Inmo, o Próprio – Segundo Teishô do Sesshin de Maio de 2002 em Eitai-ji

Teishô nº2

Leitura de “Inmo” (p. 120-121)

(…) Isto pode ser somente descrito “Você já é uma pessoa disto: por que se preocupar em atingir esta questão que é isto? Assim, a talidade do som e da forma podem ser isto; a talidade do corpo e mente podem ser isto; e a talidade dos budas pode ser isto. Por exemplo, no momento de cair no chão, se nós o compreendermos como sendo isto, será isto; e no mesmo instante, o fato de se levantar se apoiando inevitavelmente no chão, faz que não nos maravilhemos do fato que a queda tomou lugar no solo. Estas são palavras pronunciadas desde os tempos antigos, foram pronunciadas desde os Céus do Oeste, foram pronunciadas desde os céus superiores. Estas palavras dizem: “Se nós caímos pelo solo, nós nos levantamos pelo solo. Se nós tentarmos nos levantar por outro meio que não o solo, isso será finalmente impossível”. Em outras palavras, aqueles que caem pelo solo, e se quiserem se levantar sem se apoiar sobre o solo, não podem jamais conseguir isto. Se considerarmos isto que está descrito aqui, nós o teremos percebido como o começo do fato de atingir a grande realização e nós fizemos o estado da verdade que cobre o corpo e mente. Assim, se alguém perguntar: “Qual é o princípio da realização da verdade dos budas?” nós dizemos: “É como alguém que cai no chão e que se levanta através do chão”. Dominando tal princípio, é preciso que penetremos e esclareçamos o passado, é preciso penetrar e esclarecer o futuro, e é preciso penetrar e esclarecer o preciso instante do presente. Grande realização e grande não realização; voltar à ilusão e perder o estado da ilusão; estar limitado pela realização ela mesma e estar limitado pela ilusão ela mesma: cada um destes estados é a verdade de alguém que tombou pelo solo e que se levanta se apoiando no solo. É uma expressão da verdade nos céus superiores e por toda parte sob os céus, é uma expressão da verdade nos Céus do Oeste e nas Terras do Leste, é uma expressão da verdade no passado, no presente e no futuro e é uma expressão da verdade dos velhos budas e dos novos budas. Esta expressão da verdade não é jamais imperfeita em sua expressão e nunca lhe falta o que quer que seja na expressão.

Neste extrato do capítulo “Inmo” que acabamos de ler, Mestre Dogen diz: Por exemplo, no momento de cair no solo, se nós o compreendermos de tal maneira, nós o compreendemos como sendo isto. Simultaneamente, neste preciso momento, quando nos levantamos nos apoiando – palavra a palavra: nos fiando ao solo – não nos espantamos que a queda tenha tido lugar no solo.

Aqui, não somente é estranho, mas também é complicado, e por outro lado é a primeira vez que eu começo a falar disto.

É importante compreender o que é o solo. Se alguém cai no solo, existe uma razão para tal e esta razão é inmo; inmo neste “como isto”, é talvez mais tathata no sentido de “verdade” do que talidade. Com efeito, se você compreender a razão que lhe fez tombar no chão, quando você se levanta a partir do chão, não fica surpreso, não se espanta de nada, porque o fato de se levantar também é inmo. Quando você cai no chão e quando se levanta do chão, é a mesma razão que está operando. Isto continua a ser complicado…

Quando pela primeira vez encontrei esta expressão “cair no chão e se levantar apoiando no chão”, achava que se tratava simplesmente de cair para em seguida se levantar de forma idêntica. Um exemplo: se você perde dinheiro, você cai por terra, “sobre o solo” e quando recupera o dinheiro, se levanta da mesma forma, se apoiando sobre a mesma coisa. Da mesma forma, se você perde um trabalho ou uma família e os encontra em seguida, é como se levantar se apoiando sobre o mesmo terreno.

Esta explicação é fácil demais, eu diria mesmo uma simplificação, e é por isso que temos que avançar num terreno mais abstrato.

