato do sutra de Vimalakirti, capítulo III “Os auditores”, p. 41

(…) O Buda pediu a Sariputra que fosse visitar o grande ser para perguntar sobre sua saúde, mas Sariputra respondeu:
“Venerável pelo mundo, não posso aceitar isto, e vou contar por quê.
Eu me lembro de um dia que eu estava tranqüilamente sentado na floresta ao pé de uma árvore, quando Vimalakirti apareceu e me disse:
‘Ó Sariputra, não é necessário sentar como você está fazendo para estar tranqüilamente sentado.
Com efeito, quem está tranqüilamente sentado manifesta seu corpo e seu espírito em qualquer dos três mundos: isto é estar tranqüilamente sentado.
Manifestar todas as atitudes do corpo sem deixar o retiro da cessação, isto é estar tranqüilamente sentado.

Deixar aparecer as preocupações vulgares sem renunciar às realidades do Despertar, isto é estar tranqüilamente sentado.
Exercer as trinta e sete forças do Despertar sem se sacrificar a qualquer opinião filosófica que seja, isto é estar tranqüilamente sentado.
Chegar ao nirvana sem abolir as emoções negativas, isto é estar tranqüilamente sentado.
Quem pode sentar desta forma está marcado pelo selo do Desperto’.”

Ó Venerável pelo mundo, concluiu Sariputra, estas palavras me deixaram confuso, incapaz de replicar. Eis porque eu não ouso ir visitar o leito desta grande ser para perguntar sobre sua saúde.

É uma explicação muito boa a propósito do zazen, que não é unicamente somente sentar. Este sutra explica muito claramente que o zazen não é unicamente sentar, acrescentando que todos os discípulos do Buda foram confundidos por Vimalakirti.
Este sutra nos descreve de forma precisa que cada um destes discípulos tinha uma especialidade. No extrato acima, se trata, sem deixar a ignorância do sansara, de estar simultaneamente estabelecido no nirvana.

Então, eu peço a vocês que façam o zazen desta forma, quer dizer com bonno soku bodai. Quero dizer que estando sentados, se toca simultaneamente os dois lados que são o tempo e a eternidade. Na temporalidade tocamos os problemas da dualidade, do corpo, do mundo físico, mas é necessário ir além de tudo isto, porque não se trata de algo que vem, ou que se manifesta, isto está já lá, e é necessário que permaneçamos nesta temporalidade. Esta é toda a diferença entre praticar o zazen com um pensamento pré-estabelecido, um objetivo e estar sentado já “com”.

Estar sentado esperando um resultado mostra que ainda estamos longe e que a dualidade está instalada ali. Como saber se nossa atitude está correta? O caminho não depende do fato de saber se o que fazemos está correto ou não. O que chamamos de samadhi é estar assim, apreciar o sabor de estar assim. Este também é o sentido de shikantaza: Shikantaza não é estar “somente sentado”, é simplesmente “estar sentado assim”.

No último sesshin em Eitai-ji, eu falei um pouco do zen de Mestre Dogen que certas pessoas chamam de hongaku-mon, uma teoria que provém da escola Tendai, desde a origem existe o despertar, este despertar não provém somente da prática. Outros dizem que o zen de Dogen Zenji estaria ligado à escola Kegon. Em japonês se diz shoki: sho (como em bussho “natureza de buda”), ki “se manifestar, despertar”. Em certas ocasiões, sem que eu possa explicar isto, ao ouvir um som, vendo algo, respirando uma flor, esta natureza de buda vai surgir. Depois de ter atravessado o primeiro estágio de negação de tudo, esta natureza de buda volta naturalmente à sua origem o que quer dizer que nós somos o caminho e a forma que toma o caminho. A partir daí, podemos viver na cidade, ir para a cidade, nos tornar monges, voltar novamente à cidade, viver neste mundo profano como uma flor de lótus, símbolo do budismo, sem estar contaminados, porque compreendemos que tudo é a vacuidade. Para descrever este estado não-contaminado, Dogen Zenji empregou o termo fuzenna. Fuzenna-no-shusho “prática e realização sem contaminação” também é o koan de Nangaku Ejo, que foi perguntado pelo Sexto Patriarca: “O que é aquilo que vem assim?” Para esta pergunta, ele não pode responder. Depois de oito anos ele voltou a seu mestre e lhe disse, “Agora eu compreendo, quando cheguei aqui pela primeira vez, você me perguntou: ‘O que é aquilo que vem assim’?” “O que você compreendeu?” “Se eu falar, vou estragar tudo”. “Mas existe a prática e a realização?” “Sim, existe a prática e a realização, mas são não contaminadas”.

