Incêndio em Ouro Preto

Pergunta: Mestre Tokuda,

Como, mediante a calamidade do incêndio no mosteiro Pico dos Raios o senhor mostrou nenhuma compaixão e consideração para com a monja (Mariângela) e o próprio lugar? Ela vive um desamparo absurdo, fiquei indignada.
Que budismo é este que o senhor divulga?

Resposta
: Olha, quando estive no Brasil, aconteceu esse incêndio do mosteiro Pico de Raios, que queimou o telhado e os livros. Você não pode imaginar como isso foi triste para nós. Morei mais de quinze anos no Brasil, e dediquei minha vida para Belo Horizonte e Ouro Preto. E agora está caindo, arruinado. Vocês mesmos não têm força para levantar isso e agora estão me cobrando.

Acho que há algum mal entendido, algo de mal assimilado aqui desde o começo mesmo. Meu trabalho não é o de levantar um mosteiro. O trabalho de um monge é transmitir o Dharma, ou seja, o ensinamento do Budismo.

Minas Gerais é um estado muito interessante, mesmo mestres espirituais não são aceitos tão facilmente. Primeiro os mineiros olham da cabeça até os pés, dos pés até a cabeça, duas ou três vezes, e quando não vêem qualidade na pessoa, não ligam para títulos e não aceitam a pessoa. Por isso, é muito difícil penetrar, nos primeiros três a cinco anos, entre os mineiros, mas uma vez aceito, aprovado, todas as portas de casa são abertas para você, mas até lá tem que agüentar.

Isso, vocês mineiros, não podem nem imaginar. Mesmo meus discípulos de acupuntura que vieram de outros estados, do Rio, de Rio Grande do Sul, os primeiros três a cinco anos sofreram muito, até acharem uma namorada ou casarem. Aí sim, já pode se estabelecer com tranqüilidade.

Nessa época trabalhei muito, não sei se você me conhece pessoalmente, acho que não, senão não teria feito esse tipo de pergunta. Trabalhei realmente muito, levantando às 6 horas da manhã para a meditação, depois mako-hô, café da manhã com todo mundo junto e depois às oito horas começava atender pessoas com acupuntura ou shiatsu, junto com brasileiros. Cada vez, um ao meu lado no consultório revezando. Eu estava ali demonstrando, ensinando todo o método de praticar e trabalhar com acupuntura. Em seguida, tínhamos o jantar e depois, às 19:30, começavam as aulas de medicina Chinesa ou zazen à noite. Eu trabalhava assim, dedicando tudo, pagando tudo.

As pessoas não ajudavam, não. E nós trabalhávamos muito e dávamos tudo. Acho que o mal entendido veio disso, de achar que monges têm de dar tudo às pessoas. Vocês obviamente acham que os monges são aqueles que dão tudo o que se precisa, mas não é isso não. Os monges dão o Dharma, e os leigos, vocês, dão coisas materiais, dinheiro ou doações. Com isso fica completo. Acho que isso não foi assimilado. Em todo o caso, não estou cobrando, não estou reclamando, eu já trabalhei assim. Pergunte a qualquer pessoa que conheça minha vida no Brasil, principalmente em Belo Horizonte.

Depois que os cursos terminavam, atendia pessoas em domicílio, doenças terminais, como o câncer. Ao mesmo tempo, ia na chuva, visitava alguns senhores ou senhoras idosos que não podiam andar, atendia na casa deles, muito distante, andando na rua na escuridão. Fiz todos esses atendimentos. Alguns morreram, mas com grande agradecimento, principalmente família. Por isso, minha relação com Belo Horizonte tem uma lembrança que é muito profunda: eu considero Belo Horizonte, Minas Gerais como minha terra natal, minha segunda terra natal.

Como dizem, “Se você tiver um bastão eu lhe dou mais um, se não tiver eu tiro esse de você”. Esse é um koan, mas é muito simples, não é complicado. Se você sabe dar algo, não necessariamente dinheiro ou coisas materiais, mesmo um sorriso, carinho, ensinamento do Dharma, muita gente vai chegar, e com isso você vai receber.

Há quantos anos a Mariângela mora lá? Sei que ela tem muitas dificuldades, mas não é só com ela. Muitos monges no Brasil estão trabalhando muito sem esperar que outras pessoas ajudem (isso no sentido de carência, de só querer receber o tempo todo). Eu dava muito naquela época, mas não estou mais lá. Mesmo os filhos pequenos crescem e o que aprenderam com o pai, devem começar a produzir e dar. Só esperando, ninguém vai dar. Quando começa a dar, você também recebe de volta. Isso é a primeira coisa que se tem que entender para poder levantar.

Leigos também não devem cobrar dos monges. Vocês mesmos podem ajudar para levantar Ouro Preto ou Belo Horizonte mas, pelo visto, não têm força suficiente. Segue-se então que alguma coisa está errada. Tem que olhar isso, o que está acontecendo realmente. Até certa época, eu me lembro, muitas pessoas participavam do sesshin. Mas aconteceu alguma coisa aí depois e as pessoas começaram a se afastar. Tem que refletir sobre o que é isso.

