Sexto Teishô Sobre o Sutra do Lótus

TEISHÔ Nº6

Eu dizia a Nicole que acabou de bater o han (sino de madeira) que a prática do zen não é um estudo, mas uma cópia, um prática, calcada naquela de outros. Durante a cerimônia matinal, quando vocês observam o doshi, compreendam que não se trata de ninguém mais do que você mesmo, neste momento vocês praticam com ele, se bem que quando ele comete um erro, quando sua vez de ser doshi chegar, vocês não repetirão tal erro. Da mesma forma, quando ouvem o han toda manhã, vocês não somente estão se preparando para fazer zazen, vocês estão praticando o han com ele, vocês roubam sua maneira justa de bater no han, e é gostoso ouvir um belo som. Não se trata de contar sete-cinco-três, mas assim como ocorre no aprendizado de uma língua estrangeira, primeiro é preciso ouvir os sons, os copiar, os roubar. Quando uma pessoa morre, vocês não devem dizer: “Ela está morrendo”, devem morrer com ela a fim de adquirir esta sabedoria. A verdadeira prática consiste a aproveitar todas estas ocasiões e as copiar. Isso não se dirige somente à Nicole, mas a todo mundo.

Leitura de um extrato de “Yui-butsu-yo-butsu” “Os budas conjuntamente com os budas”, (volume 4, capítulo 91, p. 219)

Existe uma expressão dos tempos antigos que diz que ninguém mais que um peixe conhece o espírito do peixe e que ninguém mais do que os passarinhos conhecem os traços dos passarinhos. Poucos são os que conhecem tal princípio. Aqueles que o interpretaram achando que somente os seres humanos não conhecem o espírito do peixe ou que os seres humanos não conheçam o espírito dos passarinhos, interpretaram erroneamente a expressão. A forma adequada de a compreender é a seguinte: Os peixes conjuntamente com os peixes conhecem sempre os espíritos uns dos outros. Nunca estão ignorantes uns dos outros como os seres humanos. Quando começam a se movimentar para subir a torrente do rio e para passar pela Porta do Dragão, todos sabem e todos conjuntamente unem seus espíritos. O espírito que permite que se suba as nove cachoeiras de Chekiang é também comunicado em comum. Mas somente os peixes conhecem tal espírito. Da mesma forma, quando os passarinhos voam no céu, as criaturas que caminham nunca podem imaginar, mesmo em sonhos, que exista uma forma de seguir tal forma de se movimentar; as criaturas que caminham não sabem que tais traços existem e não exemplos de criaturas que caminhem que possam saber de tais coisas. Seja lá como for, os passarinhos podem ver de formas múltiplas que centenas ou milhares de pequenos que se reuniram e voaram embora, ou que sejam traços de grandes pássaros que partiram para o sul, ou que revoaram para o norte, seguindo múltiplas rotas. Para os passarinhos, tais traços são mais evidentes que os rastros num caminho de terra ou que as pegadas de um cavalo visíveis no chão. Os pássaros notam as pistas dos pássaros. Este princípio também se aplica aos budas. Eles tecem suposições sobre eras inumeráveis durante as quais os budas praticaram, e conhecem os grandes e pequenos budas, mesmo aqueles que passaram desapercebidos. São coisas que, quando não somos budas, desconhecemos completamente. Pode ser que alguém se pergunte: “Por que eu não posso saber destas coisas?” Porque é com o olho do buda que tais pistas podem ser percebidas; e aqueles que não são budas, não estão equipadas com o olho de buda. Os budas são contados entre aqueles que contam as coisas; sem saber o que quer que seja, são completamente capazes de seguir os caminhos do budas. Se, com nossos próprios olhos, conseguirmos ver tais pistas, pode ser dito que estamos na presença dos budas e que somos capazes de comparar suas pegadas. Na comparação, os traços do buda são reconhecidos, a largura e a profundidade das pistas dos budas são conhecidas e pela consideração das pistas dos budas, a iluminação de nossas próprias pistas se realizam. Realizar tais pistas, isso pode ser chamado do Dharma do Buda.

Nesta parte do capítulo “Yui-butsu-yo-butsu” “Somente os budas conjuntamente com os budas”, aparece a imagem de peixe e pássaros. Mestre Dogen diz que não se pode compreender o espírito dos peixes que somente o peixe pode compreender o espírito do peixe. Por exemplo, sabemos que o golfinho (que não são peixes) são muito inteligentes e que se comunicam entre eles por ultra-sons inaudíveis para humanos.

