Peixes e Pássaros

TEISHÔ Nº1

O espírito dos peixes e o caminho dos pássaros

Durante este sesshin de fim de semana vou falar de pássaros e de peixes. De fato é o prosseguimento do sesshin anterior em Eitaiji, durante o qual nós falamos do shohô jissô “a forma verdadeira” e de yui butsu yo butsu “somente os budas, conjuntamente com os budas”. É importante voltar novamente a estes mesmos capítulos para descobrir numerosos aspectos de cada um deles.

Leitura de um extrato de “Yui-butsu-yo-butsu” (volume 4, p. 219)

Existe uma expressão dos tempos antigos que diz que ninguém mais que um peixe conhece o espírito do peixe e que ninguém mais do que os passarinhos conhecem os traços dos passarinhos. Poucos são os que conhecem tal princípio. Aqueles que o interpretaram achando que somente os seres humanos não conhecem o espírito do peixe ou que os seres humanos não conheçam o espírito dos passarinhos, interpretaram erroneamente a expressão. A forma adequada de a compreender é a seguinte: Os peixes conjuntamente com os peixes conhecem sempre os espíritos uns dos outros. Nunca estão ignorantes uns dos outros como os seres humanos. Quando começam a se movimentar para subir a torrente do rio e para passar pela Porta do Dragão, todos sabem e todos conjuntamente unem seus espíritos. O espírito que permite que se suba as nove cachoeiras de Chekiang é também comunicado em comum. Mas somente os peixes conhecem tal espírito. Da mesma forma, quando os passarinhos voam no céu, as criaturas que caminham nunca podem imaginar, mesmo em sonhos, que exista uma forma de seguir tal forma de se movimentar; as criaturas que caminham não sabem que tais traços existem e não exemplos de criaturas que caminhem que possam saber de tais coisas. Seja lá como for, os passarinhos podem ver de formas múltiplas que centenas ou milhares de pequenos que se reuniram e voaram embora, ou que sejam traços de grandes pássaros que partiram para o sul, ou que revoaram para o norte, seguindo múltiplas rotas. Para os passarinhos, tais traços são mais evidentes que os rastros num caminho de terra ou que as pegadas de um cavalo visíveis no chão. Os pássaros notam as pistas dos pássaros. Este princípio também se aplica aos budas. Eles tecem suposições sobre eras inumeráveis durante as quais os budas praticaram, e conhecem os grandes e pequenos budas, mesmo aqueles que passaram desapercebidos. São coisas que, quando não somos budas, desconhecemos completamente. Pode ser que alguém se pergunte: “Por que eu não posso saber destas coisas?” Porque é com o olho do buda que tais pistas podem ser percebidas; e aqueles que não são budas, não estão equipadas com o olho de buda. Os budas são contados entre aqueles que contam as coisas; sem saber o que quer que seja, são completamente capazes de seguir os caminhos do budas. Se, com nossos próprios olhos, conseguirmos ver tais pistas, pode ser dito que estamos na presença dos budas e que somos capazes de comparar suas pegadas. Na comparação, os traços do buda são reconhecidos, a largura e a profundidade das pistas dos budas são conhecidas e pela consideração das pistas dos budas, a iluminação de nossas próprias pistas se realizam. Realizar tais pistas, isso pode ser chamado do Dharma do Buda.

Este é o capítulo “Somente os budas, conjuntamente com os demais budas” e esta última parte que acabamos de traduzir, a propósito de peixes e de pássaros, é para ser lida de forma simbólica. É muito difícil de compreender o espírito do peixe ou do pássaro se a pessoa mesma não é um deles, e da mesma forma se não se é um buda, não se compreende um outro buda. Quando o Buda Shakyamuni teve a iluminação, ele se tornou buda. O que quer dizer “se tornar buda?” Em geral traduzimos “buda” por “desperto”. Desperto com o que? Desperto para a verdade do universo. Com isso, ele se tornou um buda. Em seguida vieram vários tipos de budas: o buda cósmico “dharmakaya” ou sambhogakaya, ou o Buda Amida, que se tornou buda com a força de um voto ou da prática, ou ainda certos budas que vêm para este mundo ou para outros mundos para ensinar a palavra do buda. Neste caso eles manifestam o corpo do buda em função das necessidades de cada pessoa. É muito interessante observar os peixes ou os pássaros, porque constatamos que quando mudam de direção, não importa em que número eles se encontrem voando, e geralmente são muito numerosos, eles agem todos em conjunto, no mesmo instante. É um mistério no momento atual, não se pode explicar a complexidade, o fractal, a auto-organização e também não se pode explicar o caos. De fato, ninguém pode predizer o que vai acontecer no instante seguinte.

Às vezes vemos um documentário na televisão, por exemplo, um boi ou uma vaca que atravessa um rio e também crocodilos que vêm atacar os mais fracos. Darwin disse que na evolução animal são os mais fortes que sobrevivem, mas existe hoje em dia uma outra teoria, por exemplo, no que diz respeito aos peixes: muitos produzem muitos ovos, mas se todos estes ovos produzissem peixes, não haveria mais lugar. Pareceria que teriam calculado uma percentagem de perda, o que faz com que todos, sejam eles fracos ou fortes, tenham a capacidade de produzir a geração seguinte com o mesmo DNA, o que permite que a raça sobreviva.

Dizem que o primeiro homem apareceu na África, na planície de Decan, mas ossadas em outras regiões demonstram que a raça humana evoluiu da mesma forma, na mesma época, enquanto que os homens não se comunicavam entre eles. Não há explicações quanto a isso, é um pouco como as coisas que estão no ar: no domínio das ciências, por exemplo, a física, se um pesquisador faz uma descoberta, constatamos que outros pesquisadores estão prestes a chegar ao mesmo resultado. Não se trata de roubar ou de copiar, mas da idéia de que se uma pessoa chegou a um ponto, uma outra pessoa também chega ao mesmo ponto e não necessariamente com o mesmo método.

No texto se fala de pássaros e de peixes.

Cadeias de ferro e cadeias de ouro

Mestre Tozan, fundador da escola Soto na China, tinha uma teoria que foi chamada das “três etapas de Tozan Zenji”. A primeira era o genro, “a via absoluta, eterna”; a segunda era chodô, “o caminho dos pássaros”, esta via dos pássaros sendo fundamentalmente nossa própria prática. Quando a prática deixa traços, estes traços formam resíduos em nossa consciência, lembranças, apegos: “Fiz tal e tal, agi para fazer o bem…”, mas que por outro lado fazem parte de nosso treinamento. Ficar orgulhoso de sua prática pode se tornar um obstáculo à prática. É o que se chama de cadeias de ferro e cadeias de ouro.

