Sutra do Lótus

TEISHÔ Nº1

Durante este sesshin, vou falar do Sutra do Lótus. Até o presente nós estudamos o Sutra do Diamante, o sutra do Mahaprajnaparamita (Sutra da grande sabedoria), Kegon e durante o decurso do último sesshin, falamos do sutra de Vimalakirti.

Leitura do começo do capítulo 2 do Sutra do Lótus, “Meios habilidosos”.

Naquele momento, o Venerável pelo mundo emergiu, calmo e lúcido, de seu recolhimento e declarou a Sariputra:

A sabedoria dos despertos é profunda, incomensurável; difícil de ser compreendida, difícil de ser penetrada é o portal de suas sabedorias. Os auditores e aqueles que despertaram por si mesmos não podem, apesar de seus números, conhecer tal coisa. Como se faz tal coisa? É porque um desperto anteriormente freqüentou inumeráveis despertos, milhares de miríades; ele praticou até o fim inumeráveis métodos levando ao caminho dos despertos; cheios de audácia e de energia, seus renomes universalmente reconhecidos, ele levou à realização métodos sem precedentes e muito profundos; o teor daquilo que pregam de forma apropriada é difícil de ser compreendido.

Ó Sariputra, desde que realizei o estado do Despertar, com a ajuda de todo tipo de correlações e todo tipo de parábolas, eu amplamente expus a doutrina oral.

Por meios habilidosos inumeráveis eu levei os seres a se separarem de seus apegos. Como se faz tal coisa? É que Aquele Que Vem Assim está munido da totalidade dos meios salvíficos, do saber e da visão, bem como de perfeições.

Ó Sariputra, o saber e a visão Daquele Que Vem Assim são vastos e profundos, incomensuráveis, sem obstáculos; munido de forças, de seguranças, de sua meditação, de sua liberação, de sua concentração, ele penetrou o sem limites, ele levou realizou todos os métodos sem precedentes.

Ó Sariputra, Aquele Que Vem Assim é capaz de uma variedade de distinções para pregar habilmente os ensinamentos; seu discurso está cheio de doçura, ele enche de alegria o coração das multidões.

Ó Sariputra, para nos atermos ao essencial: os métodos sem precedentes, incomensuráveis e infinitos, o Desperto os levou a todos a cabo.

Pare, Sariputra, de continuar a debater. Por que isto? O que o Desperto realizou foi a Lei primordial e rara, difícil de ser compreendida; somente um Desperto pode, juntamente com um outro Desperto perscrutar até o fim o aspecto verdadeiro das entidades, o que querem dizer, para as entidades: assim se parecem, assim são suas naturezas, assim suas substâncias, assim seus poderios, assim suas ações, assim suas causas, assim suas condições, assim seus frutos, assim suas retribuições, assim suas igualdades atingidas de começo ao fim.

Esta parte nos faz compreender a verdadeira forma do universo (shoho jisso). Shoho-jisso é o título de um capítulo do Shobogenzo. Eu procurei uma tradução do Sutra do Lótus feita a partir do sânscrito ou do tibetano que descrevesse não os dez aspectos como nesta tradução feita a partir do chinês, mas os cinco aspectos.