Quando fui ao Brasil pela primeira vez (há trinta e cinco anos atrás), ao passar pelo Havaí, Los Angeles, antes do Panamá, havia talvez duzentos golfinhos que acompanhavam o navio e que brincavam sobre as ondas. Foi uma lembrança inesquecível. Certos documentários nos mostram o fundo dos mares e nos fazem descobrir coisas muito interessantes. Existem também reportagens sobre pássaros, especialmente aqueles pássaros migratórios, que se deslocam em função das estações, segundo uma regra própria entre eles e que nós ignoramos completamente, mas cada espécie segue suas próprias regras.

Estes movimentos, estas migrações de pássaros, são o que eu chamo de complexidade, ou da teoria do caos, é a auto-organização: eles “não se falam entre eles”, mas voam conjuntamente sem jamais se chocarem. No domínio das artes marciais, o segredo é jamais atacar em primeiro lugar, mas esperar que o outro o faça. E quando se é atacado, se reagir atrasado, essa defasagem faz com que você perca. Para ganhar, é preciso então se abster de atacar primeiro a fim de estar com uma vantagem sobre o outro. Quando estamos no carro aguardando para mudar o sinal na rua é possível – como em Tóquio em certos lugares – se estivermos lá pela décima quinta posição, ver o sinal se alterar entre verde e vermelho mais de quatro vezes antes de poder passar. É preciso muita paciência! Eu me digo com freqüência que aplicando a teoria das artes marciais, todos os carros poderiam passar ao mesmo tempo quando o sinal mudasse do vermelho para o verde…

Estas imagens do tráfico nos fazem pensar nos documentários que nos mostram os bandos de peixes que nadam conjuntamente e que de repente alteram a direção sem nenhuma fração de tempo entre eles. O que ocorre aqui? Será que se comunicam entre eles?

Para voltar às artes marciais, o mesmo ocorre de certa forma: se você puder sentir o ataque e reagir instantaneamente, com toda sua força (e não utilizando primeiramente sua mão, em seguida os punhos ou o braço…), então o adversário fica confuso.

No Japão ou na China, nós que dizemos que todas as artes tradicionais, sejam elas artes marciais ou outras disciplinas, devem ser praticadas a partir do ponto que chamamos de kikai tanden, (ponto de acupuntura a três centímetros abaixo do umbigo e entre aquele outro centro de energia situado ao nível da lombar, que se traduz como “mar de energia”). Para responder a um ataque, não são seus membros que se movem, são todas as partes do corpo que se colocam em movimento a partir deste ponto. Na medicina chinesa, a qual eu já pratiquei, existe na acupuntura uma técnica que consiste em selecionar e tonificar a energia e outra que consiste em sedar, e uma outra que consiste em fazer as duas ao mesmo tempo. Chamamos isso de “voltear a cabeça do dragão”: com a agulha, volteamos levemente a cabeça do dragão da ponta da agulha, e uma vez lá, giramos energicamente a agulha, o que quer dizer que se somos capazes de mover a cabeça do dragão, neste momento seguem atrás a cauda e a cabeça seguem atrás. Mas tudo isso nada tem a ver com este texto…

O que quero dizer é que o espírito do peixe ou o espírito do pássaro, somente o peixe e o pássaro o podem compreender. Eis porque Dogen Zenji disse: somente um buda pode compreender o espírito de um outro buda.

Somos da escola Zen Soto (o que não tem lá grande importância) da qual Tozan e Sozan são os fundadores. Mestre Tozan praticava os goi (os cinco graus), prática que ele tinha transmitido a seu discípulo Mestre Sozan. Se bem que Mestre Dogen não estivesse muito ligado a tal prática e que a ela nunca se referisse muito, um dia a poderíamos estudar com o objetivo de compreendê-la.

