Sobre a Prática (2)

Leitura e Comentários sobre um extrato do “Gyoji”
Sesshin “Salle Assise” Paris
Do 8 a 10 de março de 2002

Mestre Dogen ensinou: “Através deste meio, cada buda e cada patriarca é ele mesmo um buda, se supera enquanto buda, realiza o espírito enquanto buda, e é realizado enquanto buda sem qualquer interrupção.”

O texto original é bastante difícil, isto é realmente uma característica da linguagem de Mestre Dogen. Nós mesmos podemos manter este grande caminho pela prática do caminho.

Uma abadia, um templo chama-se juji que quer dizer “aquilo que guarda, que vive para preservar”, isto é sua responsabilidade já que existe algo de mais elevado, existe um superar, um transcender o estado de buda. Dizer: “Eu não sei e os outros sabem” é ultrapassar e quando se diz “Eu não sei e os outros menos ainda” existe no interior disto um ultrapassar que se opera.

É uma chave para compreender a característica da escola Soto. Não existe algo de fixo, tal como “Eu obtenho este kensho, primeira experiência, eu obtenho o inka (a certificação) e eu me torno imediatamente roshi.” Já se sabe, todo mundo reconhece, mas é necessário esquecer tudo isso porque, se não se esquecer disso, tem-se consciência de si mesmo, sentindo-se importante. É uma armadilha na qual se pode cair, o que é bastante perigoso. Eis a razão pela qual, nesses momentos, é necessário se ter uma prática muito forte.

Com essa prática, vem a experiência, mas se ficarmos apegados a essa experiência pode, não necessariamente para todos, aumentar o ego. Pode-se ficar tentado a se comparar com os outros e de se dizer: “Minha experiência é diferente daquela dos demais, ela é mais forte.” Isso se constitui numa doença do zen. A expressão empregada é a seguinte: “Não reconhecer o cheiro de seu próprio xixi, enquanto que os outros não o podem agüentar.”

Por isso é muito importante esquecer, porque se ficamos apegados às experiências, isso pode criar problemas. Claro, é importante guardar estas experiências mas prosseguir a prática para, ao mesmo tempo, superar as etapas.

Busshin, que quer dizer o espírito do buda é a outra etapa. Dogen Zenji utiliza Busshin como se fosse um verbo e o traduz como: “Realizar o espírito como buda”, quer dizer, praticar de tal forma que o espírito de buda (busshin) se manifeste a cada instante e, assim, realizar o buda sem interrupções, de maneira infinita, o que é bastante difícil.

Podemos escapar a esta prática dizendo que já que realizamos o satori. ‘Está tudo bem, cheguei, acabei.” Mesmo assim praticar e continuar a praticar depois disto, é uma outra coisa.

Quando Dogen Zenji foi à China e encontrou-se com Nyojo Zenji, depois de ter realizado o “jogar fora corpo e mente” ele não disse jamais: “Eu obtive a iluminação” mas ele disse: “Eu ganhei grandes coisas em minha vida.” Então, ele voltou ao Japão, continuou a praticar e a estudar. Ele ensinou, escreveu o “Shobogenzo” para dar explicações daquilo que ele havia compreendido.

Isso me fez compreender que se você tem grandes experiências, a maneira com a qual você as conserva, a maneira com a qual você as trata, isto também é a prática gyoji. Isso não está somente no passado, isto é guardar esta experiência constantemente no presente porque é assim que se pode saber se é uma experiência autêntica ou não.

Dogen Zenji disse que esta prática não é uma prática de pessoas comuns e que existem poucos leigos que pratiquem desta forma. Naquela época, em geral os mosteiros organizavam um ou dois sesshins por ano; às vezes um sesshin por mês de duração de quatro dias, e quando os monges saíam, eles paravam de praticar.

Por isto Mestre Dogen disse: “Não existem muitas pessoas que gostam desta prática, mas é, contudo, o lugar para onde todos voltam porque é a origem. Se você chegou a este lugar, a esta realidade, você é uma pessoa verdadeira, no presente, neste presente dos budas e patriarcas. Este lugar é o lugar onde todos os budas do passado do presente e mesmo os budas do futuro são realizados. Por isso todos os budas do passado e mesmo os budas do futuro dependem desta prática agora.”

Eu lembro que numa ocasião eu falei do tempo. Pode-se dividir o tempo em passado, presente e futuro, em três partes. Passado, presente e futuro podem, por sua vez, ser divididos em três partes, o que nos dá: passado passado, passado presente, passado futuro, presente passado, presente presente, presente futuro, futuro passado, futuro presente e futuro futuro. Assim passado, presente e futuro podem ser divididos em nove e essas nove partes nada mais constituem que uma só coisa, assim se obtendo a cifra dez (adicionando nove ao um) e este dez é um.

Quando entramos nesta prática, se estabelecemos uma ligação com todos os budas, damos a mão aos outros patriarcas, fazemos um círculo com eles, e neste instante, passado, presente e futuro desaparecem, não existe senão o presente e este presente é a liberdade: o passado pode se tornar o futuro e o presente é o presente quando existe uma prática verdadeira.

É justamente este tipo de prática que fazemos no sesshin. Cada vez aparecem situações, dificuldades que se apresentam. A prática é: como resolver estas dificuldades para vir praticar aqui, não somente aqui mas para praticar em casa ou no dojo.

Para voltar ao começo do capítulo: esaas coisas não vêm de vocês, não dependem de suas forças, elas se produzem e é estranho. É muito difícil entrar neste anel do caminho, mas uma vez tendo entrado, não há saída, quer se ache isto uma felicidade ou infelicidade.

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