Os Três Quilos de Linho

Hekiganroku (caso 12°)
“Os três quilos de linho” de Tozan”

O apontador

A espada que mata as pessoas. A espada que dá vida às pessoas. Este é o Caminho da Alta Antiguidade e o eixo essencial de hoje em dia também. Se discutires o matar, não desarrumas um só fio de cabelo. Se discutires como dar a vida, perdes o corpo e vida. Logo diz-se: “Os mil sábios não transmitiram o Caminho transcendental único. Alunos brigam por aparências como os macaquinhos que ficam tentando pegar o reflexo da lua.” Digam-me, já que não está transmitido, porque então tantos koans complicados que aquêles que hoje tentam explicar?
O caso: um monge perguntou a T’ung Shan: “O que é Buddha?” T’ung Shan disse: “Três quilos de linho.”

O apontador diz: “A espada que mata as pessoas, a espada que dá vida às pessoas.” Estas espadas são uma expressão. Mas ela não são duas espadas separadas. A espada que dá vida e a espada que mata. A espada que mata e a espada que dá vida. É uma só espada, mas tem duas funções ao mesmo tempo. Estas coisas para nós monges são muito importantes. Quando as pessoas estão apegadas a êste corpo, não podem viver realmente. Quando perdem o apêgo, quando temos o desapêgo para com êste corpo, então nós realmente podemos trabalhar por alguma coisa. Por isto, êste assunto de matar ou de dar a vida, naquela época de kamakura (os guerreiros japoneses, que se chamavam de samurais). Vivia-se uma filosofia muito semelhante. Por isto, a arte da guerra e as artes marciais, no fundo têm algo a ver com o Zen. Um dos guerreiros mais famosos, que se chamava Kenshin, era um inimigo de Takeda Shingen, aquêle do filme de Kagemusha, “A Sombra do Samurai”. O outro era inimigo, mas ao mesmo tempo êles se respeitavam muito um ao outro. Inclusive, quando Shingen estava lutando contra outros inimigos, Kenshin mandava sal para Takeda, porque o clã dos Takeda habitava dentro das montanhas no interior e não tinha saída para o mar; não tinham, pois sal. Então êles mandavam sal para os inimigos. Fazia-se até êste tipo de coisas. E Shingen estava saindo para a batalha.. Vendo isto, um monge Zen, um reverendo, se retirou do Caminho para que os cavalos passassem e ficou observando como era o espírito destas tropas. Mas Shingen imediatamente viu êste monge, e de cima do seu cavalo perguntou-lhe (Shingen era um guerreiro, mas ao memso tempo era praticante Zen) : “Para a batalha, o importante é a rapidez. Para o Budismo, o que é o mais importante?” O Mestre respondeu então: “Para as batalhas e para as guerras, o que é importante é morrer. Sabendo morrer, pode-se usar livremente os soldados. No Budismo também, a primeira coisa que tem que ser aprendida é morrer. É igual”. E assim respondeu. Então Shingen desceu do cavalo e perguntou: “Quando os inimigos são fracos, eu me retiro. Quando são fortes, eu avanço. O que você acha disto? Isto está na ordem certa ou não? Ou é o contrário?” Aí o Mestre respondeu: “Quem se apega à sua vida, morre. Quem abandona sua vida, vive. Isto é o mesmo que as ilusões e as iluminações: vida e morte, isto é a mesma coisa.” Shingen entendeu e disse: “Exatamente. Dentro da vida existe a morte. Dentro da morte existe a vida.” O Mestre disse então: “Muito bem, muito bem.” Aí, em seguida, êles foram todos embora a cavalo. As tropas usavam armadura vermelha. Tudo era vermelho, até os cavalos o eram. O capacete, as armaduras, as lanças, tudo vermelho. A tropa é a que primeiro dava combate aos inimigos. E eram todos vermelhos. Os guerreiros escolhidos eram aquêles que não mais precisavam viver. Desapegados da vida. Eram os escolhidos. Mas êles não tinham medo. Quando avançavam entre os inimigos, êles abriam uma estrada. Abriam o caminho, porque os inimigos tinham medo. Aí