O corpo exposto, o vento dourado

Caso 27
O corpo exposto, o vento dourado

(publicado originalmente na Flor do Vazio #4)

Proferida em Buenos Aires, Argentina, durante um sesshin da primavera de 1983.

O caso

Um monge perguntou a Ummon: “O que acontece quando as árvores secam e as folhas caem?”

Ummon respondeu: “O corpo exposto, o vento dourado.”

Palestra

A crônica do Penhasco Azul, um clássico Zen, é considerado um dos livros mais importantes para os praticantes Zen. Tem cem casos. Aqui tomei este caso do mestre Ummon, em Japonês Unmon:

Um monge perguntou a Ummon: “O que acontece quando as árvores secam e as folhas caem?”

Ummon respondeu: “O corpo exposto, o vento dourado.”

Mestre Ummon fundou uma das escolas de Zen. Antigamente, na China, existiam cinco escolas: Igyo, Hogen, Rinzai, Ummon e Soto. Hoje em dia apenas duas escolas continuam transmitindo: Rinzai e Soto. As outras linhas desapareceram.

Depois do sexto Patriarca Hui Neng, surgiram estas escolas e cada uma delas tem suas próprias características.

Como todos já sabem, a escola Rinzai se assemelha a generais que, montando a cavalo, mandam suas tropas para se enfrentarem em batalha. Assim os monges Rinzai, podendo dar uma grande influência à sociedade, se aproximaram dos governadores e dos poderosos e foram convidados a participarem como conselheiros nacionais.

Contrariamente a isto, a escola Soto se ligou mais com lavradores e agricultores; penetrando no interior e se aproximando dos camponeses que trabalhavam a terra. Não precisavam mostrar suas experiências, conhecimento, sabedoria ou títulos. Trabalhando junto dos lavradores cumpriam suas tarefas.

Agora, a escola do mestre Ummon é considerada a Escola do Imperador. Brilhando dentro daquele palácio, no bosque, onde as bandeiras vermelhas do Imperador estão tremulando ao vento, ali está Ummon. Todo mundo sabe, mas ninguém vê o estado ao qual Ummon chegou – algo fora de nosso alcance durante todas nossas vidas. Este caso mostra exatamente as características típicas de mestre Ummon.

Um monge perguntou à Ummon: “O que acontece quando as árvores secam e as folhas caem?”

Esta pergunta não é tão fácil. Este monge não é um novato qualquer sem experiência. Tem um certo tipo de experiência e tem orgulho e aproveitando a paisagem de outono, está testando seu próprio mestre. Este monge é um bandido!

“O que acontece quando as árvores secam e as folhas caem?”

Aqui, em Buenos Aires, estamos no fim do outono. O inverno está chegando. As árvores mudam de cor, caem suas folhas amarelas. A paisagem fica um pouco triste, branca: “Como é quando a árvore seca?” Que é isto? Isto pode ser interpretado de várias maneiras mas o koan não precisa ser respondido imediatamente. É bom levá-lo na consciência até que o incorporemos ao inconsciente. Perguntando, respondendo.

Esta pergunta é muito forte. Paisagem de outono. A resposta é mais forte ainda: “O corpo exposto, o vento dourado”. Respondendo também com a paisagem de outono. Sempre repetindo a pergunta e a resposta. Talvez, um dia, a possamos compreender.

Em todo caso, sempre se pode dar uma interpretação à esta pergunta: “Como é quando as árvores secam e as folhas caem?” Árvore, tronco, raiz, tudo isto é vida, mas também morte. O mundo do Samsara, da ilusão, cai, murcha e seca.

Na primavera crescem novas folhas, novas energias, mas ao mesmo tempo cresce a ignorância, as ilusões de cada dia. Agora a primavera passou, o verão, o outono, fim do outono e se alcança o Nirvana, apagando todos os sentimentos, ilusões e emoções. Mas as folhas também caem.