Nossa cólera, nossa ignorância, ou nossa avidez nos aprisionam em cadeias de ferro. Quanto às cadeias de ouro, se bem que sejam cadeias preciosas, elas nos oprimem igualmente. O ouro é o Dharma. O Dharma é uma coisa excelente, mas se contiver nem que seja a mais infinitesimal parcela de consciência de “Eu fiz tal e tal”, ou “O que eu fiz estava bem feito”, este pensamento entretém a presença do ego e se torna uma cadeia de ouro, a qual é sempre uma cadeia. Quando a poeira de ouro entre no olho, ela pode causar problemas.

Este caminho dos pássaros que não deixa traços, é o caminho dos budas, e é por isso que Dogen Zenji nos diz que somente os pássaros podem ver as pistas dos pássaros ou que somente budas podem enxergar pistas dos budas.

Procurando as pistas dos velhos Budas

Eu acho que o caminho do Buda está ameaçado de desaparecer porque o budismo Mahayana está em ruínas. Com efeito, pratica-se cada vez menos e existe pouco ensino. Mesmo assim, é necessário achar ou redescobrir este caminho que de alguma forma está escondido na selva, recoberto de mato e árvores. Desde a época em que o Buda obteve a iluminação, ou seja, há dois mil, seiscentos anos atrás, numerosos budas tomaram este caminho. Quando Siddharta Gautama obteve a iluminação e se tornou buda, ele se encontrava sozinho. Como eu disse, ele se tornou buda observando as leis do universo. Esta iluminação não era para ele somente mas também para os outros, o que quer dizer que este caminho do Buda deve ser confirmado por outros budas. É a razão pela qual os budas e os patriarcas transmitiram até o meu mestre e até mim mesmo, ou seja oitenta e quatro gerações. Nos dias de hoje, esta transmissão do Dharma pelo Buda e pelos numerosos budas que se seguiram, está ameaçada e é necessário que descubramos novamente esta pista dos budas, no deserto, na selva. Nós devemos penetrar na selva, observar o solo e pouco a pouco reencontrar as pistas dos velhos budas.

De um lado, o caminho dos pássaros não deixa pistas, de um outro lado, somente um pássaro pode compreender o espírito dos pássaros, ou somente um buda pode compreender outros budas. Se bem que não haja pistas, fica contudo uma pista no ar ou na água.

Então, como os peixes se comunicam e como transmitem este movimento? Os seres humanos ou os animais que caminham sobre o solo não podem saber disto porque eles não compreendem o espírito dos pássaros. Os golfinhos se comunicam entre eles por ultra-sons e os pássaros migratórios que voam em conjunto certamente possuem um tipo de código de comunicação.

Kodo Sem Lar

Mestre Sawaki era chamado “Kodo Sem Lar”, porque ele não era afiliado a nenhum mosteiro. De fato, seu mosteiro se deslocava consigo mesmo, naqueles lugares onde ele era esperado por um grupo que queria praticar o zazen com ele. Desde o dia primeiro de julho, seu programa era estabelecido para todo o ano. Eu me lembro que num primeiro de julho ele se encontrava num velho bairro de Tóquio e no dia seguinte ia visitar um grande Mestre Rinzai, nos subúrbios de Tóquio. Vocês podem imaginar estes dois velhos mestres Soto e Rinzai, mestres de primeira ordem, se encontrando num pequeno templo de montanha? (Acho que parece um pouco com aqueles sumiês chineses). Vocês acham que eles falavam do Dharma? É possível, mas talvez eles falassem simplesmente, duma maravilhosa paisagem de montanha, ou dos rios. Mesmo assim exalava algo profundamente ligado ao Dharma. Durante todo o ano, nas mesmas épocas, Mestre Sawaki ia aos templos onde era convidado, praticando de forma ininterrupta e isso até sua morte, até que sentiu que fisicamente não era mais possível que ele se deslocasse. É o que se chama do “método do caramujo”: sem moradia, mas onde ele ia, ele levava sua casa, e naquele local, ele tinha naquele momento um mosteiro.

Os dois tipos de pratica: Toda a vida e Nuvens e água

Existem dois tipos de práticas, completamente diferentes. Aquela que chamamos de “grande prática” é, durante toda sua vida, não deixar jamais o mosteiro. “Toda a vida” quer dizer no mínimo trinta anos e mesmo quarenta, como podemos constatar lendo o capítulo “Gyoji” onde Mestre Dogen nos conta a vida dos velhos mestres que estavam sempre sentados e dormiam muito pouco. Mas existe por outro lado um outro método, aquele de Mestre Sawaki ou do Buda Shakyamuni que consistia em nunca ficar no mesmo lugar, a ser aquilo que se chama de unsui “nuvens e águas”: se as condições forem favoráveis, a água e as nuvens ficam num lugar, e se não houver condições, as nuvens se vão embora e se esvaziam da água. As nuvens nos parecem ser sempre mais ou menos parecidas, mas ao olhar de mais perto, percebemos que suas formas mudam constantemente.

Vimalakirti, que morava numa grande cidade, como alguns de nós, teve uma discussão com um dos grandes discípulos do Buda. Este monge que voltava da cidade onde havia praticado takuhatsu (mendigação) e estava indo para o mosteiro, se encontrou com Vimalakirti na floresta. Vimalakirti, tinha acabado de ter uma conversa com o Buda e voltava para o centro da cidade onde vivia. Vimalakirti saudou o monge e lhe perguntou: “Como vai?” – O monge respondeu: “Estou voltando para o mosteiro e você?” Vimalakirti respondeu: “Eu também estou voltando para o mosteiro”. “Mas o mosteiro está na direção oposta à que você tomou. Eu estou voltando para o mosteiro e você está voltando para a cidade”. “Não, não, para mim a grande cidade é meu mosteiro”.

Nos tempos antigos, se faziam peregrinações. Entrava-se no mosteiro para o período de ango, em seguida, no ano seguinte, se voltava àquele mesmo mosteiro ou se ia a outros mosteiros, para se encontrar com outros mestres e seguir seus ensinamentos.

Seppo foi nove vezes ao mosteiro de montanha de Tozan Zenji e três vezes ao mosteiro de Tosu Gisei. Assim, o universo inteiro é um mosteiro onde os pássaros ou os peixes se podem mover num espaço sem limites, o que quer dizer poder ir livremente, mas ao mesmo tempo, não poder sair da água ou do céu, quer dizer não poder sair do mosteiro.

Nós podemos praticar por toda parte, e é porque nós podemos praticar por toda parte que ficamos num local fixo. Peço a vocês que compreendam isto. Somente um buda compreende um outro buda. Como um buda compreende um outro buda?

O que é uma montanha?

