Montanhas e Águas

Sansuikyo, O Sutra das montanhas e águas.

Primeiro, vou ler o texto, em seguida uma outra pessoa pode prosseguir:  “As montanhas e rios que existem no presente realizam o Caminho dos Budas velhos.  Tanto montanhas quanto rios mantém suas formas verdadeiras e realizam suas virtudes.”
Aqueles que estiverem realizando seus primeiros sesshins, talvez achem esses textos  deveras fora do comum.  Talvez mesmo seja o caso que não estejam entendendo absolutamente nada  do que está sendo comentado, mas o  fato é que isto sempre acontece assim mesmo. Vamos pois ler mais devagar e vamos começar a penetrar nisto. O sutra das montanhas.  Mas não existe um sutra que se chame “montanhas e águas.” Neste capítulo do Shobogenzo, Mestre Dogen colocou o nome de sutra e está falando aqui sobre o mundo do Dharma, através da montanhas e águas. Então, neste Shobogenzo, Mestre Dogen está sempre abordando uma só coisa.  Isto é algo que temos que prestar atenção desde o começo de nosso estudo.  Se não tudo fica perdido. Por isto novatos neste Caminho não podem ficar correndo atrás de palavras.  Primeiramente tem que perceber aquilo que ele está discutindo, para ter aquela visão ampla e pegar o sentido, aí acompanhando com as palavras, talvez possamos chegar a uma compreensão mais justa. Se simplesmente estivermos lendo, não vamos com isto entender nada.  Então aqui está dizendo, o mundo de Buda de águas e das montanhas.
Em todo caso, para nós praticantes Zen, este contato com a natureza é muito importante.  Hoje de manhã mesmo nós tivemos, durante o sesshin, trabalhos manuais, e isto exatamente é aquele contato com a terra e com a natureza, direto. Essa é uma das características típicas do treinamento Zen.  Na Índia os monges ou praticantes não trabalhavam, os monges viviam somente de mendigar, e esta parte toda eles dedicavam ao treinamento espiritual. Então um dia o Buda Gautama estava fazendo mendigação, e aí os lavradores estavam trabalhando com a terra, suando, não é fácil, e neste momento, quando os trabalhadores viram o Buda, comentaram entre si:  “Eis que estamos aqui trabalhando duro e você não trabalha nada, somente está pedindo mendigação.” Reclamavam deste jeito.  Aí o Buda replicou:  “Não, eu também trabalho, eu cultivo a mente das pessoas e planto ali a felicidade, nessa terra.”  Nesse caso, a terra para ele é a mente, e ali ele planta a felicidade, justamente o trabalho dos monges religiosos e sacerdotes, nada mais é que isto.  Mas quando o Budismo entrou na China, ali passou por uma época muito difícil, com revoluções, guerras, principalmente quando os imperadores criam em outras religiões, como os Taoístas, principalmente.  Então, com a influência dos monges Taoístas, alguns imperadores começaram a atacar os Budistas.  Matando os monges, queimando os templos, sutras, livros sagrados e proibindo definitivamente o Budismo. Então, o que fizeram os Budistas?  Alguns se tornaram leigos, deixando o cabelo crescer, e trabalhavam com alguma outra profissão.  Outros se escondiam, e alguns fugiam para o fundo das montanhas.  Sem templo, sem imagem de Buda e sem Sutras.  Simplesmente precisavam transmitir esse Dharma de corpo para corpo, coração para coração, boca para boca.  E foi assim que surgiu o Zen Budismo. Justamente através de palavras comuns, um cumprimento, como se fosse na vida quotidiana.  Assim é que se transmite este Dharma.  “Como vai?”  Isto já é um tratamento da doutrina.  “De onde você vem?” Então ele está já perguntando, “Para onde é que você vai depois da morte, de onde você veio antes de nascer?” Assim, isto é um cumprimento bem natural, mas está colocado aqui todas aquelas doutrinas profundas.  E é desta forma que se transmite.  Antigamente os templos e os mosteiros eram construídos perto da cidade, mas não dentro da cidade, um pouquinho fora da cidade, para que todos pudessem passar por ali facilmente, mas também não em bairros muito populosos, então eles procuravam construir um pouco fora da cidade, nem longe e nem perto.  Estas eram as condições de construir os templos na época da Índia, mas como eu disse agora, quando o Budismo passou para a China, quando os imperadores defendiam ou ajudavam o Budismo, tudo bem, mas às vezes ocorriam problemas e então eles começavam a ficar longe das cidades.  E com isto eles conseguiam transmitir aquele Budismo puro.  Minha única preocupação quanto a este trabalho que desenvolvo com o Zen, aqui no Brasil, é a de manter o Budismo transmissão correta, puro e uno. Então, Mestre Dogen entrou na China, e ali aprendeu com seu mestre e ao se despedir, no momento de volta para o Japão, seu mestre, Nyojo, lhe disse:  “Você, quando voltar ao Japão, não habite próximo às cidades.  Fique sempre nas montanhas.  E não se preocupe em desenvolver ou em divulgar esta doutrina para muitas pessoas.  Apenas trate de um ou dois, que sejam verdadeiros. Desta forma talvez que esta linha de transmissão não termine com você!”  Esta foi a testemunha de seu mestre, Nyojo Tendo, para Dogen, Dogen Zenji, fundador de nossa escola Zen.  Ele retornou, e durante algum tempo ficou no mosteiro Rinzai, primeiro num mosteiro Zen, em Kenin-ji, em Kyoto, e ali ele praticou antes de prosseguir para a China, tendo ali treinado durante 9 anos, com o Mestre Eisai, e depois com seu discípulo, Myozen, e somente em seguida a isto foi para a China. Depois, ao retornar, quedou-se em Kyoto, e em seguida fundou o primeiro mosteiro Soto próximo a Kyoto, e aí chegaram muitas pessoas.  Com a quantidade de pessoas, foi necessário construir uma outra sala de meditação.  Além da primeira, já mencionada, foi necessária uma segunda.  Mas não sei porque, de repente ele deixou este mosteiro, e entrou em Eihei-ji, que até hoje é a matriz de nossa escola, e mesmo hoje em dia fica situada muito longe da cidade, no fundo da montanha.  Mesmo tomando um ônibus é muito longe. Imagine então há 600 ou 700 anos atrás . E tudo a pé. Este é um mistério, o que ele procurou num local tão afastado assim.  Ali cai muita neve no inverno.  Justamente a razão para esta mudança era para que conseguisse manter este Budismo transmissão correta, puramente.  Dentro da doutrina Zen sempre tem este detalhe. Com o treinamento, meditação, doutrina profunda, então naturalmente tem aquela força, e todo mundo começa a respeitar, os imperadores e os poderosos, governadores, milionários, nobres, etc.etc.  E com isto naturalmente a pessoa começa a ficar orgulhosa e pode então começar a decadência.  Isto sempre aconteceu na história, como o Grande Império Romano, que caiu, não foram os inimigos externos que o destruíram, a decadência se deveu aos inimigos de dentro.  Quando cresce, cresce, cresce, aí começa em seguida a cair.  Essa é uma lei da natureza.  A criança nasce, cresce, cresce, casa, tem filhos e depois fica velho.  Então, para manter, e para que não caia, este contato com a terra e com a meditação é absolutamente fundamental.  Senão, começa a estudar, adquirir inteligência, fala maravilhosamente, eloquentemente, como uma cascata caindo.  Mas isto não vai resolver.  Quando começar a cair, ninguém segura.  Por isto, o praticante Zen sempre procura o contato com a meditação, não somente teoria, prática é mais importante, e ao mesmo tempo, com prática ligada com o contato com a terra.
Na escola Rinzai, por exemplo, dizem que o estilo deles é como imperador, comandante, general, se aproximam mais dos imperadores, dos nobres, dos governadores, milionários, porque um governador, um militar e um nobre, estes todos têm grande influência em seus países. Então se ele conseguir mudar ou orientar figuras importantes, o trabalho dele é muito importante.  A principal preocupação da seita Rinzai nada mais é que isto.  Por isto quase todos os templos importantes da seita Rinzai estão localizados nas antigas capitais, como Kyoto.  Os imperadores são seus patronos, os grandes patronos do Budismo para eles. O templo é construído por eles, é maravilhoso, bonito, e às vezes o palácio do imperador, de verão ou de inverno, se transforma em um mosteiro, como Myoshin, Nansen, são maravilhosos e bonitos.
