Realização e Prática Não São Duas Coisas Separadas

RYOTAN TOKUDA

Extratos dos ensinamentos dados por Ryotan Tokuda Sensei quando do sesshin (retiro de meditação) de Saint Sylvestre 1988 (texto revisto em 1993):

Mestre Eckhart disse:
“Em Deus não há senão o “uno” e este “uno” é indivisível, e aquêle que outra coisa percebe que não seja este “uno”, foi uma parte apenas que percebeu. Deus é uma coisa só e aquêle que outra coisa procura ou busca além, não é a Deus que busca, é apenas uma só parte. E isto tudo é só pelo ganho pessoal, e nada é.”
(Sermão Got hât die armen gemachet durch die rîchen, traducão de JeanneHancelet-Hustache)_

Mestre Eckhart diz claramente que Deus é “Um”. No capítulo do Bendôwqa do Shobogenzo, Mestre Dogen escreve que fazer uma distinção entre prática e realização não é o verdadeiro Budismo. No verdadeiro Budismo, prática e ralização nada mais são que uma mesma e única coisa.

Quando nós nos sentamos em zazen, estamos sentados na pureza e na transparência. Nêste momento, o despertar está completamente presente e nós somos naquêle momento, o despertar mesmo. Inútil seria procura qualquer outra coisa , quer fôsse um estado particular ou qualquer coisa fora de nós mesmos.

Algumas pessoas começam a praticar para atingir algum fim, mas não podem encontra paz em suas práticas. Mal sabem que o desejo que as atiça é a própria fonte de suas doenças. Nada mais fazem que encher um tonel sem fundo. Mestre Dogen diz que é muito raro encontrar alguém que esteja no Caminho. A maioria das pessoas afirma que são perfeitamente incapazes de o atingir ou que não podem de forma alguma o encontrar. Parecem-se com peixes, que nadam no oceano e pedem por água aos berros.

Nós não devemos de forma alguma praticar zazen como homens comuns, mas como Buddhas . Nós poderíamos ser livres, mas não o somos, porque tentamos obter lucro desta prática.

Se a prática e a iluminação estão separados, pode-se ainda enxergá-los. Mas se êles nada mais são que uma só coisa, de maneira que a prática seja o despertar e que o despertar seja a prática, nêste momento, não se os pode mais distinguir. Pode-se cortar a tudo com uma espada, mas a espada não se pode cortar a si mesma. Gostaríamos de sentir, ver e tocar o despertar. Mas aquilo que sentimos, vemos, pensamos do despertar é positivamente uma outra coisa muito diferente. Se realmente o experimentarmos, dêle teremos a intuição direta. Então, todo o sentimento de separação cessa e chegamos à unidade.

Se a pessoa tiver a consciência do despertar, esta consciência se torna a fonte de doenças. Torna-se necessário esquecê-la, mesmo que êste despertar tenha de fato ocorrido. Alguém perguntou de certa feita a Mestre Kodo Sawaki se êle já tinha tido a experiência do despertar, ao que êle respondeu: “Nunca chegui a fazer tal besteira”. É necsserário jamais se deter e sempre continuar a praticar o zazen.

No Bendowa, Mestre Dogen escreveu que a prática e a iluminação não têm começo nem fim. Quando falamos da prática e da iluminação, estas nada mais são que uma só coisa. Por esta razão mesma, todos os Buddhas e todos os Patriarcas jamais se detiveram suas práticas. O Buddha Shakyamuni praticou na floresta durante seis anos e Bodhidharma numa caverna durante nove. Mas êles jamais praticaram a fim de obter a iluminação. Muitos se enganam quando se diz que a prática e a iluminação têm fim. Uma vez que não tenhamos claramente compreendido êste ponto essencial, torna-se difícílimo praticar durante muito tempo o Zen.
O Mestre Eckhart disse ainda:
“Vejam: da forma que Ele é uno e simples, Ele entra naquilo que eu nomeei “a cidadela fortificada da alma”. Desta forma ,a alma se parece a Deus, e em de nenhuma outra forma.”

(Sermão Intravit Jesus in quoddam castellum, tradução de Jeanne Hancelet-Hustache)
Mestre Eckhart emprega esta expressão “cidadela fortificada”. Dentro do Zen nós utilizamos o símbolo do círculo. Mas como podemos penetrar dentro do círculo vazio ou dentro desta citadela fortificada? É necessário que nos esqueçamos de nós mesmos, indo mais além. Com êste abandono e esquecimento, penetramos dentro do círculo. Quando falamos em superação, poderemos com isto ficar tentados a achar que exista mais alguma coisa fora de nós mesmos, mas é o Mestre Eckhart que bem o diz: “cidadela fortificada dentro da alma”. Para dentro desta cidadela fortificada não existe caminho nenhum, nenhuma via, nenhuma porta que aí nos leve. Só se pode ter acesso a ela atravez do Uno e do Puro.

Nós nos perguntamos: porque devemos simplesmente nos sentar em zazen? Para que? Mas sentar-se desta forma não tem causa. Simplemente sentar quer dizer simplesmente sentar. Enquanto tivermos ainda necessidade de uma causa ou de um objetivo, não podemos ainda encontrar a paz no zazen. Por que ficamos procurando uma coisa extra, algo que se encontraria “por detraz” do zazen e é que saimos deste “Uno”. Somente depois que não mais tivermos nenhuma necessidade de causas que encontramos a paz.

Não é necessário crer que dois se juntem numa união e dêste fato advenha o um. O Um é aquilo que nunca foi quebrado nem dividido. Isto é a experiência do zazen. Esta prática nos dá a postura de um Buddha, a respiração de um Buddha e o espírito de um Buddha.

No capítulo Kaiin Zammai (“O Samadhi do Sêlo do Oceano”) do Shobogenzo, Mestre Dogen escreve que todos os rios finalmente se lançam ao oceano. Todo os rios, não importa quão diferentes sejam, se tornam um. Ele também diz que quando as ondas do oceano se elevam devido ao vento, morrem em cima dágua. Dêste ponto de vista, nós podemos observar as ondas que nascem e que morrem; vemos uma depois as outras. E mesmo assim, dentro do samadhi, não vemos apenas as ondas, vemos também a água do oceano. Dizemos que as ondas são a água e que água não se encontra separada das ondas. Se nós vemos o oceano olhando a água, não mais existe a aparição e a desaparição, e o oceano não cresce ou decresce. Isto é o “samadhi do oceano”. Praticar o zazen, é atingir e conservar êste samadhi.

Tradução do francês de Leyla Mayer.