Na Gendronnière (perto de Blois), eu falei das montanhas e águas: a montanha é a montanha, o rio é o rio. Foi por isso que Seigen Gyoshi disse: Antes que eu tivesse começado a praticar o zen, a montanha era montanha; com a prática, quando comecei a compreender um pouco do budismo zen, a montanha não era mais montanha; agora, depois de mais de trinta anos de prática, as montanhas continuam a ser montanhas.

A cada um de vocês eu coloco a seguinte pergunta: que diferença existe entre a primeira montanha, que é uma montanha e a última montanha, que é uma montanha? Dêem-me suas respostas antes de amanhã de manhã.. O tempo está passando, mas quero acrescentar que para a maioria das pessoas, as montanhas são as montanhas. Claro, podemos ver que as montanhas são montanhas, mas quando as montanhas são montanhas, existe de fato uma razão pela qual as montanhas sejam montanhas e é isto que é necessário descobrir.

De fato, mesmo que digamos que a montanha, que nada mais é que um nome, seja algo de fixo, dizemos também que a montanha azul se desloca constantemente e neste caso a montanha não é uma montanha; para que a montanha seja uma montanha, é necessário ver as condições que permitem a priori que isso seja assim, ver com aquilo que podemos chamar de tathata ou natureza de buda. Com esta natureza de buda, esta montanha se torna a montanha, o peixe se torna o peixe, o pássaro se torna o pássaro, ou os bambus e os pinheiros se tornam bambus e pinheiros. Se bem que os bambus e os pinheiros sejam duas espécies diferentes, a mesma coisa contribui para que sejam bambus e pinheiros. Alguma coisa está operando para que se manifeste meu rosto original, seu rosto original. Não ver seu rosto original é perder sua identidade. Todas estas coisas que aparentam ser diferentes estão de fato unidas, mas este “unidas”, este “um”, não é “um” entre outros, este “um” é “um” porque ele é tudo. Se encontrarmos com este “um”, este “único”, então eu sou vocês e vocês são eu e isto é: ego e não ego reunidos. Nesta reunião, eu sou ele e ele é eu, é katto (complexidade), que são duas faces de uma mesma moeda.

Os três caminhos de Mestre Tozan

Para voltar às três vias do Mestre Tozan, depois: genro “a via absoluta, eterna” e chodo “o caminho dos pássaros”, existe um terceiro caminho chamado gendo que é “o caminho que começa a ajudar aos outros”. Contudo, no gendo pode também haver um aspecto negativo, neste caso, se diria de alguém que ele é gendo san “a via absoluta por azar”.

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Segundo teishô do sesshin de fim de semana de 6 a 9 de Julho de 2003 em Paris

TEISHO Nº2

Pássaros e peixes, peixes e pássaros

Durante este sesshin de fim de semana falamos de pássaros e de peixes, ou de peixes e de pássaros… Nós podemos encontrar este texto na última parte do capítulo do Shobogenzo que se chama “Genjo koan”.

Leitura do Genjo Koan (volume 1, capítulo 3, p. 35-36)

Quando os peixes se deslocam pela água, não importa de que forma eles se desloquem, não há limites para a água. Quando os pássaros voam pelo céu, não importa de que forma voem, não há limites no céu. Ao mesmo tempo, peixes e pássaros nunca, desde os tempos antigos, deixaram a água ou abandonaram o céu. Simplesmente, quando a atividade é grande, o uso é grande, e quando a necessidade é pequena, o uso é pequeno. Agindo neste estado, nenhum deles deixa de realizar seus limites a cada instante, e nenhum deixa de realizar livremente uma cambalhota em cada lugar: mas se um pássaro deixar os céus ele morre imediatamente, e se um peixe deixar a água ele imediatamente morre. Nós podemos assim compreender que a água é a vida e nós podemos compreender que o céu é a vida. Os pássaros são a vida e os peixes são a vida. Pode ser que a vida sejam os pássaros e que a vida sejam os peixes. E além disto podem ainda haver outras etapas a serem queimadas. A existência de suas práticas e experiências e a existência de suas durações de vida e suas vidas são assim. Isso sendo assim, um pássaro e um peixe cujo objetivo seria se deslocar pelo céu ou pela água, somente após ter tocado o fundo da água ou de ter atingido o limite dos céus, (este peixe ou este pássaro) nunca mais acharia seu caminho ou jamais acharia seu lugar na água ou no céu. Quando achamos este lugar, esta ação fica inevitavelmente realizada enquanto universo. Quando encontramos este caminho, esta ação é inevitavelmente o universo ele mesmo realizado. Este caminho e este lugar não são nem grandes nem pequenos; não são nem subjetivos nem objetivos; não existiram no passado, mas tampouco aparecem no presente; e assim eles estão presentes desta forma. Quando um ser humano pratica e faz a experiência da verdade do Buda neste estado, obter um Dharma é penetrar um Dharma, e encontrar uma ação é realizar uma ação. Neste estado o lugar existe e o caminho é realizado e assim aquilo que deve ser conhecido não está aparente. Não creiam que aquilo que foi obtido vá necessariamente ser uma coisa consciente e que será reconhecido pelo intelecto. A experiência do estado último é realizada de uma só feita. Ao mesmo tempo, sua existência misteriosa não é necessariamente uma realização manifestada. A realização é o estado da ambigüidade enquanto tal.

Bendowa e Genjo koan: A transmissão do budismo segundo Dogen Zenji

“ Bendowa” e “Genjo koan” são os primeiros capítulos do Shobogenzo. Nestes textos Dogen Zenji – que jamais sonhou em criar sua própria escola, criar uma escola Soto japonesa – nos revela o que é sua idéia do budismo, o que ele considera como sendo a transmissão direta, pura, única do budismo.

Bendowa”, que fala essencialmente do zazen e dá uma visão geral do mesmo, é um pouco como uma introdução visando transmitir a essência do zazen enquanto forma original de base para a nossa prática. Os capítulos do Shobogenzo são denominados por este termo, Shobogenzo, seguidos do nome do capítulo. Dizemos por exemplo: Shobogenzo Kuge para “As flores do pessegueiro”. Mesmo que alguns capítulos pareçam não mencionar o zazen, de fato todos tratam de algum aspecto do zazen.

No capítulo “Yui-butsu-yo-butsu”, do qual lemos um extrato ontem, Mestre Dogen nos fala das pistas dos pássaros. No “Genjo koan”, para descrever o despertar, ele fala da lua que se reflete na água: se a água não fica perturbada com isso, a lua se reflete completamente, assim como o espírito liberado de toda discriminação desperta completamente. É por isso que o dojo é chamado suigetsu dojo (sui “água”, getsu “lua”). Quando estamos sentados, nosso espírito é a água na qual a lua se manifesta.

