Sansuikyo – Eihei Goroku – Sexto Teishô do Sesshin de Junho de 2005 em Eitai-ji

TEISHÔ Nº6

Vamos continuar a falar do kalpa da vacuidade, com o caso #40 do Eihei Goroku:

A intantaneidade de Yangshan

Yangshan perguntou ao grande Gui(shan): “Quando as centenas de milhares de fenômenos aparecem ao mesmo tempo, o que se pode fazer?”

Guishan disse: “Azul não é amarelo; o longo não é o curto. Todos os dharmas permanecem em suas próprias posições e não tenho nada a ver com isso”.

Imediatamente Yangshan fez prosternações.

Falar da substância antes do som terrificante.

Nas dez mil montanhas, os bambus racham e os cucos cantam.

A andorinha que voa alto faz um ninho de lama no solo.

Quando compramos um chapéu, ele é do mesmo tamanho que a cabeça.


Este é o caso de Isan e de Kyozan (Kyozan pertencia à escola Igyo, uma das “cinco escolas”). Kyozan perguntava a Isan: “O que acontece quando as milhares de fenômenos se manifestam ao mesmo tempo?” Isan respondeu: “Azul não é amarelo; o longo não é o curto. Todos os dharmas permanecem em suas próprias posições e não tenho nada a ver com isso”. Com isso Kyozan se prosternou.

É um caso maravilhoso, que pode ser comparado com o “Sansuikyo”, onde está dito que “montanhas e rios permanecem no Dharma, tendo realizado a virtude última”, a saber que elas permanecem tais quais são. É isto, a coisa última da filosofia.

Dogen Zenji acrescenta a este caso um comentário sob forma de verso:

Falar da substância antes do som terrificante/Nas dez mil montanhas os bambus racham e os cucos cantam/A andorinha que voa alta faz um ninho de lama no chão/Quando compramos um chapéu, ele é do mesmo tamanho que a cabeça.

Isso também é falar de shoho jisso “todos os fenômenos são a verdadeira forma”, todos os fenômenos, junto com os fenômenos, são a forma verdadeira. Na origem, não existe senão “somente um”, e este é shoho jisso ou tatatha: o azul é azul, o amarelo é amarelo, a figueira produz somente figos, a cerejeira produz somente cerejas. O capítulo “Uji”, “o ser-tempo”, fala de pinheiros ou crisântemos (que pode ser comparado com o pensamento de Heidegger); Cada um destes fenômenos permanece tal qual é, sem que eu possa mudar nada que seja deles. Querer conhecer absolutamente a origem dos fenômenos como querem os filósofos é tão patético quanto procurar a cereja atrás da casca da cerejeira, como se o fruto estivesse no interior da árvore. Quando vem a primavera, as flores se abrem, simplesmente isso, e não importa o que se faça, elas se abrirão no momento quando elas devem fazê-lo, porque se trata aqui da manifestação anterior, que Mestre Dogen exprime no primeiro verso da poesia que acabamos de ler: “falar do fenômeno antes do som terrificante”.

É estranho, porque este “som terrificante”, em japonês ion-e é o nome do templo de Nakamura san e o nome da montanha é daiki-san “montanha da grande energia” ou “da grande função “de antes”. Nós já estudamos o capítulo “Shoho-jisso” “Todos os fenômenos são a forma verdadeira” e nós nos lembramos desta expressão “os bambus racham e os cucos cantam”. Todos os fenômenos são a forma verdadeira, aqui está compreendido a andorinha que faz seu ninho nos tetos das casas e às vezes mesmo no interior delas. (Em Eitai-ji, num ano, elas fizeram o ninho nos banheiros, e uma outra vez na cozinha). Estes são fenômenos da vida cotidiana, e às vezes os fenômenos de antes do kalpa da vacuidade, mesmo que for muito difícil de admitir isso. É o estado do Dharma, esta forma também aparece no “Genjo Koan”.

Leitura e tradução de um extrato do capítulo do “Genjo Koan” da versão inglesa de Nishijima e Cross (volume 1, capítulo 3, p. 34):

Se nós nos tornarmos familiarizados com a ação e voltarmos a este lugar concreto, em verdade, é evidente que as miríades de dharmas não são o eu. A madeira vira cinza, nunca mais pode voltar a ser madeira. Mesmo assim não devemos conceber a idéia que a cinza está situada no futuro e a madeira no passado. Lembrem-se o fogo permanece no lugar do fogo no Dharma. Existe um passado e um futuro. Se bem que haja um passado e um futuro, o passado e o futuro estão separados. Se a madeira, depois de ter se tornado cinza, não volta a ser madeira, da mesma forma, os seres humanos, depois de ter morrido, não mais ressuscitam.

