Sutra Vimalakirti

Teishô n°1

Durante este sesshin de fim de semana, eu escolhi tratar do Sutra de Vimalakirti (sânscrito: Vimalakirti Nirdesa Sutra, japonês: Yuimakyo)

Durante o último sesshin em Molans (em maio último) falamos do Sutra do Diamante e naquele [outro sesshin] de Eitaiji que se seguiu, estudamos o sutra Kegon. Foi muito superficial, todos estes sutras deveriam ser estudados muito mais profundamente.

Neste ano vamos estudar muitos sutras Mahayanistas. Aqui na Europa, contrariamente à China e ao Japão, quando chegou o Budismo Zen, poucas pessoas tinham conhecimentos verdadeiros sobre o budismo.

O que se seguirá não é na verdade um teishô com estudo de koans, mas é mais explicações sobre este sutra de Vimalakirti, do qual temos uma tradução para o francês por Philippe Cornu e Patrick Carré, publicado em 2000. Antes havia aquela de Etienne Lamotte, feita a partir da versão tibetana e a versão chinesa de Huian-tsang. Aquela de Patrick Carré foi feita a partir da versão chinesa de Kumarajiva.

Como vocês sabem, este Vimalakirti do qual o sutra fala não é um mestre, mas um simples leigo. Ele era rico, tinha uma casa, uma esposa, filhos, e podia ir por toda parte (não ao cinema já que isso não existia ainda…), ao teatro, a bares, etc. Segundo o que penso, Vimalakirti não era um personagem histórico. Seu personagem deve ter sido inventado para relevar certos aspectos do budismo Mahayana. Se bem que este Sutra de Vimalakirti tenha se tornado bastante célebre e que contenha muitas coisas interessantes, Dogen Zenji não o apreciava muito, achando-o muito teórico.

Leitura de um extrato do Sutra de Vimakirti, capitulo primeiro, “os reinos do buda”.

Homenagem a todos os budas e bodhisattvas!

Assim ouvi dizer: naquele tempo, o Buda se encontrava em Vaishali, no parque de Amrapali, em companhia de oito mil grandes monges mendicantes e trinta e dois mil bodhisattvas. Estes últimos eram amigos espirituais de todos, porque tinham cumprido todas as práticas fundamentais da grande sabedoria: instituídos pelas imponentes divindades dos budas, eles defendiam a cidade do Dharma da qual tinham recebido os ensinamentos autênticos para ser seus depositários.

Os sutras sempre começam por “Assim ouvi dizer”: Entendi o Buda dizer o seguinte, ou em japonês nyoze. Hoje em dia sabemos que todos os sutras do Mahayana não são sermões pronunciados diretamente pelo Buda, mas cremos que esta sabedoria, este ensinamento, provém do Buda. Por outro lado Amrapali existiu bem concretamente, era uma leiga que praticava com o Buda. Amrapali era uma cortesã de alto escalão que recebia príncipes e reis. No começo do sutra, seu nome apareceu e isso nos diz que isso ocorreu na casa dela, em seu parque.

Um dia Amrapali tinha convidado o Buda a ir almoçar com ela, e um príncipe queria igualmente convidar o Buda no mesmo dia e na mesma hora. O Buda recusou o convite, dizendo que já tinha sido convidado por Amrapali. O príncipe, ferido em seu orgulho (“Como, eu, um príncipe, convido e ninguém vem!”), foi a Amrapali e suplicou com ela a desistir de seu convite, mas foi baldado, ela recusou porque ela achava que se tratava para ela de oportunidade da qual estava muito orgulhosa, devido à importância do Buda.

Em Eihei-ji que é nosso mosteiro “Quartel-general”, é freqüente que as pessoas queiram doar os alimentos, que se chama de tentai (oferendas), que são servidos à comunidade ou ao meio dia ou à noite (yakusaki). Regra geral, ninguém é autorizado a entrar no zazendo, mas em certas ocasiões, os monges responsáveis pela hospitalidade permitem que os doadores entrem no zazendo. É muito emocionante de presenciar isso, enquanto os monges cantam sutras, por exemplo, o busho kabira, o doador caminha diante de todos os monges, no interior e no exterior do zazendo. Da primeira vez que assisti a esta cerimônia fiquei realmente emocionado.

Quando cheguei ao Brasil, ninguém doava o que quer que fosse e eu disse para mim mesmo: Como isto é possível, quando no Japão não há lugar suficiente para receber todos os doadores!

O doador entre no zazendo e avança entre os monges alinhados no tan (no estrado elevado). Quando o doador chega onde está cada monge, este faz um gassho, em seguida volta ao seu zazen.