A escola Tendai retomou estes dez aspectos como base de sua filosofia. Quando lemos as obras de Mestre Dogen, o Shobogenzo, mas também o Hokyo-ki (as crônicas de sua viagem à China), nos damos conta que ele conhecia perfeitamente o Sutra do Lótus. Shoho-jisso está traduzido como “a verdadeira forma de todos os fenômenos”, ou “todos os fenômenos manifestam a verdadeira forma de suas existências”. Nós já estudamos a teoria da vacuidade: Tudo é vacuidade, não existe a forma, mas já que é necessário a nomear, provisoriamente a chamamos de “forma”. Esta forma é o resultado de causas e efeitos. Porque existem causas e efeitos secundários, existem provisoriamente a presença dos efeitos se bem que não tenham quaisquer identidades fixas. É isto que chamamos de “vacuidade” e quem pode ver a vacuidade pode ver tathata, a talidade, a verdade. Se não chegarmos a ver tal vacuidade em todas as coisas, ficamos apegados aos objetos e sofremos com isto. Já estudamos que por trás dos fenômenos existe aquilo que chamamos de “verdade” ou tathata. Achar que existe uma outra verdade imutável por trás dos objetos finalmente cria uma dualidade. Na realidade é preciso que vejamos enquanto unidade: estes fenômenos são vacuidade, a vacuidade é a verdade, estes objetos são a manifestação da verdade, ou a manifestação do dharmakaya, “o corpo do Dharma”. Dharmakaya “o corpo do Buda cósmico”, não é um corpo humano, é o universo inteiro que se manifesta em cada coisa. Se nós estamos apegados às formas não podemos enxergar este tathata, ou este Buda cósmico. É isto que está sendo dito no capítulo do Shobogenzo Yui-butsu-yo-butsu “Somente os budas podem transmitir aos outros budas”. Neste texto está claramente dito que “somente um Desperto pode juntamente com um outro Desperto escrutinar até o fim o aspecto verdadeiro das entidades…”, ou somente um buda pode ver a verdadeira forma dos fenômenos. Se bem que se possa ver todas as coisas deste mundo como sendo manifestações do buda, em geral sofremos quando problemas aparecem. A escola Tendai diz que se nós sofremos as coisas deste mundo, é porque nós estamos nós mesmos no mundo do inferno. Enquanto humanos, nós estamos confrontados com acontecimentos que nós atribuímos ao mundo do inferno e mesmo assim é ainda possível ver a beleza dentro dos fenômenos. Lendo obras literárias, vendo um filme, podemos ser tocados a ponto de lágrimas porque é tão bonito (se bem que a noção de beleza seja muito subjetiva), e temos necessidade deste tipo de emoção.

Se chegarmos a apreciar todos os fenômenos com a visão de um buda e não aquela de um ser humano comum, qual seria o aspecto do mundo? Todavia, mesmo as coisas mais terríveis são a expressão de tathata, a talidade, porque todos os fenômenos ensinam o Dharma. Não se descreve o Dharma com palavras, dizemos que as árvores e as montanhas elas mesmas ensinam o Dharma. É algo de secreto, “secreto” porque se nós estamos no mundo do inferno, não os podemos ouvir, e enquanto seres humanos não os podemos ouvir tampouco. Um buda e somente um buda pode ouvir uma árvore falar do Dharma.

Eu disse aqui que o verão estava começando e que tudo estava verde. Segundo a escola Kegon, se observarmos tal verdejar, este verdejar também nos observa. Estas folhas estão verdes, mas esta cor verde é também a expressão do verão, e quando vem o outono, as folhas mudam de cor, se tornam amarelas, secam e caem, e fazendo tal coisa falam do universo inteiro. Este verde não é somente a forma, é também o resultado das causas e efeitos secundários. Assim podemos encontrar a primavera ou o começo do verão através desta cor verde e a primavera pode encontrar os pássaros através desta mesma cor verde. Eu encontro a primavera com esta cor verde, este cor verde me encontra através da primavera, com este verde da primavera eu me encontro a mim mesmo.

Nós já estudamos o mundo do Dharma visto pela escola Kegon. De um lado, existem as guerras, os acidentes, as manifestações de Paris, todos estes fenômenos, de um outro lado a verdade do buda está presente em tais fenômenos. Alguns gritam e têm razão de gritar, mas por outro lado tal grito é o resultado de causas e efeitos… Tudo está presente em tal grito.

Chegando a Paris, fiquei surpreso com estas manifestações, em seguida compreendi que se tratava de um problema da aposentadoria e do medo de faltar dinheiro durante a aposentadoria. Claro que um tal problema é real, mas é a conseqüência de um ponto de vista errado e de uma falta de ponto de vista correto ao observar os acontecimentos. Um buda vê todos os fenômenos como natureza de buda e somente um buda os pode ver desta forma. Este dharmakaya, este mundo do buda, é um mundo de saberoia que se manifesta desta forma, ele nos faz constatar este aspecto. Se pudermos ver todas as coisas como um buda, isto está bem, mas não perfeito, e aqui começa um dilema: de um lado se considera que tudo vai bem, mas de um outro lado, é necessário resolver os problemas. Chegando ao estágio da sabedoria e da grande compaixão, é necessário então fazer intervir a consciência. Mas se nossa visão for limitada, é muito difícil.

