Sansuikyo

TEISHÔ Nº1: Não foi gravado.

TEISHÔ Nº2

Durante este sesshin vamos continuar com o capítulo do Shobogenzo “Sansuikyo”. Existem várias traduções do “Sansuikyo”. Aquelas em inglês de Nishiyama, Nishijima, Cleary. Em francês existem duas: a de Bernard Faure e Yoko Orimo e cada uma destas traduções é diferente.

Na primeira parte do “Sansuikyo” nós constatamos que tudo foi dito.

Leitura e tradução do “Sansuikyo” por Yoko Orimo, p.102:

As montanhas e rios deste Presente são a realização como presença do Caminho dos antigos despertos. Permanecendo em seus níveis da Lei, elas realizam conjuntamente suas virtudes últimas adquiridas. Anteriores ao eon da Vacuidade, seus sopros ininterruptos constituem a atividade cotidiana deste Presente. Anterior ao todo manifesto do mundo fenomenal, o Si mesmo transparece em se despojando e se realiza como presença. A virtude adquirida das montanhas é tão alta, tão vasta que, montada nas nuvens, a virtude do Caminho penetra sempre e por toda parte desde as montanhas. A maravilha adquirida do bom vento transparece sempre desde as montanhas se mostrando.

Quando foi dada a instrução coletiva, o superior Kai do monte Taiyo disse: “As montanhas azuis caminham constantemente; a mulher de pedra dá a luz durante a noite”.

Outra tradução do mesmo trecho: Tradução de Nishijima Roshi:

As montanhas e rios do presente são a realização das palavras dos velhos budas. Ambos montanhas e rios permanecem em seus lugares no Dharma, tendo realizado a virtude última. Porque elas estão no estado anterior ao kalpa da vacuidade, elas mantém a atividade vigorosa no presente. Porque elas estão em si mesmas antes que tudo fosse criado, elas são a verdadeira liberação. As virtudes das montanhas são tão elevadas e tão grandes que nós realizamos sempre a virtude moral que cavalga as nuvens se apoiando nas montanhas e nós liberamos infalivelmente a função sutil que segue o vento se apoiando nas montanhas.

Nas diferentes traduções deste capítulo “Sansuikyo”, podemos ler, na maioria delas, que “as montanhas e rios deste presente são a realização do caminho dos budas velhos”. Somente a tradução de Nishijima Roshi diz que “as montanhas e rios deste presente são a realização das palavras dos velhos budas”. No passado se traduzia “palavras” por “caminho” porque com efeito, esta letra japonesa e chinesa do é “o caminho” (do como em dojo). Contudo, Dogen Zenji utiliza esta expressão como palavra dita, ou expressa. É mais fácil de compreender “a realização do caminho”, que “a realização da palavra”. Seria interessante saber porque Nishijima Roshi a traduziu como “realização da palavra”, porque no que me toca, eu a traduziria também da mesma forma.

No capítulo do Shobogenzo “Dotoku” que nós já estudamos, do-toku quer dizer “aquilo de que é possível falar”, mas Dogen Zenji utiliza este do às vezes no sentido de “caminho” e às vezes como “palavra”. O que é difícil de exprimir através da linguagem para a maioria dos professores do Dharma, não o é para Dogen Zenji. Para ele, se você realmente tem a realização, a expressão vem naturalmente.

Porque é que eu escolhi traduzir do por “palavra”? Porque eu tenho um pensamento interno… De fato, eu quero comparar “Sansuikyo”, e especialmente esta frase com um comentário de Meister Eckhart sobre a primeira linha do Evangelho de São João, a saber: “No começo era a Palavra”. Dois terços do comentário de Meister Eckhart são consagrados a esta primeira linha, sobre a qual ele dá quinze explicações. Eu preparei explicações sobre isto, mas talvez não tenhamos tempo de falar sobre isto. Mesmo que alguns de vocês tenham vindo aqui para ouvir falar do zen e não do cristianismo, me parece interessante fazer um paralelo entre Meister Eckhart e Dogen Zenji.

Meister Eckhart disse: Para compreender, ou para descobrir a verdade última, eu li numerosos livros, não somente a Bíblia ou o Novo Testamento, mas igualmente muitos livros de filosofia antiga. Que queria dizer Meister Eckhart quando falava de descobrir a verdade última? Por outro lado, Dogen Zenji não aceitava a idéia de ler livros não-budistas.

No Eihei Koroku, eu descobri algo de muito interessante, a saber esta expressão “antes do tempo”.

Tradução de Nishijima Roshi:

O pequeno peixe engole o grande peixe

Discurso na sala do Dharma

Eu me lembrei que um monge perguntou a Yantou (Quanhuo): “Como era o tempo antes que a vela antiga tenha sido desenrolada?”

Yantou disse: “O pequeno peixe engole o grande peixe”.

Se vocês quiserem compreender esta situação, ouçam o verso por Eihei:

O pequeno peixe engole o grande peixe;

Um monge budista lê um texto confucionista.

O fato de escapar da rede dos budas e dos demônios,

Varre as poeiras dos ensinamentos.