Quando eu vi isto, disse de mim para mim: isto é a forma do Dharma. Nos dias de hoje esta prática está tendendo a desaparecer. Até uma época recente, o doador era recebido com as mesmas honras de um chefe de estado, que o protocolo exige um tapete vermelho e a presença de militares ou soldados que o saúdem.

É possível que todos os sermões atribuídos a este personagem de Vimalakirti tenham sido pegos emprestados a diferentes pessoas e reunidos em um só texto.

Para mim este sutra é importante porque descreve alguém que viveu numa grande cidade com os demais. Nossa prática tem dois aspectos: aquele de viver na montanha, ou seja, alguns monges num mosteiro, o outro de viver como todo mundo, conhecer e partilhar os problemas de uma vida moderna. Dizem que o pequeno sábio está escondido na montanha, enquanto que o grande sábio está escondido na grande cidade.

No último sesshin feito em Eitai-ji, eu tomei de dois capítulos do sutra Kegon: Juchikyo “Os dez graus do bodhisattva”, que descreve a evolução do bodhisattva através de dez etapas e Nyuhoka-bon, “A entrada no mundo do Dharma”. Nyuhoka-bon descreve um menino que presta visita a cinqüenta e três sábios, sendo que o primeiro é o Bodhisattva Monju (Manjusri) e o último é o bodhisattva Maitreya. Depois de ter se encontrado com Maitreya, o menino volta ao Bodhisattva Monju, o que quer dizer que para despertar a bodhicitta (o despertar do espírito da iluminação) é necessário voltar novamente e repetidamente. Dentre os cinqüenta e três mestres, fora quatro bodhisattvas, e os cinco monges (sânscrito Biku), todos os demais são simplesmente leigos, mulheres, crianças, reis, deuses, etc., ou seja, exatamente este mundo no qual nós vivemos. São estes os aspectos que achamos neste sutra, o sutra de Vimalakirti.

Dogen Zenji disse: ir ao mosteiro e sair do mosteiro, o caminho dos pássaros é em si mesmo um mosteiro. Este caminho, essa passagem dos pássaros, é parte dos três aspectos, genshi, chodo (o caminho dos pássaros), suishu de Mestre Tozan, porque no fim das contas, o universo inteiro é um mosteiro para nós, praticantes do zen, se trata de viver no mundo, não somente fazendo zazen, participando de sesshins, de angos, mas todo o tempo.

Agora mesmo, pelo menos é o que eu acho, não existe diferença entre leigos e monges. Nós vivemos no mundo, entre as pessoas, que ignoram o que seja o budismo, e mesmo assim, sem que uma só palavra seja pronunciada, o contato com os outros pode produzir alguma coisa.

O primeiro ensinamento do Buda é engi: tudo é interdependente, aquele que pode possuir engi pode ver a vacuidade, aquele que pode ver a vacuidade pode ver o tathata, a natureza do buda. Concedo no que me toca, que se bem que eu compreenda de maneira teórica, ver a vacuidade é sempre difícil. Eu acho que deve se tratar de uma experiência que podemos chamar de musho honi, compreender que tudo é não-nascido, ter uma experiência cujo resultado seria como “se render à evidência”.

Dogen Zenji disse que para despertar a bodhicitta, o mais importante de tudo é sentir a impermanência das coisas deste mundo. Se bem que a cada dia nós façamos a experiência desta impermanência, é extremamente difícil a sentir realmente e profundamente. O que é esta impermanência?

Em japonês, fazemos uma confusão entre mujô, “impermanência” e mujo (mesma pronúncia) que quer dizer “miserável”. Esta experiência que consiste em ver o não-nascido, é ao mesmo tempo muito profunda, muito elevada, e esta compreensão não vem do intelecto. Todo mundo pode compreender com o espírito, para tal basta ler os sutras, os livros, estudar… Não me oponho absolutamente a que estudem os sutras, livros sobre o budismo, além disso muitos patriarcas como por exemplo Tokusan e Eka, o segundo patriarca, eram professores, palestrantes, mas num dado momento, somos confrontados por algo que é impossível de ser resolvido via intelectual.

Quando durante o sesshin, um professor explicava o que era hosshin (dharmakaya), era um ensinamento acessível a todos, mas um monge sorriu num certo momento. O professor observou isto, sentiu algo, e depois do ensinamento, ele foi ver o monge e lhe disse: “Eu te vi sorrindo, talvez eu tenha cometido algum erro?” O monge respondeu: “Não, não, você não cometeu erro algum, ao contrário, deu uma explicação maravilhosa”. “Mas então por que você sorriu?” “Sorri porque, se bem que sua explicação estivesse perfeita, você não sabe por si mesmo o que é o dharmakaya”. “O que posso fazer?” “Feche os livros, entre no seu quarto, feche a porta, e durante uma semana, somente fique sentado. Eu trarei toda a alimentação e tudo mais que você tiver necessidade”.

