Budas e Patriarcas (Shobogenzo) – Sesshin de junho de 2002 em Paris

Ensinamento do Mestre Tokuda

Dado durante o sesshin de junho de 2002
Paris

La lettre de Maha Muni #28

Junho de 2002 – Paris
La lettre #28

Budas e Patriarcas

Extratos dos seguintes capítulos do Shobogenzo:

Busso
Soshi-seirai-no-i
Teisho #1

Hoje nós vamos tomar o capítulo “Busso” do Shobogenzo.

Leitura de “Busso” (volume 1, capítulo 15, p. 181)

(Introdução)

Butsu quer dizer “buda” ou “budista”, so quer dizer “patriarca” e assim busso quer dizer “patriarcas Budistas”. Mestre Dogen venerava os Budas do passado; ele também tinha em alta estima a transmissão de buda para buda. De uma outra parte ele cria numa continuidade da ordem budista; os líderes sucessivos da comunidade budista tinham um lugar importante em seu pensamento. Neste capítulo Mestre Dogen enumera os nomes dos patriarcas da comunidade budista e fazendo isto, ele confirma a tradição budista que aqueles mantiveram.

(209) A realização dos patriarcas budistas é o fato (para nós) de aceitar os patriarcas budistas e lhes render homenagem. Não se trata somente do passado, do presente e do futuro; isto pode ser ainda mais importante que a realidade suprema dos budas. Se trata justamente de enumerar aqueles que mantiveram e que se basearam no rosto verdadeiro dos patriarcas budistas, se trata de se prosternar diante deles e de os reencontrar. Manifestar a virtude dos patriarcas budistas e mantê-la, nos abrigamos ali e ali nos mantemos, nos inclinamos diante dela e a experimentamos.

É o capítulo “Busso”, “Budas e Patriarcas”. Cada manhã nós lemos os nomes dos budas e patriarcas, ou seja cinqüenta e sete nomes. Para dizer a verdade, este capítulo é cantado todos os dias nos mosteiros do Japão, com o Sandokai e o Hokyo zanmai: Sandokai nos dias ímpares, Hokyo zanmai nos dias pares. Recitamos os cinqüenta e sete nomes dos budas até Keizan Jokin.

Depois do fim da cerimônia, cada um volta para o seu quarto onde, se se tratar de um local coletivo, no shuryo (dormitório), continua a recitar sua linhagem pessoal. Esta cerimônia, chamada shitsunai kankin “ler os sutras no seu quarto” (shitsunai “interior”, kankin “ler os sutras”), se pratica geralmente no quarto do mestre. Aqui se trata da parte essencial da transmissão da escola Soto, talvez a mais importante. Esta cerimônia tem alguns aspectos secretos. Nos dias de hoje, mesmo no Japão, existem pessoas que nunca a ensinaram. Como certos mestres não a conhecem, são por causa disto incapazes de a transmitir corretamente.

Podemos colocar perguntas sobre o que acontecerá com tal prática no Ocidente, com praticantes que não podem sequer imaginar, mesmo em sonhos, do que se trata, como se diz por aí.

No quarto do mestre, existe uma caligrafia de Ryuten, o deus Dragão celeste e de Hakusan “A Montanha branca”. Estas duas divindades, este Dragão e esta Montanha branca, são os dois protetores de suas práticas, e continuam a sê-lo mesmo quando vocês estão viajando. Começamos a cantar diretamente o começo do capítulo, em seguida o nome dos budas e patriarcas até Keizan Zenji. É depois de Keizan Zenji que cada um recita sua própria linhagem. Quando recebemos a ordenação, recebemos também o Ketimyaku que indica todos os nomes da linhagem até seu próprio mestre. Chegando ao fim da linhagem, quer dizer, ao seu próprio mestre, fazemos três prosternações ao seu mestre. Mesmo no Japão, praticamos este shitsunai kankin raramente. Acho que somente poucos mosteiros o praticam.

Então, budas e patriarcas: em sânscrito, um buda é aquele que é desperto, que teve a iluminação. Aqui, o Buda histórico, nós chamamos de Siddharta Gautama. Existe também os nomes dos sete Budas do passado. Não sei exatamente o que são estes Budas, mas os achamos já nos sutras Ágama. Não temos qualquer prova de suas existências, talvez que se trate somente de uma criação de nossa própria imaginação.

Na escola Soto, nunca dizemos que temos o satori, o satori é nosso mestre que reconhece. Tudo bem, mas quando o Buda Gautama teve a iluminação, quem confirmou se sua iluminação estava correta ou não? De fato, em seu caso, não há problemas, mas no que nos toca, isso é mais delicado.

Então, ele obteve a iluminação sozinho, sem ajuda de um mestre, o que pode se explicar pelo fato que quando nos tornamos “um”, não existe nem mestre nem discípulo quando obtemos o despertar e no sentido de quando se tem a iluminação sozinho, sem mestre. Mesmo assim, existe a necessidade – talvez eu esteja errado – que apareça um buda do passado para efetuar a transmissão, de onde temos os sete budas do passado.

O primeiro é Bibashibutsu Daiosho. É o primeiro que confirmou, mas aqui temos o mesmo problema. Aqui existem somente sete, mas em outros sutras achamos trinta e três Budas do passado e sempre existe o mesmo problema. É a segunda razão. Os três primeiros são considerados como Budas do passado de kalpas precedentes (“de ornamento”), os quatro outros budas são considerados como Budas do kalpa de sabedoria atual, o que é deveras difícil de compreender. Nos dias de hoje, consideramos que estes Budas do passado são budas de um passado metafísico e que a partir do Buda Shakyamuni, temos os budas e patriarcas do tempo histórico.