Mas, em compensação, a escola Soto procura sempre o interior, o mato, a montanha, com uns pequenos templos, não pode manter sua vida com isto.  Talvez que se possa tomar chá, mas arroz não.  Viviam apenas com mendigação, e trabalhavam com a terra, plantando, e com isto se mantinham.  Mesmo dentro da escola Rinzai, depois de um certo treinamento, os mestres procuravam se esconder dentro das montanhas, como gaúchos, tratando de vacas, ou como mendigos, mergulhando dentro das favelas, e trabalhando, depois da iluminação, para cultivar seus corpos sagrados. Um dia um mestre estava caminhando para o palácio, a convite do imperador, para dar um sermão ao imperador. E quando ele passou pela frente de um outro pequeno templo, outros mestres, seus amigos e colegas estavam trabalhando, com a enxada, suando e cheios de lama, com a cara suja.  Então o mestre disse:  “Pare um pouco,” e comentou com seu discípulo:  “Veja bem estes monges, que estão a trabalhar, todos imundos, mas futuramente eles derrubarão nossa escola.” Ele era o contrário disso, todo limpinho,  convidado pelo imperador, com aquele manto dourado, ou roxo, uma carruagem toda decorada. Ele estava no máximo, mas sabia que após uma ou duas gerações de linhagem, ele cairia fatalmente, e aqueles que estavam a trabalhar com a terra iriam levantar.  E realmente foi isso que aconteceu, como mais tarde se verificou. Esse monge tem força, porque foi treinado com aquele método de montanha e tudo mais. Aí, com sua inteligência, com sabedoria, ele galgou posições até o máximo possível, professor do imperador, com o manto dourado e tudo mais, mas seus discípulos não tinham aquela experiência suficiente, e estavam simplesmente imitando, vestindo um manto bonito, convidados pelo imperador e pelos nobres, ficando facilmente orgulhosos, mesmo que esteja segurando o resto todo, mas mesmo sem querer isto é um coisa que aparece. Eles tratavam de poesia, de literatura, cultura, jardinagem, construção, tudo, são mestres da cultura daquele época.  Mas como ele mesmo comentou, tudo tinha começado a cair naquele momento.  Na segunda geração, eles ainda conheciam a vida de seu mestre, seus treinamentos, mas a terceira geração, ou seja, os netos, já não mais sabiam de nada disso.  Sem querer se acostumaram com aquela vida burguesa.  O ensinamento dessa escola de lavradores, levantou, levantou e derrubou a outra, a dos ricaços.
O que está dominando no Japão, Rinzai, é isto, mas Mestre Dogen nem aparece na história a pessoa dele.  Eis que ele entrou na montanha, tendo ficado totalmente oculto.  Por isto, dentro da história Japonesa, o nome de Mestre Dogen sequer aparece. Outros mestres sim, aparecem.  Ele disse, “Esperemos a hora exata.” Aí se retirou da capital e entrou no interior.  “Vamos esperar o tempo adequado chegar.” Eu acho que agora o tempo finalmente está chegando. Depois de 750 anos. O livro Shobogenzo, está chamando a atenção mundialmente, não somente no Japão. Ele tratou de apenas um discípulo, transmitiu seu Dharma a somente um discípulo.  Este um tratou de outros, que depois trataram de outros, e após a terceira geração, que foi mestre Keisan Jokin, o Budismo se espalhou por toda parte do Japão.
Porque são monges sem nome.
Que começaram a viajar e a peregrinar por todo canto do Japão.  Naquela época o Japão estava entrando numa época de guerra, política e economicamente estava numa fase terrível, talvez como esta fase que ora atravessa o Brasil.  Mas não se preocupem.
Os monges viajavam. Os templos não tinham mais monges, porque não mais tinham condições de manter o templo, com a pobreza e tudo mais, guerras, calamidades. Mas o povo queria um monge, e quando chegava um monge viajante, perguntavam, “Não podes ficar aqui?”  “Posso, mas sou de outra linha de Budismo, aqui é um templo Shingon, não sei se posso ficar.” “Não tem importância, pode ficar. É um monge Budista, então está tudo bem.” Aí ficou e começou a trabalhar.  Começou a ensinar os lavradores.  Foi assim que a escola Zen se espalhou. A escola Rinzai hoje em dia tem 3.000 templos no Japão.  Mas nossa escola tem 16.000 templos.  O número cresceu embora sejam pequenos os templos.  E cada monge fica cuidando deste pequeno templo, sofrendo, mas mantendo, até hoje.  Rinzai, tem 3.000 templos de luxo, maravilhosos, tudo fácil.  Se dedicam exclusivamente para o estudo, mesmo assim, eles também têm o Samu, ou seja, o trabalho manual e limpezas.  Então para manter este Zen puro e uno, sempre procuramos entrar nas montanhas, como o  mosteiro de Ibiraçu, agora estamos em outro lugar, em Camacã, bem afastado, mas quando os monges jovens principalmente treinam, deixando a vida da cidade, e começam a treinar ali, realmente, espiritualmente e fisicamente ficam fortes, e depois descem para a cidade para ensinar.  Mas aqui tem um detalhe.  O pequeno sábio se esconde dentro da montanha, enquanto que o grande sábio se esconde na cidade. Em todo caso, sejam grandes ou pequenos, são todos sábios. Muitas pessoas estão querendo entrar na floresta, no mato e se afastar da cidade, da poluição e tudo mais, mas isto se chama pequeno, porque somente ele vai se sentir bem.  Depois do treinamento da montanha, ele começa a descer novamente para a cidade, dentro desta poluição e da bagunça, muito ódio, muitos problemas e enfrenta todas estas coisas. Escondido.  Essa é uma das características de nossa escola.  Sobre as montanhas, existem muitas histórias:
“Apesar das montanhas parecem pertencer ao país, pertencem verdadeiramente àqueles que as amam.  Quando o Senhor da Montanha é amado, homens e mulheres virtuosos vivem ali. Quando santos e sábios vivem na montanha, árvores e pedras se fortalecem e pássaros florescem.  As virtudes dos santos e dos sábios influencia tudo na montanha.  Devemos saber que a natureza da montanha é como aquela dos sábios e dos santos.  Existem muitos casos de imperadores que visitaram a montanha para se curvarem ante os sábios e procurarem o conselho de santos.  Nessas ocasiões, respeitavam esses sábios como seus mestres e faziam prostrações ante eles.  Aqui na montanha, costumes sociais não são obrigatórios.  Não importa quão grande seja a virtude ou poder do imperador. Isso não afeta os sábios.  De certa feita, o Imperador Ko da China, visitou o eremita Josei, do monte Kodo e se lhe aproximou de joelhos, curvando sua cabeça até o chão para demonstrar sua humildade. Shakyamuni abandonou o palácio de seu pai e entrou nas montanhas.  O rei não lhe quis mal devido a isso.  Não ficou ressentido coma as ações de seu filho, nem questionou a sinceridade daqueles que ensinavam o príncipe nas montanhas. Seus doze anos de prática incessante tomaram lugar quase que completamente e nas montanhas e sua iluminação se deu nas montanhas.  Verdadeiros reis nunca tentam controlar ou destruir as montanhas. Devemos saber que as montanhas não pertencem nem ao mundo dos seres humanos nem àquele dos deuses, não devemos nos aproximar disso usando nossas limitadas capacidades humanas.  Se o fizermos, como seremos capazes de sondar o ir e o vir da montanha?  Desde os tempos antigos, sábios e santos têm também vivido na água.  Quando vivem na água, alguns pegam peixes, alguns pegam discípulos e outros ainda pegam o caminho.  Esta é a antiga tradição da água. Além disso, devemos pegar a nós mesmos, pegar o pegar, pegando o pegar é feito através do Caminho. Há muito tempo atrás, o Monge Tokudo deixou repentinamente seu mestre Tokusan e foi viver num barco no rio Lotei. Logo um sábio, Kassan, que lá vivia. se tornou seu discípulo.  Este é um exemplo de pegar peixes, pegar discípulos, pegar a água, e pegar a si mesmo.  Kassan viu Tokujo em si mesmo.  Tokujo podia ver a si mesmo porque havia se encontrado consigo mesmo.  Não existe apenas água no mundo.  Existe um mundo de água no mundo mesmo.”
