Inmo, o Próprio – Quinto Teishô do Sesshin de Maio de 2002 em Eitai-ji

Teishô nº5

Leitura de “Inmo” (p. 122-123)

O décimo sétimo patriarca ancestral, o Venerável Samghanandi, de quem o sucessor legítimo do Dharma é Geyasata, ouviu de certa feita o som de um sino de vento quando soprou o vemto; e ele perguntou a Geyasata: “Isso é o som do vento ou o som do sino?” Geyasata disse: “É além do som do vento e além do som do sino, é como o som do meu espírito”. O Venerável Samghanandi disse: “Então, o que é este espírito?” Geyashata disse: “A razão pela qual isso soa é porque está tudo na tranqüilidade”. O Venerável Samghanandi disse: “Excelente! Excelente! Quem mais além de você, caro discípulo, poderia me suceder na verdade”. Finalmente ele transmitiu a Geyashata o tesouro do olho da verdadeira lei.

Aqui, no estado que está além do som do vento, nós aprendemos que o meu espírito ressoa. No tempo que está além do som dos sinos, nós aprendemos que o meu espírito ressoa. Meu espírito que ressoa é isso; ao mesmo tempo tudo está tranqüilo. Transmitido desde os Céus do Oeste até as Terras do Leste, desde os Tempos antigos até o dia presente, esta história tem sido considerada como uma referência ao aprendizado da verdade, mas muitas pessoas se enganaram ao interpretá-la assim: “As palavras de Geyashata ‘Não é nem o som do vento nem o som dos sinos, é o som do meu espírito’ querem dizer que existe naquele que ouve, no momento mesmo do presente, a manifestação da consciência e que esta manifestação da consciência é chamada ‘espírito’. Se esta consciência não existia anteriormente, como o som poderia ter sido reconhecido como circunstância? A audição é realizada através desta consciência, que podemos chamar de raiz da audição e é por isso que ele diz: “O espírito está prestes a soar”. É uma compreensão ruim. Acontece isso na falta de um verdadeiro professor. É como por exemplo as interpretações e os comentários a propósito do subjetivismo e proximidade. Uma tal interpretação não é um ensinamento profundo da verdade do Buda. Entre aqueles que estudaram sob a direção de sucessores legítimos na verdade do Buda, ao contrário, o estado supremo da sabedoria e o tesouro do olho da verdadeira Lei são chamados “tranqüilidade”, são chamados “estar livre da ação”, são chamados “samadhi” e são chamados “dharani”. O princípio é que se um só dharma está tranqüilo, os dez mil dharmas estão tranqüilos. O sopro do vento estando tranqüilo, o som dos sinos está tranqüilo e esta é a razão pela qual ele diz que tudo está tranqüilo. Ele diz que o espírito que ressoa está além do barulho do vento, o espírito que resoa está além do som dos sinos, e o espírito que ressoa está além da ressonância do espírito. E tendo seguido até o fim o estado direto e íntimo desta forma, nós podemos prosseguir e dizer que é o vento que ressoa, que são os sinos que ressoam, que é o sopro que ressoa, e é que o som que ressoa. O estado assim não existe sobre a base de “por que vocês se preocupam com este assunto que é isto?” É assim porque “Como este assunto que é isto poderia ser afetado pelo que quer que seja?”

Obrigado.

Esta é uma outra história deste capítulo “Inmo” onde aparecem os décimo sétimo e décimo oitavo patriarcas, Samghanandi Daiosho e Geyashata Daiosho.

Esta parte é muito importante para mim porque ela fala disto que é tranqüilo e por isso se trata de maha muni.

Aqui Dogen Zenji diz claramente: quando ouvimos o som dos sinos, existe uma razão para tal, existem causas e circunstâncias. Interpretado do ponto de vista da interdependência, existem, digamos, um sino e porque existe um sino, existe um som. Portanto, sem sino não há som. Mesmo assim um sino que está suspenso no teto não produz som, é preciso aguardar que o vento o agite. Então o vento faz o som.

Em seguida há uma outra história, esta do Sexto Patriarca e dois monges que estavam debatendo sobre uma bandeira agitada pelo vento.

Nós compreendemos que se existe o vento e um sino, então haverá tal som. Esta é a interpretação do bom senso, mas existe além disto o que este koan está colocando. Com o vento, com o sino, não há som. Então como é isto possível? E qual é o som que então ouvimos? Se um dois três se sucedem, entre três e quatro existe um abismo a ser transposto, este abismo sendo a experiência religiosa que é muito difícil de ser explicada aos outros.

