Sansuikyo – Eihei Goroku – Terceiro Teishô de Junho de 2005 em Eitai-ji

TEISHÔ Nº3

Estamos no terceiro dia do sesshin e continuaremos com o capítulo “Sansuikyo”. Vamos reler o comecinho do “Sansuikyo”, da versão inglesa por Nishijima Roshi (Volume 1, capítulo 14, p. 167):

As montanhas e rios do presente são a realização das palavras dos velhos budas. Montanhas e rios permanecem no Dharma, tendo realizado a virtude última. Porque estão no estado anterior ao kalpa da vacuidade, elas são a atividade vigorosa no presente. São ambas o si mesmo antes da emergência da criação, por isso são a liberação verdadeira. As virtudes das montanhas são tão elevadas e extensas que realizaremos sempre a virtude moral que cavalga nas nuvens se apoiando nas montanhas e nós liberaremos infalivelmente a eficácia sutil que segue o vento se apoiando nas montanhas.

Agora vamos ler o Eihei Goroku (88):

A punição por ter perdido o dinheiro no rio

Quando o Mestre Zen Hongzhi visitou pela primeira vez Danxia, Danxia perguntou: “O que é seu si mesmo antes do kalpa da vacuidade?”

Hongzhi disse: “Um sapo no fundo de um poço engole a lua. À meia noite ele não pega emprestado uma cortina brilhante para se iluminar”.

Danxia disse: “Ainda não, diga algo mais”.

Hongzhi tentou falar, mas Danxia lhe bateu com seu punho e disse: “Você ainda diz que não pega emprestado?”

Hongshi subitamente se iluminou e fez prosternações.

Danxia disse: “Por que você não diz algo?”

Hongzhi disse: “Hoje perdi meu dinheiro e recebi punição”.

Danxia disse: “Não tenho tempo a perder te batendo. Por ora você pode ir embora”.


Ele tinha a intenção de vender as torrentes da iluminação a um comprador.

De noite, a lua se elevou por trás das montanhas e chegou à janela.

Quando o dinheiro é perdido no rio, busque-o no rio.

Aquele que chora no rio se detém e permanece no rio.

Este caso (88) do Eihei Goroku é o diálogo entre Tanka Shijun Daiosho, um mestre de nossa linhagem, e Wanshi Zenji, um mestre que Mestre Dogen tinha em alta estima, mas cuja linhagem se separou da escola Soto depois de Tanka Shijun.

Wanshi Zenji é conhecido pelo mokusho zen “o zen da iluminação silenciosa” ou “o zen silencioso da luz radiante”, que se opunha ao sistema de koan chamado kanna zen “zen que fita os koans” do Mestre Daie Zenshi, da escola Rinzai, esse último sendo menos apreciado por Mestre Dogen. Existe um Wanshi goroku, assim como o Unmon goroku, aquela época produziu grandes mestres. Eu tinha este texto, o Wanshi goroku, mas eu o perdi e vou procurá-lo novamente no Japão.

Aqui nós não temos nem gongo, nem relógio suspenso, nem um unpan (e praticamos com objetos improvisados). Às cinco e meia manhã, se deve bater o gongo cinco vezes, em seguida o sino duas vezes; na terceira batida do sino, o unpan responde ao relógio e os sons se aceleram; em seguida entoamos o sutra do kesa. De fato tudo deve estar harmoniosamente conectado. Como não dispomos de todos estes instrumentos, estamos “antes da vacuidade”.

Neste texto (Eihei Zenji goroku, caso 88), quando “o sapo engole a lua”, é a noite escura (como “a mulher de pedra” da qual nós falamos), e entre 11 horas e uma da manhã, não há necessidade de uma cortina luminosa. Esta cortina de fato é uma cortina de pérolas de cristal que cintilam com os raios do sol, mas de nada serve nesta total obscuridade. Esta expressão “quando o sapo engole a lua” tem que ser comparado com aquele com o qual Keizan Zenji obteve a iluminação, “a pedra negra da montanha Konron voa na noite escura”. Estes dois koans pertencem à mesma família, em japonês se chamam ruisoku, “koans parecidos” ou da mesma categoria.