Assim desde aquele época na China, inclusive na Índia também, os sábios moravam na montanha.  Os primeiros fundadores, entraram na montanha para ali levantar um mosteiro e um templo.  Os fundadores se chamam em Japonês Kassa, que quer dizer literalmente, abrir a montanha.  Realmente, aqui no Brasil, os fundadores entraram na montanha com foice e com enxada e estamos neste momento levantando um mosteiro e um templo.  É nosso trabalho de monges aqui em Ouro Preto.  No Japão, quando um monge ocupa um templo, não existe mais este “abrir a montanha”, porque o templo já está todo pronto, bonitinho.  Aí ele veste o manto vermelho, e os outros colocam sobre ele um pára-sol enorme e avermelhado e muito comprido, como um imperador.  Mas nosso trabalho não é nada disso.  Aqui estamos todos rasgados, com roupas velhas e puídas.
Nestes montanhas, os sábios viviam sem nada também, e os animais lhes traziam comida.  Sementes de pinheiro ou bananas, etc.  Com isso, eles mantinham suas vidas e depois de 15 anos, já erigiam um grande mosteiro.  Mil e quinhentos monges moravam lá juntos, mas no primeiro, segundo e terceiro anos não tinham nada. Quando entramos no mosteiro de Ibiraçu não havia comida alguma.  Todos os dias comíamos banana, banana com germe de trigo, com leite, dia e noite, era banana.  E assim começamos a plantar aos poucos.  Hoje em dia aqui ainda é difícil.  Todos os mosteiros começaram com dificuldades assim.  Na época de Yakusan, o imperador era contra Budistas, então Yakusan entrou na montanha ali onde ninguém mais podia alcançar, imaginem, não tinha nada e tratou seu discípulo, Ungan, que está na nossa linhagem, depois do Sexto Patriarca Hui-neng, Sekito Kissen, Yakusan Igen, Seigen Gyoshi.  Depois vem Ungan Donjo, Tozan Ryokai.  Esta é nossa linha. E todas as vidas deles são para nós um grande motivo de orgulho.  Então, Yakusan, morava com seu discípulo, Ungan Donjo e Ungan Donjo tinha três colegas que tinham aprendido com mestre Yakusan, mas não podiam, depois de ter sido transmitido o Dharma, ficar juntos no mesmo lugar, porque isto era muito perigoso, devido à perseguição do Imperador.  Se os governadores os achassem, podiam matá-los a todos conjuntamente, então se separaram para que o Dharma não terminasse desse jeito.  Porque mesmo que um deles morresse, o outro podia continuar com esse compromisso, fugindo para mais longe.  Aí apareceu Tokujo.  Ele se tornou barqueiro, passando as pessoas de um lado para o outro do rio.  E ninguém sabia que ele era monge, com o Dharma plenamente transmitido. Estava escondido. Ungan Donjo ficou com o mestre Yakusan e transmitiu o Dharma de nossa linha, e o outro foi Kassan Dogo.  Esse Dogo sempre viajava, por toda parte da China, e fazia contato entre outros mestres, para não acabarem informando onde estavam localizados os mestres. Realmente, eles estavam sofrendo muito naquela época.  E combinavam:  “Se aparecer algum discípulo bom, mande-o para mim, para que eu possa transmitir meu Dharma para ele.” Combinavam assim.  Às vezes um mestre combina com seu discípulo muito bem.  Mas outras vezes não combinam.  Neste caso pode mandar esse discípulo para um outro mestre e com isto se abre uma flor. Hoje em dia os mestres estão apegados com seus discípulos, e aí quando o discípulo passa para outro mestre, o primeiro fica zangado: “Ah, não dá, eu vou começar a falar mal dele, ele é assim e assado!” e ficam contando muita coisa.  Mas se ele notar a capacidade e características de seu discípulo, e se de fato essas não combinarem consigo, então podem mandar para um outro.  Era assim.  E às vezes os mestres eram muito fortes.  Com isto poderiam combinar com um discípulo bem fino.  Quando o mestre é  muito fino, refinado, então aparece um discípulo assim, com uma cara horrível.  Às vezes o mestre é inteligente e o discípulo é cabeça dura e teimoso.  Tem esta combinação. Eu sou muito fraco, mas para mim apareceram discípulos que são  muito fortes. Graças a Deus! E logo Dogo mandou seu  discípulo Kassan para Tokujo.  Se encontraram e o mestre perguntou, “De onde você vem?” Ao que Kassan replicou:  “Venho de Dogo.” “E o que Dogo tinha a dizer?” Então Kassan explicou a doutrina de Dogo.  “Eu não estou perguntando isto,” e lhe aplicou uma surra, ele que era o barqueiro deixou Kassan cair na água. Aí Kassan queria subir para o barco, e novamente ele o virou na água.  Quando subia para o barco, ele dizia:  “Fala, fala, fala!!!” Ele queria começar a falar, mas quando abria a boca, aí novamente Tokujo lhe empurrava água adentro.  Paaaa.  Quando levantava, ele dizia:  “Fala, fala!” Aí não tinha mais nada para falar.  Aí o discípulo entendeu, levantou e imediatamente se iluminou com isto.  Quando estamos falando, discorrendo sobre nossos conhecimentos e explicando tudo, não é nada disto.  Quando isso tudo termina, quando limpamos todos os conhecimentos, com esta violência, o discípulo entende.  E Tokujo disse:  “Aqui não podemos ficar os dois, a menos que nos descubram.  Você vai embora, não pode ficar aqui.” E assim, Kassan ficou com Tokujo somente um dia.  E o discípulo foi embora.  Naquele momento teve aquela saudade e virou a cabeça para se despedir mais uma vez.  O mestre disse, “Vai embora, vai embora!” Ele virava a cabeça, e com isto o mestre virou o barco para o fundo e disse, “Você crê que eu ainda tenha algo de escondido para você?  Eu já transmiti tudo.  Vai embora.” Virou o barco e morreu desta forma. Neste caso, Kassan chegou para Tokujo e se encontrou consigo mesmo, através de Kassan.  Tokujo ganhou um discípulo e conseguiu transmitir o Dharma, e com isto Tokujo encontrou com Tokujo.  Kassan encontrou com Kassan e encontrou com Tokujo. Tokujo encontrou consigo mesmo através de Kassan.  E foi este Dharma, que chegou até mim, isto já fazem 85 gerações.  Cada mestre para que não terminasse essa linha sofreu muito. Antigamente já era assim, não era fácil.  Quando um mestre mora na montanha, esta montanha começa a ficar luminosa.  Luz não, não é nada disto.  “Aah, nessa montanha mora fulano, parece que ele é muito bom, então vamos visitá-lo.” Até os bichos que moram nessa montanha, começam a mudar, até as árvores mesmas começam a mudar.  Agora eu estou morando no Alto de Santa Tereza, lá tem fama, e com isto muita gente se afastou, agora eu estou convidado e estou morando lá.  Eu não sou ninguém, mas pelo menos com isto acaba aquela péssima fama do lugar.  Drogas, muito sexo e ambição.  Muita busca de  poderes, etc.  Mas quando a pessoa que ali mora é realmente boa, o nome da montanha já começa a mudar. Ibiraçu, Camacã, Olhos d’água, Santa Teresa.
