Inmo, o Próprio – Quarto Teishô do Sesshin de Maio de 2002 em Eitai-ji

Teishô nº3: Não registrado

Teishô nº4

A última vez, nós estudamos: “O fato de cair sobre o chão e se levantar nos apoiando no chão”.

Hoje será algo diferente.

Leitura de Inmo (p. 121)

(…) Mesmo assim, me parece que compreender somente estas palavras somente assim, sem as compreender também de uma maneira que não seja assim, é deixar de dominar as palavras. Se bem que a expressão da verdade de um buda velho tenha sido transmitida desta forma, quando um buda velho ouve enquanto buda velho, deve haver um estado supremo na maneira de ouvir. Se bem que isto não tenha jamais sido dito nos Céus ocidentais e jamais expresso nos céus superiores, existe uma outra verdade a ser expressa. Há o fato que se aqueles que caem no chão buscam se levantar se apoiando sobre o chão, mesmo que passarem kalpas inumeráveis, jamais eles serão capazes de se levantar. Não podem se levantar senão por meio de um só caminho radical. Quer dizer que aqueles que caem por demasiada confiança se apoiando sobre o chão, inevitavelmente devem se levantar se apoiando sobre o vazio, e aqueles que caem se apoiando sobre o vazio inevitavelmente devem se levantar se apoiando sobre o chão. Se assim não fosse, se levantar seria finalmente impossível. Os budas e os patriarcas eram todos assim. Suponhamos que alguém coloque uma pergunta assim: “O céu e a terra, a qual distância estão eles um do outro?” Se alguém colocar uma pergunta assim, deve se responder da seguinte forma: “O céu e a terra estão separados por cento e oito milhares de quilômetros!” Quando nós caímos nos apoiando sobre o chão, inevitavelmente nós nos levantamos nos apoiando sobre o vazio, e se procurarmos nos levantar de outra forma que seja pelo vazio, isso será finalmente impossível. Quando caímos nos apoiando sobre o vazio, inevitavelmente nos levantamos nos apoiando sobre o chão e se tentarmos nos levantar com a ajuda do chão, isso será finalmente impossível. Alguém que jamais tenha pronunciado tais palavras nunca conheceu e nunca viu as dimensões que tomam chão e céu no budismo”.

Obrigado.

Este é o comentário de Mestre Dogen onde ele mesmo se coloca como buda autêntico. Ele diz que é necessário conhecer ao mesmo tempo os dois aspectos que são inmo (talidade) e não-inmo. Nós já evocamos, durante um sesshin, estes dois aspectos contraditórios da mesma coisa.

Leitura de “Inmo” (p. 127)

O Grande Mestre Musai da montanha Nangaku, de certa feita foi perguntado por Yakusan: “Eu conheço mais ou menos os três veículos e as doze divisões dos ensinamentos. Mas ouvi dizer que no sul, existe uma forma de atingir diretamente o espírito humano, realizar sua natureza e se tornar buda. Isso é algo que, com toda franqueza, ainda não realizei. Rogo a você, Mestre, por compaixão, me ensine”.

Esta foi a pergunta de Yakusan. Yakusan no passado se dedicava a ser conferencista; ele precisamente compreendeu o significado dos três veículos e das doze divisões do ensinamento. Lhe parecia que nada havia no Dharma de Buda que não estivesse esclarecido para si. Naquela época, as doze seitas diferentes ainda não estavam estabelecidas; o fato de esclarecer os três veículos e as doze divisões do ensinamento era aceito como sendo a forma legítima de aprender os ensinamentos. Que muitas pessoas, nos nossos dias, por pura estupidez, estabeleçam princípios individuais e que façam suposições a propósito do Dharma de Buda, isso não é a norma legítima no budismo. O Grande Mestre disse: “É impossível ser assim. Não ser assim também é impossível. Ser ou não ser assim são os dois impossíveis. O que diz você a isto?” Estas foram as palavras pronunciadas pelo Grande Mestre por Yakusan. Verdadeiramente, do fato que ser assim ou não ser assim são os dois impossíveis, ser assim é impossível, não ser assim também é impossível. “Assim” descreve isto. Não é uma questão do uso limitado das palavras e não é uma questão do uso ilimitado das palavras: é necessário que aprendamos isso no estado de impossibilidade e é preciso que aprofundemos o estado de “impossibilidade” até o estado disto. Não é que isto concretamente e que o impossível não dependam de nada além da perspicácia dos budas. Compreender é impossível. Realizar é impossível.