O que vem a ser um Buda metafísico? O que é o Buda? Ele está desperto, atingiu a iluminação. Com o que? Com a verdade do universo. Não se trata do corpo físico, se trata da essência dos budas.

No capítulo “Raihai Tokusui”, está dito que se faz uma prosternação porque se trata por exemplo, de uma pessoa mais velha, nos prosternamos diante da qualidade de uma pessoa parecida com aquela do Buda. O Buda, a essência do buda, é a verdade, a verdade do universo e é diante disto que nos prosternamos.

Na enumeração dos nomes dos budas, podemos observar algo de interessante: para os primeiros sete budas (metafísicos), ou seja, de Bibashibutsu até Shakyamuni, os designamos como “butsu” o que quer dizer “buda”, seguido de Daiosho, título que lhes damos depois da morte. Contrariamente, a partir de Makakasho, os chamamos de “buda”, dizemos simplesmente Makakasho Daiosho, sem “butsu”.

Na escola Soto, quando acedemos ao título de osho, pegamos um okesa de uma certa cor. Esta troca de okesa se chama tenye.

Quando recebemos a ordenação de monge, nos tornamos joza que traduzimos geralmente por “venerável”. O segundo grau é o shuso; quando fazemos a cerimônia chamada hossenshiki “batalha do Dharma”, obtemos o título de zagen que quer dizer: o primeiro lugar do lado do abade; o terceiro grau é shiho “a transmissão do Dharma”. Com o shiho, trocamos açor do grande Kesa e nos tornamos osho que quer dizer: professor íntimo com o mestre. Um outro nome seria rikysho o que quer dizer que quando nos tornamos osho temos o poder de criar nós mesmos um outro mestre e assim a transmissão se perpetua. Quando somos osho, temos o potencial de criar outros mestres. Nos livros de zen, muitos osho apareceram que chamamos geralmente de “Reverendos”.

Peço a vocês que não se apóiem na parede. Não se deve tocar na parede. Podem dormir porque se trata de um ensinamento que não é tão bom, mas dormir se apoiando na parede não é bom para a saúde. Eu não estou brincando, é verdade! Mesmo dormindo, vocês não estão perdendo nada porque podem ouvir com os poros da pele. Não creiam que eu esteja dizendo isto de forma cínica.

Então, indo em frente. Budas e patriarcas, se diz em japonês so. Qual é o signficado de “patriarca” francês? So, em japonês quer dizer o pai do pai, ou seja o avô. No mundo religioso, so quer dizer o fundador. Para Dogen Zenjji, empregamos o nome koso: ko, “de um nível elevado”, e so, “patriarca”. Keizan Zenji tem o título de taiso: tai “origem”, e às vezes o de biso, bi “nariz” porque aparece antes de tudo o mais. Às vezes Tozan Zenji também é chamado assim. Bodhidharma, o primeiro patriarca na China, é chamado Shintan Shoso Bodai Daruma Daiosho.

Aqui na Europa, eu considero Mestre Deshimaru como osho kaisan, portanto fundador. Ao mesmo tempo, como outras linhagens estão chegando agora na Europa, eu não sei se elas aceitarão tal idéia. So, não importa, tem a ver com o começo da linhagem, da escola.

Resta a questão que diz respeito aos budas e patriarcas: se trata da mesma coisa ou não? Na visão de Dogen Zenji, sim, eles são idênticos, mas de uma certa forma não são.

Com a vinda da escola Soto para a Europa, eu acho que esta questão da cerimônia vai se tornar um questão importante. O que vocês acham?

Existe um aspecto teórico, quer dizer que é um “é assim” de um aspecto teórico; há um aspecto forma, é um “assim é” de forma autoritária. Mas isso não resolve nada. Se realizarmos de forma íntima o sentido dos “budas e patriarcas”, podemos aceitar ao mesmo tempo o aspecto forma e o aspecto teórico, mas como poucos mestres podem mostrar isto, os Ocidentais rejeitam o lado formal.

No fim das contas se trata da relação entre seu próprio mestre e você enquanto discípulo e esta relação permite assegurar a transmissão, essencial na escola Soto.

O contato entre os Japoneses e os Ocidentais deve ser um contato aberto. Enquanto Japonês, eu digo que é necessário falar livremente. Se não tivermos abertura, tudo se desenrolará de um ponto de vista teórico, formal, autoritário, que será aceito sem que esta aceitação venha do fundo do coração.

Certas pessoas dentre vocês tiveram contato com Mestre Deshimaru. A partir desta experiência, destas lembranças, podemos então nos prosternar facilmente. Se prosternar é também tomar refúgio. Este refúgio, esta prosternação é namo, e este nome quer dizer um ramo torto, inclinado pelo vento sem que tenha a intenção de se vergar ou de se prosternar diante o que seja. É a inclinação natural.

Se vocês acham que a prosternação seja algo de formal, então ela se torna algo de formal, mas quando vocês se prosternam diante de seus mestres porque vocês têm sentimentos quanto a ele de confiança, de respeito, de amor, então esta prosternação se torna natural, sobretudo quando tivemos uma experiência como o satori. Se o satori não se produziu, é necessário praticar muito, porque mesmo que o mestre o queira dar, isto não depende dele, mas quando isto se produz, é uma grande alegria para o mestre e para o discípulo, eles podem chorar juntos, porque o mestre pode ter um sucessor.