Se você compreender um caso, por exemplo, aquele de Keizan Zenji “A pedra preta da montanha Konron voa na noite escura”, quando encontrar esta expressão “o sapo engole a lua”, sabe imediatamente que se trata do mesmo estado, passar por um koan permite compreender imediatamente compreender os koans da mesma família.

A prática do zen deve ser uma prática do momento e compreender um koan quer dizer compreendê-lo profundamente. No começo não se passava pelos koans com o objetivo de atingir o kensho ou satori, para obter tal kensho (despertar) era preciso compreender todos os koans simultaneamente. Nos dias de hoje se passa pelos koans de forma gradativa. Tal método também tem seus lados positivos, já que permite permanecer com um koan e o resolver, porque se trata aqui de seu próprio koan, de sua própria dúvida, e resolver tal coisa pode levar vários anos. Certas pessoas podem se realizar subitamente através de um koan, mas eu diria que quanto mais se sofre com um koan mais profunda será nossa compreensão. De fato, a questão não é atravessar rapidamente, mas profundamente.

Mas a resposta de Wanshi Zenji não conveio a Tanka Shijun que acrescentou: “Isso não é suficiente, diga mais”. Lembra-se que a mesma coisa aconteceu com Keizan Zenji: quando ele respondeu a seu mestre Tetsu Gikai: “A pedra negra da montanha Konron voa na noite escura”, o mestre lhe disse: “Isso não é suficiente. Diga-me algo mais”. Então Keizan Zenji respondeu: “Quando tenho chá, bebo chá; quando tenho arroz, como arroz”. Então, “a noite escura” significa o absoluto, “beber chá” é a vida cotidiana, ou seja o relativo e é indispensável ter ambos lados para permanecer neste mundo. Quando Tanka Zenji disse a Wanshi Zenji: “Diga algo”, Wanshi Zenji hesitou. Tanka Zenji, vendo que ele se encontrava num impasse, lhe bateu com seu punho e disse: “Lembre-se que você não precisa pegar emprestado a cortina brilhante”, e neste momento Wanshi Zenji obteve o satori e se prosternou. O mestre lhe pediu que acrescentasse algo. Wanshi respondeu: “Hoje perdi o dinheiro e recebi uma punição”.

Receber punição” quer dizer a perda de tudo que possuímos, é morrer para entrar profundamente neste mundo obscuro. O mestre disse: “Não tenho tempo a perder para te bater, agora pode ir embora”. Se bem que seja importante obter a iluminação, Tanka Zenji relativiza tal experiência e foi por isso que ele disse de maneira desenvolta: “Não tenho tempo a perder”: eu adoraria te dar uma pancada, mas não tenho tempo, vá embora, o que quer dizer: nada é.

Wanshi Zenji se tornou um grande mestre que não demonstrou jamais nenhuma admiração para o tipo de iluminação que pode fazer crescer o ego.

Depois que o discípulo passou pelo koan, o mestre, se bem que reconheça sua realização, o observa para ter certeza que esta realização se estenda a todas ações da vida cotidiana. O importante não é o momento do koan, mas o que toma lugar depois e como utilizamos tal realização através do koan. No Eihei Goroku, encontramos vários casos assim.

Por outro lado, quando Tetsu Gikai Zenji reconheceu Keizan Zenji com o koan da pedra preta, ele simplesmente disse: “Com você, esta escola Soto vai crescer e se tornar importante”. Todos estes mestres, Ejo Zenji, Dogen Zenji, que nós recitamos de manhã, são mestres de nossa linhagem. Devemos nos lembrar seus nomes corretamente, porque, como eu espero, vocês um dia receberem o shiho “a transmissão do Dharma” será preciso que vocês neste caso se lembrem de todos estes mestres que precederam vocês.