Este caso que acabamos de ler nos diz: Qual era o tempo antes dos tempos antigos? (“Antes que a antiga vela tenha sido desenrolada?”) É um koan. Dogen Zenji parece conhecer tudo, é interessante! Eu já havia encontrado com este koan quando praticava na escola Rinzai e me parece, sem ter certeza, que ele pertence à categoria dos koans mais difíceis. De qualquer maneira, cada mestre tendo suas próprias características, um mesmo koan pode ser tratado diferentemente segundo as características de cada mestre, porque cada um deles tem suas particularidades e seus métodos de ensinar. Pessoalmente, eu nunca o estudei a fundo, somente o li. Em resposta a este koan, um monge se levantou, colocou a manga de seu koromo como se fosse uma vela e começou a fazer idas e vindas diante do mestre. Esta foi sua resposta. Mas se alguém tentasse lhe imitar, o mestre responderia: “Não, vá embora”.

Na expressão “como é o tempo antes que a antiga vela seja desenrolada?”, o que nos interessa é esta noção de antigo, que tem a ver com a realização dos budas velhos que Nishijima Roshi traduziu por “budas autênticos”.

Existem duas explicações quanto a este koan. Primeiramente: nós nos lembramos de “Qual era a intenção de Bodhidharma quando veio da Índia para a China?” Nos tempos antigos, muitos budistas vieram da Índia à China, enquanto que outros foram da China para a Índia, para buscar sutras e os ensinamentos de Buda. Bodhidharma, por sua parte, não veio por terra, mas por mar, de navio, depois de uma viagem de três anos até que chegou em Cantão. Ora, naquela época, os motores não existiam, as embarcações eram equipadas com velas. “Como é o tempo antes que a antiga vela seja desenrolada?” quer dizer, “o que queria dizer o Budismo antes que Bodhidharma tivesse chegado na China?” A segunda explicação é a seguinte: antes que o mundo tivesse sido criado, o que era o mundo? E a resposta é: “O pequeno peixe engole o peixe grande”, o que quer dizer que não existe diferença entre “pequeno” e “grande”, “beleza” e “feiúra” etc.

Dogen Zenji convidou a assembléia, ao dar o ensinamento no salão do Dharma, a ouvir o que ele tinha a acrescentar a este koan e se descreveu a si mesmo como “um monge budista que lia um texto confucionista”.

Nishijima Roshi traduziu o verso seguinte assim: O fato de escapar da rede dos budas e dos demônios.

Eu tenho muito a dizer sobre este assunto que a verdade do budismo, ou do Buda, não depende do confucionismo, do cristianismo, ou do budismo, a verdade está muito além de tudo isso. Além disso, se a pessoa estiver apegada ao budismo, este budismo se torna o demônio ou o diabo, ou como a expressão que se emprega para isso, “a poeira do Dharma”. Também é dito que a ignorância ou os desejos, são como correntes de ferro e que o apego ao Dharma é uma corrente de ouro, e se bem que o ouro seja precioso, essa corrente de ouro aliena a pessoa. O único meio de se liberar é de ter um espírito flexível, somente este espírito flexível nos permite avançar e descobrir a verdade absoluta.

Este caso intitulado “o pequeno peixe engole o grande peixe”, nos diz que antes que este mundo fosse criado, não havia dualidade alguma.

Eu tenho aqui a tradução do “Sansuikyo” “O Sutra das montanhas e dos rios” por Bernard Faure, então leremos o começo:

As montanhas e os rios do presente são a realização do Caminho dos budas velhos. Cada um deles, permanecendo em sua própria hierarquia do Dharma realiza a totalidade das virtudes. Se bem que elas não sejam nada mais que o estado anterior do kalpa do vazio, se constituem na vida presente. Se bem que elas revelam o Si mesmo anterior à aparência de todo sinal, são a perfeição realizada.

Bernard Faure diz: “As montanhas e rios do presente”. “Presente”, no texto original é nikon mas este presente não é o presente temporal. Para nós, o tempo se define enquanto momentos que precedem ou sucedem a outros, que poderíamos comparar a uma flecha de um arqueiro atirada no passado e se dirigindo em direção ao futuro passando pelo presente. Mas nós já vimos que esta temporalidade é simultaneidade e que não existe o tempo presente, passado ou futuro, porque o passado e o futuro estão neste presente. Quando Nishijima Roshi fala, em sua tradução, dos “budas autênticos” se trata de: “As montanhas e os rios do presente são a realização do Caminho dos Budas velhos”.

O caso abordado no “Sansuikyo” é aquele de Fuyo Dokai Zenji e de Unmon. Esta expressão “buda velho”, “buda antigo” pode igualmente ser interpretada como “antes da aparição do mundo”, o que quer dizer: nós estamos aqui, e não somente as montanhas e rios, mas este universo todo inteiro realiza exatamente este momento absoluto.

Leitura de um extrato do “Sansuikyo”:

Porque elas são o si mesmo antes da ocorrência da criação, elas são a verdadeira liberação.

Aqui está a questão de nosso rosto original antes que tivéssemos nascido. Nossa presença aqui que manifesta, de forma inegável, a totalidade, sem que seja necessário nos definir enquanto “manifestação” ou “realização daquele velho buda” é de fato “o deixar cair”.

Voltemos a este tempo, nikon “presença do presente absoluto”: não se trata somente de falar (como este texto “Sansuikyo) de montanhas, rios, etc. que nada mais são que representações, se trata de compreender que os velhos budas são budas autênticos, além da noção de Deus, ou de algo pessoal. Em alemão quer dizer Gotheit, termo que erradamente se traduz por “divindade”.