Retomada da leitura do Genjo koan (Volume 1, capítulo 1, p. 35-36)

Quando os peixes se deslocam pela água, não importa de que maneira se desloquem, não há limites para a água. Quando os pássaros voam no céu, não importa de que maneira voem, não há limites no céu. Ao mesmo tempo, peixes e pássaros jamais, desde o passado remoto, deixaram a água ou abandonaram o céu. Simplesmente, quando suas atividades são grandes, o uso é grande, e quando a necessidade é pequena, o uso é pequeno. Agindo neste estado, ninguém deixa de realizar seus limites a cada momento e ninguém deixa de realizar livremente esta cambalhota em cada lugar; mas se um pássaro deixa o céu ele morre imediatamente, e se um peixe deixa a água, ele morre prontamente. Podemos assim compreender que a água é a vida e nós podemos compreender que o céu é a vida. Os pássaros são a vida e os peixes são a vida. Pode ser que a vida siga os pássaros e que a vida siga os peixes. E além disto, podem ainda haver outras etapas a serem atingidas.

Neste extrato, Dogen Zenji fala dos peixes que nadam na água, sem limites, como o pássaro que voa no céu.

Os peixes ou os pássaros talvez que não tenham consciência que estão na água ou no céu. Simplesmente, e nós mesmos também somos assim, o peixe é um peixe, ele nada, o pássaro é um pássaro, ele voa; mas se o peixe é privado da água e se o pássaro é privado do espaço, perecem.

Afinal, o que são esta água e este céu? Ao que os podemos comparar?

Sobre a natureza de Buda

Vocês se lembram do koan de Mestre Joshu “Tem o cachorro a natureza de buda?” No capítulo “Bussho” do Shobogenzo, existem duas respostas: quando um monge pergunta: “O cachorro tem a natureza de buda, sim ou não?” Joshu respondeu: “Não, ele não tem”. Mas um outro monge perguntou: “Tem o cachorro a natureza de buda ou não?” E aí o Mestre Joshu respondeu desta feita: “Sim, tem”. O monge disse: “Se isso for afirmativo, por que é que entrou no corpo do cachorro?”

De fato é uma questão de anterior e de posterior. Quando o cachorro é verdadeiramente um cachorro, o fato de perguntar de onde ele vem, de procurar saber se a natureza de buda entra no cachorro, é de inverter o estado das relações entre as noções. É a mesma coisa que nos conta esta história do peixe e do pássaro. Os pássaros, os peixes, voam ou nadam simplesmente, mas quando os separamos da água ou do céu, eles perecem. Então suas vidas dependem da água ou do céu.

Aqui, é a questão da aspiração de cada um a se auto-conhecer. Mas o espírito do pássaro, o espírito do peixe, somente os podem compreender o pássaro ou o peixe, ou os budas somente juntamente com os outros budas. Depois de ter dito que se os privarmos da água os peixes morrem, Mestre Dogen troca a perspectiva acrescentando que a água é a vida para os peixes. Então a resposta da pergunta do monge, “Tem o cachorro a natureza de buda ou não?” é: sim, tem. Claro que este monge está se enganando.

Cremos geralmente que esta natureza de buda é como uma semente, a qual, se as condições estiverem prontas – terreno, água e sol – vai crescer, produzir uma flor e dar frutos. Segundo um outro ponto de vista a natureza de buda seria como o logos, como uma lei universal. Quando o cachorro é um cachorro, talvez que exista algo como o logos que esteja operando por trás do cachorro. Contudo o fato de dizer “por trás” ou “além” cria uma dualidade. Quando comparamos a água ou o céu, à natureza de buda, os pássaros e peixes se apresentam ao nosso espírito, porque nós observamos as coisas de um ponto de vista humano. Observando o peixe na água – de fato este peixe não se ocupa disto e nada – e temos que observar a água com o peixe.

Mestre Dogen diz sempre que se você fizer um esforço para atingir o satori, imediatamente este esforço se torna um obstáculo à realização. Por que? Porque nós já estamos aqui por causa disto. Se você buscar uma razão para esta presença, então alguma coisa está errada. É por isso que temos que mudar de ponto de vista e ver a relação entre o peixe e a água, entre a natureza de buda e nós mesmos. Até agora isso não foi complicado, mas isso não é o bastante e é por isso que agora temos que dar um salto – ou a imagem de uma cambalhota – e neste momento há a água, o céu, os peixes e os pássaros; mas se estes peixes se separarem da água ou se estes pássaros se separem do céu, perecem e neste caso eu repito: a água, o céu, são a vida para os peixes e para os pássaros. É o segundo ponto; o terceiro ponto é o seguinte: o peixe é a vida para a água mesma, e o pássaro é a vida para o céu.

Genjo koan quer dizer a “realização da verdade” e historicamente, o koan zen consiste de perguntas e de respostas. Na origem, o termo koan (ko “público”, an “arquivos”) quer dizer “jurisprudência”, ou seja, um julgamento dado a uma pergunta e que serve de referência. Os koan zen se tornaram assim uma espécie de jurisprudência na qual nos apoiamos para dominar os casos e ir nós mesmos além disto. O koan é reconhecido, ele se torna verdade e realização da verdade, ou seja, o satori.

Esta natureza de buda (tathata) é: o peixe é a vida, o pássaro é a vida, porque a natureza de buda ou tathata é a vida. Mas já que esta vida é sem forma, sem limites, nem no espaço nem no tempo, então, como ela pode se manifestar? Somente pode se manifestar através dos peixes e dos pássaros, ou dos cachorros ou dos seres humanos.

Quando o monge pergunta a Mestre Joshu “Por que a natureza de buda entrou na carcaça do cachorro?”, ele coloca uma pergunta errada. Ele deveria ter perguntado: “Como a natureza de buda se manifesta no corpo do cachorro?” (Quando a natureza de buda se manifesta, mesmo como cachorro) nós podemos encontrar a verdade do universo, isto é, nós encontramos nós mesmos e neste caso o Buda encontra com o Buda.

No capítulo “Uji” “Ser-tempo”, Dogen Zenji disse: O bambu é existência tempo, o pinheiro é existência tempo. Nangaku é Uji, Seigen é Uji, Sekito é Uji e Baso também é Uji. Depois do Sexto Patriarca, Baso e Seigen Gyoshi que estão na nossa linhagem Soto, também se encontram, da mesma forma que Sekito Kisen e Baso Do-itsu. “Somente os budas, conjuntamente com os outros budas” isso significa sobre mestre e discípulo, mas igualmente também aos mestres contemporâneos.

