Ju-Undo-Shiki (Regras do Dojo) – Teishôs 1 & 2

Regras do dojo

—Nós estabelecemos o silêncio interior, favorecendo e respeitando o silêncio dos demais; para tal nós falaremos com voz baixa e unicamente quando isto for necessário ao bom andamento do sesshin. Nós evitaremos rir muito alto, nós manejaremos os pratos e os objetos delicadamente a fim de não fazer barulho. Nós observaremos o silêncio absoluto no dojo, no decurso das refeições, nos banheiros e na cozinha.
—O samu (trabalho em comum) é um dos aspectos de nossa prática. Nós participamos em todos os samus para os quais formos designados. A fim de não faltar a nenhum, nós consultaremos regularmente o quadro negro indicando a responsabilidade de cada um durante o sesshin. Durante os samus, as instruções são passadas em voz baixa e não devem provocar conversa.
—Nossa atitude corporal concorre com nossa concentração. Nós caminhamos calmamente especialmente no e ao redor do dojo. Nós ficaremos sentados em seiza, em lotus, semi-lotus (em tailleur?) ou com as pernas perto do corpo.
—Nós cuidaremos com nos vestir corretamente: os shortes, os vestimentos muito decotados ou muito coloridos, os cabelos enfeitados, as jóias ficam reservados para o último dia e às refeições festivas.
—Um mínimo de ordem deve reinar nos quartos, nossa cama deve estar feita todas as manhãs.
—Na hora de dormir, depois de termos ido ao banheiro, evitamos toda conversa e nos deitamos.
—Para todas as perguntas concernentes ao Dharma, nós não hesitaremos de nos dirigir diretamente a Tokuda Sensei, ou, em sua ausência, a um dos responsáveis.
—Nós podemos nos reportar ao capítulo do Shobogenzo “Ju-Undo-Shiki” de Mestre Dogen, que é o manual de comportamento no dojo.

É um pouco triste ter que fazer questão destas coisas, mas nos dias de hoje é necessário dizê-lo claramente.

Existem três lugares onde um silêncio absoluto deve ser mantido. São estes: o zazendo, o refeitório e o banheiro.
Eu gostaria de explicar a diferença entre zendo e sodo: Sodo, no sentido mais amplo, quer dizer um mosteiro, quando se fala no sentido mais restrito, quer dizer “a sala onde se pratica o zazen”. Sodo é o zazendo. Na escola soto, o zazendo é chamado sodo. So “o monge”, sodo “a sala dos monges”. Quando os monges entram no mosteiro, em geral, eles ficam no sodo. É o lugar para dormir, onde comem e onde fazem zazen. O sodo é verdadeiramente a sala principal do mosteiro.

