O Som do Gongo

Retiro em San Marcos de La Sierra
Novembro de 1983

Mumonkan,
O som do gongo
Os zazens do sesshin já terminaram, só faltava este último. Passou rápido, não é? Sentiram alguma coisa? Somente dores, certo?
Mas vamos ao caso de Mumonkan, “O som do gongo”:
“Unmon disse, ‘O mundo é vasto e grande. Por que se torna necessário, ao som de um sino, vocês colocarem o manto de sete pedaços?”
O Comentário:
Mumon disse: “Em geral, aprender o caminho e chegar até o Zen significa evitar apega-se aos sons e às formas. Ao ouvir um som ou ao ver a forma de um objeto pode haver uma realização, a mente pode chegar a uma Iluminaçao. Isto é o que acontece de modo geral. Vocês que não são monges Zen, não compreendem como é que se guia o som, como se usa a forma, e como é que se vê claramente o valor de cada coisa, de cada atividade mental. Mas, digam-me! É o som que vem até o ouvido ou é o ouvido que vai até o som? E quando o som e o silêncio são esquecidos, o que é que se pode dizer a respeito dêste estado? Se vocês ouvirem com o ouvido, é difícil ouvir de fato, mas se vocês ouvirem com a visão, então realmente começam a ouvir pela primeira vez.”
O Poema:
“Se você é iluminado, todas as coisas são com se pertencessem a uma grande família, mas se você não o é, todas as coisas são separadas e desconexas. Assim, se você não é iluminado, nada é interligado, porque cada coisa será diferente das demais.”

O som do gongo do Mestre Unmon: O mestre Unmon foi um dos fundadores da Escola Zen, como tínhamos as Escola Rinzai, Unmon, Igyo, Hogen. Hoje em dia, três destas linhas desapareceram e apenas existem as Escolas Rinzai e a Soto. Mas o ensinamento dêle ainda é transmitido através destas Escolas. Nêste koan, Unmon diz: “O mundo é vasto e grande. Porque se torna necessário, ao toque de um sino, vocês colocarem o manto de sete pedaços?” No mosteiro Zen, geralmente nos mantemos em silêncio e por esta razão existem vários instrumentos: para meditação temos uma batida no han, que é um sino de madeira. Para a refeição, para as cerimônias e para cada atividade há um toque. Para trabalhar, também. Assim, todo tipo de ação está marcado por instrumentos. Por isto, até aprendermos todos os sons, realmente demora muito tempo. Principalmente para começar a bater-se certo. Aqui neste sesshin nós não temos êstes tipos de instrumentos. Mas eu gostaria de usar alguns dêles. Gostaria que todos aprendessem a tocá-los. Agora, aqui está dito: “um manto de sete costuras (ou sete pedaços)”. No momento eu não o estou usando. Mas de manhã, usamos o manto grande e amarelo. Este que ora estou usando é um pequeno, de 16 retalhos. E assim, faz-se o manto de cada pessoa. Como estamos vendo, unindo-se pequenos pedaços de pano formamos um manto. Antigamente, na Índia, os monges pegavam os panos jogados fora para tecerem seus hábitos. Os panos eram descartados porque tinham sido roídos por ratos, ou queimados, ou estavam sujos e velhos. Por qualquer motivo, as pessoas se livravam dêles. Eles eram então tingidos de uma côr algo amarela ou abóbora. Agora lhes digo: nêste koan, quando começa a bater o sino, a pessoa já sabe que vai iniciar uma cerimônia. Ou tem que ir para a sala do sermão, ou daqui a pouco vai começar a aula do Mestre ou o zazen. Hoje em dia, no mosteiro Zen ainda existe um treinamento exatamente igual ao de 300 anos atrás. Para entrar no mosteiro, nós ainda hoje calçamos sandálias de palha de arroz e usamos as roupas antigas, um chapéu e um bastão. Exatamente como podemos ver em filmes. Mantemos a tradição, curioso, não? Para entrar no mosteiro podemos nos envergonhar, mas temos que pedir licença. Nos filmes antigos de samurais apareciam estas cerimônias, iguais às atuais. Por exemplo, quando um samurai ia visitar uma academia de esgrima, pedia licença com um grito. Não estava brincando, apenas se anunciava sem saber onde estavam as pessoas. E gritava assim: AINOMASHOOOOOOO. Aí respondiam, após poucos segundos, lá de dentro: DOOOOOEEEEEEEEE. Parecia coisa de teatro, mas era sério. Até que combinava com aquêle ambiente, aquelas árvores, com a entrada e com o bosque. E assim, na vida monástica, existem êsses detalhes. Surge então aquela dúvida: “O que estou fazendo aqui? Estou sofrendo com o zazen e ainda estou pagando para ver”. Hoje não mais estamos passando o kyosaku, mas amanhã começaremos. Vocês pagam, aguentam as dôres e ainda por cima apanham… Então começam a pensar: “Por que estou participando desta besteira?”