Como esta natureza de buda, já presente em nós, pode aparecer através de nosso corpo? Ela aparece com esta postura do zazen; no momento em que nos sentamos, a natureza de buda se manifesta, mas se, estando sentados, buscamos tal natureza de buda, ela não pode se manifestar. Somente sentados, isso já a manifesta. O problema consiste em nosso desejo de ver, de conhecer, de sentir, como o peixe que quer nadar até o fundo da água ou o pássaro que quer voar até os confins do céu. Dizemos que deve haver um fim, um tipo de muro, um limite e queremos chegar até lá para ver se existe um outro lado. Mas isso não existe, é um aspecto da complexidade. Nos perguntamos porque não poderíamos descobrir esta coisa última com a ajuda do cálculo, de análises, como o fazem cientistas ou matemáticos. Não se pode porque já estamos no interior e por outra parte, já que si mesmo muda a cada instante, como calcular aquilo que muda com meios de cálculos que mudam? Você está no interior daquele “um” e você quer ver. Ver o que? Alguma outra coisa? Não existe “outra coisa”. É um dilema. O que fazer? Ficar sentado e por vezes utilizar o satori, a intuição direta, estas experiências internas que não podem ser transmitidas pela linguagem, porque a linguagem é limitada. Porque este termo suigetsu dojo “o dojo da lua na água”? Porque quando estamos sentados, a água se apazigua automaticamente e a lua aparece e se manifesta. Mas quando nós procuramos saber, as vagas se forma na superfície da água e então é impossível que a lua ali se reflita. Para mostrar este fenômeno de forma caricatural, conta-se a seguinte história: os macacos, vendo a lua se refletir na água de um lago, decidiram pegar o reflexo. Para fazer isso, um primeiro macaco se agarrou a um galho da árvore, e seus companheiros foram se dependurando uns nos outros a partir deste primeiro, chegando finalmente ao nível da água, para pegar a lua. Naturalmente, para aquele que sustentava todos os demais, o peso ficou exagerado e era necessário que eles compreendessem que havia pressa. Eles tentaram, tentaram até que todos tombaram na água.

Agindo sem jamais utilizar a força, a natureza de buda se manifesta através do cachorro, por exemplo. Não utilizar a força, isso é ser a água e não nós mesmos; quando a água não fica perturbada podemos dizer então que a água é a vida para o peixe e o peixe é a vida para a água, ou que o céu é a vida para o pássaro e o pássaro é a vida para o céu. O peixe é a vida para a água porque, a natureza de buda sendo vida sem forma, esta natureza de buda se manifesta enquanto peixe, pássaro ou cachorro. Deste ponto de vista, o corpo de cada um de nós sentado em zazen é o corpo cósmico, dharmakaya.

O Portão do Dragão

Claro, este corpo pode ser utilizado e mesmo sacrificado pelo Dharma, mas estar sentado é algo de muito precioso porque aqui é onde se manifesta a natureza de buda. Dizemos que se temos muito dinheiro, naturalmente gastamos muito dinheiro, e se temos pouco gastamos pouco. (Estou esperando para comprar este livro, de ter meios). É a questão da capacidade.

O céu é vasto, não há limites no oceano: é preciso fazer de maneira que vejamos o “um” em tudo que praticarmos, porque este “um” é tudo; Durante os cinco anos que se seguiram à abertura do mosteiro de Eitai-ji, atravessamos diferentes etapas, às vezes dificuldades. Contudo é necessário apreciar não o conjunto, mas uma coisa de cada vez, eliminar os obstáculos um por um. Chegar em Eitai-ji é tão difícil quanto subir as nove cachoeiras do Chekiang, porque depois de um certo trecho, os carros não passam mais. É uma das dificuldades dentre outras, e não existem muitos peixes que sejam capazes de passar esta Porta do Dragão, mas se passar, este peixe se transforma em dragão.

No “Shinjinmei” trata-se de coisas semelhantes a esta. Esta porta do dragão é uma cachoeira que tem três níveis e nem todo mundo pode subir tal cachoeira.

Existem lugares onde os peixes descansam (conhecendo estes lugares, se pode pega-los mesmo com a mão), mas não os podemos mais achar, porque já se transformaram em dragões, que como vocês sabem, têm asas.

Cada sesshin é importante e além disso o processo é diferente para cada pessoa. Cada vez nós aparecemos, mas depois de cada encontro, é necessário verificar: Trata-se de um peixe? Já virou dragão? Ainda é uma telha, ou já virou um espelho? Isso, somente o Buda sabe.

Está na hora. Amanhã de manhã, mais uma vez, “pássaros e peixes”, e talvez vamos entrar mais profundamente, com o “Zazenshin”.

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Terceiro teishô do sesshin de fim de semana de 6 a 9 de Julho de 2003 em Paris

TEISHO #3

Zazenshin

É o último teisho. Vamos continuar a falar de peixes e de pássaros e nós vamos ver o que diz sobre isso Mestre Dogen no fim do capítulo “Zazenshin” do Shobogenzo. Zazenshin quer dizer a agulha (shin) (como a agulha de acupuntura) para curar as doenças do zazen ou do zen.

No “Bendowa”, Mestre Dogen explica de forma simples a importância da prática do zazen e da transmissão dos budas; no “Fukan zazengi” ele dá explicações sobre o método do zazen.

A partir do sexto patriarca Hui-neng com Nangaku, Baso, Seigen, Sekito Kisen…, em geral tudo foi muito corretamente transmitido, mas na época de Dogen Zenji, a saber ao redor do século XIII, começou também o método dos koans e para ele isso já não era mais a transmissão correta, menos no que dizia respeito a Wanshi Zenji, o autor deste “Zazenshin” ou “Moushomei” mei como em shinjinmei, “Poema do silêncio radiante”.

Quando Mestre Dogen descobriu este “Zazenshin”, ele disse que era o zazen dos budas e dos patriarcas e Nyojo Zenji dizia sempre que Wanshi Zenji era um velho buda. É também yui butsu yo butsu “somente um buda, conjuntamente com outros budas, podem compreender”. Muitas pessoas deram explicações sobre shinjin, ou zenshin ou zazengi etc., mas para Dogen Zenji, poucos dentre eles tinham uma compreensão correta do que era o zazen.

No poema de Wanshi, Dogen Zenji faz um comentário de cada linha do poema. Este “Zazenshin” não é uma introdução ao zazen, mas é algo que tem a ver com os estados interiores. Uma pessoa que vê o zazen somente do exterior não compreende absolutamente do que se trata. Este zazenshin não é acessível senão aos praticantes do zen e é importante que cada um possa saborear e experimentar o que está descrito em cada uma das linhas deste poema.