Nos dias de hoje, é muito raro que esta transmissão se produza de verdade. O fato que esta tradição vinda do Japão agora esteja chegando na França, como aquela que se produziu da Índia para a China, em seguida para o Japão, é um momento crítico, um momento precioso.

Se trata de algo que tem a ver com o encontro de Bodhidharma-Eka ou Nyojo Zenji-Dogen Zenji. É um momento muito especial. Por “momento especial”, eu quero dizer que todas as coisas, aqui inclusive esta tradição, devem ser trazidas completamente à sua origem para a renovação. É disto que nos conta Mestre Dogen neste capítulo “Busso” que ele praticava todos os dias.

Terminou o teisho. O dojo de Paris tem aspecto de dojo para leigos, não é como um mosteiro onde monges treinam em todas as coisas. Ao contrário, Eitaiji, começa a ser um mosteiro, um mosteiro para o futuro. No momento, não se tem grande coisa, já que sequer temos um unpan (unpan é o sino de metal que batemos de manhã), mas apesar de tudo, Eitaiji tem este aspecto de mosteiro antigo, autêntico. É um mosteiro kosori (ko, “antigo”, “autêntico”), como aqueles de Gensha Shibi, de Daibai, de Fuyo Dokai, todos estes mestres que nada tinham. A falta de dinheiro, o fato de não termos um unpan incomoda um pouco o treinamento e o zen que nós praticamos não é exatamente aquilo que deveria ser, mas é a situação de Eitaiji atualmente. De fato, neste momento, nada temos senão o espírito.

Teisho #2

Eu devo conceder que se eu escolhi este capítulo “Busso”, era com a intenção de o colocar em paralelo com a história da “Vaca que ri”.

A vaca que ri: a vaca que ri se caracteriza por sua etiqueta que mostra uma vaca que ri e que usa um brinco de orelha. Habitualmente, as vacas portam na orelha um número, que pode ser o nome desta vaca ou da fazenda na qual foi criada. Mas neste caso, aquilo que pende na orelha da vaca é muito parecido com etiqueta mais importante da caixa. Se pode então supor uma imagem que representa a vaca com um brinco de orelha (idêntico àquele da imagem grande) e neste brinco de orelha, um outro brinco de orelha representando uma imagem totalmente parecida àquela original e assim por diante ao infinito.

Quando descobri isto, fiquei muito feliz porque se tratava aqui de um objeto fractal e assim muito naturalmente me veio a idéia de fazer uma aproximação com o capítulo “Busso”, “Budas e patriarcas”, “Budas e patriarcas e a vaca que ri”, todos estes nomes de budas e patriarcas que chegaram até mim e até vocês.

Nos tempos antigos, mestres e discípulos se cortavam o dedo e misturavam seus sangues para fazer um selo, um carimbo. No ketimyaku, há o keti, “o sangue” e myaku, “fio”, “continuidade”, “linha”, como um meridiano de acupuntura. Nos dias de hoje ninguém mais faz este tipo de coisa.

Para cada nome de patriarca, se fazia três prosternações. A preparação durava uma semana. No fim do ango, a pessoa escolhida para receber a transmissão ficava separada no kaisando (a sala do fundador) e começava a escrever. O mestre convidava sempre dois ou três mestres como testemunhas, como prova. Para o Sexto Patriarca, a transmissão foi feita a meia noite, secretamente, porque ela representava problemas como vocês sabem. Para esta ocasião, se colocavam kesas sobre as janelas a fim de que luz alguma não se filtrasse. Nos dias de hoje, os kesas foram trocados por um tipo de cortina de cor vermelha e branca. A transmissão se efetua no interior. Sobre uma mesa se colocava os oryoki (tigelas), os shippei (pedaços de bambu que tem um pouco a forma de kyosaku), o hossu (o espanta moscas), o kesa etc. Não se trata somente de sangue misturado, mas igualmente de um sangue transmitido espiritualmente até vocês, querendo dizer que mestre e discípulo se tornam uma só coisa.

Se bem que cada patriarca seja uma pessoa, ele é ao mesmo tempo um dos grãos de um rosário que se torna “uma só coisa” e esta transmissão do Dharma se faz através dos patriarcas até a mim. Quando se recebe esta transmissão, nos prosternamos para significar que a recebemos e neste momento, acedemos ao estado de buda. De um lado isto vem até você – o Dharma se escoa até você – de um outro lado, simultaneamente, você está entre os muito numerosos patriarcas que lhe precederam. Quando isso vem até o seu mestre, em cada etapa, é “buda”; isso faz um retorno até a origem e então é “patriarca”.

Hoje em dia, nós dispomos de vários livros da escola Soto, entre outros o Shobogenzo, o livro de Keizan Zenji, etc. ou seja, um total de trinta volumes. Trinta outros volumes estão consagrados aos comentários dos textos importantes da escola Soto. Existe um volume muito espesso, consagrado exclusivamente à filiação. Depois de Keizan Zenji, se bem que esta filiação se divida e subdivida, cada uma transmitiu até ao presente momento. Talvez algumas linhagens tenham se extinto, não sei.

No momento presente, a maioria das pessoas saiu da linhagem de Gasan Joseki. Minha linhagem é aquela de Meihô Sotetsu, primeiro discípulo de Keizan Zenji. Somos pouco numerosos, mas esta linhagem é muito preciosa porque ela se manteve até o presente depois de oitenta e cinco gerações e é por isso que nos prosternamos (em japonês konno doko, “além do pensamento intelectual”) recitando o seguinte poema:

Aquele que se prosterna, aquele que recebe a prosternação, os dois têm por natureza a vacuidade.