Porque nós nascemos com nossas ilusões (bonno soku bodai), estas ilusões, ilusões que mesmo assim engendram o despertar, nos fazem cair sobre o solo. Um exemplo: acontece às vezes que os mestres, quiçás muito simpáticos, carismáticos, apreciados por todos, tenham relações afetivas pouco convenientes com mestres mulheres. Se, depois de terem sido censurados pelo comitê da Sotochu, eles compreenderem que suas ações tivessem sido ilusões, eles se levantariam de suas quedas e continuariam como anteriormente, se bem que esta ilusão (inmo, talidade) se torne a grande iluminação. Com efeito, a razão ou a ilusão que nos leva a agir nos conduz a nos reencontrar nesta mesma ilusão, é o estado do Dharma – Dharma, tathata (talidade), natureza de buda, verdade – que manifesta nossa natureza original através deste estado de ilusão.

Nós fazemos uma diferença, uma discriminação entre ilusão e grande realização, quando de fato ambos são inmo, os dois têm esta característica de talidade.

No sesshin anterior, falamos das imagens de um pintura numa tela, a saber, que existe a pintura (a cor) e a tela na qual está depositada tal cor. Tathata (talidade) e consciência alaya têm estes dois aspectos, elas são como a cor sobre a tela. Tathata, dharmakaya (o Buda cósmico) e alaya de fato não aparecem, não possuem nome algum, nenhuma forma. O problema é que este tathata tem por natureza querer se manifestar, um pouco como o deus escondido: o deus escondido é tão rico que se não acontecer algo, ele será diminuído e sofrerá.

Este algo pode ser – sob todas reservas e segundo, creio eu, os gnósticos neoplatônicos – aquilo que, separado do “um” realizado plenamente, flui de um ponto, um ponto zero o qual, em se dividindo, começa a discriminar e com este fato, a produzir também o nome e a forma.

Assim, em todos os fenômenos, nós podemos ver (com a condição, claro, de ter olhos para isto) a presença de tathata. Este tathata é como uma pintura sobre a tela, mas se bem que a pintura e a tela formem um todo, na maioria do tempo nós percebemos somente a imagem.

Se você cair no chão, e que no instante que cair no solo você realiza a presença da razão que tinha feito você cair, o fato mesmo de compreender esta razão é a iluminação e o fato que nos levantamos.

Em todos os fenômenos, podemos ver inmo (a talidade), tathata (verdade) sabendo o tempo todo que este tathata não é fixo, mas ao contrário algo de dinâmico e que se mexe a cada momento.

Em japonês existe a expressão seguinte: é no nascimento de seu próprio filho que você começa a compreender seu pai que já está morto. O mesmo acontece com a relação entre mestre e discípulo.

Quando somos jovens temos idéias bem precisas sobre o que está correto e o que não está. No zen, constatamos que o mestre não é sempre aquilo que gostaríamos que fosse, esquecemos que o mestre é ele também uma pessoa humana com seus problemas pessoais. O dilema é que com a idade, se um dia nos tornarmos mestres, reproduziremos os mesmos erros. Não podemos dizer que se trata verdadeiramente de erros, mas de ações parecidas porque a vida sendo o que ela é, é impossível que controlemos tudo. Querendo satisfazer certas pessoas cem por cento, arriscamos não satisfazer outros. Privilegiando um certo lado, negligenciamos um outro e assim por diante.

Numa mesma pessoa existem dois aspectos, um que é oficial, o segundo que é do domínio da vida particular (a família, amigos). Quando criticamos nosso mestre, é necessário esperar receber por sua vez as mesmas críticas, pelas mesmas razões, porque nos é impossível controlar tudo. Mesmo assim a crítica pode ser salutar porque ela nos permite compreender nossas próprias ilusões.

No que me toca, foi depois da morte do meu mestre que compreendi que aquilo que tomava como defeitos nele eram de fato suas particularidades, e hoje em dia sinto uma grande nostalgia quando penso nele, porque constato que tenho os mesmos defeitos. Tudo isso é muito dinâmico, muito humano, não é algo de abstrato.

Se compreendermos – e o compreendermos bem – as razões que nos fazem cair no chão, vemos que estas mesmas razões nos permitem levantar novamente, o que nos remete novamente a esta passagem de “Inmo” sobre a qual eu esperava passar…

(…) Por exemplo o momento de cair no chão, se nós o compreendermos profundamente como sendo aquilo e como sendo o momento verdadeiro onde compreender profundamente, é compreender que se trata disto, o fato de compreender profundamente aquilo que é o presente e ao mesmo tempo de nos levantar nos apoiando inevitavelmente sobre o chão faz com que não estejamos surpresos que a queda tenha tido lugar no chão.