No começo do Hannya Shingyo está dito: Quando o Bodhisattva Avalokitesvara praticava profundamente a sabedoria de prajnaparamita, ele claramente percebeu a vacuidade dos cinco skandhas e fazendo isso, ele pode remover todos os sofrimentos.

Prajnaparamita, traduzido em geral para o português como “sabedoria”, possui dois aspectos: de um lado esta sabedoria que nos leva para atravessar o rio da margem da ilusão para aquela da iluminação; mas existe uma outra tradução de paramita, com a idéia de “completo, perfeito, levado a cabo”, ou seja “sabedoria última”, e neste caso prajnaparamita é praticamente como a iluminação. Quando praticamos esta sabedoria com este olho que é o shobogenzo, o olho da Lei, vemos claramente que todos os fenômenos físicos, mentais ou espirituais, são a vacuidade.

Em geral, quando dizemos que todos os fenômenos são a vacuidade, subentende-se que tais fenômenos não possuem uma essência fixa, que são interdependentes. Contudo, esta noção da vacuidade criou muita incompreensão e mal entendidos entre certos budistas e professores ocidentais especializados no budismo que descrevem o budismo como sendo niilista porque equiparam tal vacuidade com “nada”.

Nesta vacuidade que é a interdependência algo está operando. Este “algo” que se manifesta “assim” é o tathata (natureza de buda). Este tathata (em japonês shinnyo) que chamamos “natureza de buda”, ou “espírito” segundo Geyashata Daiosho, é a calma, a tranqüilidade.

De onde provém todos os fenômenos? Este é o primeiro questionamento da filosofia. Originalmente a vacuidade é a tranqüilidade, ela é sem forma e sem nome. Portanto, esta vacuidade pode também ser nomeada “caos”, porque do ponto de vista oriental, o caos não é uma confusão, ou desordem, é a anterioridade, o que está antes da separação, é o indiferenciado.

Não existe forma, nem cor, nem nada que seja visível, que possa ser tocado, que possa ser expresso…, então, já que nada há, nada há a ser feito. Na teoria budista, tathata possui dos aspectos: o primeiro é “tathata sem linguagem” o segundo sendo “tathata com linguagem”, “com linguagem” querendo dizer que provisoriamente, nós o chamamos de tathata. Mas aqui também, este tathata, se bem que provisório, dá origem à criação de uma imagem mental. Então, mudamos de nome e o chamamos de “natureza de buda” ou “espírito”, como aqui neste texto do “Inmo”. Assim pela sabedoria de meditação (zazen) podemos entrar no dhyana paramita, ksana paramita, etc, e atingir a perfeição da sabedoria (prajnaparamita). Pela Dhyana paramita (“perfeição da meditação”, portanto o zazen) podemos entrar neste ponto zero onde nada há. Chegados aqui, não há corpo, não há fenômenos, tudo é vacuidade total, nada há, mas a partir deste nada, tudo se produz e tudo vem a ser. Mas para entrar neste fundo, neste chão, é preciso atravessar algo que é da ordem de uma ruptura, o que Meister Eckhart chamava de breakthrough (“penetração”).

Já temos falado há muito tempo e em muitas ocasiões da complexidade. A questão é: como transmitir esta experiência da penetração (breakthrough)? Este estado, que se situa antes da aparição de todos os fenômenos, é um estado de calma absoluta, que também podemos chamar de nirvana, ou maha muni.

Maha muni é em geral traduzido como o “grande silêncio” (originalmente muni quer dizer silêncio). O fato de não falar, implica um estado de calma, mas também de sabedoria, porque na Índia quem é sábio não fala, não conta besteiras. Não se trata portanto somente de ser silencioso, mas de ser silencioso neste estado da sabedoria (de muni). Não se trata unicamente de um silêncio ao nível mental, o corpo igualmente mostra uma profunda quietação, uma tranqüilidade que é o estado profundo ou último do nirvana.

Dogen Zenji diz claramente: Não diga que é o espírito que ressoa porque o espírito está ligado ao som do sino. Este espírito é o estado do nirvana. Este estado supremo de bodhi é a tranqüilidade, samadhi ou dharani, todos estes estados são característicos da natureza de buda.