Vamos em frente:  “As montanhas verdes estão sempre se movendo, e uma mulher de pedra concebe de noite.” Isto é o koan de Ryodokai.  O koan sempre nos assusta, parece que está mostrando uma máscara.  “As montanhas verdes estão sempre se movendo e uma mulher de pedra concebe de noite.” Vamos agora aprender o Budismo das montanhas e das águas.  Existem pessoas que crêem que as montanhas verdes são uma coisa para sempre fixa, algo que não se move jamais.  E também crêem que a água está sempre fluindo pelo vale.  Mas aqui diz que as montanhas verdes estão sempre se movendo.  O que é isto?  Assusta. É que estas montanhas e águas às quais ele se refere não são aquelas que estamos acostumados a nos referir. Aqui mestre Dogen está falando do mundo do Dharma, do mundo de Buda.  Quer dizer, do universo inteiro.  Uma montanha é o universo inteiro.  A água é o universo inteiro.  Quando fala “eu”, este “eu” é o universo inteiro.  O universo inteiro está para sempre se movendo.  “E uma mulher de pedra concebe de noite.”  Uma mulher de pedra, uma mulher que não tem capacidade de conceber.  Pode ser uma mulher de pedra, e pode ser uma pedra também.  A pedra é uma coisa dura, fixa, mas concebe de noite.  A montanha é sempre fixa.  Agora vai chegar um filme Japonês, que se chama “A sombra do Samurai.”  Neste filme eles mostram o vento, a floresta, o fogo, e a montanha, numa bandeira.  E eles explicam o que é a montanha, “A montanha não se move.”  E também o exército tem que ser como o vento para invadir o inimigo. Como o fogo.  E como a tranquilidade da floresta.  Não se mexe, como uma montanha.  Quando o general começa a se mexer, ele está perdido. E a água está sempre correndo, correndo, dia e noite.  Mas o Rio Amazonas sempre é o Rio Amazonas, mesmo assim o Rio Amazonas de hoje e de amanhã, já são diferentes. A cada momento, a cada momento ele está se movendo e está mudando. Depois da chuva a água sobe.  Não é o mesmo rio.  Quando está na época da seca, a água diminui.  Mas o rio Amazonas é o Amazonas para sempre.  Eu sou Tokuda.  Mas o Tokuda de ontem não é o mesmo de hoje, amanhã não será o mesmo Tokuda.  Todos os dias, e a cada momento está mudando.  Depois do sesshin você já é uma outra pessoa, com esta experiência.  Mas é a mesma pessoa. E também não é a mesma pessoa.  Isto quer dizer que a virtude deste mundo do Dharma está além da dualidade. Um sempre fixo, eterno, outro sempre mudando.  Mas nós não somos fixos, nem moventes, sempre existem dois lados.  Mas aqueles que crêem que a montanha verde não se mexe, dizem sempre, “Eu sou Tokuda para sempre.”  E ficam apegados com este corpo.  Mas quando chega na hora da morte, se assustam.  Por que este corpo não é eterno.  O fundamental no Budismo, as três características do Budismo são, em primeiro lugar, a impermanência, a não-satisfatoreidade, e não-individualidade.  Mas todos crêem que este corpo para sempre durará.  Mesmo sabendo que um dia hão de morrer, mas ninguém pensa no amanhã ou no depois de amanhã. Por que isto?  Este mundo do Dharma é eterno. E sempre ao mesmo tempo está criando e criando as coisas.  Nem isto e nem aquilo.  Mas quando a pessoa se apega a um lado somente, aí é que fica errado.  As montanhas são sempre fixas, o meu corpo existe para sempre. Por isto, a impermanência ou a não-individualidade.  Por que eu existo hoje?  E aqui?  Estou aqui por causa de todos os karmas do passado, através das 3 atividades, com o corpo, palavra e mente ou pensamento.  Aquilo que pensamos, o que falamos, o que fizemos, isto tudo fica na consciência ou na inconsciência, e este corpo que agora aqui está, é apenas um efeito de todas essas coisas.  Este corpo aqui, condicionado neste momento, e amanhã no futuro e estamos vendo nossos pensamentos de acordo com nossas experiências.  Tudo que fizemos ficou na inconsciência.  Tudo isto está guardado no depósito, que se chama Alaya-Vijnana, consciência de Alaya.  Alaya quer dizer depósito, como em hima-alaya, hima quer dizer neve, ou seja, o Himalaya é um depósito de neve.  Tudo que foi criado como Karma, em corpo, mente ou palavras, tudo isto está guardado no Alaya, na consciência de Alaya. Ela é como a inconsciência, não aparece, mas está guardado ali como uma semente.  Cada semente tem possibilidade de brotar e dar uma outra cheia de cachos, com mais sementes, como um cacho de sementes de arroz.  Em um só grão de arroz existem todas estas possibilidades. Desta forma, um só grão contêm todo aquele passado que está dentro, e de acordo com as condições de água e de sol, ou adubo, etc., começa então a brotar.  Todas aquelas experiências estão guardadas dentro desta consciência, e quando existem condições, começam a aparecer.  Uma pessoa fina, pode ser uma imperatriz, mas o imperador arrumou uma amante.  A história do Brasil começou assim. Don Pedro arrumou uma amante, aí a imperatriz, que geralmente é muito refinada, é o máximo, mas imediatamente vem aquele ciúme, sofrido.  Então assustamos com isto.  Será que eu tinha este sentimento dentro de mim?  Todo mundo tem isto. Não apareceu ainda porque simplesmente ainda não existiram condições para tal.  Mas se acontece algo, estas coisas podem aparecer.  Estão guardadas desde aquele passado que não tem começo.  Não somente minha experiência particular, mas a experiência do pai e da mãe, o pai do pai e da mãe, e assim anos e anos, chamamos a isto de kalpa.  Milhões de anos de todos os karmas, este karma não é somente pessoal, mas o ambiente, ou então o país, e tudo tem karma, isto está incluído dentro de um grão, dentro de uma semente.  Não somente o presente, o aqui e agora, está condicionado com estas experiências.  Por que a pessoa vê simplesmente de acordo com esta experiência.
Mais tarde vai aparecer a água.  A água para os demônios famintos é sangue, pus, fezes, para nós seres humanos a água é limpa e pura para tomar. Para os seres divinos a água é um espelho, uma jóia, para os peixes a água é um palácio ou a casa. De acordo com nossas experiências, com nossos estados, vemos, mas não significa que todos estamos vendo a mesma coisa.  Estamos, isto sim, vendo nossas próprias consciências.  Não podemos ver além disto. Desta forma todo mundo fica apegado com sua existência.  “Eu”:  meu pensamento, meu corpo, eu gosto de mim.  Minha, eu, meu. Estas coisas não existem, por que são impermanentes. Mas os cinco sentidos, depois a sexta consciência, e mais tarde a sétima consciência.  A sétima consciência é esta consciência do ego.  Então quando estes seis sentidos começam a se ligar com a sétima consciência, a pessoa vê com seu próprio eu.  Mesmo coisas boas e coisas ruins estão guardadas naquele depósito. Coisas boas e coisas ruins.  Mas quando começamos a nos ligar com sétima consciência, ou a ideia de ego, as coisas boas viram imediatamente coisas falsas, ou ilusões.  A pessoa está fazendo uma coisa boa.  “Eu fiz uma coisa boa, está vendo?”  Fica então com aquele orgulho.  Imediatamente esta atitude já não é mais pura, perfeita, já está contaminada imediatamente.  A pessoa não come carne, muito bem, mas com isto não pode atacar as outras pessoas, porque aí machuca.  Muita gente é assim.  E ele está certo.  Mas se ficar apegado com isto, uma coisa boa, já imediatamente é um erro.  Esta dualidade, certo e errado, ainda não é a verdadeira iluminação.  Ainda está condicionado com a sétima, que é a consciência de ego,  e a oitava consciência, que é a consciência de Alaya.  A Alaya não é boa e nem má.  O que precisa ser feito é guardar todas as coisas boas, desde aquele passado, que estamos guardando, não sei como, coisas muito ruins também, boas e ruins, estamos guardando tudo.  Por isto precisamos praticar, treinar.  Precisamos em primeiro lugar ouvir esta doutrina.  Pode ser Budismo, ou outras religiões.  Aquilo que foi ouvido, se guarda. Em seguida começamos a considerar aquilo.  Isto também é uma experiência, um karma e fica guardado dentro. Depois começamos a praticar, principalmente a meditação. A única coisa com a qual podemos limpar estes karmas, talvez seja a meditação.  Com a meditação, penetramos até a oitava consciência.  Diretamente.  Até o fundo da consciência.  É a única coisa que pode atingir este fundo da consciência.  Aí, tchaaa.  Começamos a semear estas coisas boas, estas doutrinas, e estas coisas começam a comer as coisas ruins, como os glóbulos brancos, começando a combater.  Às vezes surge aquela raiva.  E com isto seguramos este sentimento.  Não podemos ficar zangados, porque já está semeado.  Depois começa a surgir.  Antigamente, prontamente nos encolerizávamos, e depois vinha aquele arrependimento.  Mas com o tempo, isto vem novamente, mas nesta altura já se o pode dominar.  Depois, nunca mais vem.  Porque este sentimento já morreu.  Aí fica limpo.  Mas esta ideia de ego, que chamamos de Manas-Vijnana, é muito forte.  Muito forte.  Orgulhoso.  Existem sete tipos de orgulho. O primeiro tipo é quando se pensa, “Ah, ele é inferior, pior do que mim,” ou então, “Ele é igual a mim,” este é o primeiro tipo de orgulho.  E quando se pensa, “Ah, ele é pior que mim,” já está se fazendo aquela separação, e isto já é um orgulho.  E pode pensar também, “Ele é melhor, mas acho que sou igual a ele.” Ele é melhor, em resumo, existem várias classificações, ele é muito melhor, mas ele diz, “Ah, ele é um pouquinho melhor.” Não quer aceitar.  Está sempre fazendo comparações. Isto é o ego.  Depois outro tipo de orgulho é que ainda não realizou as virtudes ou sabedoria, mas acha que já está completo. Aí com isto fica orgulhoso.  Desta forma, existem vários tipos de orgulho e isto é tão forte, tão forte.  Por que isto?  Porque ele acha que existe uma coisa fixa com um “eu”.  Mas tudo é impermanente, nada existe, não existe uma individualidade.