Aqui está sendo tratada a questão de fumetsu, ou seja, a “não destruição”. Em geral o que acontece é que primeiramente vemos a madeira, depois, constatando que queima, que ela vira cinza. Contudo, Dogen Zenji explica isto: sim, existe o antes e o depois, mas esta ação se passa antes deste corte, é uma ação completamente autônoma, é o estado de cada fenômeno. O problema é ainda aquele da dualidade. Esta madeira e cinza estão aqui falando da vida e da morte.

Em geral nós achamos que o espírito é eterno e que o corpo, composto dos quatro elementos e dos cinco skandhas morre e se desintegra. Em seguida este mesmo espírito continuará a se manifestar se reencarnando. Para os budistas, esta crença em um renascimento é inaceitável porque este corpo e este espírito não podem ser separados. Se o espírito fosse viver eternamente, o mesmo deveria acontecer com o corpo. A crença na reencarnação é uma filosofia baseada na dualidade. Se bem que exista vida e morte, assim como existem madeira e cinza, o antes e o depois, nós não podemos separar a vida e a morte, o corpo e o espírito, a prática da realização porque este corpo e espírito são conjuntamente a vida e a morte ou simplesmente vida-morte. A única maneira de se liberar destas concepções filosóficas da dualidade é sentar em zazen. Praticar o zazen limpa o que está acumulado na consciência, a pré-consciência, e o inconsciente e permite entrar no estado de antes do kalpa da vacuidade, “antes do kalpa” não querendo dizer “voltar ao passado”, mas cortar a noz da árvore frutífera para ali achar o fruto no interior. Falar deste assunto antes de escutar o som aterrorizador é se aproximar do “No começo era o verbo”. O som aterrorizador é o trovão, é o momento do despertar onde toda idéia de dualidade se queda quebrada.

Agora nós vamos ler e traduzir o Eihei Goroku caso 234:

Uma tentação diabólica

Discurso na sala do Dharma

Se você menear a cabeça, ainda não atingiu isto. O branco e o preto não estão diferentes. Quando você atinge isto se não menear a cabeça, lama e água ficam misturadas. Pouco me importa que o pilar de um templo salte sobre um bastão de um monge. Porque os seus narizes ainda estão em seus rostos? Se você compreender completamente isto, darão uma chicotada sobre o búfalo d’água de Gishan. Se ainda não esclareceram isto, que tentação diabólica empurrou vocês a deixar suas casas e percorrer o país para encontrar um mestre? Falem,e rápido.

Dizer que o branco e o preto não são diferentes, é o estado de antes do kalpa da vacuidade, mas também é – e este é um outro aspecto – a partir disto que nossa vida toma forma neste mundo. Da mesma forma, a lama, na expressão “a lama e a água estão misturadas” quer dizer que nós viemos a este mundo como lama, que nós entramos no arrozal como o búfalo que ajuda o camponês a trabalhar a terra a fim de plantar o arroz. Neste momento, todas as partes do corpo se lama e água.

Se tornar lama e água, é a imagem da grande compaixão que nos torna capazes de entrar em não importa que lugar neste mundo, mesmo os mais obscuros, difíceis, para ajudar aos demais, sem nos preocupar em ficarmos sujos ou sofrermos. Não creiam, todavia, que tal coisa seja um sacrifício, simplesmente você faz isto. É o koan de Mestre Isan. Um dia um monge perguntou a Mestre Isan: “Depois de sua morte, onde você irá?” Mestre Isan respondeu: “Depois de minha morte, renascerei como búfalo d’água, entre os vizinhos”.

O começo de Eitai-ji é parecido como isto que Mestre Isan conta, o qual, como vocês sabem, era o tenzo de Mestre Hyakujo. Tendo sido informado que uma montanha por ali reunia todas as condições para estabelecer um mosteiro que poderia acolher mil e quinhentos monges, Mestre Hyakujo designou Isan para ir lá instalar o dito mosteiro.

Durante os primeiros quinze anos, ninguém veio e Isan vivia ali sozinho, se alimentando de castanhas ou de amoras silvestres, o que fez com que Mestre Dogen comentasse: “Imagine ficar ali sozinho numa noite de inverno que nevasse, que duro!” Então, de certa feita, ele começou a ter dúvidas, e decidiu descer o vale. Na metade do caminho ele se deparou com um tigre e lhe disse: “Assim é você a razão porque ninguém vem! Vá embora!” Mas, compreendendo que este tigre era um guardião do Dharma, ele fez meia volta e continuou com sua prática.

