Segundo Teishô Sobre o Sutra do Lótus

TEISHÔ Nº2

Ontem nós estudamos shoho jisso “todos os fenômenos são a forma verdadeira”. Esta frase provém do segundo capítulo do Sutra do Lótus.

Hoje vamos retomar o extrato do Sutra do Lótus que havíamos lido ontem, e especialmente a frase: “Somente um buda, junto com outro buda, pode transmitir a essência verdadeira”, que Dogen Zenji cita no capítulo “Yui-butsu-yo-butsu” do Shobogenzo.

Extrato do capítulo II do Sutra do Lótus:

Cesse, Sariputra, inútil falar mais ainda. Por que? É que o Desperto leva à realização, é a Lei primordial e rara, difícil de ser compreendida; somente um Desperto pode, juntamente com um outro Desperto, escrutinar até o fim o aspecto verdadeiro das entidades, o que quer dizer, para as entidades: assim são seus aspectos, assim suas naturezas, assim suas substâncias, assim seus poderes, assim suas ações, assim suas causas, assim suas condições, assim seus frutos, assim suas retribuições, assim suas igualdades, completas de começo até o fim.

Vejamos agora o que diz Dogen Zenji no capítulo de seu Shobogenzo intitulado “Yui-butsu-yo-butsu” “Somente os budas, juntamente com os outros budas”:

O Dharma de Buda não pode ser conhecido pelas pessoas. Por esta razão, desde os tempos antigos, nenhuma pessoa comum realizou o Dharma de Buda e nenhum nos dois veículos dominou o Dharma de Buda. Na medida em que isso é somente realizado pelos budas, nós dizemos: “Somente os budas, juntamente com os budas, são diretamente capazes de realizar perfeitamente”.

Dogen Zenji toma de uma frase ou uma palavra de um livro ou de um sutra e dá sua própria interpretação, independente do contexto deste texto. Este capítulo fala do dharmakaya “corpo cósmico do Buda”. Na escola Terra Pura o Buda Amita é invocado (Amitabha); na escola Shingon rezamos para o Buda Vairocana. Dogen Zenji quanto a si não cita nenhum buda particular, fala somente do dharmakaya e entra diretamente em sua explicação.

Qual é a essência do ensinamento budista? O que é o Buda? O que é o satori último? Este capítulo, que não estava incluído na primeira edição do Shobogenzo, é muito fácil de ser lido em japonês por tem poucos termos chineses. Não foi senão trinta e cinco anos depois do falecimento de Dogen Zenji (ou seja, em 1288) que um de seus discípulos (não se conhece seu nome) o descobriu e transcreveu em Eihei-ji.

“Yui-butsu-yo-butsu” se tornou, juntamente como o capítulo “Shoji” (“Vida e morte”) o que é conhecido como o “Shobogenzo secreto” se bem que seja muito fácil de ser lido, é todavia muito complexo e difícil de ser compreendido. Constatamos que os escritos de Mestre Dogen no fim de sua vida ficaram muito diferentes dos anteriores. Em que exatamente diferem estes dos primeiros escritos?

Na escola Zen, queremos absolutamente atingir o satori ou o kensho, e fazemos muitos esforços. Claro que tal força é importante, mas ao mesmo tempo pode se tornar um obstáculo à prática (podemos constatar isso durante a prática dos koans por exemplo). Um exemplo: Quando Mestre Joshu perguntou a Mestre Nansen:

Como saber se a pessoa está no caminho ou não?”, Mestre Nansen respondeu, “A vida cotidiana é o caminho, o caminho não pertence ao domínio de saber ou de não saber”.

“Yui-butsu-yo-butsu” tem relação com estes ensinamentos. Esta vontade, esta força que utilizamos para chegar à realização é de fato um obstáculo à realização. A realização ou o satori é o Dharma que se manifesta a si mesmo através de nosso corpo e espírito. Se bem que este corpo seja particular, é ao mesmo tempo a manifestação do universo inteiro. Este corpo é o ponto a partir do qual todas as coisas se manifestam, ou a vida, não somente a vida, mas a vida eterna se manifesta. Como o Dharma se manifesta através deste corpo? Já vimos que somente pela vontade não podemos chegar lá; mas então, se nada fizermos, como pode ser realizado este Dharma?

A propósito disto, me lembro do caso de Ananda, o segundo patriarca após Mahakasyapa, que ainda não havia atingido a realização depois da morte do Buda Shakyamuni.

