Sansuikyo – Eihei Shingi & Eihei Goroku – Quinto Teishô do Sesshin de Junho de 2005 em Eitai-ji

TEISHÔ Nº5

Hoje, quinto dia do sesshin, vou continuar a falar do estado “antes do kalpa da vacuidade” tomando o capítulo “Bendoho” do Eihei Shingi, da tradução para o inglês de Shohaku Okumura (que traduziu igualmente o Eihei Goroku)

Leitura e tradução do começo do capítulo “Bendoho”, p. 63:

Todos os budas e ancestrais estão dentro do caminho e ali engajados; sem o caminho, não se engajariam. O Dharma existe e eles aparecem; sem o Dharma não apareceriam. Por conseqüência, quando a assembléia está sentada, sente-se junto deles; ao cabo e ao rabo que a assembléia progressivamente se prolongue, prolongue-se igualmente. Na atividade e no repouso, sendo “um” com a comunidade, através de mortes e renascimentos não se separe do mosteiro. Ficar separado não traz nenhum benefício; ser diferente dos outros não é nossa conduta. Isto é a pele, a carne, os ossos e a medula dos budas e ancestrais, e é igualmente seu próprio corpo e mentes abandonado. Já que se engajar no caminho é a prática e iluminação antes do kalpa da vacuidade, por conseqüência não se preocupe com sua realização. É um koan antes do discernimento, tampouco aguardem a grande realização.

Todos os capítulos do Eihei Shingi falam essencialmente de disciplina, regras, menos este do “Bendoho” cujo começo fala do “anteriormente ao kalpa da vacuidade”. Nestas linhas que acabamos de ler, Mestre Dogen nos chama a atenção para o fato de praticar juntos, com a sangha. Este texto está dizendo que se assembléia está sentada, sente-se com ela, quando ela se levanta, levante-se com ela, quando ela se deita, deite-se também. É a prática de nossa escola Soto, que difere da prática (chamada yaza) da escola Rinzai, onde você pode se levantar e ir fazer zazen sozinho onde quiser. Por que a escola Soto não admite tal prática individual?

Quando, depois de ter se tornado monge, você vem ao mosteiro durante alguns anos ou talvez por toda sua vida, você já está além de uma pessoa comum e já que está além de uma pessoa comum, é inútil praticar sozinho com o objetivo de se tornar uma pessoa especial, particular. Esta vida é a prática e realização antes do kalpa da vacuidade, que você seja realizado ou não, não quer dizer nada, porque você já está realizado. Mestre Dogen disse: “É o koan antes da aparição do tempo, antes da criação (também não esperem pela grande realização)”.

Este ponto de vista quanto à prática e realização é próprio de Mestre Dogen. Para que o zazen se torne o zazen, é suficiente simplesmente sentar, não sentar de forma formal, mas sentar naquele estado onde nada se busca, nada se espera, no estado onde si mesmo não existe, o estado onde se abandona o corpo e o espírito.

Quando Mestre Sawaki era jovem, ele praticava intensamente o zazen sozinho, dia e noite. Um dia seu mestre lhe disse: “Você é como uma pessoa que está com merda até o nariz que olha ao redor para saber quem peidou”. Naquele momento, Sawaki Roshi se perguntou do que exatamente seu mestre falava, mas depois de vários anos reconheceu como isso estava certo. Quando você pratica com o objetivo, por exemplo, de obter o kensho ou o satori, tal zazen ainda não é o zazen, é somente um método como outro qualquer. O zazen autêntico é a atividade de todos os budas, é o Buda sentado, é o estado onde se abandona todas as particularidades que nos são próprias, toda intenção, todo egoísmo, é sentar-se em shikantaza querendo dizer “O estado antes do kalpa da vacuidade” ou anterior à aparição da criação.

Quero agora tomar uma outra parte do Eihei Goroku, o caso 30:

Dois versos dedicados a Chengzhong

Depois que a bruma do caos se dissipa, as três forças aparecem,

Tão completas quanto a natureza original desta verdadeira pessoa.

As pessoas e as coisas funcionam perfeitamente, sem serem distintas umas das outras.

Não deixe que a mulher de pedra venere as três estrelas.

As três forças” que aparecem no primeiro verso do poema de Mestre Dogen são o céu, a terra e os humanos. Esta poesia quer dizer que não há necessidade de procurar o tempo da mulher de pedra, o que quer dizer: buscar o mundo antes que o céu e a terra se separassem é buscar um mundo inexistente. Querer conhecer a causa original é uma questão filosófica. Querer saber o que tinha sido o mundo antes que fosse criado, é buscar a mulher de pedra, é definir a realidade do instante presente como antes e depois, é estabelecer a dualidade. A não-dualidade é o kalpa da vacuidade. Como disse Dogen Zenji no “Genjo Koan”, “Faça de forma que você realize a verdade última”.

Leitura e tradução do “Genjo Koan”, da versão para o inglês de Nishijima & Cross (volume 1, capítulo 3, p. 33):

Quando todos os dharmas são vistos enquanto Dharma de Buda, então existe a ilusão e realização, existe a prática, existe a vida e a morte, existem os budas e os seres comuns. Quando cada um dos dharmas entre os muitos Dharmas estão vazios de ego, não existe ilusão, não existe realização, não existem budas e não existem seres comuns, não existe vida e não existe morte. Na origem, a verdade do Buda transcende a abundância e a falta, e é por isso que existe a vida e a morte, a ilusão e a realização, existem seres e os budas. Se bem que isso seja assim, as flores, mesmo que as amemos, tombam; e as ervas daninhas, mesmo que as detestemos, crescem.