O zen do não-nascido (fusho zen) foi criado pelo Mestre Bankei, um mestre zen. Infelizmente sua linhagem se extinguiu.

Quando era leigo, Mestre Bankei colocava muitas perguntas para as quais ninguém conseguia dar a resposta. Quando alguém lhe recomendou que praticasse zazen, ele se instalou numa espécie de heremitério, ficando fechado ali durante dias, sem comer, até que ficou doente. Ele tossia muito e cuspia sangue. Naquela época, a época de Edo (1615-1868), as doenças pulmonares como a tuberculose eram fatais. Ele disse de si para si: “Se eu morrer, que seja sentado em zazen”. De repente ele teve um ataque de tosse, e jorrou de sua boca uma bola de sangue que foi se colar no muro e escorreu muro abaixo. Dizem que vendo as gotas de sangue rolando pelo muro, ele se iluminou, e que sua saúde melhorou com isto.
Em seguida a isto ele começou a ensinar de forma maravilhosa, se deslocando por todo país para fazer sermões que se dirigiam a pessoas muito numerosas, muito diversificadas – sem se estabelecer num mosteiro qualquer com uma sangha. Para ele, se tratava essencialmente de exprimir o não-nascido de forma muito simples. Existe um registro (goroku) dos escritos de Bankei Zenji e Daisetz Suzuki fez um bom estudo deste mestre. Quando perguntaram a Mestre Bankei como ele chegou a este estado do não-nascido, ele respondeu: “Não se torna não-nascido, este não-nascido se perpetua enquanto não-nascido”. É também muga “não-ego”: a pessoa está sentada, se quer tornar muga, não ego, não-pensamento, mas então é inútil tentar se tornar não-ego, não-pensamento, é suficiente simplesmente perpetuar esta estado já existente.

Já está na hora.

Leitura de um extrato do Sutra de Vimalakirti, capítulo 2, p. 36-37

(…) Com o pretexto de sua doença, Vimalakirti tratou de ensinar o Dharma a todos aqueles que vinham lhe ver.

Caros amigos, dizia ele, jamais sábios se orgulhariam de um tal corpo como este.
Este corpo é uma espuma que não dá para pegar
Este corpo é uma bolha preste a explodir.
Este corpo é uma miragem engendrada pela sede.

Este corpo é uma bananeira ao coração inconsistente.
Este corpo é uma ilusão nascida do desprezo.
Este corpo é uma sombra projetada por causas kármicas.
Este corpo é um eco submisso às interdependências.
Este corpo é uma nuvem flutuante que de momento em momento se transforma e em seguida não é mais.
Este corpo é um raio que jamais se detém.

Como a terra, este corpo não tem proprietário.
Como o fogo, este corpo não tem identidade fixa.
Como o vento, este corpo não tem duração.
Como a água, este corpo não tem individualidade.
Este corpo não é verdadeiro: é uma casa construída com a ajuda dos quatro elementos.
Este corpo é vazio: desprovido de “eu” e “meu”.
Este corpo é inconsciente: como as ervas e madeiras, como a areia e tijolos.
Este corpo é inativo: é o vento que o faz se voltar.
Este corpo é impuro: ele solta imundícies.

Este corpo é uma sedução: a convenção exige que o banhemos, o vistamos, o alimentemos, mas terminará na poeira.
Este corpo é uma catástrofe que cem doenças afligem.
Este corpo é um poço seco: sempre o envelhecimento o aguilhoa em frente.
Este corpo é pouco seguro, mas certo é que perecerá.
Este corpo evoca as serpentes venenosas, os assaltantes sanguinários, e as choupanas desertas: resulta da conjunção dos agregados, dos domínios e das fontes de percepções.

Caros amigos, este corpo é odioso. Amem mais o corpo do Buda, porque o corpo do buda, é o corpo do Dharma.

No sesshin de Molans, nós estudamos o Sutra do Diamante, que evoca todos estes aspectos dos quais acabamos de falar e sobre os quais é importante refletir. Nosso corpo nada mais é do que uma poeira e comparado a este universo, esta eternidade, nada é. Mas com a primeira experiência do zen, hosshin (dharmakaya), este corpo se torna algo que utilizamos não para nosso próprio prazer, ou por apego, mas para este universo. Não estou falando de ética, ou de moral, mas de vida religiosa, a saber, cada instante, sem estar consciente, nossa vida fica sendo aquela de um bodhisattva.

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Leia os outros teishôs do Sutra Vimakakirti:

Segundo Teishô Sobre o Sutra Vimalakirti
Terceiro Teishô Sobre o Sutra Vimalakirti
Quarto Teishô Sobre o Sutra Vimalakirti
Quinto Teishô Sobre o Sutra Vimalakirti