Sobre a Prática – Gyoji – Paris, março de 2002

Leitura e Comentários sobre um extrato do “Gyoji”
Sesshin “Salle Assise” Paris
Do 8 a 10 de março de 2002

PARTE I

Disse Mestre Dogen: “A virtude desta conduta e da observância dos preceitos nos mantém e mantém o mundo externo. O que é importante no instante de minha conduta e de minha observância é que a terra toda e o céu nas dez direções estão totalmente recobertos pela virtude de minha conduta e de minha observância dos preceitos. Os outros não sabem disto, e eu não sabia disto, mas é assim que funciona. Também, com a conduta e observância dos preceitos, da existência dos budas e patriarcas, suas próprias condutas e observâncias são realizadas e nosso próprio grande estado de verdade é experimentado intimamente através de nossa prática e de nossa observância dos preceitos, a conduta e observância dos budas é realizada e o grande estado da verdade dos budas é experimentado intimamente. É graças à nossa conduta e a nossa observância que as virtudes deste ciclo existem.”

Nesse parágrafo, Mestre Dogen fala de nossa prática, dos méritos ou virtudes de nossa prática. Ele fala do jijuyu zanmai, o samadhi autônomo que nós já encontramos no capítulo do “Bendowa”, onde é dito que uma pessoa, um monge, pode deixar seu trabalho, sua família para ir para a montanha e praticar. Alguns acham que esse é um comportamento egoísta de uma pessoa que deseja escapar de suas responsabilidades.

No budismo tibetano, quando os lamas fazem retiros, existem muitas pessoas que os ajudam nestes retiros. Assim, é também uma questão do “samadhi autônomo”. Sabe-se quem encoraja, quem mantém ou não mantém esta prática de samadhi nas montanhas. Esta prática do samadhi autônomo não é uma prática que se possa fazer por si mesmo, porque estamos sentados com o universo inteiro.

Nos sutras, às vezes se fala de “florestas luminosas”. Isto parece deveras estranho. Então, alguém, um caçador ou um açougueiro, foi àquele lugar e descobriu um monge sentado em zazen. Eu não creio que a floresta ou a montanha se tenham realmente tornado brilhantes ou luminosas, mas se alguém realmente pratica naquela floresta, então as pessoas respeitam isto e a floresta se torna algo de sagrado.

No Cristianismo, no Islam ou no Budismo, existem muitos lugares sagrados aonde as pessoas dirigem-se em peregrinação. É possível que aquela pessoa que pratica na floresta não tenha consciência de tudo isto, que ela não sinta a relação com os outros. Alguns o sentem, outros não o sentem diretamente, outros ainda não sentem nada.

Dogen Zenji disse: “Os outros não o sabem, e nós mesmos não o sabemos.” Isto é muito importante porque isto nada tem a ver com o resultado de um cálculo, porque da prática se pode dizer muitas coisas, se pode falar da influência que se recebeu mas tudo que se possa dizer não cobre senão pequenos pontos. Existe algo de maior que nós podemos conceber.

Um ponto muito importante é que da prática ininterrupta dos budas e patriarcas, mais prática é gerada. Pode-se dizer que graças ao Buda Gautama, esta prática foi transmitida e se espalhou através da sucessão de numerosos patriarcas, e que com nossa prática este grande caminho se manifesta presentemente. Para mim este caminho não é um caminho sobre o qual se caminha, é também um estado, como aquele estado de simultaneidade do qual já falamos e no qual se pode entrar através desta prática. É a importância da prática contrastando com o estudo teórico do budismo.

Se praticamos, logo que começamos a entrar naqueles estados, imediatamente nos encontramos “no coração”, é o momento absoluto. Neste momento aquele que pratica, quer seja você ou um outro qualquer, vira um buda e um patriarca instantaneamente, porque já o grande caminho ultrapassou a temporalidade, não é uma questão de passado, presente e futuro, ainda que exista um passado e um presente.

No capítulo “Uji” do Shobogenzo, Mestre Dogen diz: “Sekito é o tempo, os mestres são o tempo, eles aparecem no tempo e o tempo os faz aparecer”. Claro, existe o passado e o presente, há a “existência-tempo”, a existência manifesta-se no tempo e o tempo é a existência. No momento, não existe o passado nem o presente, quer dizer, aquilo que se manifesta a cada momento é o presente absoluto. Pode-se dizer que isto é comparável a uma pérola que rola por sobre um espelho. A cada instante, não existe senão o presente absoluto e é este presente absoluto que se perpetua. No instante não existe nem o passado nem o presente.