Mestre Tozan tinha uma teoria que se chamava “Os três caminhos de Mestre Tozan”. O primeiro é (em japonês) genro (gen como em genmai). Gen quer dizer “sombra”, de hosshin, tathata (talidade), este estado não dual que permite a entrada no mundo absoluto, perfeito. O segundo caminho é chodo (“o caminho dos passarinhos”), cho “passarinho” e do “o caminho”. Chodo não pode ser visto, é o espaço, mas talvez os passarinhos o possam ver porque sempre vão pelo mesmo caminho. No sesshin em Molans (no mês passado), muitas andorinhas que no ano anterior haviam feito seus ninhos sob o telhado da casa, voltaram àquele mesmo lugar. No entanto, elas vieram de muito longe! Como podem elas se lembrarem do caminho, como as gerações que se seguem voltam elas também ao mesmo local? Mas se seus ninhos forem destruídos, elas não mais voltam. Se bem que os ninhos de andorinhas possam ser um aborrecimento para as habitações, em geral os aceitamos, porque no Japão dizem que elas trazem sorte. Quando elas atravessam cadeias de montanhas, elas escolhem os desfiladeiros, e esta rota acaba por ser o caminho dos passarinhos. Este chodo, este caminho do passarinho, Mestre Tozan fez dele a base de nossa prática, a saber uma prática que não deixa rastros. Às vezes fazemos coisas boas, damos um presente por exemplo, dizendo ao mesmo tempo que nossa prática consiste em esquecer e a não deixar rastros, não haveria uma possibilidade de recuperar algo daquilo que demos? Mas se a menor consciência desta ação restar na memória, neste momento contamina todo o resto. É como se, ao sair de um zazen que se passou muito bem, onde os quarenta minutos pareceram com dez, você perguntasse ao responsável pelo kyosaku: “Então o que você achou da minha postura? Estava eu bem sentado?” Esta consciência de ter feito uma boa ação, ou mesmo um presente, se tornam uma doença do zen. Achar: “Eu tenho o satori e você não tem; você é estúpido, eu já estou iluminado…”, isso nada mais é do que competição, é o ego que se manifesta e é a prova que estamos muito distanciados do satori. Mesmo na escola Rinzai, existe também um treinamento depois do satori. Dogen Zenji fala do grande daigo “grande satori”, ou seja: ter o satori, esquecer o satori, brincar com o satori. Existe também uma outra doença de zen que consiste em entrar em competição com os outros com o objetivo de obter o despertar a qualquer preço: se os demais sentarem quarenta minutos, sentamos cinqüenta minutos, se todo mundo vai se deitar, ficamos despertos a fazer zazen sozinhos, do lado de fora…

No zen Soto, se está na hora de se deitar, todo mundo deve deitar junto, se está na hora de levantar, todo mundo deve se levantar. E a pausa tem o mesmo valor do que a prática de zazen, a sesta tem o mesmo valor do que o zazen, não existe diferença alguma. Por que? Porque esta prática que é nossa não é algo de pessoal, é a prática dos budas e os budas não entram em competição, simplesmente eles praticam. Esta prática de chodo, é principalmente uma prática que não deixa pistas, mas existe uma outra expressão, tôkô maisukye, que quer dizer “não mostrar sua luz, sua aura, pela prática”. Quando o efeito da prática a torna luminosa, não a mostre, isso é tôkô, enquanto que maisukye quer dizer “não mostrar pistas”.

Durante o takuhatsu, quando os praticantes saem, com o grande cajado e o chapéu e que eles entoam o Ho! (o Dharma!), acontece às vezes tanta energia gerada pela prática que os turistas ficam impressionados e se afastam para eles passarem. Então certos monges, especialmente aqueles que estão começando, inexperientes, podem sentir naquele momento um sentimento de poderio e de satisfação de si mesmo, mas quando eles repensam isso, têm vergonha de ter cedido a seus egos. Na prática não mostramos mais nada.

Nós já vimos anteriormente o koan (caso #36 do Mumonkan) que dizia:

“Quando vocês encontrarem com um mestre, como reagiriam?” Eu respondo a isto citando aqueles dois samurais que se cruzaram na rua. Um deles, pressentindo que o outro tinha algo de especial, se voltou para ver quem era aquela pessoa com quem tinha acabado de cruzar. Podemos dizer que naquele momento ele perdeu. Existe um outro jeito de reagir na mesma situação: quando você cruza com aquela pessoa, você sente uma energia muito especial nela, simplesmente a ignore, mas chegando à esquina da rua, você se volta e constata que o outro fez a mesma coisa… Se os homens não podem evitar olhar para uma bela mulher, as mulheres também se voltam quando cruzam com um homem bonito.