Não ficamos surpresos”. Por que? Porque existe esta compreensão profunda da talidade. Não estar surpreso quer dizer no momento onde nós compreendemos, bonno (as ilusões) se tornam bodai (iluminação).

Contudo, é necessário desconfiar, porque compreender unicamente no plano teórico, quer dizer, se satisfazer destas ilusões as considerando como o estado do despertar é se acomodar bastante de suas existências e nos levar a pensar que quanto mais existem ilusões, mais o despertar é profundo. De fato, não, não é assim que isto funciona. Achar assim nos faz ficar no solo junto com as ilusões, ficar no chão sem poder nos levantar.

Se bem que tenhamos originalmente a natureza de buda como diz Dogen Zenji, é necessário contudo que esta pequena fagulha de espírito de despertar comparável ao efeito borboleta para produzir esta mudança que permite fazer grandes coisas.

Em seguida vem a idéia que somos perturbados pela iluminação, “perturbados” querendo dizer que ainda é necessário praticar porque isso perturba, que é necessário continuar e que quanto mais se é perturbado melhor é a prática.

Isso concorda com o que ensina Mestre Shinran, fundador da escola da Terra Pura (Jodo-shin-shu), que disse: “Compreender o voto do Buda Amitabha, é compreender que sua única preocupação era de ir em direção a estes votos que têm estes tipos de ilusões”.

Como disse anteriormente, achar que na nossa existência é necessário que tenhamos ilusões e agir achando que estas ilusões são nossa vida mesma se esta vida é problemática, é ter uma má compreensão e buscar um apaziguamento de espírito de forma errada.

Claro que nós temos ilusões, desejos, dos quais tentamos nos purificar. De uma certa forma, podemos chegar a isto compreendendo os desejos, mas se estes desejos ou estas ilusões são hereditárias, ou causadas por problemas fisiológicos, compreender não servirá de nada já que não se pode deter isto. Tomemos o exemplo dos fumantes: sabemos bem que fumar é nocivo, mas mesmo assim fumamos. Se fumamos de tempos em tempos, por que não? O problema é continuar a fumar sabendo que é nocivo e assim continuar a sofrer… Compreendemos isso, mas não conseguimos nos deter. No caso de um fumante, o fato de tentar parar de fumar dá origem a dilemas, os quais se forem vividos de maneira muito dinâmica podem produzir algo de interessante. No que me toca, talvez algum dia a talidade se mostre sob a forma de um problema pulmonar e neste caso, não é ele quem quer parar , é a natureza que fará isso em seu lugar. Isso então será inmo (“assim mesmo”) e este sofrimento não será mais completamente um sofrimento já que compreenderá porque ele age.

Leitura de “Inmo” (p. 121)

(…) Grande realização e não realização; voltar ao estado de ilusão e perder o estado de ilusão; estar limitado pela realização ela mesma e estar limitado pela ilusão ela mesma: cada um destes estados é a verdade de alguém que cai no chão e se levanta se apoiando no chão.

Assim, ter a grande iluminação, é a mesma coisa que não ter a iluminação. É “grande realização” e “não-realização”, é voltar à ilusão e perder o estado de ilusão, é, indo até o fim daquela ilusão, simplesmente atingir o despertar. No fim das contas este encadeamento de ilusão-realização produz num dado momento o ponto de encontro e de perfeito equilíbrio entre grande realização e não realização. Este aspecto se chama butsu kojo (além do estado de buda).

Na escola Rinzai existe um treinamento depois do kensho (iluminação). Se trata de um treinamento que consiste em esquecer esta iluminação, porque se não esquecermos este despertar, o ego cresce. Podemos constatar e é bastante curioso, que o fato de ter tido uma experiência de não ego tem por resultado fazer crescer o ego e ficarmos orgulhosos de tal experiência. Alguém um dia perguntou ao Mestre Sawaki se ele tinha tido o despertar e ele respondeu: “Não, nunca”, a pessoa que perguntou chorou.