Quinto Teishô Sobre o Sutra do Lótus

TEISHÔ Nº4: NÃO REGISTRADO.

TEISHÔ Nº5

É a continuação do “Yui-butsu-yu-butsu” “Somente os budas, juntamente com os budas”.

Existe já uma tradução em francês do Yui-butsu-yo-butsu (e do “Uji”) igualmente numa coleção traduzida em três línguas, feita a partir da tradução de Shimano Roshi, um mestre Rinzai com o qual eu fiz o meu primeiro sesshin.

Leitura de um extrato de “Yui-butsu-yo-butsu” (Volume 4, Capítulo 91, p. 217)

Um velho buda disse: “As montanhas, os rios e a Terra e os seres humanos nascem juntos. Os budas dos três tempos e os seres humanos sempre praticaram juntos”.

Achamos via de regra que aquele que vem ao mundo nasce num mundo já constituído de montanhas, rios, terra e achamos que este ser humano sucede às montanhas, rios e à terra, mas não é assim. De fato, cada bebê vem com seu próprio mundo. É difícil de compreender, é um problema da simultaneidade, um tema que eu já abordei no passado. Quando o Buda Shakyamuni teve o despertar ele disse: “Como é maravilhoso, as montanhas, rios e a terra despertaram juntamente comigo”.

Nós estamos aqui sentando juntos, mas em minha cabeça e nas suas, cada qual já tem seu próprio mundo que é completamente diferente daquele de outros. É a teoria do Kegon: se bem que exista o mundo da ilusão, dos desejos, o mundo material, o mundo mental, na realidade se trata de um mundo apenas. Do ponto de vista da consciência ou da psicologia, cada um de nós vive num mundo tingido de nosso mental e não vê o mundo senão através de emoções produzidas por esta consciência. É por isso que o Kegon fala dos dez mundos.

Mestre Dogen diz que os seres humanos nascem juntamente com os rios, as montanhas e a terra, este “nascer junto” querendo dizer o mundo do Dharma. Este mundo, estas montanhas, estes rios, quando é que eles começam? Ninguém sabe. Um dos objetivos da ciência é encontrar a resposta a esta pergunta. O mesmo vale para nossa vida. Quando ela começa? Ninguém sabe. Quando o primeiro ser humano começou a andar nas duas pernas e quando começou a se comunicar através da linguagem? Quando a primeira vida apareceu sobre a terra? Quando os homens começaram a pensar através de um espírito religioso? Todas estas perguntas não têm respostas, mas não há dúvidas, nós estamos aqui, vivemos aqui e podemos ver as montanhas e rios e nós estamos de pé em cima desta grande terra. Se acontecer que entremos no mundo do Dharma, o mundo original, você transcende a multiplicidade e a dualidade para chegar ao estado onde Deus está sempre presente. No Evangelho de Paulo, São Paulo diz: “Eu não vivo, Deus (ou o Cristo) vive em mim”. Deus ou o Cristo (ou o dharmakaya) vive simultaneamente com ele. É a experiência religiosa original, transcendental. Falamos também de misticismo, mas este misticismo, especialmente na filosofia cristã, sempre foi considerado como uma corrente à parte e freqüentemente suspeita, mas no budismo esta experiência do satori deve estar no centro. O misticismo no cristianismo, no islamismo, no sufismo, não importa em que país, não importa em que época, mostra a mesma coisa. Hoje em dia existem conflitos, pessoas se batem com o nome de Deus, o que me faz dizer que algo não está certo. Estou persuadido que esta experiência religiosa é algo de precioso para o futuro.

No “Jisho-zanmai” falamos de despertar o corpo e a mente ao mesmo tempo e realizar o satori conjuntamente com as montanhas, os rios, a terra e todos os budas do passado, presente e futuro. Mas para compreender tal coisa é necessário ter tal experiência. Para a pergunta: “De onde viemos?” a resposta não é: “Venho de Paris”, a resposta é: “Venho do dharmakaya”. O Buda Shakyamuni e o Buda Maitreya são os servidores de outros, mas quem são os outros? “Os outros” sendo o dharmakaya. O Buda Shakyamuni e o Buda Maitreya são os servidores do dharmakaya. Esta experiência é muito difícil de ser transmitida de forma intelectual ou com a linguagem, igualmente é difícil no budismo e no cristianismo.

Gensha Shibi disse: “Eu e o Buda Shakyamuni somos colegas”. Um monge perguntou, tendo em vista que o Buda Shakyamuni nasceu há muitos séculos antes de Gensha Shibi: “Isso é muito estranho, quem era o professor então?” Gensha Shibi respondeu: “O terceiro filho da família Sha” (Sha era uma família de pescadores). Alguém perguntou ao Buda Shayamuni: “Quem era o mestre dos sete budas do passado?” (Estes sete budas do passado que nós citams antes do Buda Shakyamuni).

Sabemos perfeitamente que o Buda Shakyamuni transmitiu a Mahakasyapa e assim por diante, até Mestre Dogen (ou seja ao todo quarenta e quatro gerações), mas se seguimos a linhagem até sua origem, encontramos o Buda Shakyamuni e antes dele os sete budas do passado. Então, quem foi finalmente o mestre do primeiro Buda do passado, Bubashibutsu Daiosho? Eis a questão. O Buda Shakyamuni respondeu: Eu mesmo fui o mestre dos budas do passado.