se abriam e êles passam. O objetivo dêles era este. Apenas êste. Abrir aquela entrada no meio do inimigo. Êles nunca se machucavam. Quando o inimigos viam as tropas vermelhas, ficavam paralizados. Contra 80.000 pessoas, êles que eram apenas 8.000 davam conta. É este o exemplo, quando não se precisa mais viver, então se ganha. É exatamente assim. Isto acontece de verdade. Talvez um dos segrêdos da vida seja êste. Isto, por certo, não é um coisa lógica. Mas acontece. E funciona bem. Quem quer ganhar aquelas pérolas preciosas que estão na garganta do dragão, isto é, “as pérolas que são o “simbolo da sabedoria, ou da iluminação”. É como São Jorge, que também tem que lutar. O dragão é poderoso. Às vezes o dragão é o diabo. E o diabo é você mesmo, é a própria pessoa. Tem que matar o egoísmo, o egocentrismo. Aí ganha-se a vida, aquela sabedoria, aquelas pérolas. Isto é o que está acontecendo. Por isto esta colocação: a espada que dá a vida e a espada que mata as pessoas. “Este é o Caminho padrão da luta na Antiguidade e o eixo essencial para hoje também.” Então para os monges, para quem renúncia ao mundo, renunciar não é sair de uma casa para entrar em uma outra. Sair de casa em primeiro lugar, no sentido de raspar a cabeça e vestir o manto, mas entrar em uma outra, no sentido de querer nome, fama e poderes e títulos e mantos coloridos. Isto é exatamente sair de uma e entrar em uma outra casa. Isso não conta. Tem-se que abandonar e mais uma vez tem-se que renunciar. Nêste caso, realmente tem-se que matar. Então, para matar, não se precisa de uma espada. Somente as palavras, mas as palavras daquêle sábio, que cortam as confusões e as consciências. Existem dois tipos de ilusões e de ignorâncias: uma é a ignorância intelectual e a outra é a sentimental. Cortar a ignorância intelectual, é fácil. É como quebrar uma pedra. Vocês nunca viram um pedreiro, que trabalha com aquelas pedras grandes ? Dizem que êles vêem aquele linha aí fazem um corte quadrado. Direitinho. Assim êles podem cortar. Mas para cortar a ignorância sentimental, isto é o que há de mais dificil. Os algodões da paineria e a paina ficam grudados pelo corpo todo. Têm-se que tirar e extirpar um a um, por difícil que seja. Por exemplo, não sei se existe entre vocês alguém que esteja querendo parar de fumar. “Eu quero parar”. “Porque?”. “Porque faz mal aos pulmões.”. Ele sabe intelectualmente que o cigarro nunca faz bem. E isto pricipalmente para as moças, para as mulheres. Apenas às vezes é elegante. Mas é somente isto. A vantagem é só esta. Mas sabem muito bem que faz mal. Porém não se consegue parar. Intelectualmente sabemos, mas há tantas razões… É ruim. Mas não se consegue. “Será que não tem um ponto de acupuntura que funcione?” Tem. E o resultado é de um efeito de 70% .. Mas isto já é propaganda de acupuntura; antigamente era 50%, agora já é 70. Mas a parte do cérebro que está ligada à fome ou ao cigarro, está perto do ponto da relação sexual. Então, de alguma maneira, isto é algo como insatisfação sexual também. Está ligado a ela. É um caso de psicologia. Não adianta somente colocar uma agulha no ponto, cumpre trabalhar também com psicologia. Por exemplo, quem engorda não está usando muito sua cabeça e desta maneira é que engorda; tem-se que superar a barra (estou brincando…). Eu estava dizendo que é dificil cortar a ignorância, estas duas ignorâncias. A intelectual e a outra que é a sentimenal, a emocional. Precisa-se de uma espada para poder cortá-las. Uma espada, não é aquela espada física. É aquilo que corta a ignorância, isto é, a sabedoria. Sabedoria. Então nós temos a sabedoria do Prajna-Paramita, a Sabedoria do Diamante. É a pedra mais dura que existe no mundo. Corta qualquer coisa. Sabedoria do