Sansuikyo – Eihei Goroku – Quarto Teishô de junho de 2005 em Eitai-ji

TEISHÔ Nº4

Vamos reler o começo do “Sansuikyo” da tradução para o inglês de Nishijima e Cross (Volume 1, capítulo 14, p. 167):

As montanhas e rios deste presente são a realização das palavras dos velhos budas. Os dois (montanhas e rios) permanecem no Dharma, depois de ter realizado a virtude última. Porque estão no estado anterior ao kalpa da vacuidade, são a atividade vigorosa no presente. São ambas o si mesmo antes da emergência da criação, são a liberação verdadeira. As virtudes das montanhas são tão altas e extensas que realizamos sempre a virtude moral que pode cavalgar as nuvens se apoiando nas montanhas, e sem falta jamais, liberaremos a função sutil que nos permite seguir o vento nos apoiando nas montanhas.

Esta primeira parte do capítulo é muito simbólica, poética, mas difícil de ser compreendida.

Agora vamos abordar o caso 8 do Eihei Goroku:

Os noventa dias da grande paz

Reunião informal para a abertura (ou começo) da prática do período de verão

Mestre Cihang (Fapo) era um verdadeiro mestre na linhagem de Huanglong. Quando ele residia no templo das Quatro Claridades no monte Tiantong, quando duma reunião informal para a abertura da prática do período de verão, ele disse: “Os praticantes do zen devem ser de forma que seus narizes estejam direitos em seguida devem ter vistas claras e brilhantes. Em seguida devem dar valor ao fato de penetrar ao mesmo na essência e na expressão dela. Depois de terem realizado tal coisa, eles atingem paralelamente a capacidade energética e sua função, em seguida penetram budas e demônios, o si mesmo e o outro chegando juntos. Por que isso? Quando o nariz está direito, tudo está direito. É como uma pessoa que mora numa casa; se o mestre está direito, todos que estão abaixo dele naturalmente se transformam. Então, como podemos fazer de sorte que nosso nariz esteja direito? Um velho sábio (Huangbo) disse: “Sejam determinados a não afundar ao fluxo de um segundo pensamento e vocês terão penetrado na porta essencial”. Não será esta a norma para vocês que se aproximam de seus si mesmos verdadeiros antes que seus pais tenham nascido?” Em seguida ele disse: “O longo período de noventa dias começa amanhã. Suas práticas não devem se separar de suas linhas de conduta”.

Dogen, aquele que ensina, disse: Se bem que um antigo sábio tenha dito: “Sejam determinados a não afundar no fluxo de um segundo pensamento”, eu, Eihei, digo também: “Estejam determinados a não afundar no fluxo de um primeiro pensamento; estejam determinados a não afundar no fluxo do não-pensamento. Se cada um de vocês praticarem e estudarem assim, vocês finalmente alcançarão aquilo.

Nesta noite eu, Eihei, não recuso o karma das palavras, e vos digo a todos: o longo período de noventa dias começa amanhã. Suas práticas não devem se separar de suas linhas de conduta. Sentem-se sobre as almofadas, desapegados de outros assuntos; durante todo o dia, silenciosamente, de forma serena apreciemos a grande paz.

Aqui se trata do sermão dado na véspera do ango. Neste texto (do Mestre Cihang) nós encontramos novamente a expressão: “Antes que seus pais tivessem nascido” e em seguida “Antes que aparecesse um segundo pensamento”. Mas Dogen Zenji acrescenta: nem sequer um segundo pensamento, nem ainda um primeiro pensamento, nem o não pensamento, querendo também dizer, “Antes do kalpa da vacuidade”, ou nós poderíamos dizer, antes da aparição do pensamento, da memória, das lembranças não importa quais sejam. O Zazengi fala da necessidade de esclarecer o funcionamento do espírito. Em primeiro lugar está o shiryo “pensar”, em seguida o fushiryo “não-pensamento” e finalmente hishiryo “além do pensamento”. Como voltar a este estado de antes que tivéssemos nascido? É a via negativa, como dizia São João da Cruz “a noite dos sentidos”, a noite da consciência, a noite do espírito, o que implica na passagem da purificação, é o caminho que leva ao retorno. Na negativa, estaremos contaminados pela dualidade e pela temporalidade.