No extrato do Sutra do Lótus que acabamos de ler, está mencionado os “dez assim”: assim são seus aspectos, assim suas ações, etc.

Leitura de um extrato do Sutra do Lótus, capítulo II,

Cesse, Sariputra, inútil falar mais ainda. Por que? É que o Desperto leva à realização, é a Lei primordial e rara, difícil de ser compreendida; somente um Desperto pode, juntamente com um outro Desperto, escrutinar até o fim o aspecto verdadeiro das entidades, o que quer dizer, para as entidades: assim são seus aspectos, assim suas naturezas, assim suas substâncis, assim seus poderes, assim suas ações, assim suas causas, assim suas condições, assim seus frutos, assim suas retribuições, assim suas igualdades, completas de começo até o fim.

Nos apoiando sobre cada uma destas dez enumerações, chegamos a enxergar as coisas de forma diferente e a resolver os problemas. Não se trata aqui de uma teoria, para Mestre Dogen, é muito pelo contrário, algo de muito dinâmico. O título “Yui-butsu-yo-butsu” utilizado por Mestre Dogen em seu Shobogenzo vem do Sutra do Lótus (capítulo Hoben “Meios habilidosos”). A citação é a seguinte:

Somente os budas, juntamente com os budas são capazes diretamente de realizar perfeitamente que todos os dharmas são a forma verdadeira.

No capítulo “Shoho-Jisso”, do Shobogenzo, Mestre Dogen retoma esta citação do Sutra do Lótus:

O Buda Shakyamuni disse: “Somente os budas, juntamente com os budas, são diretamente capazes de realizar perfeitamente que todos os dharmas são a forma verdadeira. Aquilo que chamamos de “todos os dharmas”, é a forma que eles tomam, as naturezas como elas são, o corpo como ele é, a energia como ela é, a ação como ela é, as causas como elas são, as condições como elas são, os resultados como eles são, o estado último do equilíbrio entre a substância e o detalhe como ele é”.

Neste capítulo, percebemos que Mestre Dogen utiliza esta teoria da escola Tendai e do Sutra do Lótus para entrar cada vez mais profundamente.

Do que estudamos até agora, depreendemos que o budismo chegou com várias teorias, entre elas as do koan, mas aqui entramos diretamente na história da teoria budista.

Vamos tentar estudar um pouco a base do budismo. Meu objetivo não é fazer comparações com outras escolas, para chegar a uma conclusão que a escola Soto é a melhor. Geralmente, falamos das “cinco épocas”, a primeira entre elas tendo sido chamada de Agama, que se decorreu durante a época do Tripitaka (Os três cestos, as escrituras budistas).

Quando os sutras entraram na China, se ignorava quais eram os mais antigos, não se faziam direrenças entre textos Hinayana ou Mahayana, se bem que todos os sutras eram considerados como sendo os sermões diretos do buda. Em seguida começou um trabalho para reclassificar estes textos em seus contextos históricos: foram classificados como “Agama” os textos do cânone pali, que são as palavras do Buda. A escola Tendai acha que o Buda ensinou o sutra Kegon antes de ensinar os sutras ditos “Agama”, mas como o sutra Kegon é muito difícil porque fala diretamente do mundo do Dharma a partir do estado do satori, ninguém o compreendia, foi necessário então simplificar o ensinamento, e chega-se com isso ao Agama. Em seguida chegaram sutras como o Prajnaparamita e finalmente o Sutra do Lótus.