. Temos vontade de gritar: “Vocês são loucos!!” Mas quem os convidou? Foram vocês mesmo que quiseram vir. No mosteiro Zen, repete-se todo dia o mesmo horário, a mesma atividade. Passa-se lá dez anos, é sempre igual. Claro, dentro de cada um há mil coisas acontecendo, mas aparentemente cada um está fazendo as mesmas coisas. Nêste caso, tudo é diferente da vida lá fora. Mas, e o nosso mundo o que vem a ser? Estamos sempre ocupados com a moda, com os hábitos veiculados. Quem ganhou as eleições para presidente? É tudo novidade, novidade e mais novidade. E quando paramos para nos perguntar, começamos a sofrer. Quando nos acostumamos com tudo isto, alguém toca o sino, alguém coloca o manto. Quando toca outro sino, ah, é hora de comer. Quando toca outro mais, é hora do banho. Mas, porque é se faz tudo isso? Porque estou eu também fazendo? Quando nos acostumamos, a vida monástica talvez seja a vida mais luxuosa do mundo. Não precisamos nos preocupar em pagar o aluguel, a luz, a comida, temos tudo, tudo. Mas isto não é somente no mosteiro, não. O mundo é vasto e grande, mas vocês também estão fazendo igual. Quando acordam de manhã, precisam ir trabalhar; as crianças têm a escola; se não acordarem na hora certa, as coisas não acontecem. Então, na verdade, somos obrigados a acordar, a ir trabalhar. Mas “o mundo é vasto e grande”. Nêste caso podemos perguntar: “Porque quando o despertador toca precisamos acordar?” Há tanta gente na cidade, principalmente, que tem preguiça de se levantar cedo. As fábricas lançaram um despertador especial que toca e depois de um intervalo de um minuto volta a tocar novamente. Mais cinco minutos, toca novamente e mais forte ainda; quando toca pela terceira vez , não tem jeito. Já calculamos que tocará tantas vezes. Por que é que não acordamos da primeira vez? As fábricas e escritórios têm dispositivos caros, os chamados relógios de ponto. Quando nos atrasamos meia hora, o horário aparece em letras vermelhas. Quando temos três atrasos, perdemos um dia. Por isto temos que acordar na hora e correr para chegar a tempo. Quando parar de bater o sino, vai ser bom. Mas,“por que tudo isto?”. O mundo é tão grande e nós estamos amarrados. Temos que acordar , temos que correr. Imagine, numa grande cidade tantas filas. Todo mundo correndo, correndo. Precisamos perguntar, para que? Porque precisamos ganhar a vida? Porque precisamos sustentar a família. Para que? E quando começamos a nos perguntar, não entendemos mais nada. O que você está fazendo nesta vida? Será que existe alguém que está fazendo aquilo que gosta, que ganha algo com isso? Eu quero fazer uma coisa, mas não tenho condições e por isto estou trabalhando em coisa diferente e assim não tenho tempo de fazer o que gostaria. Nêste caso, nós somos escravos do tempo. Durante 24 horas. Você mesmo não está usando o seu próprio tempo, o tempo é que nos está usando; nós não temos liberdade, porque temos que correr para bater o ponto, para receber dinheiro e tudo mais. Realmente, é triste! Mas quando perguntamos, por que tudo isso?… Chega um dia e a gente não pensa mais. Quando toca o sino, colocamos o manto, entramos em atividade total. Nêste caso, não se é mais escravo. Você mesmo é que é dono do tempo. Porque está usando o seu tempo e está fazendo aquilo que quer. Criando, criando, aí sim. Aquêle que trabalha no que não gosta, não vai fazer nada direito. Até pode fazer. Mas o trabalho e a vida ficam sendo duas coisas separadas. Mas se você é dono do tempo, está fazendo aquilo que gosta e o faz certo. Nêste caso, o mundo é vasto e grande porque quando soa o gongo precisamos colocar o manto de sete pedaços. No caso, a pessoa é um monge. Por outro lado, alguém que trabalha na cidade usa gravata, paletó, sapato e chapéu, e quando faz frio, um casaco quente, tanta coisa, tanta coisa… Para que?