Mahakasyapa era um especialista em zuta, um tipo de prática muito dura. Upali era o encarregado de fazer valer os preceitos, a disciplina, a doutrina (ou seja, a parte do Vinaya); todos estes discípulos, bem como Ananda, haviam escutado o ensinamento do Buda, mas cada um de maneira diferente. Ananda era muito bonito, simpático e todos gostavam dele. A pedido do buda, Mahakasyapa organizou um concílio onde somente os monges realizados – quinhentos ao todo – foram convidados. Ananda não foi convidado, e não foi convidado a participar, se bem que fosse muito chegado ao Buda e o único a ouvir e a ter memorizado todos os ensinamentos. Quando ele foi aceito como sendo o assistente do Buda (jisha), ele havia colocado a condição que caso estivesse ausente, teriam que lhe contar palavra por palavra o sermão do dia. Mesmo sendo especialista em sutras, Ananda, que sofria muito ter sido eliminado do primeiro concílio, se dirigiu a Mahakasyapa para que este lhe autorizasse a ir. Mahakasyapa lhe respondeu: “Se você conseguir entrar pelo buraco da fechadura da porta do concílio, você será benvindo”. Naturalmente, isso era impossível! Então Ananda decidiu sentar-se em zazen e como a noite avançava, acabou caindo de fadiga e quis se deitar para dormir. Dizem que antes que sua cabeça tocasse o travesseiro ele obteve a iluminação, o que quer dizer que no momento em que abandonou toda idéia do despertar, obteve o mesmo despertar. Como se pode constatar, a força que acompanhava sua meditação era também muito importante.

Existe uma outra explicação quanto ao despertar de Ananda. Segundo um outro koan, depois do falecimento do Buda Shakyamuni, Ananda perguntou a Kasyapa: “O Buda Shakyamuni lhe transmitiu este manto. Ele transmitiu também algo de secreto?” O manto, bem como as tigelas do buda, são um símbolo da transmissão, não da transmissão do Dharma em si do Buda a Mahakasyapa, mas são mesmo assim um importante símbolo. Ananda havia ouvido todos os ensinamentos do Buda, ele tinha de fato uma transmissão especial, se bem que ele a ignorasse. É o que chamamos de “ensinamento secreto”, ou “Mitsugo” (“Palavras secretas”), nome de um dos capítulos do Shobogenzo. A palavra não é pronunciada somente com a boca: as montanhas, a terra, as árvores, todos falam este linguajar secreto ou mujo seppo, “o ensinamento dos seres não animados”. Isso também é maha muni, este grande silêncio e é muito importante para nós.

Então, Ananda obteve a iluminação antes que sua cabeça tocasse no travesseiro e uma vez tendo despertado, ele foi à sala onde o concílio estava tomando lugar, mas ao invés de entrar pelo buraco da fechadura, ele abriu a porta normalmente e entrou. Mahakasyapa e todos aqueles presentes nada disseram porque sabiam que ele havia despertado. Isso é muito interessante. Esta história demonstra como a escola Zen interpreta “os milagres”. Há um outro capítulo do Shobogenzo chamado “Jinzu” “os poderes sobrenaturais”, que nós estudaremos oportunamente.

Nós agora vamos retomar e interpretar do meu jeito, este extrato de “Yui-butsu-yo-butsu”:

O Dharma do Buda não pode ser compreendido por pessoas comuns. É essa a razão porque desde os tempos antigos, nenhuma pessoa comum atingiu o despertar, nem os sravakas nem os pratyekabudas (budas que praticam somente para si), nenhum deles compreendeu a verdade última do Buda.

Sravaka está traduzido como “aqueles que ouviram a voz do Buda”. Sariputra, Maudgalyayana, Mahakasyapa que eram ouvintes, se tornaram arhats, ou seja aqueles que obtiveram o despertar através das quatro nobres verdades: o sofrimento, a origem do sofrimento, a cessação do sofrimento: os meios de colocar um fim ao sofrimento seguindo o caminho. Os Pratyekabudas são budas, que se bem que despertos, não possuem a compaixão que os permitiria transmitir o Dharma, se quedam silenciosos. Eles perceberam que tudo é engi, o resultado de causas e condições secundárias. Dizem que obtiveram a iluminação através dos doze nidanas (doze circunstâncias de causas e efeitos).