Do ponto de vista temporal aí está uma impossibilidade, mas sob o ângulo da simultaneidade, não existe mais o tempo. Uma vez tendo entrado na simultaneidade, o tempo é a plenitude, e a plenitude quer dizer a eternidade. Quando entramos na simultaneidade com o dharmakaya, começamos a compreender que estes problemas de existências anteriores ou de existências futuras são estúpidas, se bem que realmente tenha havido um passado com o Buda Shakyamuni e um futuro com o Buda Maitreya, porque cada um dentre nós nasce constantemente com o dharmakaya. Isto não pode ser compreendido com o intelecto, mas eu peço a vocês, lembrem-se disto. Na mesma ordem de idéias, o Cristo disse: “Antes que Abraão fosse, eu sou”. Isso pode ser compreendido assim: O Cristo estando à direita do Pai por toda eternidade, já estava lá desde a criação do mundo.

Eu me lembro que durante uma conferência que tomou lugar em Londres, diante de universitários à qual tinha sido convidado, Daisetz Suzuki disse: “Eu tenho uma pergunta para os Cristãos. Quando Deus criou o universo, quem estava ali para observar?” Houve um silêncio e ninguém soube responder. E Daisetz Suzuki disse: “Eu estava lá”. Foi muito forte. Ele quis fazer compreender que a criação não tinha tomado lugar há alguns milhões de anos atrás, mas que o nascimento do mundo é permanente, se produz a cada momento e não há todos estes milhões de anos e no futuro será uma situação semelhante, porque cada de nós nasce com o universo inteiro. Por que o budismo diz sempre “aqui e agora”?

No Genjo Koan, Dogen Zenji diz, citando como exemplo a relação entre a madeira e a cinza, que se bem que exista um passado, um presente e um futuro, todos estes aspectos não são uma linha de tempo, mas são independentes uns dos outros, cada momento do processo é o momento presente aqui e agora. A isto se chama de presente absoluto. Este presente absoluto se manifesta sob a forma de montanhas, rios e a grande terra.

Como diz Dogen Zenji no capítulo do Shobogenzo “Sansuigyo”, ou também no “Bendowa”, bem como no “Eihei Shingi” o satori é este momento de realização com as montanhas, os rios, e a terra. Todos estes escritos falam deste presente absoluto, deste tempo de antes mesmo do menor sinal da criação, a saber o momento da simultaneidade ou do dharmakaya, esta idéia estando no cerne de Uji (capítulo do Shobogenzo, “Ser e tempo”). Por que Deus se fez homem? Por que Bodhidharma veio à China? Por que estamos nós aqui praticando? É sempre a mesma pergunta.

Nós vamos continuar com o capítulo “Yui-butsu-yo-butsu” (Volume 4, capítulo 91, p. 218).

Um mestre antigo disse:

Mesmo o desaparecer (das ilusões) não é um instante diferente:
Aquilo que ocorre está além da discussão.
As montanhas, os rios e a terra,
São justamente a revelação do corpo do Rei do Dharma
.

O texto original diz “Mesmo o desaparecer (das ilusões) não é um instante diferente”. Eu traduzo da seguinte forma: Esta coisa que cai nada mais é do que eu mesmo, não há dúvida nenhuma quanto a isto. As montanhas que tombam são a manifestação total do corpo do rei do Dharma, isso nada tem de intelectual, ao contrário, provém de uma experiência. Este koan vem de um mestre: Quando os monges estavam fazendo o fushin, o samu (trabalho) coletivo, e que se ocupavam de cortar lenha, como fazíamos ontem atrás da casa, de repente, tudo desapareceu. Ouvindo este som um monge (Shoju) despertou. Este barulho não vinha de fora, não caia para baixo, está presente no dharmakaya.

Um outro koan, talvez mais fácil de ser compreendido, é aquele do leigo Ho Koji, que ninguém, talvez nem mesmo um monge podia igualar. Quando ele deixava o mosteiro, todos o acompanharam até o portão principal e como nevava muito, um monge disse: “Onde é que cai toda esta neve?” Koji disse: “Em parte alguma!” O monge lhe disse: “Você está realmente agressivo!” Koji disse: “No Dharma, não existe nem agressividade nem gentileza”. Com estas palavras ele bateu no monge e este último nada pode fazer. De fato, onde cai toda esta neve? Em nenhuma parte. É como as montanhas, os rios e a grande terra: tudo cai, mas para ir onde? Em parte alguma, é algo cósmico. Se vocês compreenderem o dharmakaya (hosshin) é como se você estivesse no Everest, no Mont Blanc, nos lagos etc. Entre Nice e Digne, há o trem de Pignes que sobe. A pergunta é: Você consegue parar este trem? Tem força para tal? Não precisamos de força para tal, é suficiente dizer: Puget-Théniers! Três minutos de parada. Com o koan você se torna totalmente unificado com o próprio koan, não há nada lógico, não precisamos de metafísica para isto, é a experiência.

É difícil de imaginar o que pode ser o encontro entre mestre e discípulo durante o dokusan (entrevista).