Como a meditação beneficia todos os seres

Pergunta: Vi em uma entrevista com a monja Coen que o ato de meditar beneficia a todos os seres. Como o ato de meditar poderia ajudar as outras pessoas no mundo em que vivemos hoje?

Resposta: Se você viu essa entrevista de Mestre Coen-San, deve, em primeiro lugar, perguntar a ela sobre isso. Agora, respondendo à sua pergunta de como esse ato de meditação pode ajudar a todos os seres. No primeiro capítulo do Shobogenzo, na introdução, Genjo-koan, antes disso é o Bendowa, fala que quando você entra no Jijiyu Zanmai, Samadhi de auto-realização, você está meditando sozinho, mas junto com o universo inteiro. Exatamente por isso pode ajudar a todos os seres. Porque estamos voltando à nossa origem. Com essa meditação, pode passar essa energia às pessoas 50 vezes. Alguém está meditando, quando se tem contato com esse monge, ou praticante, passa essa energia para os outros. Aí já recebe benefício. E essa pessoa que recebe o benefício, a energia boa de meditação, passa para outro, ao terceiro. E assim por diante até o qüinquagésimo. Quer dizer, querendo ou não, estamos recebendo essa energia boa de meditação e por isso esse mundo está em ordem.

Abaixo segue um trecho do Bendowa, capítulo do Shobogenzo:

Bendowa
Uma conversa sobre buscar a verdade

Quando os budas-tathagatas, cada qual tendo recebido a transmissão de um para um do Dharma esplêndido, experimentam o estado supremo de bodhi, eles possuem um método sutil que é supremo e sem intenção. A razão pela qual este (método) é transmitido apenas de Buda para Buda, sem desvios, é que o samadhi de receber e usar si mesmo é o padrão. Para o gozo desse samadhi, a prática do Zazen, na postura ereta sentada, foi estabelecida como o portão autêntico. Esse Dharma está abundamentemente presente em cada ser humano, mas se não praticarmos, ele não se manifesta, e se não o experimentarmos, não pode ser realizado.

Quando largamos tudo, já encheu as mãos; como poderia ser definido como um ou muitos? Quando falamos, já enche a boca; não tem qualquer restrição em qualquer direção. Quando os budas estão constantemente morando dentro e mantendo esse estado, eles não deixam reconhecimentos e percepções em aspectos separados (da realidade); e quando seres humanos estão eternamente funcionando estão para sempre funcionando nesse estado, aspectos (da realidade) não aparecem neles em reconhecimentos e percepções separadas. O esforço de buscar a verdade que eu estou agora ensinando faz com que miríades de dharmas sejam verdadeiros na experiência; ordena a unidade da realidade no caminho da liberação. No momento de passar por barreiras e se liberar, como poderia esse parágrafo ser relevante?

Depois que eu estabeleci a vontade de buscar o Dharma, eu visitei (bons) conselheiros por toda a parte na nossa terra. Eu me encontrei com Myozen de Kennin (templo). Nove estações de gelos e flores rapidamente se passaram enquanto que eu o seguia, aprendendo um pouco dos costumes da linhagem Rinzai. Apenas Myozen tinha recebido a transmissão autêntica do supremo Dharma de Buda, como o mais excelente discípulo do mestre fundador, Mestre Eisai – os outros alunos não podiam jamais ser comparados a ele. Eu então fui ao grande Reino de Sung, visitando (bons) conselheiros ao leste e oeste de Chekiang e ouvindo as tradições dos portões das cinco linhagens.