Desta maneira, existem muitas pessoas com as mais variadas ideias possíveis do que vem a ser o Zen finalmente.  Alguns crêem que se deve chutar o gravador com o pé, e isto é o Zen!  Mas, claro, não é nada disto.  Quando Mestre Dogen fala em montanhas e águas, ele está falando do universo inteiro.  E com isto vamos sempre caminhando, caminhando.  A cada momento, cada momento, pensamos uma coisa, e será que mantemos sempre este mesmo pensamento?  O que pensamos ontem, será que estamos pensando o mesmo hoje também?  Não, hoje já estamos pensando em outra coisa.  E amanhã, será que estaremos pensando o mesmo de ontem e de hoje?  Não, amanhã já estaremos pensando em outra coisa.  “Não, eu penso sempre a mesma coisa.”  Ah, é?  Antes de casar, “Ah, eu te amo, você é única, ‘you are my sunshine, my only sunshine’.”  Por que então existem tantas separações?  Por que mudou?  Muda sempre.  Hoje está forte, muito bem.  Aí temos aquele orgulho, mas se nada comermos durante uma semana inteira, estaremos ainda fortes?  Teremos forças suficientes para tudo enfrentar?  Não, neste caso o melhor que teremos a fazer é nos deitar. Tudo depende das condições.  Não existimos, nosso pensamento não existe, todo sentimento e vontade dependem das condições, e das causas e efeitos. Mas todos ficamos apegados como se algo existisse de fixo.  Portanto, entender o que Mestre Dogen quer colocar, ao falar sobre esse assunto, montanhas e águas, nada tem a ver com o Zen ser incompreensível, que é o que muita gente acha do Zen:  dizem estes: “O Zen está além da compreensão racional!”  Mas como vimos até agora, nestes koans que Mestre Dogen estuda, nada existe que seja incompreensível.  Portanto, aprender o Zen não é achar que o Zen seja incompreensível.  “A montanha do leste anda por sobre as águas.” Montanha do leste é o universo inteiro. Somos nós mesmos que estamos a caminhar sobre as águas.  Quando dizemos montanhas, pensamos em algo que seja fixo. E quando pensamos na água, pensamos naquilo que constantemente flui.  As montanhas não fluem.  Mas aqui ele está dizendo que as montanhas andam, enquanto que a água não flui. Tem estes dois lados.  A água está sempre correndo, correndo, sem parar, não é a mesma água.  Mas como eu disse ontem, o Rio Amazonas é sempre o Rio Amazonas. Tokuda é sempre Tokuda.  Mas a cada momento tudo isto está mudando.  Nascendo e morrendo.
Vamos ler o texto:  “A montanha do Leste anda por sobre as águas.”  E a história da foice de Nansen: Nansen estava um dia trabalhando, assim como trabalhamos nós aqui, com a foice, tchaa, tchaa, tchaa.  Aí chegou um monge visitante no mosteiro do monte Nansen, e perguntou assim, “Onde está o Caminho para o Monte Nansen?” Então Nansen, que estava todo sujo de tanto trabalhar com a foice, a escola Soto, diga-se de passagem, é sempre assim, nunca mostra um manto roxo, dourado, está sempre de cara suja, trabalhando com a terra.  Portanto quando esse monge chegou, não percebeu que estava falando com um grande mestre, achou que era apenas mais um trabalhador braçal. Por isto perguntou:  “Qual é o caminho para Nansen?” Aí o próprio Nansen respondeu:  “Comprei esta foice baratinho mesmo, somente 30 reais.” O monge achou que ele não havia entendido, parecia talvez surdo.  “Não é nada disso, eu estou perguntando pelo caminho para Nansen.” O caminho para Nansen é trabalhar com a foice. Este é o caminho do Zen.  Por isso, hoje de manhã, todos nós trabalhamos juntos, isto é o Caminho Zen.  Mas o monge ainda não havia compreendido.  O mestre já havia mostrado tudo, mas ele nada havia entendido.  Insistiu: “Não, gostaria é de saber o caminho para Nansen.”  “Quando se acostuma com esta foice, eis que ela corta otimamente.”  E continuou a trabalhar.  O monge não entendeu.  Esta é um caso considerado como incompreensível.  Mas não é nada disso.  O caminho é esse, Nansen está mostrando o Caminho, do começo ao fim, o caminho para ele, Nansen, é que ele havia comprado a foice com 30 reais, e a estava afiando e usando.  “Quando acostuma com ela, corta muito bem.” Até acostumar é difícil, mas ao se acostumar, já virou um camarada que trabalha com a foice, tchan, tchan.  Quando realmente somos  um especialista do Caminho, vivemos realmente como uma foice, como qualquer coisa.  Vê-se, pois, que esse caso nada tem de incompreensível.  Existe, isto sim, um jeito de o compreender.  Isto é, se tornando uma coisa só.  Ele é a foice.  A foice é Nansen.  Então realmente a foice começa a cortar.  Se eu estou cortando com a foice, isto ainda não é bom.  Quando limpamos aquela casa de porcos, tinha um cheiro forte e sujo.  Mas isto por que achamos que está sujo.  Por isto quem é sujo, somos nós. Quando nos esquecemos da sujeira, quando mergulhamos na sujeira, não existe mais sujeira. Aí então a pessoa trabalha bem. E trabalha rápido.  E bem feito. Senão, suja todo o corpo, a roupa, e não trabalhará bem. Quando nos esquecemos da sujeira, entramos,  então não mais sujamos a roupa e aquela parte fica limpinha.
Agora vamos continuar o Sansuikyo, capítulo do Shobogenzo:  O sutra das montanhas e das águas.  “A água não é forte ou fraca, seca ou molhada, movente ou parada.  Fria ou quente, existente ou não-existente.  Ilusão ou iluminação.  Quando se encontra no estado sólido, é mais dura que o diamante mais duro.  Quando derrete é mais macia que o leite mais suave.  Portanto é por isto que não devemos duvidar da realização da virtude da água. Devemos agora observar e estudar a água nas dez direções do universo. Não é o estudo da água vista por deuses e homens, mas ao invés, o estudo da água, quando vista pela própria água. Já que existe a prática e iluminação da água mesma, existe um método para achar a água da água. Devemos realizar o caminho de nos acharmos através de nós próprios. Outros devem estudar outros, estudando o caminho que se move livremente e transcende a si mesmo. Quando avistamos as montanhas e as águas, elas podem ser vistas de uma variedade de maneiras dependendo das circunstâncias.  Os deuses a vêem como seus adornos, não simplesmente como água.  Nós a vemos como algo diferente.  Nós a vemos como água.  Para eles é um adorno.  Para nós é água.  Algumas pessoas vêem a água como uma flor maravilhosa.  Mas não conseguem a usar como uma flor. Já os demônios observam a água como se fosse um fogo enorme, ou sangue grosso, ou pus.  Dragões vêem a água como um palácio ou como um salão exuberante.  A água pode ser vista de muitas maneiras. Como as sete jóias preciosas, florestas, cercas, a liberação pura e não-maculada da natureza do Dharma. Como o corpo verdadeiro do homem, a forma corpórea e essência da mente, ou como a água vista pelos seres humanos.  Diferentes pontos de vista, interpretações diferentes. Assim, o ponto de vista depende da visão do espectador.  Investiguemos isto um pouco mais. Ver um objeto proporciona muitas visões diferentes, ou será que isto ocorre por que pensamos erradamente que um objeto possui formas as mais variadas?  Devemos estudar isto cuidadosamente.”