Aquilo que está transmitido nesta prosternação está além de nossa compreensão. Durante a prosternação, todos os budas, desde a origem, entram em nós. É um aspecto fractal, como a Vaca que ri ou como as bonecas russas, que embutidas umas nas outras formam somente uma só boneca, ou como as tigelas (os oryokis) que se embutem igualmente. Quando a pessoa recebe a transmissão, você é você mesmo, mas atrás de você, existe toda uma linhagem, todos os budas e patriarcas. A diferença entre monge e leigo é a seguinte: um leigo treina para obter a iluminação, não há problemas com isto, mas o monge é incumbido de transmitir à geração seguinte. É uma grande responsabilidade, porque se ele não transmitir, esta linhagem se extingue com ele, o que é, para um monge, algo como um pecado.

Quando recitamos os nomes dos budas e dos patriarcas até nosso próprio mestre, nos prosternamos três vezes. É uma forma de mostrar seu respeito e sua gratidão para toda esta linhagem. Queimamos incenso, oferecemos chá, flores e frutas secas, porque todos estes patriarcas preservaram o rosto original dos budas e dos patriarcas. “Rosto” quer dizer aqui a essência dos budas e dos patriarcas, esta essência sendo a iluminação exata, quer dizer a verdade do universo e de nossa natureza de ser humano. Simultaneamente, nossa vida é o universo inteiro. Este rosto da origem, você o recebe por você mesmo, você compreende de que se trata, você se torna uma só coisa, você se prosterna e neste momento pode encontrar seu próprio mestre, quer dizer encontrar seu mestre-buda enquanto patriarca.

Não se trata unicamente de se encontrar nariz a nariz consigo mesmo, mas de compreender realmente o significado deste Dharma transmitido. Em seguida você tem a responsabilidade de o realizar, de o render presente, de o preservar e finalmente de o transmitir.

Eu declaro que esta transmissão verdadeira está a perigo no momento presente. Nos momentos críticos, é necessário que apareça algo como um herói. Se este tipo de pessoa, capaz de ultrapassar o momento crítico, não se manifestar, então isso acaba.

Para nós que somos irmãos em nossa prática do zen, esta transmissão é claro, algo de essencial, mas além desta transmissão, existe aquilo que se chama shitsunai, que se passa no quarto do mestre e que é algo de íntimo, de um pouco secreto.

Se o discípulo chegou à maturidade, então não existe mais nada de secreto, porque este segredo se torna intimidade (os caracteres são os mesmos em japonês), “intimidade” querendo dizer “verdadeira compreensão”. Este aspecto da relação entre mestre e discípulo , que é uma característica da escola Soto, é muito bonito.

A energia presente na França, na Europa, é enorme se bem que a qualidade do treinamento seja diferente. Eu quero dizer ainda uma vez que é necessário manter este rosto original, esta essência da transmissão. Se não se alcançar isso, nossa missão em Eitaji é de produzir ao menos a metade, o que estaria bem. O Dharma sobrevém do fato que uma só pessoa, por exemplo, Bodhidharma, o Sexto Patriarca, seja produzido.

No A.Z.I. se considera Mestre Deshimaru como Bodhidharma. Eu, eu não sou Bodhidharma. Quando eu comecei a associação Maha Muni, com a idéia de ter a sucessão dos patriarcas até Tokuda Sensei, eu recusei prontamente, jamais! Eu sou simplesmente um monge zen Soto, eu não sou um Roshi. Às vezes, isso coloca problemas, eu sou um pouco diferente, difícil de ser controlado… Isto não vem a ser uma coisa grave. Seja lá o que for, quando um mestre e um discípulo tal como Nyojo Zenji e Dogen Zenji se encontram, isso é menju “transmissão face a face”, é também Yui butsu yo butsu, outro capítulo do Shobogenzo, “Somente o Buda em direção a outros Budas”, ou “Os budas apenas, juntamente com os budas”. Praticando assim, se alguém quiser receber a transmissão de seu mestre, então isso seria possível.

Na nossa linhagem muitas coisas podem se produzir do fato que nós somos seres humanos, mas se podemos transmitir este lado precioso e o praticar conjuntamente isso é suficiente. Que algumas linhagens sejam melhores ou piores que a nossa, pouco importa, se trata de nossa linhagem.

Se trata essencialmente desta transmissão, desta certificação, e se possível de praticar e de entrar até os estados últimos, de compreender o que é o Buda, o que é a sabedoria de buda e assim se elevar até aos estados dos budas e patriarcas.

O mestre é um buda, o discípulo se torna buda, o Buda contempla o rosto do Buda e isso é o verdadeiro encontro que chamamos shoken, “se ver”. Shoken é o primeiro encontro com um mestre (nesta ocasião, oferecemos incenso oficialmente) e é também a transmissão. O shoken verdadeiro é: dois rosto a rosto e mesmo assim nada mais que um, é a essência da escola Soto.

Tudo isso não tem muito interesse para um leigo, e além disso eu confesso que no que me toca, eu não estou apegado à transmissão.

Para dizer a verdade, Mestre Deshimaru poderia ter feito a transmissão a alguém que tivesse escolhido. Por que ele não o fez? Era completamente possível, ele era kaikyo-sokan, ele tinha um templo no Japão e mesmo assim, ele não o fez. O que aconteceu? Em seguida numerosos discípulos que tinham praticado com ele encontraram mestres no Japão e receberam a transmissão daqueles mestres. Mas quando fundavam templos, a cada vez, convidavam Mestre Deshimaru como fundador destes templos. Vejam, é um patriarca! E se os Japoneses quisessem fazer desaparecer seus traços sob o pretexto que ele não era autêntico, eles nada poderiam fazer… Até o presente, existem numerosas críticas. O por quê destas críticas? Porque alguma coisa os incomoda. O que é aquilo que os incomoda? Talvez este “algo” que não se pode ver, que é tão precioso e completo.