Teisho #1

“Ju-Undo-Shiki”, capítulo do Shobogenzo de Mestre Dogen é o “manual de conduta” no sodo ou no zazendo.
Sodo tem vários sinônimos: undo, koboku-do, sembutsu-do… Undo quer dizer “salão das nuvens”, “nuvens” porque os monges zen são chamados unsui (“nuvens e água”). Com efeito, como as nuvens e água, se as circunstâncias são favoráveis eles ficam ali, senão eles “escorrem adiante” livremente e vão a algum outro lugar.
Eu tenho sido muito criticado porque eu mudo sem parar de lugar. Fiquei célebre por ter sido chamado “monge que não quer ser responsável”. Hoje em dia falam de mim diferentemente porque (se pode constatar que) por toda parte onde passei, existe um templo e um grupo que funciona.
Koboku-do quer dizer “a sala da árvore morta”. Sentado no zazen se parece com uma árvore morta, ressequida. Sembutsu-do é o salão, escolhido pelo Buda. Quando muitas pessoas sentam ali, o Buda aparece.
No “Ju-Undo-Shiki” ju quer dizer duplo. Com efeito, quando Mestre Dogen abriu seu primeiro mosteiro em Kyoto, este mosteiro cresceu rapidamente e o zazendo ficou pequeno rapidamente, foi preciso construir um segundo. É a explicação de ju (shiki sendo ‘um manual’).
Neste “Ju-Undo-Shiki” existem muitas coisas às quais ele faz referência ponto por ponto. Um dos pontos é que aquele que tem doshin (bodhicitta-a mente que busca o caminho) pode entrar no dojo, aquele que não doshin não entra. Pode-se pedir a um monge que saia se for considerado que ele não tem o espírito que busca o caminho e que ele se encontra ali laborando em erro.
Acontece às vezes que monges ou praticantes fazem coisas muito estúpidas como por exemplo discutir de maneira que isto acabe em briga. Quando duas pessoas começam a brigar, os dois devem ir embora do dojo. Não importa qual seja a razão, ou quem tem razão, se duas pessoas discutirem isto quer dizer que nenhuma das duas tem uma compreensão correta do Dharma. Devem ser expulsas. E se uma terceira pessoa, testemunha da briga, não intervir para acabar com aquilo, deve ser expulsa igualmente.
Numa briga, é o ego que se manifesta. Se permitimos que uma tal atitude se manifeste, isto quer dizer que nossa dedicação pela prática do caminho não é suficiente.
Dogen Zenji diz que a assembléia de monges no dojo deve ser tão harmoniosa quando a água e o leite. Como vocês sabem, quando a água e o leite se misturam, não se pode mais distinguir nem um nem outro, a harmonia ficando perfeitamente realizada. Ao contrário, se misturarmos água e óleo, estas duas coisas se separam.
Esta harmonia, esta sangha se traduz por “comunidade”. Na origem sangha queria dizer “monges harmoniosos” porque temos o mesmo objetivo (realizar o caminho), nós recebemos os mesmos preceitos, nós vivemos no mesmo lugar: para dormir, um tatami, durante o zazen, meio tatami…
O diretor e seu assistente têm um quarto, mas quando se entra no mosteiro pela primeira vez, se fica no sodo. Se veste também o mesmo koromo e o grande kesa, se come a mesma comida. Mestre e discípulos comem a mesma comida (jiki byodo), o princípio sendo “mesma comida para todos”. Claro que se temos problemas de saúde, se pode comer algo de diferente. Como vocês sabem, no sodo o mestre é servido em último lugar. Assim se preserva a harmonia.
No “Ju-Undo-Shiki” há a noção de manter o silêncio. Quando sentimos que estamos prestes a tossir, é preciso ter cuidado a manter a boca fechada afim de amortizar o barulho. No zazendo é preciso assoar o nariz o mais discretamente possível. Claro, não se deve fazer barulho ao respirar. Durante o zazen a respiração deve ser muito calma, muito fina. Também não se traz um terço para o zazendo. Muito menos se deve fazer barulho ao se locomover…É assim, se deve proteger o silêncio ao máximo.
No dojo existe uma grande variedade de instrumentos musicais que se chamam narimono. Quando se produz um som com estes instrumentos, o sino, o mokugyo… é necessário se aplicar a obter o melhor som possível, porque isto mostra a qualidade da consciência.
Quando um mestre visita um mosteiro, com o som do instrumentos ele compreende imediatamente a qualidade do treinamento dos praticantes. Às vezes, ouvindo o som da madeira, os monges sentados em zazen obtém a iluminação. Ao contrário, se o som é muito agressivo, violento, se tem a impressão de receber uma pancada na cabeça. É muito desagradável, por isso é necessário prestar atenção.
É necessário igualmente se aplicar a todas as ações da vida, no trabalho, deixar desabrochar “a flor do Dharma”. Tudo isto faz parte do zazen. Não se deve fazer barulho do lado de fora do zazendo, especialmente no espaço ao redor do zazendo, caso alguém esteja fazendo zazen. No exterior do sodo, é necessário erigir uma placa para lembrar de respeitar o silêncio. Os visitantes ou os turistas não são admitidos ao sodo. Somente os monges podem entrar ali. Outras salas como o hatto (reservado para as cerimônias) são abertas aos visitantes, mas jamais o zazendo.
Às vezes os monges recebem os amigos ou a família e querem mostrar o zazendo do lado de fora.
Neste momento, Dogen Zenji chama nossa atenção: é necessário nunca falar sobre nossa prática, se gabar de levantar cedo, estar orgulhoso de receber o kyosaku… tudo isto deve ser evitado.
Neste capítulo “Ju-Undo-Shiki”, existem muitas regras deste tipo.
No momento nós não temos dojo, tudo que temos é muito provisório, mas um dia ou outro será necessário mudar para voltar à forma original. É importante conhecer a forma original afim de a poder adaptar. Se não conhecemos esta fórmula original, se pode acreditar que aquilo que fazemos é a forma original.
No ano de 2000 nós iremos visitar o Japão e nós poderemos conhecer esta forma original. Eu posso avisar nossos amigos (japoneses) e lhes dizer: “Não conhecem nada, explique-lhes tudo”. Assim eles poderão nos instruir. Quanto a mim, não tenho na verdade vontade de ensinar todas estas coisas (sou bastante preguiçoso…), gostaria muito que alguém aprendesse estas regras e as ensinasse aos outros. É tudo por hoje.