Jesus veio a este mundo. Ele é a palavra e ele se encarnou neste corpo, neste mundo. Qual é a característica da palavra? A palavra é a ferramenta que permite explicar o que é o Pai, a origem e de esclarecer algo. Se Jesus era o verbo, por este verbo, ele revela o que era o Pai e já que não existe dualidade entre Jesus e o Pai, Jesus de fato era Deus ele mesmo, a mesma coisa que a expressão “antes do tempo dos velhos budas”, “antes” quer dizer de fato “autêntico”.

Quando o Mestre Fuyo Dokai e Mestre Yunmen se expressam com palavras tais como “As montanhas azuis marcham sem parar/a mulher de pedra dá a luz durante a noite”, ou “A montanha do leste se move por sobre as águas”, eles estão se exprimindo enquanto pessoas mas ao mesmo tempo transcendem suas personalidades, e neste caso, são budas velhos, têm estes dois lados.

Terminamos o comentário da primeira linha do “Sansuikyo”. Amanhã nós examinaremos o termo “Lei”, “estado do Dharma”.

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Terceiro Teishô de Junho de 2005 em Eitai-ji

TEISHÔ Nº3

Estamos no terceiro dia do sesshin e continuaremos com o capítulo “Sansuikyo”. Vamos reler o comecinho do “Sansuikyo”, da versão inglesa por Nishijima Roshi (Volume 1, capítulo 14, p. 167):

As montanhas e rios do presente são a realização das palavras dos velhos budas. Montanhas e rios permanecem no Dharma, tendo realizado a virtude última. Porque estão no estado anterior ao kalpa da vacuidade, elas são a atividade vigorosa no presente. São ambas o si mesmo antes da emergência da criação, por isso são a liberação verdadeira. As virtudes das montanhas são tão elevadas e extensas que realizaremos sempre a virtude moral que cavalga nas nuvens se apoiando nas montanhas e nós liberaremos infalivelmente a eficácia sutil que segue o vento se apoiando nas montanhas.

Agora vamos ler o Eihei Goroku (88):

A punição por ter perdido o dinheiro no rio

Quando o Mestre Zen Hongzhi visitou pela primeira vez Danxia, Danxia perguntou: “O que é seu si mesmo antes do kalpa da vacuidade?”

Hongzhi disse: “Um sapo no fundo de um poço engole a lua. À meia noite ele não pega emprestado uma cortina brilhante para se iluminar”.

Danxia disse: “Ainda não, diga algo mais”.

Hongzhi tentou falar, mas Danxia lhe bateu com seu punho e disse: “Você ainda diz que não pega emprestado?”

Hongshi subitamente se iluminou e fez prosternações.

Danxia disse: “Por que você não diz algo?”

Hongzhi disse: “Hoje perdi meu dinheiro e recebi punição”.

Danxia disse: “Não tenho tempo a perder te batendo. Por ora você pode ir embora”.


Ele tinha a intenção de vender as torrentes da iluminação a um comprador.

De noite, a lua se elevou por trás das montanhas e chegou à janela.

Quando o dinheiro é perdido no rio, busque-o no rio.

Aquele que chora no rio se detém e permanece no rio.

Este caso (88) do Eihei Goroku é o diálogo entre Tanka Shijun Daiosho, um mestre de nossa linhagem, e Wanshi Zenji, um mestre que Mestre Dogen tinha em alta estima, mas cuja linhagem se separou da escola Soto depois de Tanka Shijun.

Wanshi Zenji é conhecido pelo mokusho zen “o zen da iluminação silenciosa” ou “o zen silencioso da luz radiante”, que se opunha ao sistema de koan chamado kanna zen “zen que fita os koans” do Mestre Daie Zenshi, da escola Rinzai, esse último sendo menos apreciado por Mestre Dogen. Existe um Wanshi goroku, assim como o Unmon goroku, aquela época produziu grandes mestres. Eu tinha este texto, o Wanshi goroku, mas eu o perdi e vou procurá-lo novamente no Japão.

Aqui nós não temos nem gongo, nem relógio suspenso, nem um unpan (e praticamos com objetos improvisados). Às cinco e meia manhã, se deve bater o gongo cinco vezes, em seguida o sino duas vezes; na terceira batida do sino, o unpan responde ao relógio e os sons se aceleram; em seguida entoamos o sutra do kesa. De fato tudo deve estar harmoniosamente conectado. Como não dispomos de todos estes instrumentos, estamos “antes da vacuidade”.

Neste texto (Eihei Zenji goroku, caso 88), quando “o sapo engole a lua”, é a noite escura (como “a mulher de pedra” da qual nós falamos), e entre 11 horas e uma da manhã, não há necessidade de uma cortina luminosa. Esta cortina de fato é uma cortina de pérolas de cristal que cintilam com os raios do sol, mas de nada serve nesta total obscuridade. Esta expressão “quando o sapo engole a lua” tem que ser comparado com aquele com o qual Keizan Zenji obteve a iluminação, “a pedra negra da montanha Konron voa na noite escura”. Estes dois koans pertencem à mesma família, em japonês se chamam ruisoku, “koans parecidos” ou da mesma categoria.

Se você compreender um caso, por exemplo, aquele de Keizan Zenji “A pedra preta da montanha Konron voa na noite escura”, quando encontrar esta expressão “o sapo engole a lua”, sabe imediatamente que se trata do mesmo estado, passar por um koan permite compreender imediatamente compreender os koans da mesma família.