Este é um mondo entre Sekito Kisen e Yakusan Igen. Seigen Gyoshi, Sekito Kisen, Yakusan Igen, Ungan Donjo, Tozan Ryokai… todos estes mestres que recitamos o nome durante a cerimônia matinal pertencem à nossa linhagem, é o começo de nossa linhagem.

Mestre Yakusan era um erudito. Se bem que tivesse lido o Tripitaka (Os três veículos) e que ele tivesse estudado o budismo, ele reconheceu que não havia compreendido diretamente o espírito humano. Ele se mostrou muito corajoso quando disse: “Sei tudo a propósito do budismo e dos ensinamentos do Buda, mas meu espírito não está suficientemente apaziguado para compreender completamente”.

Na época do Sexto Patriarca, não havia divisões entre as diferentes escolas. Um monge tendo recebido a ordenação de um mestre podia ir visitar outros mestres de escolas diferentes para estuda os ensinamentos do Buda. Hoje em dia todos os ensinamentos estão reagrupados em centros universitários budistas, mas naquela época estes ensinamentos estavam um pouco em cada lugar, os alunos deviam viajar e ir de mestre em mestre. Certas escolas diziam que detinham todo o monopólio da verdade do budismo por causa de um sutra ou outro, quando de fato se tratava somente de uma fração do ensinamento.

Então, Yakusan Igen perguntou a Sekito Kisen: “Mestre, por compaixão, me ensine” e Sekito Kisen lhe respondeu com uma outra pergunta lhe dizendo: “Ser assim é impossível, não ser assim é impossível. Ser assim ou não, os dois juntos são impossíveis. O que você tem a dizer sobre isto?”

Esta é verdadeiramente a forma de ir diretamente ao espírito e abrir este espírito, de trazer a consciência total.

Por que “como isto”? Se isto é “assim”, não se pode falar da verdade com “isto”, já que “isto” não pode ser apreendido. Tathata é mais apropriado, com o espírito é impossível de segurar o que seja.

Existe no Shobogenzo, um capítulo chamado “Shin-fukatoku”, “Não se pode apreender o espírito”.

Eu me encontrei com o Shobogenzo e especialmente com o capítulo “Genjo koan” pela primeira vez em 1962 ou 1963 na época que era soldado. Comecei a copiar o Shobogenzo letra por letra e me lembro que quando cheguei ao capítulo “Shin-fukatoku”, naquele preciso momento, decidi me tornar monge. Claro, não compreendia nada do Shobogenzo, mas senti profundamente que naquele texto havia algo que era necessário que eu compreendesse.

Este espírito que não pode ser apreendido, dizemos teoricamente que se trata de algo que é “como isto” ou “assim” (um outro nome seria logos). Este algo não sendo um objeto, e do fato mesmo que não se trata de um objeto, não se o pode apreender. O mestre disse: “Isto” (inmo) não pode ser apreendido, e “não-isto” (“não-inmo”) não pode tampouco ser apreendido, de forma que aquilo que não pode ser apreendido é inmo.

Nos dias de hoje a ciência se confronta com o dilema da complexidade, ela quer achar algo de último, do limite último como o átomo ou os quarks etc. Mas estas coisas não existem, se trata no máximo de funções, de interdependência e por outro lado, quando o cientista analisa os fenômenos, ele tem uma visão de si mesmo como sendo fixo, imutável, quando ele mesmo muda a cada momento exatamente como os fenômenos.

Voltemos ao que dizia Mestre Dogen. Se Dogen Zenji, nesta situação, quisesse se exprimir como autêntico buda, ele deveria dizer algo que fosse além do que tivesse dito anteriormente. Isso então seria dotoku (expressão da verdade) da parte de Mestre Dogen. De fato, neste capitulo, existem cinco casos, cinco histórias, que são de certa forma ligadas. Agora, voltemos à história do começo.

Leitura de “Inmo” (p. 120)

(…) Assim, a talidade do som e da forma podem ser isto; a talidade do corpo e da mente pode ser isto; a talidade dos budas pode ser isto. Por exemplo, no momento em que se toca o chão se nós o compreendermos como isto, então será isto; e no instante mesmo quando nos levantamos e nos apoiamos inevitavelmente sobre o chão, não nos colocamos a questão de saber se a queda havia tomado lugar no chão.