No “Zazengi” escrito pelo Mestre Dogen, está dito que o nariz devia estar vertical e os olhos horizontais, eis tudo e nada mais. Todavia, quando compreendemos esta essência do ensinamento, é necessário exprimi-lo àqueles que seguem o mesmo caminho que nós. A capacidade de transmitir esta experiência prova que a pessoa já é um mestre. A energia da realização realmente funciona e de outra parte, este retorno à origem apaga em você toda idéia da existência de um ego, se bem quem você pode resolver não importa qual dilema com toda liberdade.

O que significam estas expressões: “antes do primeiro pensamento” e “não ter um segundo pensamento”? É muito simples: se trata de fazer, mas de fazer sem fazer. Por exemplo, se o Mestre diz para fazer de um jeito, você deve fazer daquele jeito, simplesmente isto, e se ele disser para não fazer, então você não faz. Se bem que isto pareça muito simples, invariavelmente nós responderemos: “De acordo, mas por que fazer desta forma? Por que não fazer de outra forma?”

Ir ao mosteiro é a primeira regra para um monge, e além disso para obter a ordenação é necessário no mínimo ter permanecido durante três meses no mosteiro.

Quando Mestre Dogen diz que é bom entrar na montanha (a montanha querendo dizer o mosteiro), em espírito você não percebe nenhum obstáculo, você acha fácil de ir lá, mas no momento de tomar a decisão de partir, encontra subitamente inumeráveis razões para não ir, você diz a si mesmo que entrar na montanha é muito difícil. Primeiro obstáculo: “Sem dinheiro, como poderei sobreviver? É impossível, não posso ir para lá”. Ou ainda, “Tenho uma família a qual não posso abandonar, tenho um trabalho…” tudo isso é exatamente “o segundo pensamento”.

Em japonês um monge é chamado shukke “aquele que saiu de casa”, mas quando você compreende que a casa não é a casa, você sai de casa para viver em casa. Esta crítica não está endereçada a vocês, mas a mim mesmo. Tudo isso nós o compreendemos muito bem, mas não o podemos realizar porque existem tantos “segundos pensamentos” que fazem um obstáculo, tantas razões para não entrar na vida monástica. Esta montanha, este mosteiro, não são somente uma montanha ou um mosteiro concretos, quando entramos na montanha sem termos os olhos ou nariz da postura de zazen, nos tornamos animais se sermos capazes de nos auto-controlar. Na realidade sentar-se assim em zazen é a manifestação e a realização de si mesmo antes do kalpa da vacuidade.

Vocês se lembram do sexto patriarca Hui-neng que, depois de ter recebido a transmissão do Dharma fugiu para a montanha, perseguido por numerosos discípulos do quinto patriarca. Todos aqueles monges desistiram no caminho exceto um, um homem corpulento que tinha sido general, e que havia subido até o cume da montanha para pegar o okesa de Hui-neng. Então Hui-neng depositou o okesa diante dele, sobre um rochedo e disse a Houei-ming que o havia alcançado: “Este okesa, transmitido há várias gerações de buda para buda é somente um símbolo, se você quiser, pode pegá-lo”. Dizem que a despeito de todos seus esforços, o monge Houei-ming não pode levantar o okesa que havia se tornado tão pesado quanto um rochedo. Subitamente tomando consciência da leviandade de sua ação, humildemente se inclinou diante do Sexto Patriarca e lhe disse: “Não quero este okesa, mas por favor, me ensine o caminho”.

Do ponto de vista simbólico e psicológico, o okesa transmitido desde o Buda Shakyamuni é não somente um tesouro nacional, mas também algo de muito importante no que nos toca, e daí a vontade de o agarrar, de pegá-lo, se bem que na realidade se trata somente de um símbolo.

Hui-neng disse a Houei-ming: “Qual é seu rosto original quando você não pensa? Não pense nem no bem nem no mal”.

Não pensar nem no bem nem no mal, isso é o primeiro pensamento; pensar no não pensamento, é voltar à origem, antes que aparecesse a partícula mais ínfima de criação. Todavia, cortar o pensamento durante o zazen é muito difícil, porque este pensamento está sempre em movimento, como um fluxo de água.