Mestre Deshimaru morreu já há mais de vinte anos. É preciso esperar ainda trinta ou cinquenta anos e depois de cinqüenta anos, seu nome entrará na história dos budas e patriarcas metafísicos e naquela dos budas autênticos, tenho certeza disto.

Pergunta: Com freqüência você diz: “Se não temos um inteiro, somente a metade já é suficiente”. O que vem a ser esta metade?

Resposta: É: “não completo”, mas que tem algo. Um é completo, mas como não existe jamais “um completo”, se diz que a metade tem algo que permite a iniciativa. “Não terminado”, mas se continuar, mesmo depois da morte de seu mestre, ele chegará à maturidade, ou ele terá a possibilidade de chegar à maturidade. Então, é melhor do que nada.

Pergunta: Os responsáveis pela A.Z.I. foram fazer um sesshin especial no Japão e voltaram anteontem. Num certo sentido, a transmissão vai estar garantida. O que acha disto?

Resposta: Dizemos que um sesshin de um mês corresponde ao período de um ango. Para a Shumucho, o fato de participar em três sesshins durante de um mês durante três anos consecutivos permite se tornar Dendo-kyoshi.

Como eu disse hoje de manhã, existem muitas categorias: quando recebemos a ordenação, nos tornamos joza; em seguida shusho; em seguida zagen, o que quer dizer que se está à altura de defender o Dharma; enfim Osho. A pessoa então é kyoshi-shikaku, kyoshi sendo o equivalente a um professor. Podemos ser kyoshi primeira classe, segunda classe, terceira classe… existem ao todo dez graus. Eu sou da primeira classe, mas não me preocupo mais com isto. Depois destas três classes, existe outros graus, o último sendo Zenji, este título diz respeito a duas pessoas no Japão.

Em função de seu grau, podemos utilizar os kesas e os kolomos de cor, cores que correspondem aos cinco elementos, e que são as cores dos nobres, daqueles que podem entrar no palácio do imperador. Cada uma destas cores tem duas nuâncias, o que dá o total de dez cores. Quando subimos de grau, somos autorizados a usar uma destas cores. O violeta, o amarelo, o vermelho como o fogo, correspondente à segunda classe.

O Dendo-kyoshi é um professor do caminho; o Kaikyo-Kyoshi é aquele que abre o caminho para o ensinamento, é como um missionário; o Dendo-shi é o mestre do Dharma. Esta última categoria foi instituída para pessoas que praticaram em seus países, mas que nunca foram ao Japão. Se o Kaikyo-sokan (o Superior no Japão) reconhecer que esta pessoa tem numerosos anos de prática, que ela fez sesshins, criou dojos, neste caso, ele a convida a ir ao Japão para fazer zuize, lhe entregar o shiho e esta qualificação de Dendo-shi.

Caso não haja o shiho, se pode ser zui-shin, quer dizer, alguém que seguiu o ensinamento de um mestre durante muito tempo, e que se bem que não tenha recebido o shiho, recebeu muitas coisas da parte de seu mestre.

Teisho #3

Hoje o capítulo do Shobogenzo “Soshi-seirai-no-i. (“A intenção do mestre ancestral que veio do Oeste”).

Leitura e tradução de “Soshi-seirai-no-i” (volume 3, capítulo 67, p. 241 e 242)

Introdução

So quer dizer “ancestral” ou “patriarca” e shi quer dizer “mestre”; então soshi quer dizer “mestre ancestral” ou “o mestre ancestral”. A palavra como é o caso neste exemplo, indica Mestre Bodhidharma. Sei quer dizer “oeste” e rai quer dizer “vir”. I quer dizer “intenção” ou “objetivo”. Então soshi-seirai-no-i quer dizer a intenção de Mestre Bodhidharma de vir da Índia (do Oeste) até a China (o Leste) para difundir o budismo e este acontecimento marcou a transmissão do verdadeiro budismo na China. Mestre Bodhidharma foi então chamado o primeiro patriarca na China e os budistas chineses acharam extremamente importante discutir a intenção que tinha Mestre Bodhidharma quando veio do Oeste. Neste capítulo Mestre Dogen cita uma discussão célebre entre Mestre Kyogen Chikan e seu discípulo para explicar o significado verdadeiro de Mestre Bodhidharma quando ele veio do Oeste.

(147) O Grande Mestre Shuto do templo de Kyogen-ji (que sucedeu a Dai-e por isso seu nome de monge era Chikan) se dirigiu da seguinte forma à assembléia: “Uma pessoa subiu numa árvore acima de um precipício de mil metros. Em sua boca ele tinha um galho da árvore pelo qual se segurava por cima do abismo. Seus pés não lhe permitiam subir na árvore e suas mãos não lhe permitiam se soerguer do galho. Sob a árvore chega uma pessoa que pergunta: “Qual é a intenção do Mestre ancestral quando veio do Oeste?” Neste momento, se esta pessoa abrir sua boca para responder ao outro, ele perde seu corpo e sua vida e se ele não responder ofende aquele que perguntou. Então, digam-me, num momento destes, o que vocês seriam capazes de fazer?”
Então o Acarya Sho da montanha Koto deu um passo adiante e disse: “Nada pergunto sobre o por quê esta pessoa subiu na árvore. Antes que ela subisse no galho, Mestre, eu lhe peço, me diga qual era a situação?”

