O Zazen

Pergunta: Tomando suas explicações, eu compreendi que fazer o zazen, é praticar a simultaneidade, a visão do vazio e da não discriminação dos objetos. Mas por que seria o zazen uma atividade superior àquela da vida cotidiana?

Resposta: Para ver todos os fenômenos, todas as coisas, é necessário mudar a consciência porque esta consciência em seus aspectos inconscientes – que chamamos de consciência de alaya = traz dentro do seu bojo contaminações. E é esta consciência que deve ser transformada em sabedoria, sem a qual não é possível enxergar corretamente a forma verdadeira das coisas. A consciência de Alaya que se transforma em sabedoria é chamada de “sabedoria do grande espelho redondo”. Com tal sabedoria, esse espelho que são seus olhos, pode-se ver corretamente todos os fenômenos. Mas, para alterar essa consciência, porque não se pode trocar consciência por consciência, e não se pode trocar o inconsciente por consciente, o zazen é certamente um método – e talvez um dos melhores métodos – para entrar nesse domínio do inconsciente ou do subconsciente.

No começo do sesshin, eu disse: “Nós pensamos sem parar”; é uma atividade consciente, mas entre dois pensamentos existe um espaço e neste momento nós podemos mudar algo o que torna o pensar e o não-pensar, pode virar algo que é não pensamento. Através desse não pensamento entra-se natural e profundamente nesse ponto zero, esse ponto zero que não está consciente. Eis aí.

Somente estar sentado em zazen não basta. Com essa concentração, se pode mudar a consciência quando chegar o momento, algo “cai fora” ou “se quebra”. É algo de muito forte, que se quebra. Nos dias de hoje poucos praticantes falam dessa experiência. Diz-se: “Ah, sim, se trata de uma experiência misteriosa, patati, patatá…” Mas se virmos no fundo do budismo, constatamos que foi isso o que todos os mestres transmitiram.

Além disto, em todas as religiões, notavelmente no cristianismo, pode-se achar com Jesus Cristo ou com São Francisco de Assis esta experiência de onde surge tudo aquilo que é autêntico. Infelizmente se dá a isso o nome de misticismo. O que é o misticismo? Em que se pode listar isso? Sem tal experiência de “quebra” se vê somente os fenômenos deste mundo diferenciado e isso leva à confusão. Com a experiência se pode ter algo como a sabedoria, o que quer dizer que há muitos, muito tipos de samadhi, mas o zazen é a porta principal de entrada neste mundo. Por essa razão se o chama zanmai o zanmai, “samadhi, rei dos samadhis”.

Não faça tantas perguntas, prove você mesmo quando sentar em zazen.