Diamante. Nós precisamos dela. É uma espada de diamante. É a espada do imperador. Isto é o que tudo corta. “A espada que mata as pessoas, a espada que dá a vida às pessoas.” Ë uma coisa só. Estou repetindo. Porque quando se consegue matá-las, elas revivem. Por isto, “aquêle que quer viver morre, e aquele que quer morrer vive.” Com esta teoria, os guerreiros vivem. Alguém houve que acabou perguntando: “mas, êste Zen não é religião? E o Budismo não é religião? Porque então fica-se falando em matar e morrer? ” Exatamente esta é a questão para nós praticantes Zen: aprender nesta vida o que ela vem a ser, e o que é a morte. Para os guerreiros ou lutadores, também se trata da mesma coisa. Aprender a viver ou a morrer. Aquelas dúvidas, será que têm perigo, aquela hesitação, aquêle susto, aquêle medo, tudo isto atrapalha. Durante nossas vidas existem certas ocasiões em que é necessário correr um certo risco. Em geral, a pessoa não quer sujar as mãos, mas quer tudo. Isto às vezes não funciona. Por exemplo, a pessoa diz: “quero ganhar a iluminação ficando deitado.” Comendo doce e tomando café, fumando cigarro. Este é o caminho padrão da alta Antiguidade e o eixo essencial para hoje também. “Se discutires o matar, não desarrumará um só fio de cabelo. Se discutires o dar a vida, perderás teu corpo e tua vida”. Portanto, diz-se: “os mil sábios não transmitiram o Caminho Transcendental único.” Quando se chega a este ponto, a esta encruzilhada da grande morte e do grande renascimento, nem os mil sábios transmitiram o Caminho Transcendental. Alunos brigam por aparências, assim como macacos tentando pegar os reflexos da lua. No fundo da montanha tem uma lagoinha, e, como ontem ou hoje, tem aquela lua cheia e brilhante. O macaco fica: alualaulau, eu quero segurar… e fica segurando o cipó e pega a lua. Mas no momento de pegar a lua, a água a desmancha e a lua desaparece. Aí novamente reaparece. A lua neste momento talvez sejam as palavras, as palavras como foi colocado no koan que estamos estudando. Um monge perguntou: “o que é Buddha?”. “Três quilos de linho.” Analisando, como na semana passada eu expliquei, não vamos achar nada. É como a sombra da lua. Digam, já que não está transmitido, porque então tantos koans complicados que aquêles com olhos tentam explicar? Então esta pergunta: “o que é Buddha?” Dentro dos 5400 koans, há mais de 120 perguntas “O que é Buddha?”, mas cada resposta é diferente. Por isto o Zen não é matemática. Um mais dois é igual a três. Cinco mais cinco é igual a dez. Mas no Zen não é isto o que acontece. Dois mais dois são cinco. O que? É sim! Dois mais dois igual a cinco! Aqui na comunidade moram duas pessoas e mais duas pessoas. Não são quatro. Dá mais força. Dois mais dois dá a Sangha, a Comunidade. Então dá a fôrça de 5. Cinco mais cinco dá 25. Cinco mais cinco 25? Não é multiplicação, não? Cinco mais cinco é vinte e cinco. É o que acontece dentro do Zen. Por isto, o Zen não é matemática. “O que é Buddha?” Por exemplo, um outro mestre respondeu: “quando a nora monta a cavalo, a sogra pega o cabresto.” Isto é muito interessante: “quando a nora monta a cavalo, a sogra pega o cabresto.” Isto é o que está acontecendo diariamente aqui. Geralmente a nora não monta nunca a cavalo. Sempre oferece primeiro à sogra. Contudo, o fato é que hoje em dia eu não sei mais se isto ainda é assim. Talvez sim, talvez sim. Antigamente não o era. Quero perguntar para as moças, se fossem com vocês, como fariam? De qualquer maneira, antigamente a nora tinha que ser mais humilde, repeitando a sogra, a mãe do marido. Então, mesmo que estivesse casada, “ah, por favor”, terminando um dia, com aquêle trabalho pesado, “vamos voltar para casa. Por favor monte”. E a nora pega o cabresto. Mas no