O Mestre explodiu de rir.

Empregamos o título Soshi para designar o primeiro patriarca Bodai Daruma. Bodai Daruma, vigésimo oitavo patriarca hindu, se tornou o primeiro patriarca chinês quando ele veio da Índia para este país. Este zen, transmitido até Mestre Dogen se chamava soshi zen “zen dos patriarcas” que se chamava antes de Nyorai zen “Zen do Tathagata”.

Bodai Daruma (Bodhidharma) é o patriarca entre patriarcas, e compreender a intenção de Bodhidharma se tornou algo de muito importante para se aproximar do tathata, para tentar compreender esta verdade da intenção de Mestre Deshimaru quando ele veio do Japão para a França. Mais uma vez, é importante se colocar esta questão, porque não compreender isto é faltar em seu reconhecimento quanto a ele.

Bodhidharma veio para a China e ele se encontrou com o imperador. Ter contatos com o imperador pode ser uma excelente chance para expandir o budismo, mas ele recusou esta ocasião. Dizem que ele foi para a montanha Shu no Templo de Shaolin e que ele sentou em zazen, diante da parede, durante nove anos. O Livro da Serenidade, eu creio que se trata do segundo caso, diz: “Sentado diante da parede, ele mostrava diretamente a verdade”. Sentado em silêncio esquecemos da linguagem, as perguntas e respostas (os mondos). Não há nem eu mesmo nem outro, e mil e setecentos koans é como tentar aprisionar o vento ou de imobilizar uma sombra. Neste capítulo “Soshi-seirai-no-i”, do qual vamos ler um outro extrato, Mestre Dogen fala desta questão e diz que as pessoas em geral ficaram atônitas com a história de Mestre Kyogen.

Leitura de “Shoshi-seirai-no-i” (volume 3, Capítulo 67, p. 242)

(148)Esta história apareceu em numerosos comentários e numerosas discussões entre os antigos, mas os indivíduos que exprimiram a verdade desta história são bem poucos; pela sua maior parte, parece que as pessoas ficaram completamente atônitas. Seja lá como for, se nós considerarmos esta história utilizando o não-pensamento, e se nós utilizarmos este não-pensamento, então a concentração sobre uma almofada redonda em companhia do velho (Mestre) Kyogen, será naturalmente manifestada. Uma vez que nós somos já desta forma no estado que é tranqüilo como uma montanha, sobre a mesma almofada redonda que este velho Kyogen, nós seremos capazes de compreender sua história em detalhe antes mesmo que Kyogen abra a sua boca. Não somente nós poderemos roubar os olhos do velho Kyogen e esclarecer a história, mas fazer ver o tesouro do olho da verdadeira Lei do Buda Shakyamuni, nos permitirá instantaneamente ver através.

Este koan é um pouco complicado. Existe já uma história parecida com Obaku.

Uma pessoa muito apegada ao seu corpo não pode entrar no caminho de Buda. Foi por isso que Obaku disse: “Se vocês fizerem o que eu disse, vocês poderão entrar no caminho do budismo”. O discípulo disse: “De acordo, eu prometo, eu farei tudo o que você disser”. Mestre Obaku disse: “Monte nesta árvore, de altura de mil metros, abaixo dela existe um precipício e agora solte uma mão”. O discípulo largou uma mão. “Agora, largue um pé do galho, em seguida o outro pé”. A pessoa se viu suspensa por tão somente uma mão. “Agora abra a outra mão”. – “Mestre, se eu abrir a mão, caio e morro”. “Mas você havia prometido fazer tudo que eu dissesse”. “Sim, havia prometido”. Então ele abriu a mão, caiu, e se achou repentinamente sentado na relva e no momento em que ele ultrapassou seu apego ao corpo físico, obteve um tipo de iluminação, que é o primeiro grau de um arhat.

Muitas pessoas entram no caminho fazendo cálculos. Eles dizem: Se eu morrer, não posso praticar, ou, é com o corpo que eu pratico. Ou ainda: Não tenho dinheiro, não posso praticar porque é necessário de qualquer maneira que eu coma. Se pensarmos assim, estamos extraviados. Esta história é um pouco diferente daquela de Kyogen Zenji. Quando lemos esta história não compreendemos verdadeiramente o que é aquilo que ele quer dizer. Então, de qual capítulo ele quer falar? Da intenção de Bodhidharma quando ele veio para a China.

A interpretação de Dogen Zenji é: Sentem-se em companhia de Mestre Kyogen como Bodhidharma. E é aqui que aparece também aquele célebre caso do hishiryo. (O caso referido aqui é o seguinte: Quando Mestre Yakusan Igen estava em meditação sentada, um monge lhe perguntou: “O que você está pensando quando você está no estado calmo como uma montanha?” O Mestre disse: “Pensando sobre o estado completo do não-pensamento”. O monge disse: “Como este estado do não-pensamento pode ser pensado?” O mestre disse: “Isto é diferente do pensar”. A história é citada no Shinji Shobogenzo e no Shobogenzo zazenshin, capítulo 27. Podemos também encontrá-la no Fukan zazengi e no zanmai-ô-zanmai, capítulo 72). Sentado em zazen como Kyogen Zenji ou como Bodai Daruma o monge pergunta: “Você está sentado imóvel como uma montanha de pedra, em que está pensando?” “Penso naquilo que não pode ser pensado”. O monge disse: “Como você pode pensar naquilo que não pode ser pensado?” A resposta é: “Hishiryo (além do pensamento)”.