No Brasil, nós tínhamos um mosteiro na montanha. Descendo para o vale acontecia que nos deparávamos com gatos selvagens, que nós apelidávamos de “os gatos da montanha”. Eram tão grandes que ao vê-los éramos obrigados a nos deter. Mas eles continuavam tranqüilamente a avançar e passavam por nós nos observando.

Neste mosteiro no Brasil, nós tínhamos dez hectares de plantação de bananas, o que era considerável. Era necessário se ocupar destas plantações, e todo este trabalho era feito usando o lombo dos burros. Nós cortávamos no cabo os cachos de bananas, que pesavam cerca de trinta quilos e nós a devíamos pegar antes que tocassem o solo. Em seguida, carregávamos os cachos em mochilas fixas dos dois lados dos burros e as levamos ao mosteiro. Na época eu era moço, mais forte, e trabalhava em todos os samus, o que não ocorre mais hoje em dia. Mestre Hyakujo quanto a si, continuou a trabalhar até uma idade muito avançada.

Sempre no Brasil, nós trabalhávamos nos campos de arroz. As moitas de arroz eram tão altas que não podíamos ver uns aos outros. Depois de cortar as moitas de arroz, as equilibrávamos por sobre a cabeça e lhes aterrissávamos em grandes cestas de bambu.

Tínhamos também jaqueiras, cujas frutas são de duas variedades, uma não comestível da qual se extrai o açúcar, e a outra chamada manteiga, que dava um fruto suculento, que derretia na boca. Estas frutas eram enormes e às vezes durante o zazen ouvíamos o barulho de suas quedas no chão (não era o canto do cuco, mas da jaqueira). Ora, mesmo estando em zazen, não podíamos deixar de ficar inquietos porque tínhamos treze ou quatorze vacas, e não sabíamos se chegaríamos primeiro do que elas para pegar a jaca! Claro, ali havia cobras venenosas, e também enormes aranhas caranguejeiras, de aspecto aterrorizador. Quando as vi pela primeira vez, fiquei boquiaberto. Aqui em Eitai-ji, temos um lugar muito calmo.

Fizemos um sesshin Rohatsu com quatro pessoas, fazendo de quatorze a dezesseis zazen por dia. Dois sentavam e dois passavam o kyosaku. De manhã estávamos de tal forma sonolentos que o livro de sutras se nos caía pelos dedos.

Para voltar ao koan do búfalo de água de Isan: Depois de algum tempo, os habitantes dos vilarejos situados na parte de baixo da montanha tomaram conhecimento que um monge vivia sozinho na montanha, e começaram a ajudá-lo, trazendo comida para ele. Graças a eles, ele conseguiu sobreviver. Havia, antes de pegar o caminho que levava ao mosteiro, uma velhinha que vendia seus produtos e quando via os monges que vinham praticar pela primeira vez, ela podia prever sem nunca se enganar se eles conseguiriam ficar ou desistiriam. Às vezes os monges vinham e lhe diziam: “Aqui a natureza é de tal beleza que vou ficar por aqui pelo resto de minha vida” e a velhinha dizia, “Uma semana”.

Quando Isan disse que queria renascer como búfalo d’água para ajudar às pessoas vizinhas suas, ele o disse motivado por um grande sentimento de compaixão e gratidão para com estes camponeses. Naquela época, onde não existiam quaisquer máquinas agrícolas, ter um búfalo d’água era indispensável para poder arar a terra. Isan acrescentou: “Meu nome estará marcado no flanco de um búfalo: se vocês virem um búfalo, perguntem a ele se se trata de Isan, ou se é simplesmente um búfalo d’água”.

Nos mosteiros situados na proximidade das grandes cidades, certos monges aguardavam a noite para sair do mosteiro sem serem vistos para ir para a cidade beber e cantar. Quando voltavam tarde da noite, de manhã se os podia ver sentando em zazen. Se perguntássemos a eles: “Vocês não acham que era um pouco tarde para sair?” Eles responderiam: “Mas eu devo absolutamente estudar este caso de Isan e do búfalo d’água”. É uma boa desculpa para ir beber fora do mosteiro.

Em Eitai-ji se vocês quiserem sair para beber, podem descer para o vilarejo na casa de Cristelle. Fica a dois quilômetros daqui, mas não esqueçam que depois de terem descido, será necessário escalar estes dois quilômetros de volta, será talvez um pouco difícil. Podem ir se quiserem, mas no dia seguinte tem que fazer o zazen como de costume. Estou brincando, naturalmente.

Em conclusão, eu tomarei deste caso 234 que diz: Se vocês não compreendem, por que se tornar monge? Compreender é fundamental.

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