Aqui se fala precisamente da prática num mosteiro, que consiste a se deitar quando todo mundo se deita. Se deitar quando os demais se deitam, é praticar com o espírito do kalpa antes da vacuidade. É muito difícil reconhecer que a realização não é nada mais do que isso. Porque passamos nossa vida a esperar tempos melhores, a esperar por algo que se produza, nós perdemos. Dogen Zenji disse: Vocês se enganam ao abandonar seus zafus para ir embora em peregrinação, por exemplo, ao Japão, crendo poder achar ali a prática verdadeira, um mestre autêntico, quando o mestre é você mesmo. Você é “um” como na postura do lótus, mas você mesmo não sabe disto. De fato, você é como o filho do mercador rico descrito no Sutra do Lótus, que deixa sua família que é abastada para ir à procura de riquezas que crê poder encontrar em rincões muito distantes, para finalmente voltar para perto de seu pai e reconhecer que possuía, sem saber, uma grande riqueza.

Neste estado de antes do kalpa da vacuidade, não existe dualidade, não existe tempo, existe somente este corpo. Esta prática que nós fazemos é a prática da manifestação do kalpa da vacuidade.

Bankei Zenji, um mestre japonês, criou uma escola zen chamada fusho zen “O zen do não-nascido”. Ele dizia que tudo está resolvido se tão somente tivermos este espírito de buda, “o espírito de buda” querendo dizer segundo ele o “não-eu”. Estar simplesmente no estado de buda sem querer se tornar buda já que somos já buda, é o estado de fusho. Bankei Zenji fez muitos sermões a leigos sobre este assunto, mas infelizmente, sua escola se extinguiu, não houve transmissão.

Se bem que não tenha nada a ver com o que dissemos, existe um outro tipo de zen, chamado nio zen, “guardião da entrada principal”. Na porta de um templo podemos ver este guardião bem como duas divindades representadas uma com a boca aberta, o que quer significar o som A, a outra com a boca fechada, o que significa o som om, ou seja aum (amen por inferência), o primeiro e o último som, o alfa e o ômega, começo e fim.

A postura deste guardião é como aquela do samurai: quando ele vai atacar, ele ataca sem pensar, porque se naquele momento do ataque ele for pesar os prós e contra, ele perde. Combater sem pensar antes é, me parece, o estado de fusho. Muitos se enganam sobre a noção do shikantaza “somente zazen”, a confundindo com uma prática que quer obter resultados. No “Fukan-zazengi” Mestre Dogen descreve muito precisamente esta postura, que Mestre Deshimaru compara à postura do dragão, se poderia dizer como uma serpente armada, pronta para o ataque. É preciso estar sentado como uma montanha – sua coluna vertebral estando reta como uma montanha – os dois joelhos se apoiando no chão, empurrar o céu com o parte de cima da cabeça, e assim se tornar o centro do universo. Este é o zazen verdadeiro descrito no “Zanmai ô zanmai”.

Na escola Shingon que eu não conheço muito, eles têm também esta prática de fusho, baseados na letra A, que quer dizer o primeiro som deste mundo. É tão interessante falar da realização da palavra, que falar da realização do caminho.

Quando Meister Eckhart fala de “antes da criação”, “além da criação”, nisto ele se aproxima muito do zen, de onde provém seus aborrecimentos com a inquisição. Estudar Meister Eckhart profundamente tomaria muito tempo, mas eu gostaria de falar sobre seu comentário intitulado: Stabat Mater: quando Jesus estava na cruz, sua mãe estava entre a multidão e o observava. Ela o observava sem contudo se lamentar, estava com uma postura ereta, e foi neste momento que Jesus disse, “Meu deus, por que me abandonaste?” Nesta situação, Jesus era uma pessoa que sofria e que simultaneamente se encontrava no estado do não-nascido. O mesmo valia para Maria: seu sofrimento era tal que seu coração estava partido, mas porque estava ereta, ela estava naquele momento no “estado de antes do kalpa da vacuidade”. Existem pois estes dois aspectos: um, o humano, do fato de nossa encarnação, o outro é a continuidade, ou seja, este estado de antes do kalpa da vacuidade.

Nós achamos erradamente que se tornar “um” consiste de reunir duas coisas parecidas, quando na origem não existe senão este “único”, este “um”. Se você busca algo como a mulher de pedra, ou a essência verdadeira, vocês estão buscando algo que não existe fora dos quatro elementos e cinco skandas. Este corpo, que nasceu e que morrerá, é não-nascido, indestrutível. Todas as manhãs nós cantamos fu sho fu metsu fu (nem nascimento nem morte, parte do Hannya shingyo). No “uno” existem dois aspectos, mas este “uno” está no interior de um outro, não separado. É buscando as respostas com um espírito filosófico que aparecerá a dualidade. É o que ensinam Dogen Zenji e Meister Eckhart. Meister Eckhart utiliza a metáfora de uma dobradiça, que estando imóvel, permite que a porta se feche e se abra, ou seja, um movimento acionado pela imobilidade. De um lado isto não se move, de um outro lado, isto se move constantemente. É o koan de Fuyo Dokai “As montanhas azuis se movem constantemente”. Em princípio, a montanha não se move, mas aqui, não somente ela se move, mas também se move constantemente. Esta mulher de pedra não pode ter filhos, mas mesmo assim dá a luz constantemente. Que esta mulher de pedra dê nascimento, somente a prática nos pode fazer compreender realmente, não há explicação que seja suficiente. Quando nós falamos de algo, imediatamente tombamos em outro pensamento. Estar no estado de antes do não-nascido, é o que representa esta letra A, é também o momento quando Jesus Cristo é com Deus antes da criação.