Bastão de Yunmen – Quinto Teishô Sesshin de Abril de 2005 em Eitai-Ji

Sesshin de abril de 2005 em Eitaiji
La Lettre de Maha-Muni 52
Corrigido por Tokuda Sensei no fim de junho de 2005

Teisho #5

Durante o teisho de hoje e de amanhã, nós vamos falar do Komyo do Shobogenzo
(Volume 2, capítulo 36, p.242-244)
O Grande Mestre Daiji-un da montanha Unmon era o trigésima nona geração da linha do Honrado pelo mundo, o Tathagata. Ele sucedeu ao Dharma do Grande Mestre Shinkaku de Seppo. Se bem que fosse mais moço na seqüência do Buda, era um herói na ordem dos Patriarcas. Quem poderia dizer que na montanha nunca houve nenhum buda luminoso manifesto no mundo? Um dia, numa pregação formal no salão do Dharma, ele disse o seguinte à assembléia: “Cada ser humano possui completamente a luminosidade. Quando nós a procuramos ela é invisível, obscurecida numa escuridão completa. O que é então esta claridade que está presente a todo mundo?” Os monges reunidos nada disseram. Unmon mesmo disse no lugar deles: “A sala dos monges, a sala do Buda, a cozinha e a entrada principal.”
As palavras em questão do Grande Mestre: “Cada ser humano possui completamente a claridade” não dizem que a claridade vai aparecer no futuro, que era no passado e não dizem que a claridade é a realização de algum espectador: elas afirmam que cada ser humano possui naturalmente a claridade – e nós deveríamos compreender e reter nitidamente isto. Unmon traz consigo cem mil Unmon, os fazendo experimentar o mesmo estado, os deixando falar, com uma voz comum, com uma boca única. “Cada ser humano possui totalmente a claridade” querendo dizer que a humanidade inteira é clareza. “Clareza” quer dizer cada ser humano. A clareza se sustenta pela clareza e faz disto sujeito e objeto. Talvez que a clareza possua totalmente cada ser humano. A clareza é naturalmente cada ser humano; cada ser humano possui naturalmente cada ser humano; cada momento de clareza possui naturalmente cada momento de clareza; e a existência de cada momento de clareza possui totalmente cada momento de clareza; cada momento de existência possui totalmente cada momento de existência; e a existência de cada momento de totalidade possui cada momento de totalidade. Também se lembrem, a claridade que cada ser humano individual possui totalmente é o ser humano individual realizado e é o ser humano individual que cada estado de claridade individual possui totalmente. Agora perguntemos a Unmon: “O que quer você dizer com ‘cada ser humano’? O quer você dizer com ‘clareza’? Unmon mesmo disse: “O que é tal clareza para o justo?” Tal pergunta é a clareza na qual a dúvida mata as palavras. Mesmo assim, quando as palavras são ditas desta forma, cada ser humano individual está num estado de clareza individual. Os monges na assembléia nada dizem. Se bem que tenham centenas de milhares de expressões da verdade, falam por intermédio da não-resposta. Tal estado é o olho e o tesouro do Dharma verdadeiro e o espírito puro do nirvana, que são transmitidos de uma forma autêntica pelos patriarcas budistas.
Unmon, se colocando no lugar da assembléia disse, “A sala de monges, a sala de Buda, a cozinha e a entrada principal”. As palavras expressas agora “se colocando no lugar de” querem dizer se colocando a si próprio no lugar de Unmon, se colocando a si próprio no lugar da assembléia, se colocando a si próprio no lugar da clareza, se colocando a si próprio no lugar da sala de monges, da sala de Buda, da cozinha e da entrada principal. Mas o que quer dizer Unmon com “A sala de monges, a sala do buda, a cozinha e a entrada principal?” Nós não deveríamos chamar a assembléia, e cada ser humano incluso na assembléia de “a sala de monges, a sala do buda, a cozinha e a entrada principal”. Quantas salas de monges, salas de buda, cozinhas e entradas principais existem? Nós as deveríamos estar vendo como Unmon? Nós as deveríamos ver enquanto sete budas? Nós deveríamos as ver enquanto vinte e oito Patriarcas? Enquanto punho? Enquanto narinas? Se bem que a sala de monges, a sala de Buda, a cozinha e a entrada principal sejam não importa qual patriarca budista, não estão imunizados contra cada ser humano individual. Em conseqüência, estão além de cada ser humano individual. Uma vez que estejam assim, existem circunstâncias para que sejam salas de Buda sem serem budas e existem estados de ser sem buda nos quais não existe salas de Buda. Existem budas que são luz; e existem budas luminosos que não possuem luz; existe luz de buda no fato de não ter; e existe luz de buda que é a existência.