No Zen não se procura a dualidade. Tanto o mundo da ilusão, nascimento, como o mundo da iluminação; ambos tem que ser negados. Normalmente queremos sair deste mundo profano e entrar no mundo sagrado. Isto contudo, para nós que praticamos Zen, não é ainda suficiente. É necessário que abandonemos este mundo sagrado e que retornemos a este mundo onde estamos aqui e agora. Se não, para que fazemos todo este treinamento?

Tanto o mundo sagrado quanto o profano têm que ser negados.

É neste sentido que devemos estudar isto: “Como é quando as árvores secam e as folhas caem?” Ummon disse: “O corpo exposto, o vento dourado.” Talvez isto se possa traduzir como: “Tudo está manifestado, nada está escondido,” não somente o corpo físico. Em Japonês Tai quer dizer corpo, mas também quer dizer todo.

Isto é, tudo está exposto ao vento dourado, ao vento de outono… Ao chegar o outono, talvez passando pelo pampa, podemos ver uma plantação de trigo. Tudo, tudo está amarelo, maduro, e o vento vai formando aquelas ondas douradas na plantação, bonito.

Assim, o mestre Ummon responde a esta pergunta também com a paisagem do outono. Vemos aqui as três características do mestre Ummon; a primeira característica é responder a pergunta diretamente, como a tampa do pote de madeira da cerimônia do chá, onde a tampa e o pote se encaixam tão perfeitamente que a parte que encaixa nem se vê. Assim, as perguntas e as respostas se encaixam. Aquela paisagem de outono, no fundo, atrás, está o sentido da pergunta. E, aproveitando esta mesma paisagem, está respondendo claramente a pergunta. A segunda característica é que o mestre Ummon corta todas as ilusões como se cortam pregos, ou seja ignorâncias, algo que é difícil de cortar. Corta tudo, pela raiz. A terceira característica é que ao responder à uma pessoa, responde a todas, como uma onda, a onda de uma pedra que é jogada na lagoa. Estas três características se encaixam para o praticante zen, perguntas e respostas.

O universo é uno, inteiro, devemos nos tornar uma só coisa.

Às vezes, velejando, vemos o horizonte e o mar, os oceanos, torna-se uma só coisa, sem diferença. Assim aquele que medita, praticando o zazen, se torna terra, céu,se torna uma só coisa dentro dele. Este estado existe, esta experiência é fundamental para o praticante zen. A de encaixar. Terra com céu, com homem.

A filosofia oriental diz: entre a terra e o céu um homem está de pé. De pé, no sentido de um homem verdadeiro que de nada depende. Cada um está de pé. Para realizar isto tem que se cortar com tudo, isto é, uma grande morte.

Ninguém quer morrer, por isso acabam morrendo. Deve-se morrer. Quem morre vive para sempre, mas isto é difícil; sempre segurando em algo, se aferrando, segurando. Em que? Ao ego, à noção de egocentrismo.

Durante a primeira vez que vim à Argentina, durante o Dokusan (entrevista com o Mestre) muita gente me disse estar sofrendo por vaidade. Isto não sucede apenas na Argentina. Sucede em todas as partes, com brasileiros, japoneses, argentinos. Deve-se saber que a ignorância máxima é a vaidade, a mais difícil de ser cortada. Por isto, dentro do treinamento, deve haver uma grande morte. Se isto não ocorrer, não haverá então o grande nascimento.

Eis pois que entre o céu e a terra existe um homem verdadeiro. Um homem verdadeiro pode ser também um homem novo, no sentido de transformado. Que precisa morrer para de novo nascer. Este é o sentido, este homem novo, verdadeiro, pode ir a qualquer lugar do mundo. Nesta paisagem, ele precisa morrer, como a árvore seca e as folhas que caem; é necessário esquecer esta experiência e ali estará a verdadeira felicidade.