Vocês têm a capacidade de não virar a cabeça? É como quando estamos ocultos por trás de um guarda chuvas ou de um para sol, neste momento todo mundo quer ver, ou durante a noite.

No caminho do Buda, cada buda oculta suas pistas e somente os budas podem ver estas pistas de outros budas. Se voltarmos à era de ouro do budismo na China que era do tipo que não deixava pistas, agora que tal prática está praticamente perdida, como fazer para reencontrar tais pistas e poder as seguir?

Eu tenho muito orgulho de nossa prática em Eitai-ji por várias razões: nós somos muito pobres; o acesso é difícil; o tempo às vezes é áspero no inverno, se bem que poucas pessoas venham. Por outro lado, se alguém começar a ficar orgulhoso de tal prática, deixa pistas e sua prática não é boa. É necessário, silenciosamente, praticar durante anos a fio.

No Brasil houve no passado um grande projeto de construção de estradas – uma via transcontinental – e muito dinheiro foi investido em tal projeto. Uma grande parte de tais estradas foram construída através da selva, na Amazônia, mas quando o dinheiro acabou e não houve como continuar, porque uma parte dos fundos simplesmente desapareceu, o projeto foi interrompido. Muito rapidamente, a natura retomou seus direitos, e podemos ver hoje em dia árvores que começam a nascer bem no meio do asfalto. O mesmo vale para a prática do zen: nos dias de hoje a prática do zen é como esta estrada, perdida na selva e para reencontrá-la, é necessário entrar nesta floresta e procurar traços desaparecidos de tal caminho, tal estrada. Podemos as encontrar no Shobogenzo, (capítulo “Gyoji” entre outros). Quando visitamos todos aqueles templos construídos pelos Khmers e descobertos pelos arqueologistas, podemos achar traços deste caminho traçado pelos budas velhos. Este caminho é difícil, mas podemos encontrar sinais.

A prática que fazemos aqui pode ser considerada como uma prática não-ortodoxa, como aquela de Kodo Sawaki, ou do Mestre Deshimaru. Um amigo de Sawaki Roshi lhe disse de certa feita: “Sawaki! Os tempos mudaram, você está aí a fazer zazen, totalmente anacrônico. Nos dias de hoje, o importante são as cerimônias, você está defasado”. Mestre Sawaki permaneceu celibatário numa época em que todos os monges se casam. No começo quando o casamento foi aconselhado, os monges tinham um pouco de vergonha e se casavam com mulheres fora de seus meios, mas ao cabo e ao rabo, se casaram oficialmente. Mas Sawaki Roshi sempre recusou tal coisa, prosseguiu com a maneira antiga da prática. Hoje em dia todos os mestres são casados a tal ponto que quando não são, acha-se que têm problemas… De fato, para um monge, o casamento não é verdadeiramente uma coisa normal, porque prejudica a prática.

Voltemos às três vias de Tozan. Nos dissemos que a primeira era genro, a segunda chodo (o caminho dos pássaros. O terceiro é tenshu “abrir as mãos”, ou seja, começar a ajudar aos demais.

Primeiramente você se encontra com o dharmakaya e pratica. No começo você pratica para você mesmo, mas em seguida você se esquece a si mesmo (é o outro lado do treinamento); em seguida você tem a intenção de ajudar – o que deixaria pistas – de maneira não intencional, você começa a ajudar aos demais.

É tudo. Amanhã é o último dia, eu gostaria de falar dos pássaros e dos peixes. Quero igualmente voltar ao “Shoho-Jissô” que vimos no primeiro dia. Ah, uma pergunta! Ah, um problema…

Pergunta: Será que tudo já está inscrito em nós, todo o conhecimento?

Resposta: Acho que sim. Quando entramos nesta simultaneidade, nos damos conta que sentamos em zazen não somente nesta vida, mas também em outras vidas e que o dharma não é novo para nós (não é a primeira vez que você o ouve). Isso faz parte do que chamamos de poderes sobrenaturais que permitem que conheçamos nossas vidas passadas e futuras e de ver vermos para onde vamos no momento de nossa morte. Então peço a vocês, não sejam como caranguejos jogados na água quente, não fiquem surpresos com o momento da morte…

TEISHÔ Nº7: NÃO REGISTRADO.