De alguma forma, a resposta de Mestre Dogen, que se coloca na postura de um interlocutor de sua expressão de velho buda, lhe ajuntou esta letra que pode ser o céu, o espaço, o vazio e é por isso que ele disse: “Se bem que jamais tenha sido expresso nos Céus ocidentais e jamais nos céus superiores, existe uma outra verdade que deve ser expressa. Há o fato que se alguém cair pelo chão e busca se levantar pelo chão ele poderia passar kalpas inumeráveis nisto sem jamais conseguir. Ele pode somente se erguer por um caminho radical: quer dizer que aqueles que caem se apoiando no chão se levantam inevitavelmente se apoiando sobre o céu”.

Tentemos compreender esta parte: “o céu e o chão”.

Nós dissemos que quando tombamos pela ilusão, neste caso podemos nos levantar somente pela ilusão, pelo chão. “Se levantar pela ilusão”, é ver que esta ilusão não é mais ilusão no momento da queda porque compreendemos que a ilusão é como “isto”. Se, vendo a forma verdadeira da ilusão, compreendemos a teoria (ou o logos) de tal ilusão, somos então capazes de apreender as razões da manifestação de tal ilusão, se bem que neste momento preciso, esta ilusão deixa de ser uma ilusão. Esta ilusão que não é uma ilusão, Dogen Zenji chama de “o vazio”.

Quando alguém cai pela ilusão, quem compreende as razões por que ele caiu pela ilusão? Então, existe a ilusão, o chão, os quais, quando vemos as razões desta ilusão, se tornam o que chamamos de vazio ou de céu. No momento quando percebemos as razões desta ilusão, esta ilusão revela nossa forma verdadeira e atingimos a saúde. É a razão pela qual aqueles que caem pelo chão, com toda certeza, se levantam se apoiando no céu.

Meister Eckhart dizia: Quando nós rezamos para Deus para Lhe pedir de nos ajudar e Ele não responde, isto é o silêncio de Deus, (é como “aquele que cai no chão e que se levanta com o chão”) e neste caso, pouco importa se Ele responde ou não. Este silêncio, este maha-muni é muito importante para o futuro. Quando Deus fica quieto, este silêncio é a resposta de Deus. Para mim, este silêncio que é o vazio, esta não resposta quer dizer aceitação. Se você puder aceitar esta não resposta, este silêncio, isso quer dizer que Deus já está em nós, que jamais seremos separados de Deus, e com isto não há mais necessidade de Lhe perguntar que Ele te dê ou não uma resposta já que finalmente quer Ele responda ou Se quede silencioso, não faz diferença alguma.

É possível que esta filosofia, esta questão da resposta de Deus, esteja muito além da teoria da vacuidade.

Eu retomei o estudo do Madhyamaka (O tratado do caminho do meio) de Nagarjuna, mas devo dizer, no que me toca, somente o começo e algumas passagens deste texto me pareceram interessantes. Parece-me que existe uma tradução francesa, eu estou procurando ela. Este mundo do Dharma é realmente muito grande. Não nos resta muito tempo ainda, mas gostaria de ler novamente este extrato de “Inmo”.

Leitura de Inmo (p. 122)

(…) A qual distância se encontram céus e terra? Se alguém me colocasse esta pergunta, seria necessário responder da seguinte maneira: “Céus e terra estão separados por cento e oito milhares de quilômetros! Quando caímos nos apoiando sobre o chão, sem falta nos levantaremos apoiando no céu e se buscarmos nos levantar sem a ajuda do céu, isso será, finalmente impossível. Se cairmos nos apoiando sobre o chão e tentarmos nos levantar sem a ajuda do chão, isso será, finalmente, impossível”. Alguém que não tenha jamais pronunciado tais palavras nunca conheceu, e nunca viu, as dimensões da terra e do céu no budismo.

Qual é a distância entre o céu e a terra? A resposta é: “cento e oito milhares de quilômetros” ou seja, uma distância incalculável ou ainda: isso não pode ser apreendido (fukatoku), uma outra maneira de exprimir seria: não sei.

Voltemos mais uma vez a este texto “Inmo” (p. 120)

(…) Este estado não pode ser sondado mesmo pela perspicácia de um buda, não pode ser sondado pelo discernimento do espírito, não pode ser sondado pela consideração do mundo do Dharma e não pode ser sondado pela consideração do universo inteiro. Pode ser somente descrito como “Você já é uma pessoa disto: por que se preocupar de atingir este assunto que é isto?”

