Morte

Pergunta: Durante o ensinamento, você falou do satori e da morte. Você disse que algo se passava no momento da morte. Que conhecimento você tem da morte? Como é que você sabe disto?

Resposta: Bem, a morte! Falar da morte física ou falar da morte espiritual é diferente. A escola Zen em geral menciona três coisas importantes:

1. A grande dúvida
2. A grande fé
3. A grande morte

A dúvida vem a propósito da vida e da morte. Quando nos encontramos com o ensinamento, o mestre, a religião, a filosofia e quando cremos nisso firmemente, a etapa seguinte é “morrer para si mesmo”, para esta religião, este mestre etc. Para poder entrar.

Às vezes vemos pessoas de idade que, segundo os médicos, vão morrer dentro de um mês, amanhã, e que apesar de tudo permanecem apegados ao dinheiro e a outras coisas. Mas no momento da morte, esta pessoa se mostra tal qual ela viveu sua vida cotidiana. Neste momento, apesar de todo seu dinheiro, ela não pode mais comer porque seu corpo não aceita mais nada. Às vezes, nem visitas, nem amigos, nem seus filhos e ela morre assim.

Hoje em dia, nos hospitais, se está conectado a tubos e fios por toda parte. É terrível. Mas, às vezes, pessoas simples, muito idosas, morrem cercadas de seus numerosos filhos e netos, todo mundo está sorridente e neste caso não são seus filhos que lhe prestam, mas são estas pessoas que os recebem, os consolam e eles morrem na alegria, dizendo “até logo”.

Na minha opinião, existem três coisas em nossa vida:

A primeira: uma parte de comida. Na nossa vida cada um de nós tem o direito a uma parte de comida. Não sabemos qual quantidade, mas uma parte de comida nos é devolvida nesta terra.

A segunda: uma parte de vida. No nosso nascimento, nossa vida já está contada, mas não sabemos disto.

A terceira: uma parte de felicidade. De felicidade na existência.

Se reunirmos estas três partes completamente, é uma vida maravilhosa.

Quanto a isso, há uma história engraçada. Uma pessoa morreu. Naturalmente, foi direto para o inferno. O Senhor dos Infernos começou a consultar o Livro, verificando a identidade dessa pessoa, os atos que ela cometeu, e não achando nada disse: – “Que faz você aqui? Não devia estar aqui”. Então, consultou novamente seu Livro e disse: “Ah, compreendo agora. É que acabou a parte da comida. Sua parte de comida se esgotou pelo desperdício, mas você ainda não terminou sua parte de existência”. A pessoa perguntou: – “Que farei então?” “Volte lá para baixo”. Finalmente lhe enviaram de volta para a terra. Ele saiu de seu caixão, renasceu e viveu de novo e se diz que dali para frente nada mais pode comer senão folhas de lótus. Esta história nos mostra a parte de comida, a parte de vida, e a parte de felicidade.

No Shobogenzo existe um capítulo intitulado “A vida e a morte”. É uma das partes mais importantes do treinamento Zen compreender o que vem a ser a vida e a morte. Nos dias de hoje, há uma forma de estudo que se chama a Tanatologia do Zen, o estudo da morte. Como se deve preparar para isso, como se ocupar de uma pessoa no estágio terminal, que se sabe não recuperará mais a saúde.

Eu que exerci a medicina tradicional chinesa, encontrei muitas pessoas que vinham me ver no estágio último de doenças tais como o câncer. A teoria se encontrava lá, mas a realidade não era fácil. Essas pessoas tinham chegado ao último momento, quando o médico lhes havia abandonado, com uma última esperança em algo de novo, a medicina chinesa, queriam um milagre, talvez porque eu fosse monge.

Um de meus discípulos que tinha câncer fez exames num centro de cancerologia no Japão. A construção era muito moderna, dispondo de excelentes equipamentos e uma tecnologia de ponta, uma escada rolante, tudo absolutamente perfeito. Mas a atmosfera, a energia neste lugar era tão pesada que os médicos, os pacientes, as famílias todos tinham o sentimento que amanhã ou depois de amanhã todos iam morrer. O discípulo, depois de ter recusado o tratamento de quimioterapia, voltou-se para a medicina chinesa comigo. Mais tarde ele foi a um estabelecimento de cancerologia holístico. Nesse centro, muitas das pessoas eram ex-pacientes de câncer que tinham sobrevivido, estavam felizes, sorridentes. A atmosfera era completamente diferente. Esse centro tinha sido fundado por uma comunidade cristã. Eles aplicavam medicina chinesa, taoísta, holística, budista e os princípios psicológicos também, mas sem utilizar seus nomes, eram católicos. E o que se produzia ali era exatamente shiryo, fushiryo, “pensar no não-pensamento”.

Sim, existia o câncer, mas não se lutava contra o câncer, não se tocava tal coisa. Então o que se passava?
Se você luta, perde a energia e certamente morrerá. Então aceite isto. As ilusões, os problemas, sim, isso existe, mas aceite-os. Em seguida, não se trata de lutar com isso, mas de brincar com isso. É como o zazen. Diz-se: “Hoje isso dói, dói mais do que ontem”.

Isso é brincar com a dor. Podemos fazer isso. Podemos ver que a dor existe, mas se você se brincar com esta dor, não há nada senão a dor e este universo se torna a dor. A dor existe, mas se nós a observarmos dizendo: “Oh! Está especialmente doloroso hoje”, isso quer dizer que a vemos a partir de um ponto, de um lugar onde não há mais dor e assim, se pode começar a brincar com ela.

O câncer é como o zazen, quando de repente você esquece tudo, quando você entra no samadhi, hishiryo. Então o câncer fica surpreso e se distancia dizendo: “Este não é um lugar para mim”. Nem sempre acontece assim.

É como a predisposição do bodhisattva em tomar a si o sofrimento dos outros. Se for algo dinâmico como dar a outra face após ter sido batido em uma das faces, o fato de tomar a iniciativa muda a relação com o sofrimento ou com a violência. Assim, dessa maneira se trabalha para os outros. Bem entendido, se fica exausto fisicamente, mas sente-se muito feliz. E quando vem o momento de morrer, se diz: “Finalmente vou descansar um pouco”.

Quando morre um monge não se diz que ele morreu. Diz-se senge. Senge quer dizer mudar de lugar para continuar o ensinamento. Os mestres mudam de lugar para continuar a ensinar. Mas vocês mesmos são os mestres se continuarem a praticar.