Leitura e tradução de um extrato do Zazenshin (Shobogenzo Zazenshin), volume 2, capítulo 27, p.101 106)

Zazenshin

Escrito por Shokaku que recebeu depois de sua morte o título de Mestre Zen Wanshi, por decreto imperial.

Essência central de todos os budas,

Pivô essencial de todos os patriarcas.

Não tocar as coisas, e no entanto sentir,

Não se opor às circunstâncias, e mesmo assim estar iluminado.

Não tocar as coisas e no entanto sentir:

Sentir desta forma é naturalmente sutil.

Não se opor às circunstâncias, e contudo estar iluminado:

A iluminação é naturalmente fina.

Sentir de tal forma é naturalmente sutil:

Não houve pensamento discriminatório.

A iluminação é naturalmente fina:

Não houve a menor aparição.

Não houve pensamento discriminatório:

Sentir desta forma, sem dualidade alguma, isso é singular.

Não houve a menor aparição;

A iluminação, sem que se toque nela, está completa.

A água está límpida até o fundo.

Os peixes nadam, lentamente, lentamente.

O céu é vasto sem limite algum.

E os pássaros voam, longinquamente, longinquamente.

A questão que trata esta agulha para o zazen é o fato “que a grande função já está manifesta diante de nós, é a atitude cheia de dignidade que o leva além do som e da forma”, é uma olhada sobre a “época de antes que nossos pais tivessem nascido”, é o fato que não insultar os patriarcas budistas é bom, é o fato de “não evitar jamais perder seu corpo e sua vida, e é a cabeça que tem três pés de comprimento e o pescoço que faz dois pouces”.

Essência central de todos os budas”. Todos os budas sem exceção vêem os budas a cada momento “como sendo a essência central”. Esta essência central foi realizada: é o zazen.

Pivô essencial de todos os patriarcas”. “Fogo o Mestre o fazia sem estas palavras” – este princípio ele mesmo é “todos os patriarcas”. A transmissão do Dharma e a transmissão do manto existem. Em geral, cada ocorrência do fato de “girar a cabeça ou de alterar a expressão do rosto” é a essência central de todos os budas. E todos os casos individuais de alterar os traços de seu rosto e de girar a cabeça é a essência central de todos os patriarcas.

Não tocar as coisas, e no entanto sentir”. “Sentir”, isso aqui não é a percepção dos sentidos; a percepção dos sentidos é uma escala menor. Isso tampouco é o reconhecimento intelectual; o reconhecimento intelectual é um ato intencional. Então, “sentir” está “além de tocar as coisas”, e aquilo que está “além de tocar as coisas é sentir”. Não é necessário considerar de forma especulativa que se trata de uma vigilância universal e não é necessário pensar estreitamente que se trata de uma vigilância de nós mesmos. Este “não tocar as coisas” quer dizer “Quando vem uma cabeça límpida, é uma cabeça límpida que age. Quando uma cabeça estúpida vem, é uma cabeça estúpida que age”, isso quer dizer “quebrar pelo sentar [zazen] a pele que nossa mãe nos deu.”

Não se opor às circunstâncias, e no entanto estar iluminado”. Este “estar iluminado” não é a iluminação de uma compreensão iluminada e isto não é uma compreensão espiritual. Não se opor às circunstâncias está descrito como “estar iluminado”. A iluminação não tem fronteiras comuns com as circunstâncias – porque as circunstâncias nada mais são do que a iluminação. O significado de “não oposição” é que o “universo inteiro nunca escondeu nada, é um mundo quebrado que não mostra sua cabeça”, o que é “sutil”, o que é “fino”, e é “(o estado além de) aquilo que é complicado e daquilo que não é.”

Sentir desta forma é naturalmente sutil/ Não houve pensamento discriminatório”. O estado no qual pensar é sentir não depende sempre de uma assistência externa. O “fato de sentir” é uma forma concreta e a forma concreta são as montanhas e os rios. Estas montanhas e estes rios são o que é “sutil”. Esta sutileza é o que é “fino”. Quando utilizamos este estado isso está cheio de vigor. Quando nos tornamos um dragão, quer estejamos no interior ou no exterior da Porta do Dragão não tem a menor importância. Utilizar não seria senão um instante puro do presente a “sentir” é embelezar as montanhas e os rios e o universo inteiro e exercendo um esforço completo, os “sentir” desta forma. Fora de sentir neste estado de familiaridade direta com as montanhas e rios, não pode haver nenhuma ocorrência de perceber ou mesmo a metade de uma compreensão. Não é necessário haver arrependimentos a propósito de “pensamentos discriminatórios” que chegam em seguida. “Todos os budas”, no estado onde já há a discriminação, estão já realizados. A “não-existência” daquilo que se produziu é “ser já produzido”, e ser já produzido é a realização. Em suma, “o fato que não haja discriminação é o estado no qual não se encontra uma só pessoa”.

A iluminação é naturalmente fina: Não houve a menor aparição”. A “menor” isso quer dizer o universo inteiro. Mesmo assim, a iluminação é naturalmente o que é fino e é naturalmente a iluminação ela mesmo e por esta razão parece que isto nunca acrescentou o que fosse a si mesmo. Não duvidem dos olhos, mas não tenham necessariamente confiança nos ouvidos. O estado de “Vocês devem diretamente esclarecer o que é fundamental fora dos princípios; não se apeguem a regras através de palavras” é a iluminação. Por esta razão não há dualidade e por esta razão não existe “o fato de pegar o que quer que seja”. Se bem que você esteja instalado e que tenha conservado este estado enquanto “singularidade” e que você entreteve isto e que você se apóie nisto enquanto “coisa completa”, eu ainda duvido de tais expressões.

A água é límpida até o fundo/Os peixes nadam, lentamente, lentamente”. No que diz respeito ao sentido de “a água é límpida”, a água que se encontra no espaço não é completamente a água “límpida”. Menos ainda se trata da água que se torna profunda e límpida no mundo inteiro, quando dizemos que a água é límpida. Trata-se de uma água que não está limitada por nenhuma margem, nem por nenhum rio: “é uma água que é límpida até o fundo”. Quando os peixes se deslocam em tal água nadando, “o fato de nadar” não é não-existente. “O fato de nadar”, não importa que distância seja, talvez por milhares de quilômetros, é insondável e ilimitado. Não há margem a partir da qual possamos observar isto, não há ar que permita formar uma superfície aqui e não fundo até o qual se possa descer. Então, não existe ninguém que possa sondar isto. Se queremos discutir suas medidas, (dizemos) “a água é límpida até o fundo”. A virtude de estar sentado em zazen, é como o fato do nadar dos peixes: quem poderia medir com uma escala que se situaria em milhares ou dezenas de milhares? A extensão da ação que penetra até o fundo, é o corpo inteiro que não segue a via dos pássaros.