Não adianta dar dinheiro para mendigos todos os dias. Num certo momento sim, com isso alivia a fome, pode salvar uma vida, mas todo dia não pode dar dinheiro. Tem que dar uma maneira de ganhar a vida, isso sim. Em Ouro Preto tem todas as condições para fazer uma pousada, simples, limpinha, cobrando barato, e num lugar maravilhoso, tem jeito de ganhar a vida. Tem que estudar isso. Os leigos, mesmo dando opiniões e conselhos podem ajudar a fazer funcionar isso. Falei isso já várias vezes, mas não fui ouvido. Aí não dá. Todos os brasileiros, monges, monjas, chegam até perto, mas não visitam o mosteiro. É quando o mosteiro não recebe pessoas que ele cai, não é bem com incêndio que o faz cair, mas porque ninguém vai lá. Isso é muito simbólico, eu acho.

Se tiver outras perguntas pode perguntar, eu aceito qualquer crítica, mas o que eu realmente quero é que você entenda essas coisas. Ainda sobre isso, naquela época, em Pirenópolis passávamos dificuldades tão grandes, de perder o terreno comprado, pagávamos a metade, perderíamos o terreno e ainda perderíamos metade do que nós pagamos. Então para segurar isso, quando ia ao Brasil, trabalhava bastante, visitava Belo Horizonte. Simone organizou cursos. Em Recife, Porto Alegre, Rio de Janeiro, onde havia um grupo Zen, nós trabalhávamos, para arrecadar o dinheiro para poder segurar Pirenópolis. Esse dinheiro não se comparava com o necessário para levantar Ouro Preto, não. Era cinqüenta vezes mais, talvez. Nunca peguei dinheiro emprestado, não. De repente, veio isso, perigo de perder tudo e ninguém ajudou. Quem ajudou foi Marcos e Suni do Shishindo Spa Zen, e Goiânia onde principalmente Marcelo e Terezinha ajudavam, através do Spa Day deles, o Nonindo; entre a Sangha, praticantes Zen, quem ajudou foram as pessoas do Recife. Emprestaram 5.000 reais, depois não cobraram mais isso, ficou como doação, não precisou devolver, e ainda mais 5.000 deram. E disseram que tinham capacidade de dar ainda mais. Foi o único grupo que ajudou. Esse grupo é o único que está cobrando direito, com mensalidades, e todo mundo está contente, bem organizado, funcionando bem. É assim. Então, quando dá, recebe. Isso não é lógico, mas realmente funciona.

Então perguntei para o tesoureiro naquela época, quanto tem de capacidade monetária. Ele disse, “Tem tanto”. Então podemos dividir para Ouro Preto. Mas em primeiro lugar tinha de segurar Pirenópolis, senão perdia tudo e o dinheiro já pago do terreno, também perderia metade. Nessas coisas internas, com situações delicadas, tomamos decisões. Agora podemos falar isso. Mas quando não tem confiança, quando não tem comunicação de coração para coração, não dá para comunicar isso.

Ofereci também trabalho para as pessoas que moravam no mosteiro de Ouro Preto, isto é, a venda de nossas fórmulas de fitoterapia, que estão ajudando muito em Goiânia, mas por alguma razão estúpida, as pessoas de Ouro Preto recusaram. Ofereci para essa pessoa que não sabia ganhar a vida, para justamente poder ganhar, e a pessoa simplesmente recusou. Quer dizer, não queriam sequer trabalhar. Responderam que queriam que eu revelasse os ingredientes que compõem as fórmulas fitoterápicas, antes de aceitarem o trabalho, senão achavam que não poderiam vender. Mas isso é estúpido, porque vendendo bem se ganha com isso. Você sabe a fórmula da Coca-Cola? Ninguém sabe, nem diretores de cada seção, porque tem uma maneira de dividir que somente uma pessoa sabe. Então, a pessoa que estava em Ouro Preto recusou. Eu ofereci um trabalho para se sustentar, mas foi recusado. O que posso fazer?

Ouro Preto é maravilhoso para funcionar a pousada, não é muito difícil para levantar. Não adianta receber dinheiro todo mês, todo ano, não é isso. Se realmente estamos praticando o zen, agüentamos todas essas dificuldades e levantamos com essas virtudes como naquela época em que a Sangha (comunidade de praticantes) de Belo Horizonte levantou Ouro Preto. Compramos terrenos de vários vizinhos, com a força da Sangha de Belo Horizonte. Mas na quarta vez que fomos comprar um terreno para completar o terreno do mosteiro, os vizinhos pediram um preço absurdo, aí nós perdemos a vontade de aumentar o terreno. É isso, essa é a história.

Compaixão não é somente dar dinheiro, é dar o ensinamento para se ter força de levantar seu próprio lugar, principalmente monges e monjas.

Você, que fez a pergunta, está no momento dando alguma ajuda através do pagamento de mensalidades? Ajudar corretamente. É isso, simplesmente. Houve alguma vez na sua vida que você tenha pago, seja uma mensalidade, seja uma anualidade da Sociedade Soto Zen do Brasil? Se não pagou, como pode achar que tem o direito de cobrar dos outros? Primeiro você mostra como se coloca, o que você fez pelo mosteiro, se pagou mensalidades, anualidades, aí sim, eu aceito.

Para ir fundo nessa questão, eu quero sua resposta quanto a essa questão, o que você colocou aqui, não estou zangado, não estou chateado com você, não. O importante é entender o sentido de Sangha. Doação do Dharma do lado dos monges, doação de dinheiro ou materiais ou dinheiro do lado dos leigos, com esse encontro, aí está a verdadeira doação. Essa é a primeira coisa, antes de qualquer conversa.