Estou desolado, é um pouco complicado, mas vocês mesmos em seguida retomem este texto e o leiam com freqüência.

Assim, este estado, não se o pode avaliar ou medir mesmo com o espírito do buda, mesmo com seu próprio espírito, mesmo com o mundo do Dharma, mesmo com o universo inteiro, porque todas estas coisas: perspicácia do buda, mundo do Dharma, universo inteiro, espírito, são “isto mesmo” pela interdependência. Inmo é “isto mesmo”. De fato, não se trata de “coisas” mas de uma razão que opera as coisas. Com efeito, como apreender isto com o Buda ou com o espírito, quando o Buda, o espírito têm suas origens neste ensinamento de inmo? É por isso que inmo, ou a razão pela qual somos “isto mesmo” não podem ser expressas. Inmo está além de toda medida, não pode ser dividido entre objeto e sujeito porque a aparência e o que está operando por trás são uma só e a mesma coisa. É impossível de cortar inmo em dois, para em seguida avaliar e comparar cada uma das seções. Sobre o que exprime Dogen Zenji (neste texto especialmente) os cientistas deveriam um dia refletir.

Vejam este sistema de complexidade: nós compreendemos (de forma superficial) que o vazio é a interdependência, mas compreender que o mundo é interdependente não resolve o problema. Ao contrário, compreender que cair no chão dizendo: Ah! Isto é uma ilusão! E com isto se levantar com o céu, é uma experiência onde a ilusão é percebida como ilusão. Esta experiência é uma percepção da forma verdadeira; esta ilusão nos mostra o que é a verdade, e com isso a interdependência, a saber inmo, inmo que não podemos nem tocar nem avaliar nem pegar, mas que nos permite voltar a este mundo para trabalhar aqui.

Afim de nos permitir compreender um pouco, de um ponto de vista teórico, isto de que falei quanto a inmo, cuidado para que esta transcrição seja especialmente rigorosa.

Amanhã veremos uma outra parte.

Pergunta: Quanto a cair. Então, caímos no solo, tomamos os fenômenos como sendo vacuidade. Mas o que quer dizer “cair”? Será viver de forma comum nos fenômenos ou será algo de negativo, como entrar num estado especial (por exemplo a angústia), porque cair é algo de negativo? Ou será que cair é uma ação, algo de especial que faz com que possamos nos levantar depois graças a esta compreensão dos fenômenos como sendo a vacuidade? Cair é uma ação comum ou especial ou será que é somente estar na vida comum?

Resposta: Quanto a esta expressão “cair”, posso considerar que o fato de cair é um erro e que esta queda se produz num estado de sofrimento. Mesmo assim, se eu puder “entrar” nesta situação e ver a talidade, eu realizo então que este sofrimento não é um sofrimento. Se bem que ele persista e que seja difícil, posso aceitá-la, então este sofrimento não é um sofrimento.

Em geral existe um momento quando saímos correndo, sem nos preocuparmos com o lugar para onde vamos. Mas como eu disse no primeiro dia, é necessário evitar a ação, tentar nada fazer, ou fazer tudo que se pode fazer para chegar a este estado de nada fazer. Isso é o shikantaza.

Estando neste estado do “Eu não sei”, limpando tudo que é eu mesmo, tenha certeza que Deus encherá tudo que foi esvaziado.

Para obter uma tal segurança, uma pessoa inquieta vai começar a agir de forma estúpida, e fazendo isto, com certeza vai cair no chão. Mas ao contrário, sentados em zazen, vocês já estão preparados para receber (os efeitos desta queda no chão), se bem que finalmente “isto” não caia, “isto” permanece suspenso no espaço.

O primeiro sutra da manhã “Kanzeon Bosatsu fumonbonge” fala disso. Este sutra diz: “Se alguém lhe empurra do alto de uma torre e que no instante que você caia, você puder evocar ou imaginar a força do Bodhisattva Kannon, então certamente você ficará suspenso no ar”.

Imaginar o poderio do Bodhisattva Kannon, isso não é se apoiar no chão para se levantar do chão, mas isso é compreender que este sofrimento não é sofrimento, é se tornar você mesmo o espírito do Bodhisattva Kannon, o que quer dizer que você não está prestes a lhe implorar, você mesmo é o bodhisattva Kannon e então você se torna livre. Neste sentido “cair no chão”, é algo por aí, este tipo de situação.