Finalmente visitei o Mestre Zen Nyojo da montanha de Dai-byaku-ho, e ali fui capaz de terminar a grande tarefa de uma vida de prática. Depois disso, no começo da era grande Sung de Shojo, eu voltei para casa determinado a espalhar o Dharma para salvar seres viventes – era como se uma carga pesada tivesse sido colocada nos meus ombros. Contudo, me preparando para um surgimento de energia durante o qual eu pudesse preencher meu senso de missão, eu quis gastar um tempo perambulando como uma nuvem, indo daqui para ali como uma planta aquática, no estilo dos velhos sábios. E contudo se houvesse algum verdadeiro praticante que colocasse em primeiro lugar sua vontade de verdade, sendo naturalmente despreocupado com o status e o lucro, eles poderiam ser infrutiferamente ser desencaminhados por falsos mestres e poderiam desnecessariamente colocar um véu sobre a compreensão correta. Eles poderiam inutilmente ficar bêbados com auto-decepção, e para sempre afundar no estado da ilusão. Como poderiam eles promover os frutos corretos de prajna, ou ter a oportunidade de atingir a verdade? Se agora eu estivesse absorvido em errar como uma nuvem ou planta aquática, que montanhas e rios deveriam eles visitar? Sentindo que tal coisa seria uma situação digna de piedade, eu decidi compilar os registros dos costumes e padrões que eu experimentei em primeira mão nos mosteiros Zen do Reino da grande Sung, juntamente com um registro das instruções profundas de um (bom) conselheiro que eu recebi e manti. Eu deixarei esse registro para as pessoas que aprendem na prática e que estão na verdade facilmente, de forma que eles possam conhecer o verdadeiro Dharma da linhagem dos Budas. Isso pode de fato ser uma verdadeira missão.

(Os sutras) dizem: O Grande Mestre Shakyamuni na ordem do Pico do Abutre transmitiu o Dharma a Mahakasyapa. (O Dharma) foi autenticamente transmitido de patriarca a patriarca e alcançou o Venerável Bodhidharma. O Venerável em pessoa foi à China e transmitiu o Dharma ao Grande Mestre Eka. Essa foi a primeira transmissão do Dharma nas terras do Leste. Sendo transmitido de um para um dessa forma, (o Dharma) naturalmente chegou ao Mestre Zen Daikan, o Sexto Patriarca. Então, enquanto que o Dharma de Buda se espalhava pela (terra do) leste da China, se tornou claro que (o Dharma) está além de expressões literárias. O Sexto Patriarca teve dois excelentes discípulos, Ejo de Nangaku e Gyoshi de Seigen. Ambos, tendo recebido e mantido a postura do Buda, eram mestres que guiavam seres humanos e deuses ao mesmo tempo. (O Dharma) fluiu e se espalhou nessas duas correntes, e cinco linhagens foram estabelecidas. Essas foram as assim chamadas Seita Hogen, Seita Igyo, Seita Soto, Seita Unmon, e Seita Rinzai. Na (China) grande Sung hoje em dia a Seita Rinzai é a que lidera por todo o país.

Apesar de haverem diferenças entre as cinco tradições, a postura com o selo da mente de Buda é a única. Mesmo no grande Reino da Sung, apesar de na dinastia Han Tardia em frente textos filosóficos haverem sido disseminados pelo país todo, e deixado alguma impressão, ninguém podia decidir quais eram inferiores ou superiores. Depois que o Mestre ancestral veio do oeste, ele diretamente cortou a fonte da confusão, e espalhou o Dharma de Buda sem adulterações. Devemos esperar que o mesmo aconteça em nosso país. (Os sutras) dizem que os muitos patriarcas e os muitos budas, que moravam dentro e mantinham o Dharma de Buda, todos se baseavam na prática de sentar eretamente no samadhi de receber e usar si mesmo, e consideravam essa prática como sendo o caminho correto para revelar o estado da realização.
Seres humanos que atingiram a verdade nos Céus do Oeste e Terras do Leste seguiram esse estilo de prática. Essa (prática) se baseia na transmissão mística e autêntica do sutil método de mestre para discípulo, e a recepção (discípulo) e conservação da verdadeira essência dos ensinamentos.