O Comentário: “O praticante Zen não se apega aos sons e formas.” Isto dá para entender, porque sons e formas são os objetos do apêgo dos nossos cinco sentidos.
Quanto ao ponto de se fazer aquilo que se gosta, não necessariamente só os monges podem chegar a tal através da mente de Buddha e assim chegar à perfeição. Porque a mente de Buddha todos nós a temos, logo, nosso trabalho comum na cidade, de terno e gravata, também temos a mente de Buddha. Pensemos: o que é que estamos fazendo? Você ganha com isto? Não precisamos esperar. Você pode fazer aquilo que quer. Com isto você estará ajudando outras pessoas e estará recebendo o justo por seu serviço. Então, o mundo será realmente grande, será o mundo de Buddha. Aquilo que você fizer no trabalho será criação. Estará fazendo o trabalho de Budda. É isto.

Pergunta: Você falou de preocupação, não entendi porque.
Resposta: Esta preocupação é a de querer ajudar aos outros da melhor maneira possível, trabalhando da melhor maneira. Então, nos concentramos para tal. Esta preocupação não é uma preocupação tal como se vamos nos machucar ou não, ou se vamos estar ocupados amanhã e tal e tal, não. Não se trata deste tipo de coisa. É algo relativo ao que se está fazendo no momento. Com muito carinho. Claro, Maria Madalena está preparando chá e outras coisas para servir Jeus Cristo, com carinho, com respeito. O máximo de carinho e de respeito. Ela está preocupada. Não pode atrasar, não pode atrapalhar, é isto. Esta é a colocação. Misticismo na vida cotidiana. Trabalha-se desta maneira na cozinha, na faxina, em qualquer lugar, no serviço que se faz; foi isto o que Buddha fez.
Pergunta: Com você acha que se pode chegar a tal? Através do sacrifício?
Resposta: Não é sacrifício não. Como eu já disse, esta consciência tem que se transformar em sabedoria, é uma coisa que vem do fundo. O que você pensa, aquilo que você faz, êstes tipos de coisas é que temos que começar a transformar na nossa subconsciência. Quando a subconsciência está mudando, todas as consciências começam a mudar
Pergunta: Com podemos chegar lá?
Resposta: Primeiro, temos que escutar os ensinamentos e as disciplinas e depois temos que pensar sôbre estas coisas; depois, praticarmos êstes ensinamentos e provar em nós mesmos, para ver que valor tudo isto tem. Mas isto tudo depende da sexta consciência, apesar da sexta consciência depender da sétima e da oitava. A sétima consciência é a dia do egocentrismo. Então, tudo aquilo que você pensar, sem querer, é ego. A oitava consciência é o depósito de vidas passadas e além disto não há como ver as coisas, você só pode ver as coisas com tua experiência. Por isto, o mais importante é treinar e purificar a nossa sexta consciência. Criar coisas bonitas, escutar músicas bonitas, pensar coisas profundas. Assim nosso interior muda e aí modifica o mundo.