Eu nasci em Hokaido, que é perto da União Soviética. Até há cem anos era uma terra totalmente abandonada, habitada por uma raça um pouco diferente da japonesa. Eram caçadores, pescadores. Os japoneses invadiram Hokaido e um pioneiro convidou um professor alemão de agricultura. Ao ir embora foi visto galopando em seu cavalo com seus alunos atrás. Quando chegou o momento de despedida, gritou em inglês: “Boys, be ambitious; rapazes, sejam ambiciosos.” não ambiciosos, no sentido de se tratar somente de querer algo, mas no sentido de sacrificar-se a pessoa mesma em prol dos outros. Assim, este sofrimento chega a desaparecer, este corpo torna-se um instrumento do Dharma, oferecendo-o a todos os seres viventes.

Um homem verdadeiro atravessando a pé todos os desertos. Muitos monges atravessaram os desertos buscando sutras, verdades e muitos morreram viajando. Poucos voltaram. Sem comida, sem água, somente aqueles ossos de cavalo que indicam o caminho, isto é, daqueles que morreram indo nesta direção, o vento parece demônios que choram. o nariz se enche de areia, parecem realmente diabos, e se a pessoa tiver medo e correr, então com isto se estará perdido.

Por vezes os monges também viajavam pelo mar. Isto talvez era mais difícil ainda que pela terra. O vento do fim do outono batendo contra o navio. Dentro de nossas vidas, de vez em quando nos deparamos com estas situações difíceis. Nestes momentos não se pode voltar para trás, não se pode parar, deve-se seguir no caminho.

Muitas vezes a paisagem não é maravilhosa, nem sempre nossa vida está na primavera. Às vezes está no fim do outono, no frio, solidão. Sem pai nem esposa, sem emoções. Deixando tudo isto de lado e caminhando, caminhando dentro desta paisagem.

Ainda somos muito infantis, imaturos. Temos nostalgia daquele amor, aquele calor familiar, parece o bebê chorando, nostalgia da mamãe, comida quente, luz, calor humano.

Um monge perguntou a Ummon: “O que acontece quando as árvores secam e as folhas caem?” Que estação será esta? O outono, a primavera? Eu pergunto, por qual estação estarão passando vocês mesmos agora? Primavera, outono, ou fim do inverno? Estarão passando tristes, alegres, está difícil ou fácil?

Quando a família se separa, as pessoas perecem. Quando as pessoas perecem, a família se parte, e a pessoa se sente realmente sozinha neste universo, sozinha, completamente sozinha, realmente podemos sentir esta nostalgia de todas as tolices deste mundo. Muito bem, mas para saber isto, torna-se necessário abandonar todo este mundo, senão se está sempre dentro disto, pedindo, pedindo, se sentindo sempre insatisfeito. Temos tudo e não sabemos o que fazer. Ao terminar este momento, aquelas nuvens e casas já se foram; ao retornar para casa depois de dois, três anos, já não é o mesmo; ruínas, apenas recordações em nossos corações.

Ummon respondeu: “Tudo está manifestado, o vento dourado.” Quando a pessoa consegue morrer uma grande morte, ao mesmo tempo renasce para uma grande vida.

Se isso não acontecer, o homem verdadeiro não aparece.

Ao aparecer, tudo está realizado nele.

Às vezes as pessoas se incomodam com coisas pequenas para se sentirem mais seguras e com isto perdem aquilo que é mais importante. Sabendo disto, é necessário cortar a ignorância. É necessário ter sabedoria, mas esta sabedoria não é somente conhecimento. É preciso penetrar até o fundo do inconsciente. Ir e vir, descobrir e purificar. E para purificar é preciso incorporar, mudando o corpo; no sentido de nele incluir a consciência. E assim vai andar com passo firme através do céu azul.

Ali está, o homem verdadeiro, caminhando com seu manto. O vento golpeia as folhas, seus olhos são brilhantes, transparentes e ele segue seu caminho até seu objetivo. Mesmo assim pode se deparar com muitos, muitos fortes vendavais, mas o seu objetivo se encontra ali. Andando a passo firme através do céu azul, ele é livre. Dentro de seu coração já não mais existe aquela obscuridade.