A esta prática do Hinayana (“O pequeno veículo”) se seguiu aquela do Mahayana (“O grande veículo”) centrado ao redor da figura do bodhisattva, cuja prática maior é aquela dos “seis paramitas”. Mas como está dito no Sutra do Lótus, somente os budas conjuntamente com os budas, podem compreender tudo que é o budismo, o ensinamento.

Em seguida vem uma coisa muito interessante: geralmente temos uma idéia do satori, mas essa visão, imaginar o que seja o satori, não é de nenhuma ajuda, porque o despertar está muito distanciado do que o aquilo que se pode imaginar. O satori provém de algo transcendental, o satori não pode ser obtido por nenhuma força além daquela do satori mesmo.

Leitura de um extrato do “Yui-butsu-yo-butsu” do Shobogenzo, (volume 4, capítulo 91, p. 213)

(…) Quando nós o realizamos perfeitamente, continuando a ser aquilo que somos, nunca dantes havíamos imaginado que a realização seria desta forma. Mesmo que o tivéssemos imaginado, não é uma realização que é compatível com aquilo que havíamos imaginado. Sendo assim, imaginá-lo antecipadamente não tem qualquer utilidade. Quando atingimos a realização, não conhecemos as razões pelas quais agora nos achamos no estado da realização. Consideremos tal coisa. Imaginar, antes da realização, que isto seria desta ou daquela forma, não é útil para a realização.

Este estado de realização consiste de um momento no qual nada esperamos. Com efeito, se algo estivéssemos esperando, nada viria, e é por isso que é necessário estar num estado de não expectativa para que a realização se produza.

Tomemos o caso de Kyogen que começou a praticar com Hyakujo Zenji e que após o falecimento de seu mestre Hyakuji, foi praticar com Isan que havia criado um mosteiro. Isan lhe disse: “Todo mundo está dizendo que você é muito inteligente e que se for lhe feita uma pergunta sobre o budismo, você tem a capacidade de dar dez respostas a este respeito. Por favor me diga, fora dos sutras e sem a ajuda de suas anotações, uma palavra sobre o budismo”. Kyogen não pode responder, e então queimou todos seus livros, todas suas anotações e disse aquela célebre frase: “A pintura de um bolinho de arroz não pode apaziguar a fome”. Ele passou tempo como cozinheiro, sem ser capaz de achar uma resposta. Então ele foi até o Mestre Isan e lhe disse: “Por favor me diga algo”. Isan disse: “Eu poderia responder para você, mas isso seria minha resposta e não a sua, e no futuro você me detestaria por tal coisa. Por isso não vou dizer nada”. Kyogen se desesperou completamente. Este estado, chamado de daigi “grande dúvida” é muito importante. Kyogen se desligou da sangha, e foi se instalar numa ruína que transformou em ermida. Ora, um dia em que ele varria as folhas, ouviu o barulho de um pedaço de telha que bateu contra um bambu e com esse barulho atingiu a iluminação. Ele sempre dizia que não podia obter o despertar nesta vida, por causa de um obstáculo kármico e decidiu viver sem esperar nada que fosse. Ora, deste fato mesmo ele obteve o despertar.

Um caso parecido foi aquele de Lehon, que visitava os mestres. Um dia em que ele observou a paisagem na montanha, e viu os pessegueiros em flor, e com a visão destas flores obteve a iluminação escrevendo em seguida um poema. Este tipo de poesia é chamado toki no-ge “os versos do despertar”. Em seu poema ele começou dizendo que havia feito uma longa peregrinação e ele juntou sua história com aquela de um samurai que, ao atravessar um rio numa barcaça, deixou cair inadvertidamente sua espada na água e disse: “Não se afobem, vou fazer um sinal no barco para marcar o local”. E ele marcou o fundo do barco dizendo: “Já que a espada caiu aqui, vamos encontrá-la novamente”. Ele utilizou esta história para dizer que o satori era assim, se a pessoa marcar o lugar onde ele estava, não o encontraremos jamais. Ele acrescentou, “Depois de anos gastos procurando os ensinamentos com os mestres, eu o encontrei sem buscar”.

Mestre Dogen sempre diz que tecemos idéias sobre o que será o satori: no fim das contas, quando o abandonamos, não é mais o que buscávamos, é o Dharma que nos busca e que se manifesta. Foi a experiência do Sexto Patriarca (Hui-neng) que era um lenhador, totalmente ignorante de tudo que dizia respeito ao Budismo, mas que ao ouvir um monge recitar o sutra do Diamante, atingiu o despertar.

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