“A água não é seca ou molhada. Não é fria ou quente. Existente ou não existente.  Ilusão ou iluminação.”  Esta água a qual Mestre Dogen se refere aqui, nada mais é que o mundo do Dharma. Ele está tentando tirar a dualidade, no Dharma esta dualidade não pode ser observada.  A água não é fria ou quente.  A água é fria e quando esquenta, fica quente.  Mas esta água já é o mundo do Dharma.  Por isto, esta dualidade não chega até aqui. O segredo do Budismo é o caminho do meio. O caminho do meio está ligado com o pensamento de Sunya, o vazio, o vácuo.  Se a pessoa não disser nem sim nem não, então não conhece mais  o sossego. Este é o problema, porque está querendo se segurar uma coisa, se apoiar com isto.  Mas isto não é o que ocorre no mundo do Dharma.  Por isto é difícil entender, e exatamente por esta razão estamos usando as montanhas e as águas como referência para aprender este mundo do Dharma.  O Dharmakaya.  O corpo do Buda cósmico. Então este mundo do Dharma, ou nossa vida, não é nem limitado nem tampouco ilimitado.  Todo mundo quer que necessariamente sejamos limitados ou ilimitados.  Quando não existe uma resposta clara, sim ou não, todos ficam perdidos, tem que ser material ou espiritual, por exemplo, tem que ter reencarnação ou não ter reencarnação.  A resposta correta contudo, não é nem sim nem não. Infelizmente.  Precisamos aprender o pensamento de Mestre Dogen, e isto ele nos demonstra através das montanhas e das águas, mas estas montanhas e águas são as montanhas e águas do mundo do Dharma.  “Por isto não demos duvidar da realização da virtude da água.” A virtude da água possui muitas outras virtudes, além desta dualidade.  Forte, fraco, seco, molhado, frio ou quente, existente ou não existente, movente ou parada, ilusão ou iluminação.  E nossa existência é isto.  “Agora devemos estudar e observar durante um certo tempo a água nas dez direções do universo.  Não é o estudo da água vista por deuses e homens, mas ao invés, é o estudo da água como vista pela água.  Depende do ponto de vista o que veremos quando observamos montanhas e águas.  Os deuses a vêem como seus adornos, não simplesmente como água.” Nós a vemos como algo diferente.  Nós a vemos como água, para eles é um adorno, para nós é água, algumas pessoas vêem a água como uma flor maravilhosa, porém não a usam como uma flor.  Demônios vêem água com um fogo enorme, ou como sangue grosso e pus. Dragões vêem a água como um palácio ou um salão exuberante.  A água pode ser vista de maneiras as mais variadas.”
Então, dentro de cada um de nós existe este estado psicológico de dragão, ou de peixe, de seres divinos, de seres humanos, dentro de nós, dentro de cada um de nós estamos vendo as coisas de maneiras variadas, de acordo com o nosso karma, como disse ontem, o karma do passado, está limitado hoje e amanhã.  Quando falamos assim, todos pensam, “Isto é destino, é algo que não pode ser alterado.  Já é passado, ninguém sabe como foi, mas já foi, então é  limitado agora e no futuro, isto é algo que não pode ser alterado.  Não é. Não é isto.
“Não é dura nem parada”.  Agora estamos aprendendo as coisas, mas pode melhorar.  Por exemplo, agora estamos sofrendo com o zazen, por quê?  Sentando, e com isto nossas pernas doem.  Agora estamos sofrendo, puxa vida, as pessoas vem e batem com o kyosaku, mas futuramente, quem sabe, este sofrimento pode se tornar uma coisa boa. E muitas coisas já aconteceram.  Por isto não existe uma coisa seca ou molhada, certa ou errada, uma coisa que seja fixa. É tudo além disto.  O importante aqui, precisamos saber, é que tudo isso vem acumulado na Alaya Vijnana, tudo está depositado dentro de nós e estamos juntando todos estes materiais com os cinco sentidos e a sexta consciência.  A sexta consciência consiste do pensamento, raciocínio, ou analisar ou guardar na memória.  Já a sétima consciência é a Manas Vijnana.  Manas quer dizer ego.  Ele sempre é o centro de todas as coisas.  Quando come uma coisa gostosa, então já se liga com isto, com a sétima consciência.  Eu quero comer mais. Eu quero.  Quando a música é bonita, diz, ah, eu quero.  Mas este gostoso depende de cada pessoa.  Uma pessoa gosta de música clássica, mas outras pessoas podem não aguentar.  Naquela época de Haydn, ele compôs uma sinfonia que se chamava “sinfonia do susto”, ou uma coisa parecida.  A música começava a tocar, bonita, e de repente, baaaam. Naquela época eles se assustaram com este súbito barulho, mas hoje em dia ninguém mais se assusta.  Por que os jovens, quando passamos pela discoteca, baaam, tac tac tac.  Não se assustam mais.  E dentro daquele barulho, lá estão eles tranquilamente conversando. Nós outros, eu, por exemplo, já estou velho, não aguentamos, nossa, mas eu gosto de pular, eu gosto, mas não é fácil.  E se acaso eles ouvirem uma música clássica dirão com certeza:  “Ah, o que é isto, isto com certeza não é música.” Música é aquele barulho, para eles.  Fizeram uma experiência muito interessante com criminosos.  Os criminosos estavam todos na cadeia, quando de repente começaram a tocar uma música clássica, e eles não aguentavam escutar isto.  E começaram a gritar:  “Parem com isto imediatamente, iaaa.” E batiam nas portas, até com a cabeça na parede.  E a música continuou durante uma semana.  Mais adiante começaram a ficar mais quietos, ouvindo.  Quando começaram a ouvir, já as características deles começaram a mudar e se alterar.  Interessante.  Por isto desde criança, o ambiente em que vivemos é um coisa muito importante.  Mesmo as crianças, quando estão dormindo, e não estão sabendo de nada, mas a mamãe precisa ter muito cuidado.  Elas estão guardando tudo, inconscientemente. E isto sempre aparece depois. Sempre se manifesta.  Esta ideia de ego está tão ligada conosco, muito fortemente, ficamos desesperados.  Jesus Cristo disse, “Quem não tiver pecado, que jogue a primeira pedra.”  Para esta mulher que era prostituta.  Aí foi o que se viu:  primeiro os velhos foram embora, claro, que já haviam cometido alguns pecados, e todos no fim acabaram indo embora, ninguém ficou.  E  apenas Jesus Cristo sozinho ficou lá, quietinho, calado, em silêncio.  Muito interessante.  De certa feita alguém perguntou ao Rei Bimbisara, naquela época do Buda, indagaram para sua senhora, para a rainha:  “Dentro deste mundo, o que é aquilo de que gostas mais?” Ela pensou e disse:  “Dentro deste mundo aquilo que eu mais gosto é de mim mesmo.” Então o Rei Bimbisara disse, “Pois é, na verdade, dentro deste mundo, aquilo de que eu mais gosto é de mim mesmo.” Esta resposta é muito sincera, mas muito pesada, se falar isto entre namorados, o que vai acontecer?  “Você gosta de mim?” “Eu gosto.” “Gosta de mim, mais que tudo?”  “Não, em primeiro lugar eu gosto de mim.”  Assim não dá. “Então tchau, né!” Exatamente.  Mas se penetrarmos dentro de nós próprios profundamente, isto é a verdade.  Eles já tem aquela relação muito forte, por isto podem dizer isto, senão não  dá.  Então eles resolveram ir ao Buda, ao Senhor Buda.  “Nós resolvemos que dentro deste mundo, cada um gosta de si mesmo. O que achas disto, Senhor Buda?” “Eu também sou assim.” disse o Buda. “Dentro deste mundo, eu gosto em primeiro lugar de mim.” Até Buda disse isto.  Nós assustamos com isto, né?  