Este comentário de Mestre Dogen é ainda mais complicado que o koan ele mesmo. O que podemos compreender com “três portas”? São as construções principais de um templo tradicional. Entre as sete construções principais de um mosteiro, a primeira é a entrada, sanmon. Por exemplo, em Eihei-ji, sanmon é “a porta da montanha”, em Sojiji existem três portas e estas três portas indicam a entrada principal do mosteiro. Seria mais simples de traduzir “porta” por “entrada principal” e na tradução abaixo, as três portas poderiam ser simplesmente designadas por “entrada principal”.
Podemos encontrar este mesmo koan nas Crônicas do Penhasco Azul.

Leitura do caso 86 das Crônicas do Penhasco Azul

A despensa e a entrada principal de Yunmen

Introdução

Mantém o mundo sem qualquer erro. Suprime as miríades de impulsos sem que sobre o menor deles. Abra a boca e já cometeu um erro; hesite em pensamentos e perderá. Mas, digam-me, o que é o olho que penetra a barreira? Como teste, eu cito o seguinte:

Caso

Yunmen anunciou algumas palavras dizendo: “Todo mundo tem uma luz; quando você a observa, não a vê e está então sombreada e velada. O que é a luz de cada um?” Ele se respondeu no lugar dos demais: “A despensa e o portão principal”. E disse também: “Uma boa coisa não é tão boa quanto nada”.

Verso

Brilham espontaneamente, alinhados na luz único solitária.
Abre uma via para vocês.
As flores caem, a árvore está sem sombra –
Como não ver ao observá-lo?
Se vê ou não –
Viaja de costas no búfalo, entra na mortalha do buda.

Comentário

Brilham espontaneamente, alinhados na luz único solitária

Na origem, ali onde vocês ficam de pé, existe o corisco da luz; simplesmente o uso que vocês fazem disto é sombrio. Foi por isso que Yunmen instalou esta luz para vocês bem diante de seus rostos. Mas digam, o que é a luz de cada qual? “A dispensa, a entrada principal” é ali que Yunmen coloca a luz solitária. P’an shan disse: “O espírito lua é solitário e cheio; sua luz engloba as miríades de formas”. É a revelação verdadeira, eterna, única.

Abre uma via para vocês.

Unmon temia ainda que as pessoas se apegassem à dispensa e à entrada principal. Eu concedo por ora a dispensa, mas quando as flores caem de manhã e quando a árvore não tem mais sombras, quando o sol se escurece e a lua se obscurece e que a totalidade do céu e dda terra se torna uma imensidade preta – você ainda consegue ver?

As flores caem, a árvore está sem sombra –
Como não ver ao observá-lo?

Digam-me, quem não a vê? Aqui, onde “no interior mesmo da luz existe a obscuridade” e “no interior mesmo da obscuridade existe a luz”, os dois são como “um passo para a frente e um passo para trás”. Vocês devem ver por si mesmos.

Se vê ou não –

Ou pode se versificar, “Uma boa coisa não é tão boa quanto nada”. Fundido com a visão, nem sempre você vê; fundido com a iluminação, nem sempre você compreende.

Viaja de costas no búfalo, entra na mortalha do buda.

Ele entrou no selo de laca preta. Você deve cavalgar pessoalmente o búfalo no interior da mortalha do buda para ver do que se trata.