Certas pessoas, mesmo monges, dizem: “Eu pratiquei muito duro no passado, quando estava no mosteiro.” Mas quando foi isso? Há trinta anos. E agora, o que você faz? “Agora eu estou dando um tempo, sou velho e estou descansando.” O que quer dizer que não existe mais prática, que a prática não foi continuada até o presente. Este aspecto da continuidade é muito duro para nós, muito duro para nossa prática. É muito importante para Mestre Dogen, que fala disto várias vezes no “Zuimonki”, especialmente no que diz respeito à doença.

“No momento estou eu doente, antes tenho que ficar bom, depois eu poderei voltar à prática.” “Tenho uma família que depende de mim e da qual me ocupo o que é muito importante, claro, minha mãe ficou velha e depende de mim.”

Então, espera-se o momento de sua morte para poder começar a praticar. De fato, não é assim que isto acontece. Ou, ainda, temos um cachorro que nos fez companhia durante anos e pensamos: “Se eu o confiar a qualquer outra pessoa, este cachorro vai sofrer-ele é muito doce…” Então esperamos que o cachorro morra, perdemos três, quatro, cinco anos, e quando chega o momento, existem muitas e muitas outras justificativas. “Eu farei tal e tal”. Isto jamais se passa no presente, está sempre no futuro.

O dinheiro é um muito grande problema e para entrar no mosteiro são necessárias preparações. “Não tenho dinheiro suficiente, ou seja, não há dinheiro suficiente para que eu entre no mosteiro…” e detemos nossa prática por causa disto. Isto quer dizer que algo não vai bem, algo de importante não vai bem.

Se, pelo contrário, nos abandonamos, se renunciamos um pouco a nós mesmos, é possível que algo venha em nosso socorro, mesmo financeiramente. Vocês não sabem disto, não têm certeza disto, os outros menos ainda, nada se pode prometer, mas se vocês esperarem que isto venha, não mais poderão entrar.

O momento em que se toma a decisão de entrar custe o que custar, não é exatamente a realização, mas já é a prática gyoji, a prática justa de inúmeros mestres que nos precederam, de todos estes mestres citados no capítulo “Gyoji” e que Dogen Zenji chama kobutsu “velhos budas”.

Todos estes momentos de escolha são como se marchássemos sobre uma espada. Se calcularmos, se nos perguntarmos: “Posso ir por este caminho ou não?” então você já está morto. Em primeiro lugar, é necessário rejeitar nosso corpo, nossa consciência, nosso ego. Se vocês estudam o budismo, se vocês ainda sabem coisas, vocês podem ensinar, escrever livros, mas quanto à prática, a prática “gyoji” da qual falávamos, isto é outra coisa.

A propósito de estudar o budismo, por que tradicionalmente o budismo zen recomenda: “Não leia”? Porque se você lê livros clássicos sobre o budismo, a massa de seus conhecimentos vai se tornar muito importante; mas eu posso lhes assegurar que todos estes conhecimentos nada terão a ver com a prática, com gyoji, esta prática a qual mencionamos.

Eu digo a vocês: isto não tem nada a ver, o que quer dizer que não há o menor elo de ligação entre o conhecimento e a prática, mas por outro lado, pode haver um elo no interior de algo mais vasto, que nós não conhecemos.

Isto é um pouco como andar com um cachorro numa coleira. Hoje em dia existem coleiras que se desenrolam e dão um pouco mais de liberdade ao cão até que a coleira acabe e não permita que o cão vá mais longe e seja obrigado a voltar. Para nós, é parecido, nos damos muitas desculpas para escapar do caminho, mas existem momentos em que não se pode mais escapar. Nesses momentos, livros não têm qualquer utilidade, ainda que seja necessário lê-los.

* * * * *

SOBRE A PRÁTICA, PARTE II

Leitura e Comentários sobre um extrato do “Gyoji”
Sesshin “Salle Assise” Paris
Do 8 a 10 de março de 2002

Mestre Dogen ensinou: “Através deste meio, cada buda e cada patriarca é ele mesmo um buda, se supera enquanto buda, realiza o espírito enquanto buda, e é realizado enquanto buda sem qualquer interrupção.”

O texto original é bastante difícil, isto é realmente uma característica da linguagem de Mestre Dogen. Nós mesmos podemos manter este grande caminho pela prática do caminho.

Uma abadia, um templo chama-se juji que quer dizer “aquilo que guarda, que vive para preservar”, isto é sua responsabilidade já que existe algo de mais elevado, existe um superar, um transcender o estado de buda. Dizer: “Eu não sei e os outros sabem” é ultrapassar e quando se diz “Eu não sei e os outros menos ainda” existe no interior disto um ultrapassar que se opera.