Como o ego pode ser tão forte?  Então o Buda finalizou da seguinte forma:  “Vocês podem ir em qualquer lugar, em qualquer direção, mas descobrirão que, em qualquer lugar, o que  todo mundo mais aprecia é si mesmo.” Se é assim, não tem saída, mas ele continuou um pouco mais ainda, dizendo o seguinte:  “Por isto nós não podemos prejudicar ninguém.”  Isto é sabedoria. A ideia de ego não acaba, mas este ego pode se transformar em uma coisa maior.  Todo mundo já gosta de si mesmo, mais que qualquer outra pessoa, mesmo que seu filho, mesmo que seu marido, etc.  Já somos todos assim.  Então por que não tratar dos outros pelo menos para não os machucar?  Não prejudicar.  Por que eu já sou assim também, mas você também é.  Aí começa a respeitar.  Se realmente entender este ego, que é tão forte, que gosta de si próprio, ama a si, tão fortemente, então todo mundo é assim.  Entendendo isto, a única coisa que pode superar isto, é amar os outros.  Amanhã nós já vamos morrer, por que então precisamos brigar?  Discutir?  Podemos nos tratar carinhosamente. Aí, neste caso, através destas pessoas com as quais estamos ligados, podemos viver.  Este momento está se esvaindo, e nunca mais retorna.  O sesshin tem todo mês.  Mas este sesshin nunca mais. Vocês futuramente podem vir a ser Budas e Patriarcas, ou grandes figuras. Agora estamos nos sentando juntos, então temos que ser respeitados.  Quando chegamos a esta conclusão, realmente de nada adianta ficarmos procurando a iluminação.  Em primeiro lugar, temos que penetrar interiormente, temos que nos conhecer, como somos.  Quando vemos como somos, nos assustamos. Egoístas, vaidosos, orgulhosos, aqueles sentimentos cheios de lama, e sujos.  Mas não precisamos ficar tristes com isto. Por isto o Budismo existe.  Para nós, que somos pessoas comuns, e cada vez que reconhecemos isto, aí então esta compaixão aparece.  E esta sujeira pode se transformar em outra coisa, em sabedoria.  Começando a ajudar os outros.  Todo este karma é o que faz os demônios famintos verem o mundo como o vêem, como pus, já que a água ele não a pode ver de outra maneira.  Cada um está vendo o seu próprio karma, seus próprios sentimentos, e sua própria consciência, é isto o que cada um está vendo. Aqui está por exemplo, um gravador, e vendo isto alguém pode pensar: “Ah, este tem F.M., eu quero ouvir música.”  Outro pode estar vendo o mesmo gravador e pensar.  “Ah, agora está gravando bobagens, perdendo uma fita com isto!” Vendo, todo mundo acha que está vendo uma coisa, um gravador, mas não é, está cada um vendo sua própria mente, refletida.  É incrível.  Por isso, quando alguém se casa, vão inevitavelmente ocorrer choques.  Por quê?  Aquele passado todo, de vinte anos, todos estão a carregar um karma diferente, mas acontece que cada um pensa que todo mundo está pensando da mesma forma que si.  Mas não.  Essa é a primeira coisa que precisamos entender. Cada um já é criado com uma outra família, com um ambiente diferente, uma classe diferente, rico ou pobre, ou mais estudioso, ou mais vagabundo, tem uma enorme gama de tipos de pessoas.  Aí se encontram, “Ah, você é bonita, ta, ta, ta, ti, ta!” E começando a namorar, acabam se casando. E um deles diz, “Ah, eu quero feijoada.” E o outro pode não querer.  Para nós Japoneses toda comida tem que ter missô.  E com feijoada tem aquele cheiro ruim, não aguenta. Assim para nós, aquela carne de porco, pelo amor de Deus, Deus me livre, mas para certas coisas aquele torresmo com tutú à mineira é uma coisa deliciosa.  Por que isto é diferente?  Porque foi assim que ele foi criado. Agora juntando Japoneses com Mineiros, o que vai acontecer, um tem que comer aquele torresmo, o outro tem que comer outra coisa, aí sai aquela briga, não dá.  Mas compreendendo que é assim, aí talvez possam se aproximar mais um pouquinho. Procurando uma harmonia.  E, de acordo com seus karmas, como seres divinos, recebem as coisas como jóias, aqui chama isto de enfeite, para peixes e dragões, esta água é um palácio, um castelo, uma mansão.  Indaguem dos peixes, “Sabia você que sua casa, que é a água, está constantemente correndo e fluindo?”  Aí o peixe se assusta, “É mesmo?  Não diga, eu acho que minha casa é uma coisa fixa, firme, correndo sem parar?  Não, isto não.” Assusta.  Com o homem também ocorre a mesma coisa, “Montanhas verdes que estão andando sobre as águas?”   Não, a montanha está sempre ali, ontem estava ali, e amanhã também estará.  Mas o fato é que está sempre se movendo. Quem não conhece o movimento de si mesmo, não conhecerá também o movimento das montanhas.  Para os seres humanos, a água é água.  Estes sentimentos e conhecimentos, os primeiros conhecimentos que adquirimos, todos são fixos.  Estes dizem:  a água é assim.  A água é fria.  Mas a água não é fria, e não é quente.  E tudo mais também é assim.  Não é certo e não é errado.  Tudo depende de nossos pontos de vista.  Quando entendemos isto já não mais existe dualidade.  Todo mundo é assim.  Duas coisas separadas, além da dualidade.  Isto o que precisamos aprender.  A única coisa é isto.  Aí isto podemos aplicar dentro de qualquer campo que seja.  Quando se passa por aquele ambiente, ou  aquela educação, com uma família boa, naturalmente vemos assim, mas senão, não podemos receber as coisas com elas são.  Já se transformam naquele fogo enorme. Hoje em dia é tão triste.  A mamãe não trata de seu filho como dantes.  Tudo é superficial e instantâneo.  Quando dá de mamar, deixa que a empregada cuide disto.  As crianças recebem todos estes karmas.  Não respeitam mais.  Muitos pais e mães reclamam:  “Ah, meu filho não respeita, não obedece,” e tudo é karma dele, pai, que está passando diretamente para seu filho.  E o filho é o espelho do próprio pai.
Diz Mestre Dogen, “Geralmente quando vemos as montanhas e as águas, estas são observadas de uma variedades de formas dependendo das circunstâncias.” Todo mundo é diferente.  Por isto está vendo uma coisa só, mas cada um está vendo seus próprios condicionamentos.  Um monge estava meditando no cemitério, antigamente existia este tipo de meditação.  Ele estava imaginando uma mulher bonita e imaginou o momento em que ela perecia.  Estava deitada.  Ainda era bonita, mas o tempo passando, o que vai acontecer em seguida?  Começa a inchar e começa a escorrer água e sangue.  Fica roxo, começa a cair, e aparece uma parte de carne e sangue e osso. E os bichos começam a devorar o corpo.  Aí vem os cachorros.  Sei lá. Começam a comer.  Depois disto os ossos estão já todos espalhados. Aí sopra o vento, e tudo desaparece.  O monge estava meditando, tranquilamente, e a lua estava cheia, e quando ele parou a meditação, sentiu uma sede forte, tão forte.  Quando viu, havia ali uma tigela refletindo a luz da lua na água. Pegou desta tigela e tomou da água.  “Ah, que gostoso!” E a deixou de lado. Chegando a madrugada, ele viu que aquela tigela, na verdade, nada mais era que um crânio.  Ele havia tomado água em um crânio. Nesse momento, ele vomitou tudo. Por que aconteceu isso? Porque naquele momento ele viu que a tigela era um crânio. Um crânio de um morto. De acordo com nossos karmas, cada um vê as coisas, e pode com isto ficar zangado, mas não tem razão de se zangar.  Isso tudo está dentro de nós.