A prática do zen deve ser uma prática do momento e compreender um koan quer dizer compreendê-lo profundamente. No começo não se passava pelos koans com o objetivo de atingir o kensho ou satori, para obter tal kensho (despertar) era preciso compreender todos os koans simultaneamente. Nos dias de hoje se passa pelos koans de forma gradativa. Tal método também tem seus lados positivos, já que permite permanecer com um koan e o resolver, porque se trata aqui de seu próprio koan, de sua própria dúvida, e resolver tal coisa pode levar vários anos. Certas pessoas podem se realizar subitamente através de um koan, mas eu diria que quanto mais se sofre com um koan mais profunda será nossa compreensão. De fato, a questão não é atravessar rapidamente, mas profundamente.

Mas a resposta de Wanshi Zenji não conveio a Tanka Shijun que acrescentou: “Isso não é suficiente, diga mais”. Lembra-se que a mesma coisa aconteceu com Keizan Zenji: quando ele respondeu a seu mestre Tetsu Gikai: “A pedra negra da montanha Konron voa na noite escura”, o mestre lhe disse: “Isso não é suficiente. Diga-me algo mais”. Então Keizan Zenji respondeu: “Quando tenho chá, bebo chá; quando tenho arroz, como arroz”. Então, “a noite escura” significa o absoluto, “beber chá” é a vida cotidiana, ou seja o relativo e é indispensável ter ambos lados para permanecer neste mundo. Quando Tanka Zenji disse a Wanshi Zenji: “Diga algo”, Wanshi Zenji hesitou. Tanka Zenji, vendo que ele se encontrava num impasse, lhe bateu com seu punho e disse: “Lembre-se que você não precisa pegar emprestado a cortina brilhante”, e neste momento Wanshi Zenji obteve o satori e se prosternou. O mestre lhe pediu que acrescentasse algo. Wanshi respondeu: “Hoje perdi o dinheiro e recebi uma punição”.

Receber punição” quer dizer a perda de tudo que possuímos, é morrer para entrar profundamente neste mundo obscuro. O mestre disse: “Não tenho tempo a perder para te bater, agora pode ir embora”. Se bem que seja importante obter a iluminação, Tanka Zenji relativiza tal experiência e foi por isso que ele disse de maneira desenvolta: “Não tenho tempo a perder”: eu adoraria te dar uma pancada, mas não tenho tempo, vá embora, o que quer dizer: nada é.

Wanshi Zenji se tornou um grande mestre que não demonstrou jamais nenhuma admiração para o tipo de iluminação que pode fazer crescer o ego.

Depois que o discípulo passou pelo koan, o mestre, se bem que reconheça sua realização, o observa para ter certeza que esta realização se estenda a todas ações da vida cotidiana. O importante não é o momento do koan, mas o que toma lugar depois e como utilizamos tal realização através do koan. No Eihei Goroku, encontramos vários casos assim.

Por outro lado, quando Tetsu Gikai Zenji reconheceu Keizan Zenji com o koan da pedra preta, ele simplesmente disse: “Com você, esta escola Soto vai crescer e se tornar importante”. Todos estes mestres, Ejo Zenji, Dogen Zenji, que nós recitamos de manhã, são mestres de nossa linhagem. Devemos nos lembrar seus nomes corretamente, porque, como eu espero, vocês um dia receberem o shiho “a transmissão do Dharma” será preciso que vocês neste caso se lembrem de todos estes mestres que precederam vocês.

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Quarto Teishô de junho de 2005 em Eitai-ji

TEISHÔ Nº4

Vamos reler o começo do “Sansuikyo” da tradução para o inglês de Nishijima e Cross (Volume 1, capítulo 14, p. 167):

As montanhas e rios deste presente são a realização das palavras dos velhos budas. Os dois (montanhas e rios) permanecem no Dharma, depois de ter realizado a virtude última. Porque estão no estado anterior ao kalpa da vacuidade, são a atividade vigorosa no presente. São ambas o si mesmo antes da emergência da criação, são a liberação verdadeira. As virtudes das montanhas são tão altas e extensas que realizamos sempre a virtude moral que pode cavalgar as nuvens se apoiando nas montanhas, e sem falta jamais, liberaremos a função sutil que nos permite seguir o vento nos apoiando nas montanhas.

Esta primeira parte do capítulo é muito simbólica, poética, mas difícil de ser compreendida.

Agora vamos abordar o caso 8 do Eihei Goroku:

Os noventa dias da grande paz

Reunião informal para a abertura (ou começo) da prática do período de verão

Mestre Cihang (Fapo) era um verdadeiro mestre na linhagem de Huanglong. Quando ele residia no templo das Quatro Claridades no monte Tiantong, quando duma reunião informal para a abertura da prática do período de verão, ele disse: “Os praticantes do zen devem ser de forma que seus narizes estejam direitos em seguida devem ter vistas claras e brilhantes. Em seguida devem dar valor ao fato de penetrar ao mesmo na essência e na expressão dela. Depois de terem realizado tal coisa, eles atingem paralelamente a capacidade energética e sua função, em seguida penetram budas e demônios, o si mesmo e o outro chegando juntos. Por que isso? Quando o nariz está direito, tudo está direito. É como uma pessoa que mora numa casa; se o mestre está direito, todos que estão abaixo dele naturalmente se transformam. Então, como podemos fazer de sorte que nosso nariz esteja direito? Um velho sábio (Huangbo) disse: “Sejam determinados a não afundar ao fluxo de um segundo pensamento e vocês terão penetrado na porta essencial”. Não será esta a norma para vocês que se aproximam de seus si mesmos verdadeiros antes que seus pais tenham nascido?” Em seguida ele disse: “O longo período de noventa dias começa amanhã. Suas práticas não devem se separar de suas linhas de conduta”.

