Bastão de Yunmen

Sesshin de abril de 2005 em Eitaiji
La Lettre de Maha-Muni 52
Corrigido por Tokuda Sensei no fim de junho de 2005

Teisho #1

Durante este sesshin, vou continuar aquilo que comecei no sesshin anterior.

Leitura e tradução de um extrato do “Butsu-kojo-no-ji” “Os fenômenos além do buda” do Shobogenzo (Volume 2, capítulo 28, p.114)

O Mestre Zen Koso da montanha de Chimon (Chimon-zan) numa ocasião se deparou com a seguinte pergunta de um monge: “Do que trata o estado de buda?” O mestre disse: “A cabeça do bastão levanta o sol e a lua”.

Comentário: O bastão que está ligado de forma inextricável ao sol e à lua é a forma do estado de Buda. Quando aprendemos pela prático o sol e a lua enquanto bastão, todo o cosmos desaparece: é a forma do estado de buda. Não é o sol e a lua enquanto bastão.

Este mestre Chimon Koso era um discípulo do Mestre Kyorin que era ele mesmo um discípulo do Mestre Yunmen. O Mestre Yunmen era conhecido por seus golpes de bastão e tal uso do bastão chegou até seu neto espiritual (Mestre Shimon). Este koan, bem como o comentário de Mestre Dogen, é muito complicado e para que pareça mais inteligível, gostaria de voltar ao koan “A mulher de pedra” relatado por Mestre Dogen no capítulo “Sansuikyo” “O sutra das montanhas e águas” do Shobogenzo.

Leitura e tradução do “Sansuikyo” (Volume I, Capítulo 14, p. 167 e 170)

Mestre Kai da Montanha Taiyo-zan pregava diante da assembléia: “As montanhas azuis caminham constantemente, a mulher de pedra dá a luz durante a noite”.

Nas palavras “A mulher de pedra dá a luz durante a noite” o tempo durante o qual a mulher dá a luz à pedra menino, é chamado noite. Em geral, existem pedras masculinas e pedras femininas e existem pedras que não são nem femininas nem masculinas. Existem pedras celestes e existem pedras terrestres – como dizem os profanos, mas poucas pessoas conhecem estas coisas. É necessário que conheçamos os princípios de dar a luz. No momento de dar a luz, o pai e o filho evoluem separadamente? Como podemos aprender na prática somente que dar a luz é realizado quando o pai se torna o pai do filho?

“A mulher de pedra dá a luz durante a noite”. Este é o meu koan. Eu estudei este koan durante vinte anos e creio que ainda não compreendo nada dele!
“A mulher de pedra dá a luz durante a noite”: o que é tal noite? Mestre Dogen faz um comentário neste caso e nos diz: nós devemos compreender que não somente o pai engendra um filho, mas que o filho mesmo é quem engendra o pai.
Normalmente o filho cresce, se torna adulto, se casa e dá o nascimento ao seu próprio filho, mas aqui é ao contrário, é o filho que se torna o pai e o pai que se torna o filho. Segundo meu entendimento isso trata da transmissão do Dharma. Na relação entre mestre e discípulo, a transmissão se opera quando o discípulo está pronto para a receber e esta é a razão pela qual se diz que somente Buda reconhece Buda. Na Bíblia está dito que somente o filho reconhece o pai.
Tomemos um exemplo da vida cotidiana: quando, para atravessar a rua, as pessoas aguardam a mudança de sinais e que começam a caminhar, no budismo zen se diz que a pessoa encontra com seu pai justamente naquele instante, não é necessário de terceiros para atestar que se trata de nosso pai, porque tendo sempre vivido com ele, nós o conhecemos perfeitamente e se o encontramos, o reconhecemos instantaneamente.
Assim, quando o filho cresce e se torna adulto, o pai dá o nascimento ao seu próprio filho. “Dar nascimento” não é somente uma questão de sexualidade, também é a continuação do ego, é transmitir a vida e a perpetuar através de seus filhos, seus netos etc. Nos tempos antigos, quando os monges zen não se casavam, quando falecia o mestre, o Dharma não era transmitido ao seu filho, mais a seu discípulo mais chegado que de fato se tornava seu filho na linhagem. É por isso que tal relação mestre-discípulo é tão importante, para que o Dharma não se interrompa. Um Dharma transmitido a um filho nascido de uma união marital é um Dharma enfraquecido.
Quando o pai dá o nascimento ao seu filho, ele lhe transmite sua própria essência e o filho, não somente recebe a vida de seu pai, mas também recebe aquela coisa essencial que é o espírito do pai e assim o pai se torna o filho antes de ser o pai. Quanto àquilo que se trata do Dharma, não se o pode transmitir somente através das transmissões sanguíneas a seus sucessores. Por outro lado, se houver uma impossibilidade de transmitir o Dharma porque o discípulo não está pronto, é melhor não o transmitir.
Hoje em dia eu acho que esta transmissão está a perigo, mesmo se constatando que a transmissão é realizada na maioria dos casos. Acontece às vezes que um mestre, querendo a autenticidade, decide não a transmitir, e com isto a linhagem se interrompe. Eu me pergunto porque Mestre Deshimaru, que tinha milhares de discípulos, não transmitiu o Dharma a alguns deles. Aqueles que treinaram com ele receberam a transmissão não diretamente dele, mas com outros mestres japoneses.
Hoje em dia, graças à ciência e particularmente ao DNA sabemos quem são os pais. No sistema do shiho, seria interessante submeter os discípulos ao teste do DNA a fim de assegurar da legitimidade ou não da transmissão.
Para retornar à transmissão do Dharma, quando chega o momento exato, o pai se torna o filho e o filho se torna o pai.
No seu comentário Mestre Dogen coloca a questão seguinte: o pai e o filho estão no mesmo nível ou não?