Teisho #2

Durante este sesshin, eu quero falar do ponto de vista de Mestre Dogen sobre o “Sutra do Lótus”. Três capítulos do Shobogenzo têm uma relação direta com o “Sutra do Lótus”. Hoje, eu vou tomar do capítulo “Kankin” (“Ler os Sutras”).
Neste capítulo, dez mestres aparecem e explicam o que é “Ler os Sutras” ou “Ver os Sutras”. Na segunda parte deste capítulo, há conselhos aos monges convidados a lerem os sutras. As explicações são muito precisas e detalhadas. Dez mestres explicam o que é “Ler os Sutras”, mas eu não abordarei todos estes textos, nem na ordem certa. É o meu jeito de fazer: eu escolhi, num capítulo, um tema que me interessa e eu o desenvolvo a partir disto. Um dia, será preciso tomar este capítulo completo para o estudar.

Quanto à história:
Extrato do capítulo “Kankin” do Shogobenzo

“O Vigésimo Sétimo Patriarca, o Venerável Prajnatara da Índia do leste foi um dia convidado a almoçar com o rei da Índia do leste. Naquela ocasião, o rei lhe perguntou: “Todos os outros mestres estão constantemente lendo os sutras, por que , Venerável, você também não faz isto?” O Venerável disse “Quando expiro, minha respiração não tem nenhuma relação com o que seja, é somente uma expiração. Quando inspiro, não tem qualquer relação com o pensamento ou com a discriminação, é somente a inspiração. Desta forma eu leio os sutra, não somente um ou dois rolos, mas centenas de milhares de volumes.”

Este mestre Hindu Prajnatara (Hannyatara em japonês), foi o mestre de Bodhidharma. Trata-se de um mestre muito importante. Até os dias de hoje é ainda costume convidar um monge para comer e no fim da refeição, o monge recita sutras na parte da casa reservada para o butsuden (altar). É uma forma do monge agradecer ao anfitrião pelo convite. As pessoas são sempre muito carinhosas com os monges que fazem o takuhatsu (mendicância). Eles os convidam para jantar—a comida é excelente—e no fim da refeição, eles lhes dão um envelope contendo dinheiro para o templo. Eu acho esta uma tradição muito bonita. Existem mosteiros que vivem somente com o dinheiro proveniente do takuhatsu e do samu agrícola. No Japão dizem que sempre que os monges cantam sutras existe uma contrapartida em dinheiro e é certo que na prática os monges ganham dinheiro recitando sutras. Mesmo assim parece que está aparecendo uma categoria de monges que não mais quer fazer todos estes rituais e especialmente os serviços fúnebres. Talvez que nós estejamos assistindo aos dez últimos anos destas práticas. Acho que isto é um do sinais que mostra a evolução do budismo no Japão. Num mosteiro, o treinamento é muito sério.
Quanto ao takuhatsu, muitas pessoas querem nos convidar para jantar e nós respeitamos esta prática. Contudo, o diretor de Shogo-ji, o mosteiro que freqüentei, não queria mais que os monges aceitassem convites para comer. Takuhatsu se pratica freqüentemente num vilarejo termal onde há muitos hotéis, numerosos turistas, mosteiros muito importantes, muito ricos, que podem fazer oferendas. O diretor tinha medo que ficassem habituados a serem bem tratados demais, de comer bem demais durante o takuhatsu e isto cria maus hábitos. Também, ao terminarmos o takuhatsu matinal, íamos a um pequeno jardim público e lá comíamos. Comprávamos um alimento muito simples, por exemplo, uma tigela de arroz e a comíamos naquele parque. As pessoas não compreendiam muito bem o que faziam ali o mestre e seus monges, sentados no parque, a comer!