Dogen, aquele que ensina, disse: Se bem que um antigo sábio tenha dito: “Sejam determinados a não afundar no fluxo de um segundo pensamento”, eu, Eihei, digo também: “Estejam determinados a não afundar no fluxo de um primeiro pensamento; estejam determinados a não afundar no fluxo do não-pensamento. Se cada um de vocês praticarem e estudarem assim, vocês finalmente alcançarão aquilo.

Nesta noite eu, Eihei, não recuso o karma das palavras, e vos digo a todos: o longo período de noventa dias começa amanhã. Suas práticas não devem se separar de suas linhas de conduta. Sentem-se sobre as almofadas, desapegados de outros assuntos; durante todo o dia, silenciosamente, de forma serena apreciemos a grande paz.

Aqui se trata do sermão dado na véspera do ango. Neste texto (do Mestre Cihang) nós encontramos novamente a expressão: “Antes que seus pais tivessem nascido” e em seguida “Antes que aparecesse um segundo pensamento”. Mas Dogen Zenji acrescenta: nem sequer um segundo pensamento, nem ainda um primeiro pensamento, nem o não pensamento, querendo também dizer, “Antes do kalpa da vacuidade”, ou nós poderíamos dizer, antes da aparição do pensamento, da memória, das lembranças não importa quais sejam. O Zazengi fala da necessidade de esclarecer o funcionamento do espírito. Em primeiro lugar está o shiryo “pensar”, em seguida o fushiryo “não-pensamento” e finalmente hishiryo “além do pensamento”. Como voltar a este estado de antes que tivéssemos nascido? É a via negativa, como dizia São João da Cruz “a noite dos sentidos”, a noite da consciência, a noite do espírito, o que implica na passagem da purificação, é o caminho que leva ao retorno. Na negativa, estaremos contaminados pela dualidade e pela temporalidade.

No “Zazengi” escrito pelo Mestre Dogen, está dito que o nariz devia estar vertical e os olhos horizontais, eis tudo e nada mais. Todavia, quando compreendemos esta essência do ensinamento, é necessário exprimi-lo àqueles que seguem o mesmo caminho que nós. A capacidade de transmitir esta experiência prova que a pessoa já é um mestre. A energia da realização realmente funciona e de outra parte, este retorno à origem apaga em você toda idéia da existência de um ego, se bem quem você pode resolver não importa qual dilema com toda liberdade.

O que significam estas expressões: “antes do primeiro pensamento” e “não ter um segundo pensamento”? É muito simples: se trata de fazer, mas de fazer sem fazer. Por exemplo, se o Mestre diz para fazer de um jeito, você deve fazer daquele jeito, simplesmente isto, e se ele disser para não fazer, então você não faz. Se bem que isto pareça muito simples, invariavelmente nós responderemos: “De acordo, mas por que fazer desta forma? Por que não fazer de outra forma?”

Ir ao mosteiro é a primeira regra para um monge, e além disso para obter a ordenação é necessário no mínimo ter permanecido durante três meses no mosteiro.

Quando Mestre Dogen diz que é bom entrar na montanha (a montanha querendo dizer o mosteiro), em espírito você não percebe nenhum obstáculo, você acha fácil de ir lá, mas no momento de tomar a decisão de partir, encontra subitamente inumeráveis razões para não ir, você diz a si mesmo que entrar na montanha é muito difícil. Primeiro obstáculo: “Sem dinheiro, como poderei sobreviver? É impossível, não posso ir para lá”. Ou ainda, “Tenho uma família a qual não posso abandonar, tenho um trabalho…” tudo isso é exatamente “o segundo pensamento”.

Em japonês um monge é chamado shukke “aquele que saiu de casa”, mas quando você compreende que a casa não é a casa, você sai de casa para viver em casa. Esta crítica não está endereçada a vocês, mas a mim mesmo. Tudo isso nós o compreendemos muito bem, mas não o podemos realizar porque existem tantos “segundos pensamentos” que fazem um obstáculo, tantas razões para não entrar na vida monástica. Esta montanha, este mosteiro, não são somente uma montanha ou um mosteiro concretos, quando entramos na montanha sem termos os olhos ou nariz da postura de zazen, nos tornamos animais se sermos capazes de nos auto-controlar. Na realidade sentar-se assim em zazen é a manifestação e a realização de si mesmo antes do kalpa da vacuidade.

Vocês se lembram do sexto patriarca Hui-neng que, depois de ter recebido a transmissão do Dharma fugiu para a montanha, perseguido por numerosos discípulos do quinto patriarca. Todos aqueles monges desistiram no caminho exceto um, um homem corpulento que tinha sido general, e que havia subido até o cume da montanha para pegar o okesa de Hui-neng. Então Hui-neng depositou o okesa diante dele, sobre um rochedo e disse a Houei-ming que o havia alcançado: “Este okesa, transmitido há várias gerações de buda para buda é somente um símbolo, se você quiser, pode pegá-lo”. Dizem que a despeito de todos seus esforços, o monge Houei-ming não pode levantar o okesa que havia se tornado tão pesado quanto um rochedo. Subitamente tomando consciência da leviandade de sua ação, humildemente se inclinou diante do Sexto Patriarca e lhe disse: “Não quero este okesa, mas por favor, me ensine o caminho”.

