Bastão de Yunmen – Sexto Teishô do Sesshin de Abril de 2005 em Eitai-Ji

Sesshin de abril de 2005 em Eitaiji
La Lettre de Maha-Muni 52
Corrigido por Tokuda Sensei no fim de junho de 2005

Teisho #6

Hoje é o último teisho do sesshin, porque amanhã haverá a ordenação de Philippe que já havia sido ordenado. Então será uma ordenação muito simples e curta.
Durante esta semana, nós falamos da noite, da obscuridade e do bastão. Gostaria de voltar ao capítulo do Shobogenzo Butsu-kojo-no-ji (Volume 2, capítulo 10, p. 114)
Butsu kojo no ji pode ser traduzido como “Prática além do buda” ou “A questão do estado de buda”, ou “A prática do estado ascendente de buda”.

O Mestre Zen Koso da montanha Chimon (Chimon-zan) de certa feita foi perguntado por um monge: “O que é a questão do estado de buda?” O mestre disse: “A cabeça do bastão obscurece o sol e a lua”.
Comentário: O bastão que está de forma inalienável ligado ao sol e à lua é uma forma do estado supremo de buda. Quando nós aprendemos pela prática o sol e a lua enquanto bastão, todo o cosmo desaparece: é a forma do estado supremo de buda. Não é que o sol e a lua sejam o bastão.
A concretização da cabeça do bastão é o bastão em sua totalidade.

Nós já estudamos o bastão de Yunmen e já sabemos que o bastão nada mais é que si mesmo. O importante aqui é o comentário de Mestre Dogen, especialmente a primeira linha: “O bastão que está de forma inalienável ligado ao sol e à lua é uma forma do estado supremo de buda”.
O bastão ligado de forma inalienável ao sol e à lua, é katto “obstáculo”; mesmo assim este bastão é a forma do estado de buda o que quer dizer que ele se torna “uma só coisa” com o sol e a lua. Uma vez mais é uma questão de prática e realização: não somente o bastão é eu mesmo, mas este bastão é eu mesmo através da prática.
Nesta prática, nada existe além de você mesmo praticando, não existe nem luz do sol ou da lua, nem satori. O satori não é um resultado da prática: está errado achar que a prática nos conduz a deixar cair corpo e mente e em seguida a obter a iluminação, não é com a realização que você deixa cair, nesta prática já existe o “deixar cair”.
No extrato do capítulo Butsu-kojo no-ji que acabamos de ler, Mestre Shimon diz que com a extremidade do bastão, obscurecemos o sol e a lua. Mas quando o sol e a lua se tornam o bastão o que acontece então? O sol e a lua desaparecem.
Mas gostaria de chamar atenção a um problema de tradução: a frase: “Quando aprendemos pela prática o sol e a lua enquanto bastão, o universo inteiro desaparece”, isso deveria ter sido traduzido assim: “Quando o sol e a lua praticam o bastão, neste momento o céu e a terra inteiros se obscurecem”.
Quando o sol e a lua praticam o bastão, neste momento todo o céu e a terra inteira se tornam obscurecidos, é o estado de buda; De fato, se o sol e a lua querem dizer realização, neste caso, a iluminação desaparece de nossa prática cotidiana de forma que nossa prática cotidiana se torna sem gosto, sem efeitos, é uma prática que não deixa traços. Quando esta realização desaparece, nada resta senão a prática, o sol e a lua desaparecem e naturalmente todo o universo se obscurece. Mas aqui é preciso não ver esta obscuridade de forma negativa, ao contrário, este momento do bastão – que é nossa prática – é também absoluto e universal.
Assim o sol e a lua desaparecem completamente e todo o universo se torna obscurecido. Mais uma vez: o que é a obscuridade? É a não dualidade, é a prática. Quando praticamos nada mais fazemos senão praticar. Nos enganamos quando esperamos os efeitos de tal prática. É necessário permanecer nesta obscuridade, mesmo que ela nos assuste, porque a obscuridade é a câmara secreta de Deus. O que quer dizer “a câmara secreta de Deus”? É o lugar onde Deus se encontra totalmente nu aguardando a união mística. É um outro lado do misticismo: ele ali está, naquela obscuridade, mostrando que ali Ele está para se unir com sua noiva.
Quando tudo se torna obscuro, é necessário uma vez mais passar por uma negação, negação do sol e da lua enquanto bastão, para finalmente chegar à conclusão: a concretização da cabeça do bastão é o bastão em sua totalidade.
Quando o céu e a terra inteiros se tornam obscuros, é o estado além de buda, mas isso não quer dizer que o sol e a lua sejam o bastão.
Quando, no seu comentário Mestre Dogen começa nos dizendo que o sol e a lua são o bastão, isso quer dizer que a realização está na prática, ou que a prática é a realização. De um outro lado, achar que o sol e a lua sejam o bastão, é diferenciar a prática da realização, é cair na dualidade. É necessário ir além de tudo isso para que não reste nenhum traço finalmente.
No começo Mestre Dogen diz: “A cabeça do bastão…”, mas o comentário acaba dizendo: não a cabeça, não uma parte do bastão, mas “o bastão em sua totalidade”. Este bastão de Mestre Unmon se transforma em dragão, engole o universo inteiro, compreendendo aqui claro, o sol, a lua e também Deus, numa obscuridade completa. É assim nosso zazen, é a fonte, a fonte do dragão, a origem do dragão, ali onde não sentimos nada, nenhum efeito. É o zazen, ou zanmai o zanmai, “o samadhi, rei dos samadhis”.
Depois deste comentário do Shobogenzo, ainda nos resta um pouco de tempo. Gostaria de fazer uma comparação entre o bastão de Yunmen e o bastão de Moisés: quando Moisés brandiu seu bastão diante do faraó e o arrojou ao chão, o bastão virou serpente, esta serpente é como o dragão, este bastão é o Deus absoluto, enquanto que o relativo está representado pelo faraó. De fato, estas duas histórias sobre o bastão se unificam.
Cada manhã nós cantamos o Sandokai ou o Hokyozanmai. O Sandokai diz:

Na claridade existe a obscuridade, mas não vejam somente o aspecto obscuro,
Na obscuridade existe a claridade, mas não vejam somente o aspecto luminoso.

“Claridade” e “obscuridade”, assim como as noções de “direita” e “esquerda” são fabricações de nosso pensamento. É necessário que agora a direita se torne a esquerda, o de trás se torne o da frente, como no kin-hin quando o passo da frente se torna o de trás. A claridade é “uma”, ela é a “totalidade”, ela engloba tanto o estado do tathata como aquele do bonno soku bodai “ilusões e iluminações”, vida e morte ou nirvana, igualdade ou diferenciação, bem e mal, porque como diz o Sandokai, nada há de fixo.
Todas as manhãs, durante os sesshins, vocês cantam o Hokyozanmai sem saber o que quer dizer. Não é responsabilidade de vocês porque eu não expliquei sobre isso, a não ser um pouco no ano passado. Foi meu erro.
Na noite obscura, existe a claridade (shomei), como na manhã, não é completamente o dia porque no dia existe também a noite.

Eihei Zenji goroku, volume 4 (258), duas citações:

A meia noite coloquem seus calçados e vão embora depois de ter roubado as pupilas dos olhos de Bodhidharma. Na madrugada coloquem seus chapéus e venham depois de ter segurado as narinas de Xitang.

Este Mestre zen Seido se encontrou um dia com o mestre zen Shakkyo Ezo. Este último lhe perguntou: “Você sabe como agarrar o espaço?” Seido respondeu: “Claro”. “Como se o agarra?” Seido então agarrou o espaço com as mãos e disse, “Peguei”. Shakkyo Ezo disse: “Não, não é assim, assim nunca o agarrará”. “Como o posso pegar então?” Seido agarrou o nariz de Shakkyo Ezo, querendo dizer que aquela era a forma de agarrar o espaço.
O nariz simboliza o lugar onde se pode pegar. Vocês já são a vacuidade (“espaço” é sinônimo de “vacuidade”). Lembrem-se de Mestre Hakuin que, muito jovem, chegou a uma experiência que lhe fazia muito orgulhoso, a tal ponto que fedia. Ele não estava butsu kojo “além da experiência de buda”. Um dia ele ouviu falar de um velho mestre chamado Shoju Rojin (“velho Shoju”) que vivia escondido na montanha, numa choupana. Ele o foi encontrar e um mondo se desenvolveu entre eles. Mestre Shojun Rojin perguntou: “Com qual koan você se tornou isso que você é?” Mestre Hakuin respondeu, “Com o cachorro de Joshu, o universo inteiro é mu, não se o pode segurar”.
Teoricamente esta resposta está certa, mas Shoju agarrou Mestre Hakuin pelo nariz e ao mesmo tempo o empurrou. Como eles se achavam num terraço, Hakuin caiu, bateu a cabeça e perdeu a consciência. Depois de alguns instantes, quando voltou a si, viu mestre Shojun morrendo de rir dele. Neste momento sua prática mudou, começou a estudar seriamente. Mestre Hakuin se tornou um grande mestre Rinzai e teve uma grande influência, que mudaria a história do zen.
Hoje em dia a escola Rinzai tem dezesseis linhas, que todas voltam ao Mestre Hakuin.

Eu encontrei um outro poema no Eihei Zenji Goroku (volume 10, p.628)

Tarde na noite a cabeça de um corvo se cobriu de neve.
Na madrugada um mudo diz que empurrou a água até a fonte.

Aqui reaparece o koan sobre o corvo estudado anteriormente: o corvo canta sem que seja ouvida sua voz. É de noite e sobre a neve branca a cabeça do corvo é preta. E de manhã, na claridade um mudo disse: empurrei esta água até a fonte. Como pode um mudo falar e dizer que empurrou a água até a fonte? “Mudo” é o absoluto (a fonte representa o absoluto), e o mudo que não pode falar chegou a falar o impronunciável.
É parecido com o koan “A mulher de pedra dá a luz durante a noite”, que nos diz que este momento de dar a luz é o caminho.
Nós podemos continuar este estudo em relação ao cristianismo. No próximo sesshin de maio, tomaremos um outro capítulo do Shobogenzo: “Kenbutsu”.
Obrigado.