Quando nós nos sentamos a cada mês para o sesshin de uma semana, durante o primeiro destes sete dias ainda estamos impregnados do que deixamos para trás de nós, mas já no segundo dia, a despeito de toda dor nas pernas, nas costas (e eu posso constar isso), seus zazen melhoram, e uma vez tendo domado seus corpos, podem então entrar mais profundamente. Para um monge, esta prática de zazen é primordial: quanto mais você sentar, mais pode melhorar, e se torna muito naturalmente um bom monge zen. Nos dias de hoje, nossa tendência é privilegiar o estudo com o detrimento da prática, ou então praticar essencialmente cerimônias porque são uma fonte de dinheiro. Se bem que poucos monges amem esta prática de zazen, sem ela, como seria possível transmitir um ensinamento? Tal transmissão nada mais seria que algo teórico. Sem uma prática constante a energia que se manifesta no momento exato não aparece. Praticar sozinho é muito difícil, mas graças a esta congregação de monges – nem que seja somente duas ou três pessoas – o sesshin pode tomar lugar.

Leitura e tradução do Eihei Zengi Goroku (47):

Erro depois de erro além da dualidade

No comunidade de Jingzhao Mihu, um monge perguntou a seu irmão de Dharma Yanshan: “As pessoas de nossa época necessitam ou não do despertar?”

Yanshan disse: “Não é que não exista o despertar: mas como fazer para não tombar na dualidade?”

O monge voltou e contou isso a Mihu, que o confirmou profundamente.

O caso 47 do Eihei Goroku diz que o erro sucede o erro. Mas nós vimos anteriormente que se a base estiver errada, o resultado será irremediavelmente errado. O mais difícil é crer, aceitar, que esta prática é iluminação e realização porque pensamos constantemente que existe algo além do fato de estarmos sentados e é por isso que sofremos, e duvidamos, como nos lembra Dogen Zenji em um dos capítulos do Shobogenzo. De fato, praticamos tudo tecendo idéias sobre o que possa ser tal realização e se chegamos à realização, não será uma realização verdadeira já que ela não é o que se pode imaginar. É como avançar um passo para a frente e dois para trás, não somente não se progride mais, muito pelo contrário, regredimos. É por isso que Dogen Zenji diz: “Olhem para os seus pés, o lugar onde vocês estão”.

Através desta prática nós podemos ver se um monge, depois de tantos anos de sentar, é realmente um monge. Quando podemos aceitar profundamente esta idéia de que a prática é a realização, então quando estamos sentados sem zazen, neste momento este zazen se torna um verdadeiro zazen. Se vocês podem sentar desta forma, se tornar “uma só coisa” com o universo, esquecer de tudo que cerca vocês, neste momento, vocês verão seus rostos originais antes que seus pais tivessem nascido, ou antes do kalpa da vacuidade. Aqui chegados, a idéia de um si mesmo, de um ego, desaparece completamente e se você não tem mais ego, então você está em todas partes.

As primeiras linhas do “Sansuikyo” dizem que as montanhas, rios são neste momento absoluto a realização das palavras dos budas antigos e realizados. Sentados desta forma, este zazen não é mais um simples zazen, é zanmai ô zanmai “o samadhi rei dos samadhis”, que nos permite entrar livremente no mundo do buda, no estado do buda, ou no estado do diabo, o que quer dizer que não importa qual seja a situação em que estejamos envolvidos, não importa em que dificuldades, podemos penetrar nestas dificuldades e resolvê-las. Se vocês tomarem esta decisão de crer verdadeiramente que a prática é a realização, então tal prática se tornará um pilar em suas vidas, e a transmissão chegará do leste para o oeste, secretamente, “secretamente” querendo dizer “intimamente”, a saber o que vocês são realmente. A ausência de ego é o primeiro ensinamento do Buda.

Antes de terminar, gostaria de colocar uma última pergunta: “O que é a transmissão?”

Quando o mestre envelhece, às vezes fica um pouco senil. Depois de ter envergado seu kesa, quando ele coloca seu zagu no antebraço esquerdo, às vezes se engana e o coloca no direito. E o discípulo que o observa percebe isto e muda o seu rapidamente para o colocar no braço direito. Se vocês chegarem a ter tal relação particular entre mestre e discípulo, então estão prontos para receber a transmissão do Dharma. Mas bem, não é o que ocorre absolutamente…