É uma chave para compreender a característica da escola Soto. Não existe algo de fixo, tal como “Eu obtenho este kensho, primeira experiência, eu obtenho o inka (a certificação) e eu me torno imediatamente roshi.” Já se sabe, todo mundo reconhece, mas é necessário esquecer tudo isso porque, se não se esquecer disso, tem-se consciência de si mesmo, sentindo-se importante. É uma armadilha na qual se pode cair, o que é bastante perigoso. Eis a razão pela qual, nesses momentos, é necessário se ter uma prática muito forte.

Com essa prática, vem a experiência, mas se ficarmos apegados a essa experiência pode, não necessariamente para todos, aumentar o ego. Pode-se ficar tentado a se comparar com os outros e de se dizer: “Minha experiência é diferente daquela dos demais, ela é mais forte.” Isso se constitui numa doença do zen. A expressão empregada é a seguinte: “Não reconhecer o cheiro de seu próprio xixi, enquanto que os outros não o podem agüentar.”

Por isso é muito importante esquecer, porque se ficamos apegados às experiências, isso pode criar problemas. Claro, é importante guardar estas experiências mas prosseguir a prática para, ao mesmo tempo, superar as etapas.

Busshin, que quer dizer o espírito do buda é a outra etapa. Dogen Zenji utiliza Busshin como se fosse um verbo e o traduz como: “Realizar o espírito como buda”, quer dizer, praticar de tal forma que o espírito de buda (busshin) se manifeste a cada instante e, assim, realizar o buda sem interrupções, de maneira infinita, o que é bastante difícil.

Podemos escapar a esta prática dizendo que já que realizamos o satori. ‘Está tudo bem, cheguei, acabei.” Mesmo assim praticar e continuar a praticar depois disto, é uma outra coisa.

Quando Dogen Zenji foi à China e encontrou-se com Nyojo Zenji, depois de ter realizado o “jogar fora corpo e mente” ele não disse jamais: “Eu obtive a iluminação” mas ele disse: “Eu ganhei grandes coisas em minha vida.” Então, ele voltou ao Japão, continuou a praticar e a estudar. Ele ensinou, escreveu o “Shobogenzo” para dar explicações daquilo que ele havia compreendido.

Isso me fez compreender que se você tem grandes experiências, a maneira com a qual você as conserva, a maneira com a qual você as trata, isto também é a prática gyoji. Isso não está somente no passado, isto é guardar esta experiência constantemente no presente porque é assim que se pode saber se é uma experiência autêntica ou não.

Dogen Zenji disse que esta prática não é uma prática de pessoas comuns e que existem poucos leigos que pratiquem desta forma. Naquela época, em geral os mosteiros organizavam um ou dois sesshins por ano; às vezes um sesshin por mês de duração de quatro dias, e quando os monges saíam, eles paravam de praticar.

Por isto Mestre Dogen disse: “Não existem muitas pessoas que gostam desta prática, mas é, contudo, o lugar para onde todos voltam porque é a origem. Se você chegou a este lugar, a esta realidade, você é uma pessoa verdadeira, no presente, neste presente dos budas e patriarcas. Este lugar é o lugar onde todos os budas do passado do presente e mesmo os budas do futuro são realizados. Por isso todos os budas do passado e mesmo os budas do futuro dependem desta prática agora.”

Eu lembro que numa ocasião eu falei do tempo. Pode-se dividir o tempo em passado, presente e futuro, em três partes. Passado, presente e futuro podem, por sua vez, ser divididos em três partes, o que nos dá: passado passado, passado presente, passado futuro, presente passado, presente presente, presente futuro, futuro passado, futuro presente e futuro futuro. Assim passado, presente e futuro podem ser divididos em nove e essas nove partes nada mais constituem que uma só coisa, assim se obtendo a cifra dez (adicionando nove ao um) e este dez é um.

Quando entramos nesta prática, se estabelecemos uma ligação com todos os budas, damos a mão aos outros patriarcas, fazemos um círculo com eles, e neste instante, passado, presente e futuro desaparecem, não existe senão o presente e este presente é a liberdade: o passado pode se tornar o futuro e o presente é o presente quando existe uma prática verdadeira.

É justamente este tipo de prática que fazemos no sesshin. Cada vez aparecem situações, dificuldades que se apresentam. A prática é: como resolver estas dificuldades para vir praticar aqui, não somente aqui mas para praticar em casa ou no dojo.

Para voltar ao começo do capítulo: esaas coisas não vêm de vocês, não dependem de suas forças, elas se produzem e é estranho. É muito difícil entrar neste anel do caminho, mas uma vez tendo entrado, não há saída, quer se ache isto uma felicidade ou infelicidade.

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