Do ponto de vista simbólico e psicológico, o okesa transmitido desde o Buda Shakyamuni é não somente um tesouro nacional, mas também algo de muito importante no que nos toca, e daí a vontade de o agarrar, de pegá-lo, se bem que na realidade se trata somente de um símbolo.

Hui-neng disse a Houei-ming: “Qual é seu rosto original quando você não pensa? Não pense nem no bem nem no mal”.

Não pensar nem no bem nem no mal, isso é o primeiro pensamento; pensar no não pensamento, é voltar à origem, antes que aparecesse a partícula mais ínfima de criação. Todavia, cortar o pensamento durante o zazen é muito difícil, porque este pensamento está sempre em movimento, como um fluxo de água.

Quando nós nos sentamos a cada mês para o sesshin de uma semana, durante o primeiro destes sete dias ainda estamos impregnados do que deixamos para trás de nós, mas já no segundo dia, a despeito de toda dor nas pernas, nas costas (e eu posso constar isso), seus zazen melhoram, e uma vez tendo domado seus corpos, podem então entrar mais profundamente. Para um monge, esta prática de zazen é primordial: quanto mais você sentar, mais pode melhorar, e se torna muito naturalmente um bom monge zen. Nos dias de hoje, nossa tendência é privilegiar o estudo com o detrimento da prática, ou então praticar essencialmente cerimônias porque são uma fonte de dinheiro. Se bem que poucos monges amem esta prática de zazen, sem ela, como seria possível transmitir um ensinamento? Tal transmissão nada mais seria que algo teórico. Sem uma prática constante a energia que se manifesta no momento exato não aparece. Praticar sozinho é muito difícil, mas graças a esta congregação de monges – nem que seja somente duas ou três pessoas – o sesshin pode tomar lugar.

Leitura e tradução do Eihei Zengi Goroku (47):

Erro depois de erro além da dualidade

No comunidade de Jingzhao Mihu, um monge perguntou a seu irmão de Dharma Yanshan: “As pessoas de nossa época necessitam ou não do despertar?”

Yanshan disse: “Não é que não exista o despertar: mas como fazer para não tombar na dualidade?”

O monge voltou e contou isso a Mihu, que o confirmou profundamente.

O caso 47 do Eihei Goroku diz que o erro sucede o erro. Mas nós vimos anteriormente que se a base estiver errada, o resultado será irremediavelmente errado. O mais difícil é crer, aceitar, que esta prática é iluminação e realização porque pensamos constantemente que existe algo além do fato de estarmos sentados e é por isso que sofremos, e duvidamos, como nos lembra Dogen Zenji em um dos capítulos do Shobogenzo. De fato, praticamos tudo tecendo idéias sobre o que possa ser tal realização e se chegamos à realização, não será uma realização verdadeira já que ela não é o que se pode imaginar. É como avançar um passo para a frente e dois para trás, não somente não se progride mais, muito pelo contrário, regredimos. É por isso que Dogen Zenji diz: “Olhem para os seus pés, o lugar onde vocês estão”.

Através desta prática nós podemos ver se um monge, depois de tantos anos de sentar, é realmente um monge. Quando podemos aceitar profundamente esta idéia de que a prática é a realização, então quando estamos sentados sem zazen, neste momento este zazen se torna um verdadeiro zazen. Se vocês podem sentar desta forma, se tornar “uma só coisa” com o universo, esquecer de tudo que cerca vocês, neste momento, vocês verão seus rostos originais antes que seus pais tivessem nascido, ou antes do kalpa da vacuidade. Aqui chegados, a idéia de um si mesmo, de um ego, desaparece completamente e se você não tem mais ego, então você está em todas partes.

As primeiras linhas do “Sansuikyo” dizem que as montanhas, rios são neste momento absoluto a realização das palavras dos budas antigos e realizados. Sentados desta forma, este zazen não é mais um simples zazen, é zanmai ô zanmai “o samadhi rei dos samadhis”, que nos permite entrar livremente no mundo do buda, no estado do buda, ou no estado do diabo, o que quer dizer que não importa qual seja a situação em que estejamos envolvidos, não importa em que dificuldades, podemos penetrar nestas dificuldades e resolvê-las. Se vocês tomarem esta decisão de crer verdadeiramente que a prática é a realização, então tal prática se tornará um pilar em suas vidas, e a transmissão chegará do leste para o oeste, secretamente, “secretamente” querendo dizer “intimamente”, a saber o que vocês são realmente. A ausência de ego é o primeiro ensinamento do Buda.

Antes de terminar, gostaria de colocar uma última pergunta: “O que é a transmissão?”

Quando o mestre envelhece, às vezes fica um pouco senil. Depois de ter envergado seu kesa, quando ele coloca seu zagu no antebraço esquerdo, às vezes se engana e o coloca no direito. E o discípulo que o observa percebe isto e muda o seu rapidamente para o colocar no braço direito. Se vocês chegarem a ter tal relação particular entre mestre e discípulo, então estão prontos para receber a transmissão do Dharma. Mas bem, não é o que ocorre absolutamente…

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Quinto Teishô do Sesshin de Junho de 2005 em Eitai-ji

TEISHÔ Nº5

Hoje, quinto dia do sesshin, vou continuar a falar do estado “antes do kalpa da vacuidade” tomando o capítulo “Bendoho” do Eihei Shingi, da tradução para o inglês de Shohaku Okumura (que traduziu igualmente o Eihei Goroku)