Dogen Zenji cita sempre este koan para falar do zazen. Mais uma vez, o monge perguntou ao Mestre Yakusan Igen: “Sentado como uma montanha de pedra, em que é que você está pensando?” Sentado como uma montanha de pedra, isso mostra o seu estado de zazen. Se pensarmos durante o zazen, a cabeça se move sem cessar. Quando passamos o kyosaku, podemos imediatamente ver quem está pensando e quem não está. O kyosaku não deve ser utilizado para acordar uma pessoa que esteja adormecida. Ao contrário, se observarmos que uma pessoa está se balançando e se sentirmos um balanço interior também, é necessário utilizar o kyosaku; se, ao constatarmos uma pessoa sentada como uma montanha de pedra, que não se move, mas a quem está faltando algo para fazer o salto, então é necessário utilizar o kyosaku. Se bem que se trate de coisas invisíveis, é necessário desenvolver esta capacidade de perceber este tipo de coisas.

A expressão japonesa diz: “perturbado por estado de quietude parecido a uma montanha de pedra”. Em geral utilizamos esta palavra “perturbado” no sentido de “errado”, mas na linguagem de Mestre Dogen que é sempre uma linguagem especial, difícil, “perturbado por esta montanha de pedra” quer dizer estar já no samadhi. Os estados de agitação, ou os estados de tristeza melancólica não permitem entrar neste estado de estabilidade como uma montanha (este é o sentido de “perturbado”), se bem que por outro lado, as perturbações também sejam uma boa coisa.

Vocês estão sentados como uma montanha de pedra. Em que pensam? Em quem pensam? Ao que podemos dizer dizendo: “Vocês pensam naquilo?”, este “aquilo” ou “isto” sendo inmo, a talidade. Esta pergunta: Você pensa nisto? Mostra já, de alguma forma, a resposta que é: Penso naquilo que não pode ser pensado. Como pensar naquilo que não pode ser pensado? Este “como” é também inmo, a talidade. Como pensar “naquilo”, “naquilo” que também é a talidade? Impossível de pensar.

Em geral, pensamos se houver pensamento, ou seja o fato de pensar, de ter idéias, e que haja o não-pensamento seja o fato de não pensar; além existe o hishiryo, pensar o fundo do não-pensamento, um estado que seria mais profundo e portanto preferível. De um lado sim, de um outro lado, não, porque estes três aspectos são uma mesma coisa.

Nós nos lembramos dos três aspectos fundamentais de si mesmo, desenvolvidos pela escola Yuishiki. O primeiro é: pensar, ver as coisas sob um modo imaginário; o segundo: não-pensamento, ou seja, a vacuidade, a interdependência; o terceiro: hishiryo, o caminho do meio. A vacuidade tem uma ligação com o caminho do madhyamika “o caminho do meio”. Com a vacuidade e o caminho do meio podemos criar um pensamento que não se desnorteia, se bem que o fato de estar sentado, imóvel como uma montanha de pedra, já mostre tudo. Agora, pensar em quê? Se você pensa “aquilo”, seu pensamento será “aquilo”. Este pensamento se escoa sem ocasionar perturbação porque este pensamento emana e está além do pensar e do não pensar.

Se durante o zazen surgissem pensamentos, lembranças, isso não é grave, não os toquem simplesmente. Dizem que estas idéias não possuem pés, que não repousam sobre nada de fixo. Se vocês não as alimentarem, elas irão embora por si mesmas. É muito difícil não pensar e querer não pensar já é uma forma de pensamento. Então: sentado como uma montanha de pedra, imóvel, ele mostra tudo, ele mostra a verdade deste universo. Na escola Soto, os koans são para serem entendidos desta forma. Não se trata de não pensar, se trata de se tornar si mesmo o koan. Mas é necessário se sentar muito para se tornar si mesmo parecido a uma montanha de pedra. Nestes momentos, não existe mais “eu e os outros”, eu, o mundo e o universo, tudo isso é nós mesmos. Este é o sentido de “estar sentado com Kyogen ou com Bodhidharma”, é a intenção do Patriarca.

Nós temos muita sorte que Mestre Deshimaru tenha trazido este zazen para o Ocidente. Pessoalmente, eu não sou contra cerimônias, e quando a ocasião se apresenta, nós as fazemos. Por que não? Tentemos contudo fazê-las muito bem, mas não nos esqueçamos que o mais importante é o zazen. Shikantaza é o ensinamento de Mestre Dogen transmitido desde o Buda Gautama através da sucessão dos patriarcas e nós a recebemos agora. Se jogamos fora este zafu e ficamos procurando mais alguma coisa, o que é que isto quer dizer? O budismo tibetano é incrível. Para cada escritura, cada sutra, um ritual foi instaurado. O Buda Amitabha, Maitreya, o Buda da medicina… cada aspecto destes Budas deu lugar a cerimônias e existem ainda muitas iniciações. Aqueles que são atraídos por estas práticas (e muitos são) podem ir lá e se possível tentar penetrar estas coisas.

No nosso caso é somente o zazen. Se vocês compreenderem o zazen, vocês estão prontos a fazer muitas coisas perfeitamente, seja cerimônias, trabalho… Exagerando um pouco, digamos que existe um corte com o mundo e que seja necessário treinar muito. Eu proponho nada praticar exceto três zazen por dia até o momento onde nos sentemos verdadeiramente e a partir daí, de começar a brincar. O resultado é garantido, com certeza vocês vão ganhar.

A pessoa está suspensa de um galho de árvore, pela boca, não se pode utilizar esta boca, as mãos estão pendentes, não há nada em que agarrar, e o mesmo vale para os pés. O que isto quer dizer? Claro, é o zazen.