Na transmissão autêntica de (nossa) religião, é dito que o Dharma de Buda, que foi autentica e diretamente transmitido de um para um, é supremo entre os supremos. Depois do encontro inicial com um (bom) conselheiro nós não mais precisamos queimar incenso, fazer prostrações, recitar o nome de Buda, praticar confissão, ou ler sutras. Somente sentar e obter o estado que está livre de corpo e mente. Se um ser humano, mesmo que seja somente por um momento, manifestar a postura do Buda nas três formas de conduta, enquanto (aquela pessoa) senta reto em samadhi, todo o mundo do Dharma assume a postura do Buda e todo o espaço se torna o estado da realização. (A prática) aumenta dessa forma a alegria do Dharma que é o estado original dos budas-tathagatas, e renova o esplendor de suas realizações da verdade. Além do mais, através dos mundos do Dharma nas dez direções, seres comuns nos três estados e nos seis estados todos se tornam puros e límpidos no corpo e mente imediatamente; eles experimentam o estado da grande liberação, e seus rostos originais aparecem. Então todos os dharmas experimentam e compreendem a realização correta, e miríades de coisas cada qual coloca seus corpos Budistas em prática; num instante, eles totalmente transcendem os limites da experiência e compreensão; eles sentam eretos como reis da árvore Bodhi; em um só momento eles giram a grande roda do Dharma, que é o estado inigualável do equilíbrio; e eles expõem o estado último, sem adornos e profundo de prajna. Esses estados balanceados e corretos da realização também funcionam ao inverso, seguindo caminhos de cooperação íntima e mística, de foram que essa pessoa que senta em Zazen paulatinamente se livra do corpo e mente, corta fora pontos de vista impuros variados e pensamentos (acumulados) do passado, e assim experimenta e compreende o Dharma de Buda natural e puro. Através de cada assento infinitesimal e inumerável da verdade dos budas-tathagatas, (o praticante) promove o trabalho de Buda e espalha sua influência por toda parte por sobre aqueles que transcendem buda, assim vividamente dando vida ao estado verdadeiro transcendente do buda. Nesse momento, tudo no Universo nas dez direções – solo, terra, capins, e árvores; cercas, paredes, telhas, e seixos – realizam o trabalho de Buda. As pessoas que recebem o benefício assim produzido pelo vento e pela água são todos misticamente ajudados pela fina e inimaginável influência do Buda, e eles exibem o estado imediato da realização. Todos os seres que recebem e utilizam essa água e fogo espalham a influência do Buda no estado original da experiência, de forma que aqueles que vivem e conversam com eles também, ficam todos reciprocamente agraciados com a virtude sem limites do Buda. Expandindo e promovendo suas atividades por toda parte, eles permeiam o Universo inteiro por dentro e por fora com o Dharma de Buda sem limites, incessante, impensável e incalculável. (O estado) não é ofuscado pelos pontos de vista dos indivíduos eles mesmos, contudo, porque o estado na quietude, sem atividade intencional, é a experiência direta. Se dividirmos a prática e experiência em dois estágios, conforme o que acham pessoas comuns, cada parte pode ser percebida e compreendida separadamente. (Mas) se percepção e compreensão forem misturadas aqui, não será esse o padrão para tal experiência, porque o estado padrão de experiência está além das emoções iludidas. Apesar de, na quietude, a mente e o mundo externo entrarem juntos no estado da experiência e passarem juntos para fora do estado da realização, (esses movimentos) são o estado de receber e usar a si mesmo. Portanto, (movimentos da mente e do mundo externo) nem movem uma só molécula, nem perturbam uma só forma, mas realizam o vasto e grande trabalho do Buda e a profunda e fina influência do Buda. As relvas, árvores, solo, e terra alcançadas por essa influência guiadora todos irradiam grande brilho e suas pregações do profundo e fino Dharma é sem fim. Relvas, árvores, cercas e paredes se tornam capazes de pregar para todas as almas, (tanto) pessoas comuns quanto santos, pregam para as relvas, árvores, cercas e paredes. Ao mundo da auto consciência, e (ao mundo) da consciência dos objetos externos, nada falta – eles já estão equipados com a forma concreta da experiência verdadeira. O estado padrão da experiência verdadeira, quando ativada, não permite nenhum momento inútil. O Zazen, mesmo que seja apenas um ser humano sentando por um só momento, assim entra na cooperação mística com todos os dharmas, e completamente penetra em todos os tempos; e portanto perfaz, dentro do Universo sem limites, o trabalho eterno do Buda com sua influência guiadora no passado, presente e futuro. Para todos é completamente a mesma prática e a mesma experiência. A prática não está restrita ao sentar em si; bate no espaço e ressoa, (como) o ressoar que acontece antes e depois que se bate num sino. Como poderia (a prática) estar limitada a esse lugar? Todas as coisas concretas possuem a prática original como suas fisionomias originais; está além da compreensão. Lembrem-se, mesmo que os incontáveis budas nas dez direções, tão numerosos quanto as areias do Ganges, tentassem com todo seu poder e toda sua sabedoria de Buda calcular ou compreender o mérito do Zazen de uma só pessoa, não podiam sequer se aproximar.