O céu é vasto sem limite algum/E os pássaros voam, longinquamente, longinquamente”. O céu é vasto não está descrevendo o que está suspenso no firmamento. O céu suspenso no firmamento não é o vasto céu. Menos ainda se trata do que forma este espaço de toda extensão do espaço, isto tampouco é o “vasto céu”. O céu que não está nem oculto nem revelado por exterior ou interior: isso é o “vasto céu”. Quando os pássaros voam através do céu, voar no céu é o Dharma sem divisão. Suas ações de voar no céu não pode ser medida. Voar no céu é o universo inteiro – porque o universo inteiro voa no céu. Não conhecemos a medida deste vôo, mas para o exprimir com palavras que estão além da capacidade de formular uma estimativa, nós dizemos, “longinquamente, longinquamente”. “Imediatamente, não deveria haver nenhum ligamento que entrave os pés”. Quando o céu voa tão longinquamente, os pássaros voam também; e quando os pássaros voam, o céu ele mesmo voa longe. As palavras que exprimem o fato de dominar este vôo são: “Isso não existe senão neste lugar concreto”. É uma agulha para testar o estado da calma absoluta. Uma distância que se contaria em dezenas de milhares de quilômetros, não foi atravessada senão para nos dizer: “Isso não existe senão neste local preciso”.

Assim é o Zazenshin do Mestre zen Wanshi. Entre as máximas dos patriarcas antigos através das eras, nunca houve um Zazenshin que pudesse ser comparado a este. Se os sacos de pele podres nas dez direções quiserem exprimir algo que se iguale a este zazenshin, mesmo que gastassem suas vidas todas no esforço, ou mesmo que gastassem duas vidas inteiras, não seriam capazes de exprimir isso. Nos dias de hoje, em todas as direções, não podemos achar alguém que possa se comparar: somente existe esta máxima. Quando fogo meu Mestre pregava na sala do Dharma, ele dizia constantemente: “Wanshi, o buda velho!” Ele nunca falava assim de ninguém mais. Quando temos o olho para conhecer alguém, nós podemos também conhecer o som de um patriarca budista. Verdadeiramente, nós vimos que na linha de Tozan, existe um patriarca budista. Agora oitenta anos mais ou menos transcorreram desde a morte do Mestre zen Wanshi. Por admiração pelo seu Zazenshin, eu escrevi o seguinte Zazenshin. Agora é o décimo oitavo dia do terceiro mês lunar do terceiro ano de Ninji. Quando eu conto os anos entre aquele ano e o oitavo dia do décimo mês lunar do vigésimo sétimo ano de Shoko, isso dá exatamente oitenta e cinco anos. O Zazenshin que escrevi é o seguinte:

Zazenshin

Essência central de todos os budas,

Pivô essencial de todos os patriarcas.

Além do fato de pensar, realizar,

Além do fato da complicação, a realização.

Além do fato de pensar, realizar:

O fato de realizar, naturalmente é imediato.

Além daquilo que é complicado, a realização:

A realização é naturalmente um estado de experiência.

O fato de realizar é naturalmente imediato:

Não houve misturas.

A realização é naturalmente um estado de experiência:

Não houve conformidade ou divergência.

Não houve algo que se misturasse à imediatez:

A imediatez não se apóia em nada e mesmo assim se libera.

Não houve conformidade ou divergência na experiência:

O estado de experiência não projeta nada e mesmo assim é um esforço que se efetua.

A água é límpida, direto até o fundo,

Os peixes nadam como peixes.

O céu é vasto, límpido até os céus.

E os pássaros voam como pássaros.

O zazenshin do Mestre Zen Wanshi não é jamais imperfeito em sua expressão, mas eu gostaria de o exprimir desta forma. De fato, os filhos e netos dos patriarcas budistas não deveriam deixar de aprender e de fazer a experiência do fato que estar sentado em zazen é o grande assunto. É o selo autêntico que é recebido e transmitido face a face.

Não é necessário compreender todo este zazenshin imediatamente. Quando tivermos a tradução escrita deste texto, eu me esforçarei de lhes dar uma interpretação.

Falando de peixes

Então, vou falar de peixes.

Nesta poesia, Mestre Dogen diz que a água é límpida até o fundo, mas que de fato não existe um fundo (“Não há fundo até o qual se possa descer”). É muito interessante e muito próximo da filosofia de Meister Eckhart que também fala deste fundo, que ele chama de “fundo da alma”. Isso exatamente é o zazen. O ponto do zazen permite que se toque ambos lados: o tempo e a eternidade; este ponto é o presente absoluto, ou seja, o agora. Este ponto do presente absoluto, é o ponto anterior à existência deste mundo, antes de sua criação, é natureza de buda, tathata, que se manifesta através de nosso corpo quando sentamos em zazen. O zazen é estar sentado na postura do lótus (kekkafusa): o lado esquerdo se torna o lado direito e o lado direito se torna o lado esquerdo, é nosso corpo humano, físico que se torna o corpo cósmico, dharmakaya. É isto que está expresso no comentário de Dogen Zenji quando ele diz: estar sentado em zazen quer dizer quebrar, eliminar este corpo físico que foi dado por nossa mãe, o que quer dizer que o corpo, ainda continuando a existir se transforma para se tornar um corpo de buda cósmico.

Nós vivemos neste mundo histórico, mas no mesmo momento, cada um de nós é um buda cósmico no mundo absoluto. Claro que a água e o céu que são mencionados aqui não estão designando a água e o céu do nosso mundo, mas o mundo do corpo cósmico. Se bem que o céu seja vasto, que os pássaros voem tão longe, sem limites, cada coisa permanece imóvel. Para mim, isso é muito importante: nos movemos continuamente, mas existe algo que não se move. Se você for assim, então você é o centro do universo, cada um de vocês, sentados em zazen, é o centro do universo. Como é possível ser o centro do universo quando existem tantos centros do universo? Porque não existem limites, porque se trata de um mundo transcendental no qual nos deslocamos sendo sempre o centro. Eis a razão pela qual os pássaros voam, o mundo voa com eles. Aqui, Mestre Dogen fala do tempo, mas fala também do espaço: neste instante absoluto, não existe nem passado, nem presente, nem futuro, o que Mestre Dogen exprime assim: não existe nada onde apoiar os pés (…nenhum lugar que nos entrave os pés) ou para falar de outra forma: os peixes nadam lentamente sem encontrar ninguém. Por que? Porque, como já disse mais alto, não se trata do mundo humano.

Podemos dizer que se trata do primeiro dos cinco graus (goi) de Tozan Zenji. Se, estando na obscuridade, encontramos uma outra pessoa, não o reconhecemos como um outro, mas existe movimento, é “sutil”, não é mais algo do mundo humano, é o mundo da natureza de buda e se é o mundo da natureza de buda, claro, não nos encontramos com ninguém, quer dizer que nadamos ou voamos com a totalidade do mundo do Dharma.