Durante o zazen, a boca está fechada, as mãos estão em hokkai-join, as pernas em lótus. Neste momento, o que está se passando? Não existe oeste, leste, não há vinda, nem ida, nem si mesmo, nem outro, não há mundo, nem universo, nem cosmos, estamos justamente tranqüilos como uma montanha de pedra. É o tathata “manifestado”. Esta boca engole todos os budas, todos os patriarcas, todo o universo – passado, presente e futuro; esta boca fala como falam todos fenômenos: não há dualidade, as mãos são como a árvore, uma árvore suspensa de outra árvore; o mesmo vale para os pés, os pés são como a árvore, os pés se apóiam sobre os pés mesmos, e isto vem “assim mesmo”. Ali, é antes que Kyogen tenha aberto sua boca, antes que alguém venha e lhe peça para subir na árvore. Não é mais uma questão de perguntar ou responder, neste caso o zazen mostra tudo. Se é o silêncio, é o silêncio total, é maha muni, “o grande silêncio”; se há palavras, isso diz tudo, é também maha muni, está além do fato de compreender qual é a intenção de Bodhidharma quando ele veio do oeste.

Quando Mestre Deshimaru veio para a França, quantas pessoas tiveram vontade praticar o zazen sem que ele tivesse necessidade de falar? Eis aí o milagre. Quem pode fazer isto? Eu acho que muito poucas pessoas. É por isso que devemos nos lembrar dele, nunca esquecer esta mensagem e experimentar gratidão para ele. Mesmo assim, não se trata somente de reconhecimento, a verdadeira gratidão consiste a se tornar si mesmo a sentada, se tornar si mesmo Mestre Deshimaru. Eu peço a vocês, não coloquem muitas perguntas, nós temos a coisa mais preciosa de todas, aceitem isto e o resto virá naturalmente. Eis aí, é tudo.

Pergunta: Antes do zazen, eu freqüentemente vejo pessoas que se balançam para a sentada e outros que não se balançam. Você mesmo não o faz. Para que isto serve? É necessário fazê-lo?

Resposta: O Fukan zazengi recomenda que antes de começar o zazen, se deve fazer movimentos de rotação, sem precipitação, normalmente. Depois do zazen, para sair, é o contrário, começamos por pequenas rotações que vão crescendo e isso sempre faz bem.

Há uma outra técnica (é meu segredo): se trata de, justo antes do zazen, se inclinar lentamente para a frente expirando profundamente, sem fazer barulho. Este balanço para a frente é chamado, no Zazengi, kanki-issoku ou seja: expirar, esvaziar totalmente o sopro, duas ou três vezes se necessário, em seguida inspirar pelo nariz. O sopro se torna então naturalmente muito profundo.

Para a maioria das pessoas, normalmente, a expiração é de dez segundos, e a inspiração de cinco segundos, mas com este treinamento, se pode chegar, sem fazer esforço, a uma expiração de trinta segundos.

Se, antes de começar o zazen, eu não pratico estes movimentos e esta expiração que acabei de descrever, é porque realmente eu tenho um velho hábito. Então, sim, é recomendado, todo mundo pode fazer isto. Outra coisa: quando se inclina para frente, é necessário tentar puxar o cóccix para cima, nem que seja alguns milímetros. É muito importante. Quando a parte de baixo do corpo ao nível do cóccix está levemente encurvado, os rins se cavam levemente (é mais uma sensação que se tem), e com isto a coluna vertebral se endireita, é então uma atividade do buda, não é mais nossa atividade de pessoa comum. Se você pode segurar esta postura como uma espada japonesa, uma espada de qualidade, você pode sentir como uma energia sagrada.

Cada um entre vocês, não importa quais sejam seus complexos, se você estiver sentado desta forma, você é precioso, mas claro, ainda não têm consciência. É necessário que os ombros estejam naturalmente relaxados, fazer de forma que a energia esteja ao nível do hara e igualmente encaixar levemente o queixo em direção ao interior.

Se você perder esta concentração na base da coluna, a coluna vertebral vai se encurvar e arredondar, o queixo vai relaxar e o sopro não descerá mais verdadeiramente para baixo do nível do peito. No caso de uma forte concentração, se pode ficar doente. Os dois joelhos mais o cóccix formam um tripé. Com esta postura, você não está mais sentado num zafu, você está sentado sobre a terra inteira e o conjunto do universo repousa sobre o topo de sua cabeça. Não é mais seu 1,50 m, 1,60 m ou 1,70 m que está sentado, é você, você é grande. Se se colocasse uma peça sobre sua cabeça, o som ressoaria até o cóccix até o ânus. Estas sensações devem ser verificadas de tempos em tempos. Atenção, se estamos inclinados um pouco para trás, isto quer dizer que temos um pouco de orgulho, que estamos orgulhosos de nosso zazen e isso não é bom. É necessário ser somente normal, não utilizar força, se concentrar somente no hara, a cada sopro. Eu vejo que para um de vocês, isso está melhorando. Como eu sou um pouco preguiçoso, eu não corrijo posturas, mas vocês querem verdadeiramente aprofundar a prática, venham a Eitaiji.

Não temos nada mais senão o zazen, e é por isso que é necessário se ocupar disto nos menores detalhes. Hishiryo-fushiryo (pensamento, não-pensamento) além dos dois, pratiquem isso eu peço a vocês.

Estamos neste momento no shiryo, pensar em tal coisa, a uma outra coisa, ainda não chegamos ao fushiryo.

Chegamos assim ao fim do sesshin.