Leitura do “Sansuikyo”

No momento de dar a luz, o pai e o filho evoluem separadamente? Como poderíamos aprender pela prática somente que o nascimento é realizado quando o pai se torna o pai do filho? É necessário que aprendamos pela prática e o compreendamos perfeitamente, que o tempo para que o filho se torne o filho do pai é a prática e realização da realidade de dar a luz.

Neste momento, o pai e o filho estão lado a lado ou evoluem separadamente? É uma questão muito delicada.
Quando da transmissão, quando num primeiro momento, o mestre e o discípulo desdobram seus zagus (pano de prostração), os zagus se tocam e formam uma só linha vertical, o que quer dizer que mestre e discípulo se tornam “uma só coisa”. Depois, quando o mestre vem para o lado do discípulo eles desdobram seus zagus que agora estão “lado a lado”. Então se trata de “lado a lado” ou de se tornar “uma só coisa”? No capítulo Sokushin-zebutsu, (“O espírito aqui e agora é o Buda”) Dogen Zenji disse: se você se torna um buda e patriarca, no final das contas você se torna o Buda Shakyamuni e não há senão um só Buda Shakyamuni. No ketimyaku, o documento passado quando da transmissão, todas as linhas não interrompidas se tornam nada mais do que uma só linha. Claro, os nomes dos budas e patriarcas estão sublinhados em vermelho.
Se Mestre Dogen coloca a pergunta de saber se eles estão lado a lado ou não, é porque não se pode dizer que estejam “lado a lado” ou “vertical”, porque existem estes dois aspectos ao mesmo tempo.
A mulher de pedra não tem a capacidade de ficar grávida, mas mesmo assim dá a luz, e não somente dá a luz, mas o faz durante a noite. Para mim tal mulher de pedra tem a ver com o dharmakaya (corpo cósmico do Buda). Este Hosshin (Dharmakaya) não faz nascer este corpo, somente à noite o pode fazer. Uma vez mais, o que quer dizer esta noite?
Este capítulo Busso “Budas e Patriarcas”, eu o vejo da seguinte maneira: este Buda, este dharmakaya é algo de metafísico, cósmico, através do qual passam os patriarcas (so) físicos.
Todas as manhãs nós cantamos os nomes dos budas, sendo que os sete primeiros são os budas do passado: Bibashibutsu Daiosho, Shikibutsu Daiosho, Bishafubutsu Daiosho, Kurusonbutsu Daiosho, Kunagonmunibutsu Daiosho…, até aquele do Buda Shakyamuni Daiosho. Em seguida vêm Makakasho Daiosho, Ananda Daiosho… sem o “butsu” porque aqui se trata dos patriarcas. Depois do Buda Shakyamuni, o primeiro buda histórico, todos os patriarcas aparecem e estes patriarcas em seguida voltam até o Buda Shakyamuni. Do Buda Shakyamuni a Dogen Zenji, existem cinqüenta e quatro patriarcas, ou seja oitenta e cinco ou oitenta e sete gerações até os dias de hoje (não importa qual seja a qualidade deles).
Voltemos à questão: o que quer dizer a “noite”? No capítulo Kannon do Shobogenzo, nós podemos encontrar esta segunda noite (que estudamos no sesshin anterior) através de um diálogo entre Mestre Ungan e Mestre Dogo: “O que faz o Bodhisattva Kannon com seus milhares de olhos e de mãos?” A resposta é: “É como alguém de noite que busca com o dorso da mão seu travesseiro”.