coração está dizendo: “puxa vida, hoje eu trabalhei muito. Ela quase não fez nada, e está querendo montar”. Acontecia isto. Então, havia aquela guerra fria. Quem sofria com isto era o marido. Ficava entre a sogra e a nora. Sofria muito, mas nêste caso é o contrário que acontece. Quando a nora monta, a sogra pega as rédeas. Ainda é jovem, forte, trabalhou bastante… sem cumprimentar, sobe no cavalo. Mas a sogra pega as rédeas. Ela não acha ruim, não. É natural. Porque ela merece. Ela nunca pensaria: “puxa vida, esta nora não tem etiqueta. Não tem educação. Não me respeita. Eu perdi o meu único filho com esta bisca”. Não , não foi assim, ela pegava as rédeas, tudo bem. Inconscientemente, a nora montava e a sogra pegava o cabresto, e quando chegavam à entrada da aldeia, a nora descia sem falar. Aí a sogra montava e continuava caminhando. Não era maravilhoso? Se fôsse sempre assim, puxa, tudo seria ótimo e seria de fato a paz. Mas hoje em dia, não: aqui no Brasil eu não sei, o povo brasileiro é muito religoso, isto não vai acontecer; mas os japonêses modernos não, são muito ocidentalizados, americanizados, e dizem: “eu vou casar com um marido, com casa, com carro e sem sogra.”, porque algumas famílias são obrigadas a morar com a sogra. “Não, Deus me livre!” Casa sim, carro sim, mas sogra não. Nos primeiros tempos, a esposa é muito carinhosa, “Sem você eu não quero viver”. Depois do casamento: “limpeza? bah! Preparar a a comida? bah!” Quando reclama de uma coisa, repete dez vezes, bah, bah, bah, bah e vai embora,. Não sei, talvez por isto é que hajam tantas separações. O que estava falando? Ah, “o que é Buddha, o que é Buddha?” Então era isto, a nora montando a cavalo e a sogra pegando o cabresto. Ótimo. Isto é um estudo de mushin. Não, de mente. No, mind. Elas fazem isto inconscientemente e nunca faz por mal. Estas coisas ocorrem naturalmente. Mas a sogra precisa viver com sabedoria. O importante é elogiar a sua nora. Palavras de amor, e com isto as coisas mudam às vezes. Aquelas mulheres idosas, velhas… Se a velhota ouvir, diz: “nossa, minha nora é mal educada, grosseira”; aí sempre vem uma outra pessoa que a chama de fofoqueira. E fala: “a sua sogra falou isto e isto”, “Hum, estava falando isto? É verdade. Ela é realmente péssima.” Aí começa. A fofoqueira se volta novamaente para a sogra: “a tua nora falou assim e assado.” Aí não tem mais jeito. Isto é um briga de macacos e de cachorrros. Nunca dá certo. Mas se acontece o contrário, se a sogra estiver dizendo: “que sorte! Eu tenho sorte com esta nora que é tão boa. Puxa vida.” Aí, com estas palavras de amor, a nora escutando, pensa: “é mesmo, ela estava falando assim, então eu preciso mudar um pouco mais para melhorar.” Aí na próxima vez já a trata de outra maneira. Então a sogra fica contente. Mesmo com um pouquinho apenas de esforço, é bom. Mas ainda existem aquêles sentimentos de precisar tratar bem a nora . Quer dizer, a nora não é ainda íntima. Aquela intimidade, mais do que com o filho. Então existe ainda algum tipo de cerimônia, para elogiar. Aqui no Brasil acontece de modo diferente. No Japão é uma vergonha elogiar o seu próprio filho. É o costume. Nunca o elogia. Diz: “ah, meu fiho, não dá, é péssimo.” Mas desta forma, ela está elogiando. Está esperando uma outra palavra, “não, o teu fiho é ótimo.” “Claro!” Não fala isto. É a mesma coisa, apenas uma diferença de colocação. Mas : “puxa, meu filho é inteligente, maravilhoso, ótimo”. Nunca se fala assim.
“Alunos brigam por aparências, assim como macacos que se agarram aos reflexos.” Então, êstes três quilos de linho… “O que é Buddha?”. “Três quilos de linho”. Nós temos que trabalhar muito bem em cima deste koan. E a resposta de cada um talvez vá ser diferente.
Boa noite.