Leitura e tradução do começo do capítulo “Bendoho”, p. 63:

Todos os budas e ancestrais estão dentro do caminho e ali engajados; sem o caminho, não se engajariam. O Dharma existe e eles aparecem; sem o Dharma não apareceriam. Por conseqüência, quando a assembléia está sentada, sente-se junto deles; ao cabo e ao rabo que a assembléia progressivamente se prolongue, prolongue-se igualmente. Na atividade e no repouso, sendo “um” com a comunidade, através de mortes e renascimentos não se separe do mosteiro. Ficar separado não traz nenhum benefício; ser diferente dos outros não é nossa conduta. Isto é a pele, a carne, os ossos e a medula dos budas e ancestrais, e é igualmente seu próprio corpo e mentes abandonado. Já que se engajar no caminho é a prática e iluminação antes do kalpa da vacuidade, por conseqüência não se preocupe com sua realização. É um koan antes do discernimento, tampouco aguardem a grande realização.

Todos os capítulos do Eihei Shingi falam essencialmente de disciplina, regras, menos este do “Bendoho” cujo começo fala do “anteriormente ao kalpa da vacuidade”. Nestas linhas que acabamos de ler, Mestre Dogen nos chama a atenção para o fato de praticar juntos, com a sangha. Este texto está dizendo que se assembléia está sentada, sente-se com ela, quando ela se levanta, levante-se com ela, quando ela se deita, deite-se também. É a prática de nossa escola Soto, que difere da prática (chamada yaza) da escola Rinzai, onde você pode se levantar e ir fazer zazen sozinho onde quiser. Por que a escola Soto não admite tal prática individual?

Quando, depois de ter se tornado monge, você vem ao mosteiro durante alguns anos ou talvez por toda sua vida, você já está além de uma pessoa comum e já que está além de uma pessoa comum, é inútil praticar sozinho com o objetivo de se tornar uma pessoa especial, particular. Esta vida é a prática e realização antes do kalpa da vacuidade, que você seja realizado ou não, não quer dizer nada, porque você já está realizado. Mestre Dogen disse: “É o koan antes da aparição do tempo, antes da criação (também não esperem pela grande realização)”.

Este ponto de vista quanto à prática e realização é próprio de Mestre Dogen. Para que o zazen se torne o zazen, é suficiente simplesmente sentar, não sentar de forma formal, mas sentar naquele estado onde nada se busca, nada se espera, no estado onde si mesmo não existe, o estado onde se abandona o corpo e o espírito.

Quando Mestre Sawaki era jovem, ele praticava intensamente o zazen sozinho, dia e noite. Um dia seu mestre lhe disse: “Você é como uma pessoa que está com merda até o nariz que olha ao redor para saber quem peidou”. Naquele momento, Sawaki Roshi se perguntou do que exatamente seu mestre falava, mas depois de vários anos reconheceu como isso estava certo. Quando você pratica com o objetivo, por exemplo, de obter o kensho ou o satori, tal zazen ainda não é o zazen, é somente um método como outro qualquer. O zazen autêntico é a atividade de todos os budas, é o Buda sentado, é o estado onde se abandona todas as particularidades que nos são próprias, toda intenção, todo egoísmo, é sentar-se em shikantaza querendo dizer “O estado antes do kalpa da vacuidade” ou anterior à aparição da criação.

Quero agora tomar uma outra parte do Eihei Goroku, o caso 30:

Dois versos dedicados a Chengzhong

Depois que a bruma do caos se dissipa, as três forças aparecem,

Tão completas quanto a natureza original desta verdadeira pessoa.

As pessoas e as coisas funcionam perfeitamente, sem serem distintas umas das outras.

Não deixe que a mulher de pedra venere as três estrelas.

As três forças” que aparecem no primeiro verso do poema de Mestre Dogen são o céu, a terra e os humanos. Esta poesia quer dizer que não há necessidade de procurar o tempo da mulher de pedra, o que quer dizer: buscar o mundo antes que o céu e a terra se separassem é buscar um mundo inexistente. Querer conhecer a causa original é uma questão filosófica. Querer saber o que tinha sido o mundo antes que fosse criado, é buscar a mulher de pedra, é definir a realidade do instante presente como antes e depois, é estabelecer a dualidade. A não-dualidade é o kalpa da vacuidade. Como disse Dogen Zenji no “Genjo Koan”, “Faça de forma que você realize a verdade última”.

Leitura e tradução do “Genjo Koan”, da versão para o inglês de Nishijima & Cross (volume 1, capítulo 3, p. 33):

Quando todos os dharmas são vistos enquanto Dharma de Buda, então existe a ilusão e realização, existe a prática, existe a vida e a morte, existem os budas e os seres comuns. Quando cada um dos dharmas entre os muitos Dharmas estão vazios de ego, não existe ilusão, não existe realização, não existem budas e não existem seres comuns, não existe vida e não existe morte. Na origem, a verdade do Buda transcende a abundância e a falta, e é por isso que existe a vida e a morte, a ilusão e a realização, existem seres e os budas. Se bem que isso seja assim, as flores, mesmo que as amemos, tombam; e as ervas daninhas, mesmo que as detestemos, crescem.