Se praticamos esperando um resultado, isso é a contaminação. Uma outra expressão japonesa empregada por Dogen Zenji é: gotsu za ni saeraru que quer dizer: “Ser perturbado pelo fato de estar sentado como uma montanha de pedra”.

Este termo, “perturbado”, tem uma conotação negativa, mas Dogen Zenji o usa num sentido positivo como também negativo.

Estar sentado como uma montanha, sem se mover: sentado em zazen, se pode estar perturbado pela agitação mental ou por um torpor, um sono (kontin), um entorpecimento, mas “estar sentado em zazen como uma montanha”, mostra que estes dois problemas de agitação ou de torpor cessaram de estar presente, e é este estado que Dogen descreve como sendo “perturbado por estar sentado como uma montanha”. Não se pode descer ou cair nestes dois extremos. Ele diz que mesmo depois de ter tido a iluminação e com isso ter sido perturbado pela iluminação, o Buda Gautama não pode parar de praticar porque a prática ela mesma era a iluminação, e que prática e realização não eram duas coisas separadas. A questão não é simplesmente crer nisto e sentar, mas mais sentar e sentir realmente que o satori não é nada mais do que esta prática, este zazen que nós praticamos aqui. Não é nem vocês nem eu nem uma outra pessoa estúpida, é o Buda mesmo que está sentado. Por que o Buda? Porque é a natureza de Buda que aparece. Em vez de ir passear, vocês consagraram este fim de semana, estas preciosas férias, a vir sentar, vocês escolheram ser perturbados por este surgimento da natureza de buda. Às vezes é impossível de escapar a isto… Ficando próximos, observando isto, o que ocorre então? Se o Dharma estiver maduro, ele se manifesta através deste corpo. Você não sabe disto e não necessidade de saber. O samadhi é o estado onde a pessoa se torna “um”, um estado em que não se pode ver a si mesmo, mas que os outros podem reconhecer. É muito precioso.

Em sua tradução chinesa, o sutra de Vimalakirti fala de maha-muni. Quando o Buda Shakyamuni falava, seus interlocutores compreendiam seu ensinamento em suas próprias línguas. É o que se chama do sermão de um só som. O mesmo valia para Jesus Cristo quando ele recebeu o Espírito Santo. É um pouco como dotoku “a expressão da verdade”: quando você realmente tem a voz, pode falar.

Quando o Buda pronunciou este som, alguns se assustaram, outros ficaram muito felizes e não desejaram mais ficar neste mundo profano, e para alguns outros suas dúvidas foram despedaçadas de forma definitiva. É por isso que é preciso exprimir o Dharma assim. No meu caso, não é “desta forma”, mas é possível que uma só palavra que venha de um sutra tenha sua própria força e neste caso não depende mais de mim, é o Dharma ele mesmo que começa a operar. Eu ensino o Dharma enquanto que não faço mais nada além de falar.

O que vocês acham desta vida numa grande cidade, neste mundo, um pouco como um monge, um pouco como um leigo, depois de vários anos de prática? Que acontecerá com a nossa sangha no futuro? É uma grande pergunta sobre a qual temos que refletir.

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