Se quisermos estudar a fim de conhecer o significado deste vôo, a única resposta é que nós estamos no interior, nós voamos, sim, mas sempre naquele lugar onde estamos sentados, sentados com o universo inteiro. Sentados, aqui, podemos ouvir a manifestação dos intermitentes do espetáculo. E em Eitai-ji, nós sentamos com as montanhas e com os rios. É o corpo cósmico do Buda (dharmakaya).

Não temos mais muito tempo.

Como vocês sabem, este “zazenshin” cita dois koans: o primeiro é o koan de Yakusan, que fala de hishiryo. Um monge perguntou ao mestre Yakusan: “Sentado como uma montanha de pedra, em que você pensa?” O mestre respondeu: “Penso daquilo que o pensamento não pode se aproximar”. O monge disse: “Como é possível pensar naquilo que o pensamento não pode se aproximar?” O mestre disse: “Pelo não pensamento (hishiryo)”.

Se bem que falemos muito de hishiryo, é difícil de compreender isto, ou de o assimilar completamente. O que podemos fazer? Simplesmente estar sentado como uma montanha de pedra como nós o fazemos aqui. Esta é a chave. Obter ou não o satori não tem importância, o importante é somente continuar a praticar, e assim tathata se manifesta. Por que ? Pensar, não pensar, é nossa prática, porque a consciência sempre se manifesta.

Mesmo assim, chega um momento em que não existe mais pensamentos. Não se trata de um adormecimento ou um estado parecido, porque se ouvimos gritos – como aqueles dos manifestantes lá fora – os ouvimos realmente, mas o estado do zazen não pode ser perturbado. É como a imagem que se reflete num espelho: se chega um Chinês, o espelho reflete um Chinês, se chega um estrangeiro, o reflexo do estrangeiro aparece no espelho. No estado de consciência deste estado de pensamento-não pensamento é como a imagem que se reflete no espelho. Então, o monge continuou a perguntar: como é possível de pensar aquilo que o pensamento não pode se aproximar? A resposta é: não pensar. Não pensar, isto não é uma resposta à pergunta colocada pelo monge, é mais dar um passo para trás.

Qual é a diferença entre pensar e não pensar e este “não pensamento”? De um lado este pensar, não pensar, é nosso obra humana, é a direção em direção ao satori, é do que nos queremos nos aproximar, é o que pensamos, o que não pensamos, as funções de nossa consciência pessoal. Mas por outro lado, hishiryo, é cortar tudo isto, cortar estando sentado como uma montanha de pedra, porque sentados desta forma, se manifesta o tathata, e agora é um outro lado que não o habitual que se manifesta.

Não é esperar o que seja, mas sentir realmente todos estes comentários de Mestre Dogen. No fim das contas é a diferença entre o “zazenshin” de Wanshi Zenji e o “zazenshin” de Dogen Zenji, que a parece na última parte do capítulo. Wanshi Zenji disse: “Os peixes nadam, lentamente, lentamente, e os pássaros voam longinquamente, longinquamente”, enquanto que Dogen Zenji diz, “Os peixes nadam como peixes, os pássaros voam como pássaros”.

A água está límpida até o fundo, os peixes nadam como peixes, o céu está límpido, vasto, sem limites, os pássaros voam como pássaros. Quando Dogen Zenji diz “os peixes como peixes, os pássaros como pássaros”, este “como” é muito sutil. Dizer que nós somos montanhas, peixes, ou pássaros quer dizer que nós somos simplesmente montanhas, peixes ou pássaros. Mas quando dizemos peixes nadam como peixes, pássaros voam como pássaros, isso quer dizer que eles já tocaram o fundo, que eles têm a natureza de buda, e do fato desta presença desta natureza de buda, eles lá estão enquanto peixes ou enquanto pássaros e é isto que permite que o peixe se torne peixe, ou ao pássaro que se torne pássaro, de onde se sentamos em zazen, uma pessoa vira uma pessoa, nos tornamos nós mesmos, de forma autêntica.

Pergunta: Ontem você falou do zazen cósmico. Eu passei as férias num local muito tranqüilo: eu me levantava cedo e fazia zazen praticamente como no sesshin. Fiquei muito contente e num certo momento o barulho do vento me deu a sensação de ser o vento. Gostaria de saber se uma tal experiência é somente um sonho ou verdadeiramente uma experiência que tem valor na prática.

Resposta: É uma experiência admirável, preciosa, mas tenho que acrescentar que se estamos vindo ao sesshin é porque queremos praticar a meditação, que é uma prática difícil porque estamos sentados o tempo todo, e fazemos isto nos esforçando um pouco (o que não tem nada a ver com esta vontade verdadeira de sentar). Acontece então que entramos naquele estado que você mencionou, ou numa outra dimensão, estas coisas facilmente acontecem. É importante, mas não é preciso permanecer nestes estados, porque eles dependem também de nosso estado físico, emocional ou mental. Estes estados que podemos comparar com altos platôs do paraíso, estão muito bem, mas são efêmeros e quando desaparecem nos deixam desamparados e às vezes incapazes de voltar ao estado de antes da experiência. Estas coisas acontecem e é a razão pela qual, ficar sentado assim não pode depender destes estados maravilhosos, angélicos ou mesmo estados infernais. Como nós acabamos de dizer, o céu é vasto, este mundo tem de dez graus se manifesta no presente e é necessário penetrar cada um destes dez estados porque isto nada mais é do que aquilo que está presente a você. Você já visitou um estado, visite outros.

Pergunta: Ontem você falou dos três caminhos: a via absoluta, a via dos pássaros, a via da mão aberta. Existe uma hierarquia entre estes três caminhos e são necessariamente distintas?

Resposta: Eu acho que estes três caminhos nada mais são que um só. O primeiro é a via absoluta, se trata de uma experiência no interior da qual existem duas direções. Os bodhisattvas continuam a progredir porque não tem fim. Para vocês é: “sem deixar traços”, mas esta experiência não é unicamente para vocês, é também para ajudar os demais. O que quer dizer que a partir do mundo absoluto, eterno, vocês voltam ao cotidiano cheios de confusão, e vivem neste mundo, ficando próximos desta fonte absoluta. Se bem que o possamos dividir assim, eu acho que nada mais são do que uma só coisa.

Na vida cotidiana, existem muitas confusões, problemas, e o meio de fazer faze consiste em tentar voltar para esta fonte imóvel, absoluta, para em seguida reagir face a estes acontecimentos e a os tratar como se apresentam.