No Japão, historicamente, existem muitas escolas, parece-me que são seis: A escola Hosso (Yuishiki “a forma do Dharma”); a escola Sanron “a escola dos Três Tratados”: o Madyamaka de Nagarjuna; o Tratado dos cem versos; e o Daichido-ron, um comentário do Prajnaparamita. Isso foi durante a época de Nara. Depois que a capital se mudou para Kyoto, foi fundada a escola Tendai baseada no Sutra do Lótus e a escola Shingon, uma escola esotérica baseada no Dainichi-kyo (Sutra Mahavairocana). Isso foi na época do fim do esoterismo budista na Índia e sua implatação, bastante rápida, na China. Mas este ensinamento chegou ao Tibete muito mais tarde e se bem que no meio tempo tenha se desenvolvido, a escola Shingon e o budismo tibetano são, no fundo, muito próximos um do outro. Cada escola teve um fundador para o qual algum sutra era o mais importante. Em seguida chegou a escola Zen. No zen se fala da transmissão direta, sem palavras, sem linguagem, ou seja, a transmissão direta da experiência do satori. Para mim, e o mesmo acontece com Mestre Dogen, é inútil fazer estudos comparativos entre as escolas diferentes. Alguns se dizem melhores e comparam seus ensinamentos a um foguete que os projeta direta e rapidamente mais além do objetivo das demais. Mestre Dogen dizia que tal crítica entre as escolas era vã, a seus olhos somente a prática era o que importava, não somente a prática, mas a profundidade e autenticidade de tal prática que provém diretamente do Buda Gautama. Que escolas budistas duelem entre si é deplorável. Nosso objetivo não é estudar as outras escolas para as criticar, mas descobrir os diferentes aspectos da teoria budista. Em seguida apareceu a escola da Terra Pura (Jodo). Se bem que cada escola tenha tido suas particularidades, definitivamente o ensinamento se tornou uma globalidade, porque todos os aspectos provinham somente de um só aspecto, seja o tathata, natureza de buda, ou o satori. Precisamos abandonar todas as discussões inúteis e entrar diretamente na prática, como estamos nos esforçando por fazer, a fim de que todos os fenômenos deste universo se manifestem nestas folhas verdes, a fim de que nós mesmos estejamos no interior deste verde, de encontrar o universo inteiro e de nos encontrar a nós mesmos. A partir disto nós começaremos a ver todos os fenômenos deste mundo de um ponto de vista não teórico e quando formos, por exemplo, a outras cidades, veremos o mundo diferente, o mundo começará a mudar diante de nossos olhos. Veremos então as coisas como são: quando é difícil, é difícil, quando choramos, choramos, quando rimos, rimos… Quando vemos a totalidade, constatamos o quanto este mundo é maravilhoso e belo. Em todos os aspectos negativos, podemos achar aspectos positivos.

Como monge, eu fiz cerimônias fúnebres, no Japão e no Brasil. E quando as famílias estavam lá, não creiam nunca que estas coisas eram meras formalidades! Tive um caso de um jovem que depois de uma briga com seu pai, se matou num acidente de carro. Diante de um tal drama (pelo qual o pai se sentia responsável), é indispensável falar algo que o permita se defrontar com a terrível realidade da morte. Se enquanto monge não se for capaz de compreender o Dharma, não se pode transmitir nada para apaziguar suas dores. Nos acidentes, se bem que às vezes as pessoas sejam queimadas e desfiguradas, nós podemos ver o Dharma e o Buda. Isso não é teoria. Numa outra ocasião, fiz a cerimônia fúnebre para um jovem, morto por seu amigo: quando eles brincavam com revólveres carregados, o tiro partiu e um dos dois foi morto. Para aquele que faleceu, já acabou, mas o amigo que sobreviveu vai levar para o resto da vida este karma muito pesado. Quando fazemos uma cerimônia fúnebre, uma só palavra pode bastar para dar paz a esta pessoa, e neste momento sua prática e realização ajudarão imensamente.

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Leia os teishôs do Sutra do Lótus:

Segundo Teishô Sobre o Sutra do Lótus
Terceiro Teishô Sobre o Sutra do Lótus
Quinto Teishô Sobre o Sutra do Lótus
Sexto Teishô Sobre o Sutra do Lótus