Essa maneira de expressão é típica da literatura zen: o mestre toma de um texto e tece comentários muito breves, mas muito incisivos e profundos. Nós apreciamos tal tipo de linguagem. Para um comentário aprofundado, seria necessário estudar cada palavra, isso é a tarefa que eu dei a mim mesmo, quer seja em retiro ou não… Mas, esqueçamos de tudo isto, gostaria de lhes falar da história de São Paulo.
Imagino que se alguém chegasse durante o sesshin poderia pensar: “O Grande Mestre Tokuda, que deveria estar falando de zen, nos fala do cristianismo de São Paulo…”. E em cólera, iria embora.
São Paulo era contra Jesus Cristo, mas era uma pessoa sincera. Estava a caminho de Damasco quando no meio do caminho viu uma forte luz e caiu do seu cavalo. No mesmo momento escutou uma voz que lhe dizia: “Saulo, Saulo, por que você me persegue?” Perdeu a consciência e quando voltou a si e abriu os olhos, nada pode ver, estava cego durante três dias, até sua chegada a Damasco. Sobre esta experiência mística que nós podemos encontrar na Bíblia, Meister Eckhart dá sua própria explicação: ele se soergueu, abriu os olhos, mas nada pode ver: este “nada” é Deus; ou: abrindo os olhos, ele nada pode ver, somente Deus; ou: abrindo os olhos, ele podia ver Deus em todas as coisas (na entrada principal, na dispensa, na cozinha), por toda parte. Meister Eckhart repete constantemente que aquele que vê Deus deve ser cego.
No texto da conferência, eu mencionei os goi (go “cinco”, i “graus”) ou seja, os cinco graus de Mestre Tozan. Mestre Tozan compôs uma série de cinco poemas para descrever os goi. O primeiro destes poemas fala do absoluto no relativo.
Nos tempos antigos, tradicionalmente, o zen dividia a noite em cinco partes, do crepúsculo até a aurora. Depois do sol ter se posto, quando a luz estava ainda presente, a partir deste momento, a noite era dividida em cinco partes. Naquela época não haviam ainda relógios e para marcar o tempo, nos mosteiros, se batia o tambor para cada período da noite e tocava-se o sino para anunciar os minutos.
O primeiro verso do primeiro poema fala da terceira parte da noite, o que corresponde hoje em dia a uma ou duas horas da manhã. Com efeito, antes que aparecesse o luar, aquilo era a noite total: isto representa o absoluto.
No segundo verso, Mestre Tozan diz que as pessoas se encontram na obscuridade e não se reconhecem. Isso simboliza o relativo no absoluto, como a pedra negra que voa na obscuridade, ou o corvo que canta na noite escura.
Mas, a terceira linha, mesmo assim, preserva nossa originalidade.
Entre os goi de Tozan Zenji expressos através destes cinco poemas, o primeiro poema é o primeiro estágio, o primeiro grau. Cada um tem uma luz, esta luz não é aquela da iluminação, cada pessoa tem esta luz. Por que? Porque – e isso nos leva à Bíblia: “Seja feita a luz”.
O sofrimento, as dúvidas, os problemas que encontramos na prática do zen, tudo isso é luz. Alguns praticantes do zen estão persuadidos que devem a todo custo obter a iluminação enquanto que já estão dentro dela. Mas, para compreender isto, é necessário ir para a obscuridade mais completa, provar a grande dúvida, até o ponto que tal dúvida nos mate.
Aquele que quer ver não consegue por causa da obscuridade. O comentário deste koan (o caso 86 das Crônicas do Penhasco Azul que acabamos de ler) diz: quando você vê, você fica cego, porque é você mesmo que você vê e você não pode ver a si mesmo, o que quer dizer “único”, ou o que decorre deste “único”.
Que cada qual de nós, mesmo neste estado ilusório, mantenha seu rosto original, porque nosso rosto original é nobre, absoluto. Se nós não compreendermos isto, ficaremos orgulhosos de nossas práticas: eu sou superior, sou um veterano… Não, cada pessoa, quer seja monge ou leigo, principiante, veterano, empregada doméstica ou presidente, importante ou não, é luminoso, nós possuímos esta luz naturalmente. O importante é compreender o absoluto dentro do relativo e o relativo dentro do absoluto, é necessário compreender que nesta obscuridade existe a luminosidade, não se pode dizer que é obscuridade; na claridade igualmente existe a obscuridade, não se pode dizer que seja a obscuridade ou claridade. A entrada principal, o pavilhão de Buda, a sala de cerimônias, a cozinha, o zazendo, cada um deles tem uma função diferente, mas mesmo assim é uma manifestação de mim mesmo.
Estou desolado, é um pouco difícil, mas devemos voltar a isto a cada vez, tentar penetrar cada vez mais para chegar a compreender o que está em jogo aqui. Depois de cinco dias, nós estamos mergulhados na obscuridade, falamos somente da noite, mas começamos agora a entrever um pouco de luz. Se vocês puderem ver Deus em todos os fenômenos enquanto Deus, isso está aparentado ao panteísmo. Dentre as vinte e quatro acusações contra Meister Eckhart, uma delas era a de panteísmo: Deus se torna Deus pela negação de Deus. Era demais!
Amanhã, voltaremos ao koan que tratávamos no começo, mas para o compreender, é necessário atravessar esta confusão. Sou muito bondoso, mas finalmente sou katto (complicado).