Vamos novamente ler este extrato de “Inmo”:

O princípio é que se um só dharma está tranqüilo, os dez mil dharmas estão tranqüilos. O sopro do vento estando tranqüilo, o som dos sinos está tranqüilo e esta é a razão pela qual ele diz que tudo está tranqüilo. Ele diz que o espírito que ressoa está além do barulho do vento, o espírito que resoa está além do som dos sinos, e o espírito que ressoa está além da ressonância do espírito. E tendo seguido até o fim o estado direto e íntimo desta forma, nós podemos prosseguir e dizer que é o vento que ressoa, que são os sinos que ressoam, que é o sopro que ressoa, e é que o som que ressoa. O estado assim não existe sobre a base de “por que vocês se preocupam com este assunto que é isto?” É assim porque “Como este assunto que é isto poderia ser afetado pelo que quer que seja?”

Então, se um Dharma está tranqüilo, tudo está tranqüilo porque não se trata de “um” entre muitos, mas do “uno” que é tudo. Se este “uno” se torna belo, puro, tranqüilo, então tudo está tranqüilo. A característica do budismo de Dogen Zenji é esta noção de “puro e único”. Dogen Zenji sempre recusou o nome de “Escola Zen” ou de “Escola Soto”. Ele diz: “O caminho do Buda transmitido de forma correta, única e pura”. Este ponto de vista está completamente evidenciado.

Aqui se bem que o vento sopre existe a calma, se bem que o sino toque, existe a tranqüilidade. É um pouco difícil de compreender, mas isso quer dizer: a presença do vento, ou do sino, da talidade, inmo, natureza de buda. A partir de tal tranqüilidade, tudo, ou seja, as dez mil coisas, aparecem e podemos ver os dois aspectos “tathata com linguagem” e “tathata sem linguagem”. Nossa prática com o zazen nos leva a um ponto, o ponto zero, a partir do qual nós não fazemos nada, afora nos concentrar unicamente em tal ponto. Depois do sesshin, nossa atividade de monge zen não pode ser comparada a uma atividade d professor, é uma atividade muito dinâmica, quero dizer fisicamente. Um professor, isso representa oito ou dez horas de trabalho por ida, mas o trabalho do tenzo, ou aquele de quem corta madeira ou trabalha a terra é muito dinâmico.

Para praticar takuhatsu, que consiste em percorrer uma distância de cinco ou dez quilômetros a pé, não é suficiente somente ter uma força moral, é necessário também ser fisicamente muito resistente. É com tal condição de corpo e mente que verdadeiramente, se pode fazer algo de criativo.

Eu já contei a seguinte história umas duas ou três vezes: ouvindo o som de um grande relógio, tive de certa feita a sensação que meu corpo havia desaparecido. Em seguida, para descrever tal experiência, eu empreguei a expressão: o corpo desapareceu e perdemos nossa vida. No budismo zen, falamos da “grande morte”; depois da grande morte, vem a grande vida. Não posso dizer que graças a esta experiência eu fiquei fisicamente forte, mas constato que já há quarenta anos posso continuar tal prática, fracamente, me arrastando…

Existe um mondo entre Mestre Joshu e Mestre Tozu: se bem que já tivesse a idade de mais de sessenta anos, Joshu viajava sem jamais se fixar em parte alguma, o que demonstra uma coragem muito grande, e quando ele chegou para visitar o Mestre Tozu, ele perguntou: “Depois da grande morte, vem a grande vida, então o que ocorre?” Tozu respondeu: “Não vá durante a noite, espere até que seja dia”.

Esta “noite” e este “dia” podem ser colocados em comparação com “calma” e “som”. Esta noite é o silêncio completo, não há sequer um cão que lata, mesmo as plantas estão dormindo, não há sons, nem luar. É este tipo de estado. Não se pode “ir” a algum lugar durante esta noite; neste estado de noite, não se pode falar, não se pode perceber a forma, e mesmo tendo tal experiência, não se a pode transmitir assim. De um lado sim, se pode transmitir através do “tathata com linguagem”, mas as palavras são provisórias. Se temos um conhecimento muito bom, podemos utilizar livremente tal linguagem.

Se vocês tiverem tal experiência, mesmo sendo surdos e mudos, podem transmitir algo, mas devem aguardar a manhã para que o sol se levante e tudo se torne claro. Com a luz, podemos ver uma multidão de formas diferentes umas das outras ­– flores, rios, água – podemos ouvir os sons… mas nestas formas, estes sons, estas percepções, podemos sentir a calma da origem, e neste caso, nada está oculto. Aqui, meu espírito está tranqüilo e este espírito é o fundo, o tathata, a natureza de buda.

Enquanto que os sastras (os comentários sobre sutras) dão uma interpretação teórica dos ensinamentos dos grandes mestres, o zen quanto a ele, aponta diretamente e penetra profundamente nas conversas cotidianas.