Aqui se fala precisamente da prática num mosteiro, que consiste a se deitar quando todo mundo se deita. Se deitar quando os demais se deitam, é praticar com o espírito do kalpa antes da vacuidade. É muito difícil reconhecer que a realização não é nada mais do que isso. Porque passamos nossa vida a esperar tempos melhores, a esperar por algo que se produza, nós perdemos. Dogen Zenji disse: Vocês se enganam ao abandonar seus zafus para ir embora em peregrinação, por exemplo, ao Japão, crendo poder achar ali a prática verdadeira, um mestre autêntico, quando o mestre é você mesmo. Você é “um” como na postura do lótus, mas você mesmo não sabe disto. De fato, você é como o filho do mercador rico descrito no Sutra do Lótus, que deixa sua família que é abastada para ir à procura de riquezas que crê poder encontrar em rincões muito distantes, para finalmente voltar para perto de seu pai e reconhecer que possuía, sem saber, uma grande riqueza.

Neste estado de antes do kalpa da vacuidade, não existe dualidade, não existe tempo, existe somente este corpo. Esta prática que nós fazemos é a prática da manifestação do kalpa da vacuidade.

Bankei Zenji, um mestre japonês, criou uma escola zen chamada fusho zen “O zen do não-nascido”. Ele dizia que tudo está resolvido se tão somente tivermos este espírito de buda, “o espírito de buda” querendo dizer segundo ele o “não-eu”. Estar simplesmente no estado de buda sem querer se tornar buda já que somos já buda, é o estado de fusho. Bankei Zenji fez muitos sermões a leigos sobre este assunto, mas infelizmente, sua escola se extinguiu, não houve transmissão.

Se bem que não tenha nada a ver com o que dissemos, existe um outro tipo de zen, chamado nio zen, “guardião da entrada principal”. Na porta de um templo podemos ver este guardião bem como duas divindades representadas uma com a boca aberta, o que quer significar o som A, a outra com a boca fechada, o que significa o som om, ou seja aum (amen por inferência), o primeiro e o último som, o alfa e o ômega, começo e fim.

A postura deste guardião é como aquela do samurai: quando ele vai atacar, ele ataca sem pensar, porque se naquele momento do ataque ele for pesar os prós e contra, ele perde. Combater sem pensar antes é, me parece, o estado de fusho. Muitos se enganam sobre a noção do shikantaza “somente zazen”, a confundindo com uma prática que quer obter resultados. No “Fukan-zazengi” Mestre Dogen descreve muito precisamente esta postura, que Mestre Deshimaru compara à postura do dragão, se poderia dizer como uma serpente armada, pronta para o ataque. É preciso estar sentado como uma montanha – sua coluna vertebral estando reta como uma montanha – os dois joelhos se apoiando no chão, empurrar o céu com o parte de cima da cabeça, e assim se tornar o centro do universo. Este é o zazen verdadeiro descrito no “Zanmai ô zanmai”.

Na escola Shingon que eu não conheço muito, eles têm também esta prática de fusho, baseados na letra A, que quer dizer o primeiro som deste mundo. É tão interessante falar da realização da palavra, que falar da realização do caminho.

Quando Meister Eckhart fala de “antes da criação”, “além da criação”, nisto ele se aproxima muito do zen, de onde provém seus aborrecimentos com a inquisição. Estudar Meister Eckhart profundamente tomaria muito tempo, mas eu gostaria de falar sobre seu comentário intitulado: Stabat Mater: quando Jesus estava na cruz, sua mãe estava entre a multidão e o observava. Ela o observava sem contudo se lamentar, estava com uma postura ereta, e foi neste momento que Jesus disse, “Meu deus, por que me abandonaste?” Nesta situação, Jesus era uma pessoa que sofria e que simultaneamente se encontrava no estado do não-nascido. O mesmo valia para Maria: seu sofrimento era tal que seu coração estava partido, mas porque estava ereta, ela estava naquele momento no “estado de antes do kalpa da vacuidade”. Existem pois estes dois aspectos: um, o humano, do fato de nossa encarnação, o outro é a continuidade, ou seja, este estado de antes do kalpa da vacuidade.

Nós achamos erradamente que se tornar “um” consiste de reunir duas coisas parecidas, quando na origem não existe senão este “único”, este “um”. Se você busca algo como a mulher de pedra, ou a essência verdadeira, vocês estão buscando algo que não existe fora dos quatro elementos e cinco skandas. Este corpo, que nasceu e que morrerá, é não-nascido, indestrutível. Todas as manhãs nós cantamos fu sho fu metsu fu (nem nascimento nem morte, parte do Hannya shingyo). No “uno” existem dois aspectos, mas este “uno” está no interior de um outro, não separado. É buscando as respostas com um espírito filosófico que aparecerá a dualidade. É o que ensinam Dogen Zenji e Meister Eckhart. Meister Eckhart utiliza a metáfora de uma dobradiça, que estando imóvel, permite que a porta se feche e se abra, ou seja, um movimento acionado pela imobilidade. De um lado isto não se move, de um outro lado, isto se move constantemente. É o koan de Fuyo Dokai “As montanhas azuis se movem constantemente”. Em princípio, a montanha não se move, mas aqui, não somente ela se move, mas também se move constantemente. Esta mulher de pedra não pode ter filhos, mas mesmo assim dá a luz constantemente. Que esta mulher de pedra dê nascimento, somente a prática nos pode fazer compreender realmente, não há explicação que seja suficiente. Quando nós falamos de algo, imediatamente tombamos em outro pensamento. Estar no estado de antes do não-nascido, é o que representa esta letra A, é também o momento quando Jesus Cristo é com Deus antes da criação.

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Teishô Nº6

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