“São vistas de uma variedade de maneiras dependendo das circunstâncias. Os deusses vêem-na como seus enfeites, não simplesmente com água.  Nós  a vemos como algo diferente.  Para eles é um enfeite.  Para nós é água.  Algumas pessoas vêem a água como uma flor maravilhosa.”  Narciso via a água como um espelho, aí caiu dentro da água. Foi assim que ele morreu.  “Porém não a usam como um flor. Demônios vêem a água como um fogo enorme, ou sangue grosso. Os dragões vêem a água como um palácio ou salões de exuberância. A água pode ser vista de várias maneiras. Como as sete jóias preciosas, florestas, cercas, a liberação pura e não-maculada da natureza do Dharma.” As coisas acontecem, as coisas ruins podem acontecer, mas tudo depende da pessoa, como ela recebe isso, e como ela o aceita. Coisas ruins para essa pessoa podem até ser um despertar e também podem servir para avivar aquele sentimento de impermanência. Se nos depararmos com um morto, todos simplesmente choram e sofrem, somente isto, aí caem realmente naquele inferno.  Mas uma outra pessoa, vendo isso, diz, “Ah, todo mundo morre. Esse mundo é realmente impermanente.” Aí desperta para a busca do Caminho supremo. É assim que as coisas em si não são nem boas nem más. Tudo depende da forma como as recebemos.  Por isso quando encontramos com o Budismo e ouvimos este Dharma, ou ensinamento, como no Cristianismo também, é muito importante.
“Ou como a água vista pelos seres humanos.  Diferentes pontos de vista, interpretações diferentes.” Este karma, todo defeituoso, mas por isso mesmo também pode  melhorar.  O bom pode mudar para uma coisa ruim e piorar, mas as piores coisas podem melhorar.  Tudo depende.  Por que não é bom nem mau.
“Assim a visão depende do ponto de vista do espectador. Investiguemos isso um pouco mais. Ver um objeto proporciona muitas visões diferentes, ou isso ocorre por pensarmos erroneamente que um objeto tenha formas variadas? Devemos estudar isso cuidadosamente.”  Por isso a sabedoria Budista não é conhecimento, ou a sabedoria deste mundo.  Nós entendemos muita coisa, que o ódio, por exemplo , é pernicioso, todo mundo sabe disso, a inveja é ruim, o ciúme é ruim, e com isso sofremos. Todo mundo sabe disso.  Os inteligentes, ou os diplomados sabem disso.  Mas quando acontece isso, será que eles podem se controlar?  Controlar esses sentimentos?  “Ah, isso é ruim, então eu vou desligar.” Não é tão fácil. Fica zangado realmente.  A única coisa que pode liberar isso, talvez seja esta meditação e sabedoria, penetrando nisso, e as montanhas verdes sempre andando. A água está sempre correndo.  Uma mulher de pedra concebe à noite. Quando começamos a entender isso, não mais sofremos.
“A água sobe aos céus para fazer a chuva e desce à terra para fluir em rios.” Isto é a mesma coisa.  Quando eu digo “água”, todo mundo está pensado que a água corre para baixo.  Mas não é isso. Como diz aqui, “A água sobe aos céus para fazer a chuva.” Ela sobe, faz nuvens.  A água não é somente aquela que estamos vendo, que desce. Tem um outro lado, cada pessoa é assim. Quando estamos treinando, cada um de nós tem suas características diversas.  Todo mundo é diferente.  E todo mundo tem um ponto ruim e um ponto bom. Quando mais forte é a pessoa, quanto mais a pessoa é boa, sua parte negativa também vai ser forte. Vendo tão somente a parte negativa, não vai dar para viver neste mundo.  Não pode viver.  Mas por outro lado, todo mundo tem um ponto bom. Por que não puxar isso mais, então?  Dessa forma pode fortalecer e crescer cada vez mais, eliminando assim a parte negativa. Por isso o trabalho do mestre é muito importante.  Vocês também com suas famílias, colegas, amigos, influenciam. E descendo para o rio, se torna o rio ou o oceano.  Mas a água não é somente isso.  É também neve, gelo, aqui diz, “A água não é forte ou fraca, seca ou molhada, movente ou parada, fria ou quente. Existente ou não-existente.  Ilusão ou iluminação. Quando está no estado sólido, é mais dura que o diamante. Quando derrete é mais macia que o leite mais suave.” A água pode se transformar, como gelo, nuvem, em várias formas.  Aqui no Brasil não cai neve, parece que no sul, cai um pouco.  Mas para nós, isto é, quem nasceu na terra da neve, existem várias neves. Vocês não podem imaginar.  Para nós Japoneses, a banana é somente banana. Banana ou banana seca.  Só isto.  Tem somente duas qualidades. Quando cheguei aqui, eu assustei.  “Ah, esta é banana d’água, ou banana da terra, banana prata, banana ouro, banana maçã, banana nanica, não sei o que mais.” Tanta banana que eu fiquei tonto.  Para mim, um Japonês, era apenas uma banana. O Japão não tem bananas, eles importam da Venezuela, tem somente uma qualidade. Mas aqui tem tanta, tanta banana. Um Japonês viajava, quando chegou na América Latina, e entrou naquele restaurante mais luxuoso da cidade, e comeu um prato mais ou menos razoável, gostou, e terminando, o garçom perguntou, “O que o senhor deseja para sobremesa?” “Banana por favor.” Para nós Japoneses, a banana é uma coisa preciosa, por que no Japão não existem bananas, são importadas. A importação é sempre cara.  Para nós é uma coisa rara, que raramente comemos.  E o garçom disse, “Banana?” “É, banana, por favor.”  Aí ele comeu a banana contente e quando saiu do restaurante, os porcos lá fora estavam todos comendo banana. Ele entendeu então por que o garçom teve aquela reação. Naquele restaurante mais luxuoso, simplesmente ninguém pedia banana. Mas no Japão se pede banana quando o restaurante é o mais luxuoso possível.  E eles cortam as duas extremidades da banana e servem apenas o meio dela.  E cortam a casca ao meio, abrindo e cortando, transando os cortes de lá para cá, muito decorado, bem bonitinho, com uma cereja em cima. E custa uma fortuna. é muito diferente. Assim, não é isto nem aquilo. É simplesmente isto.  Nascido e também não-nascido.  Isso é importante também. Tem um bom exemplo disso. A teia de aranha, de madrugada, quando está cheia de orvalho.  Cada encruzilhada da teia tem uma gota. E cada um de nós é uma gota de orvalho.  Cada um desses orvalhos, refletem todos as demais gotas de orvalho, de forma que dentro de uma gota, tem todas as demais também. Dentro de uma gota tem toda a teia.  E o passado, presente e futuro e os quatro pontos cardeais e o universo inteiro, estamos no centro exato dele. Uma gota de orvalho é independente, individual, mas ao mesmo tempo inclui o universo inteiro. E o universo inteiro está parado, mas também não está parado. Sempre criando, criando e criando.  Por isso, somos nascidos e não-nascidos.
Com isso, abordamos o Sansuikyo, ontem e hoje, somente quatro vezes, é um texto mais comprido, talvez tenham muitas coisas ainda para serem abordadas. Quando ele fala em montanhas e águas, ele está sempre falando de uma coisa só. Como se as montanhas e águas fossem um material para poder expressar isto.
Vamos ler os últimos trechos:  “Um velho Buda afirmou, ‘Montanhas são montanhas, e a água é a água.  Essas montanhas não são as montanhas comuns. São as verdadeiras montanhas dos Budas e Patriarcas. Se buscarmos por estas montanhas, delas podemos aprender. Assim, as montanhas e águas se tornam santos e sábios.” Essa é apenas uma tradução:  O original é assim:  “Um Buda velho disse: ‘Montanhas são montanhas, e a água é água. Por isso, a montanha não é montanha e a água não é a água.  Entretanto as montanhas são montanhas e a água  é a água.’”  Esse é o original.  Mas com a interpretação ficou daquele jeito.  Eu sou Tokuda, mas não sou Tokuda. Por isso mesmo sou Tokuda. Essa é a sabedoria de Prajna.  Prajna Budista.  Não é conhecimento.  É através da experiência. Eu sou Tokuda. Todos me chamam de Tokuda.  Muito  bem. Mas na verdade, eu não sou Tokuda;  Tokuda é simplesmente um nome. Se quiser, podem me chamar por um outro nome, “Oh, Japonês!” Para alguns outros, “Oh, Kung Fu.” Com isso ainda bem.  “Oh, Careca!” Para ele é careca. Tudo depende do karma dele. Se ele ficar zangado não dá.  “Oh, tudo bem?” Aí ele fica contente. Eu não sou, pois, Tokuda.  Mas por isso, me chamo Tokuda. Três vezes. O treinamento Zen tem esta parte.