Mas que mão será esta? Dogen Zenji disse: devemos aprender como voltear nossa mão. Em geral não pegamos objetos com o dorso de nossas mãos. O que quer dizer pegar algo com o dorso da mão? Quer dizer praticar com o espírito de mushotoku, não querer pegar, dar as costas ao objeto. Esta “noite” descreve exatamente o que se passa durante nosso zazen: depois de ter dominado os cinco sentidos, o som, a visão, o tato etc. podemos em seguida entrar profundamente na concentração, sem o que tal concentração será fraca ou inexistente.
Um sutra do Tripitaka nos diz que quando o Buda Gautama sentava-se em zazen debaixo de uma árvore, quinhentas carroças passaram diante dele sem que sua concentração fosse quebrada. De uma outra feita, quando ele sentava-se debaixo de uma árvore, se desencadeou violenta tempestade: uma mulher ficou de tal maneira chocada pelo barulho do trovão que faleceu, enquanto que o Buda continuava sentado, conservando a tranqüilidade.
Quanto a este koan “alguém que durante a noite busca o travesseiro com o dorso de sua mão” Dogen Zenji disse que isso é como observar uma montanha durante o dia, ou olhar a noite durante o dia. É necessário que estudemos tal noite e que consigamos olhar a noite durante a noite, estudar a noite além do dia e da noite. Cada vez que Mestre Dogen tece um comentário, isso se torna cada vez mais confuso para nós.
Eu tenho estudado este koan durante já vinte anos, o que me leva à época onde me encontrava nos platôs altos do Brasil. Nosso templo havia sido construído em cima de uma mina de ouro. Neste lugar, havia túneis de onde se escavava ouro. Quando se achava uma mina de ouro no rochedo se devia seguir o veio – quer subisse ou descesse – para chegar até o ouro.
Mestre Dogen se esforça sempre por nos explicar o mais gentilmente possível, mas nossa dificuldade de compreender provém de nossas idéias preconcebidas, e este é o obstáculo. Se desembaraçar de todos estes conceitos é extremamente difícil, mas se conseguirmos tal façanha, então o sagrado se manifesta e compreendemos finalmente que nada existe de sagrado. Nós achamos que precisamos compreender estes koans numerosos desde um ponto de vista lógico enquanto que não existe lógica alguma, e que o fato mesmo de tentar tal coisa nos faz perder instantaneamente qualquer possibilidade de compreensão. Somente o zazen permite entrar mais e mais profundamente na obscuridade e assim se desembaraçar de tal consciência. No Zazengi, Mestre Dogen nos dá explicações quanto a isto.
Mestre Dogen diz que existe um método para compreender o budismo e que também existe um outro método para não compreender o budismo… Tal não-compreensão pode ser o segredo, algo que se parece com a não-discriminação e que permite chegar à intuição direta, a saber, ver sem ver, o que torna a noite obscura de fato em luz. Quero comparar isto a um sermão de Meister Eckhart que nós veremos amanhã.

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Leia mais teishôs sobre o “Bastão de Yunmen”:

Segundo Teishô do Sesshin de Abril de 2005 em Eitai-Ji
Terceiro Teishô do Sesshin de Abril de 2005 em Eitai-Ji
Quarto Teishô do Sesshin de Abril de 2005 em Eitai-Ji
Quinto Teishô Sesshin de Abril de 2005 em Eitai-Ji
Sexto Teishô do Sesshin de Abril de 2005 em Eitai-Ji