Bastão de Yunmen – Eihei Goroku – Quarto Teishô do Sesshin de Abril de 2005 em Eitai-Ji

Sesshin de abril de 2005 em Eitaiji
La Lettre de Maha-Muni 52
Corrigido por Tokuda Sensei no fim de junho de 2005

Teisho #4

Durante este sesshin, nós falamos primeiramente de Dogen Zenji e de Meister Eckhart, em segundo lugar, da mulher de pedra e da noite escura. Agora vamos abordar a terceira parte. Vamos falar do bastão através do Eihei Goroku de Mestre Dogen, do qual leremos um trecho.

Leitura e tradução do Eihei Zenji Goroku p. 262

Dogen soergueu seu bastão e disse: Que eu segure isto horizontalmente ou de cabeça para baixo, eu bato e abro os olhos de todos os budas. Que eu vá para a obscuridade ou que venha da obscuridade, faço cair os narizes dos mestres ancestrais. Neste momento mesmo Maudgalyayana e Sariputra ficam surpresos e engolem seus espíritos vitais e suas vozes. Linji e Deshan dão uma grande gargalhada. Digam-me, do que riem eles? Riem deste bastão completamente preto.

Mestre Dogen utiliza o caso do bastão de Mestre Yunmen e coloca a pergunta: Por que eles riem? Riem porque o bastão é completamente preto.
Primeiramente nós começamos pela noite escura, esta noite escura se tornando obscuridade, e a partir desta obscuridade, chegamos agora a uma escuridão completa. Nos dias passados nós falamos do bastão, da escuridão, da noite… Quero agora voltar aos mestres mais antigos como Mestre Tozan, fundador da escola Soto na China.

Leitura e tradução do caso 64 do Tozan-roku

No inverno, Mestre Tozan ia comer um bolinho com o shuso. Ele lhe perguntou: “Existe uma coisa que no alto sustenta os céus, e em baixo agüenta a terra. Ela é preta como a laca, se move constantemente, mas não permanece no movimento. Agora vocês devem dizer algo: Para onde foi agora?” O shuso disse: “Ele passou através do movimento”. Mestre Tozan chamou o jisha (assistente) e disse, “Por favor, traga o bolinho”.

Quando Mestre Tozan pediu para o jisha trazer o bolinho, isso queria dizer que o exame não estava concluído ainda, o shuso ainda não tinha direito à sua parte do bolinho. Existe algo que se pode nomear de um bastão (é o bastão que sustenta céus e terra) como Atlas que sustenta a terra, mas igualmente o céu. Este bastão é preto, preto como a laca, está constantemente em movimento, mas não pode permanecer no interior do movimento.
Talvez que vocês se lembrem aqui do koan: A pedra negra da montanha Konron voa na noite escura. Keizan Zenji teve a iluminação com este koan.
Tetsu Gikai Zenji, o mestre de Keizan Zenji lhe perguntou: “O que é o caminho?”
Keizan respondeu: “A mente comum é o caminho”.
O mestre disse: “Isto não é suficiente, diga-me um pouco mais”.
Keizan respondeu: “É como a pedra preta da montanha de Konron que voa na noite escura”.
O mestre disse: “Não é suficiente, diga mais alguma coisa”.
Keizan respondeu: “Quando tenho chá, bebo chá, quando tenho arroz, como arroz”.
Tetsu Gikai aceitou esta resposta.

Voltando a Tozan, ele estava sentado com o shuso, o monge principal, iam comer o bolinho, e ele lhe colocou a pergunta: “A laca negra está se movimentando ou não?” – Ela se quedou na obscuridade – por favor, vá embora, você ainda não ganhou nada.
Não sei se a resposta para isso está certa ou não: algo não se move (lembremo-nos da mulher de pedra), isso não se move, mas mesmo assim existe o movimento. A pergunta é: já que isso não permanece no movimento, então onde está tal movimento? A resposta é: não há o movimento.
Leitura e tradução do caso 111 do Tozan roku

Numa noite, durante a assembléia, Yakusan não acendeu as velas. Ele disse, “Tenho algo a contar a vocês, mas antes que a vaca dê o nascimento ao bezerro, nada direi”
Um certo monge disse, “A vaca já deu nascimento ao bezerro. Mas o senhor ainda não nos contou o que queria dizer”.
Yakusan disse, “Assistente, traga a vela”.
Antes que a vela chegasse, o monge se retirou e se mesclou entre a assembléia dos monges.
Em seguida Ungan contou este incidente a Mestre Tozan e perguntou, “O que acha do acima?” Mestre Tozan disse, “Se bem que ele tenha compreendido ele não quis simplesmente lhe render homenagem”.

Esse caso parece difícil, mas não é na verdade. Mestre Yakusan não acendeu uma vela porque ele queria uma frase, a saber:
“Eu falarei quando o touro der a luz”. Como é que um touro pode dar a luz? Quando ele diz, “Espero que o touro dê a luz, mas você Reverendo, você mesmo nada disse”. Yakusan disse, “Assistente, traga a vela”.
Isso é muito interessante, e esta primeira frase pode se aproximar da Gênese: “No começo era o verbo”. Este princípio, “sem começo”, é a simultaneidade, o presente absoluto e eterno. Quando o touro dá a luz, é como a mulher de pedra que tem seu filho. Uma mulher de pedra não pode dar a luz e mesmo assim o faz durante a noite. A situação é análoga exatamente àquela de Mestre Yakusan que não acendeu a vela durante este mondo. Então isto se passa na obscuridade. Yakusan pedindo que seu assistente trouxesse a luz quer dizer o primeiro mundo a partir do qual vem a luz. Qual é a função de uma palavra? Do verbo? Do logos? A função de uma palavra é designar aquilo que é. No misticismo, este verbo é ao mesmo tempo o Filho de Deus e a encarnação de Deus, o que quer dizer que este corpo, apesar de suas particularidades, não é diferente do absoluto, e que a igualdade e a diferenciação não podem ser dissociadas.

Leitura do caso do Hekigan que diz respeito a Yunmen

Durante o dia, caminhando na rua, se pode reconhecer as pessoas, mas quando, durante a noite escura, não há nem som, nem lua, nem mesmo uma vela, e que nunca se estivesse estado aqui antes, quer seja durante o dia ou durante a noite, e que se quisesse pegar algo que se tivesse necessidade, é possível ou não achar aquela coisa?

Aqui, na montanha, nós temos eletricidade, mas nos tempos antigos, não havia, nem mesmo recentemente, quando eu morava no Brasil, não tínhamos eletricidade. Durante um sesshin, quando tocava o sino, era necessário se levantar às três horas da manhã, numa noite escura. Era então indispensável de saber onde se poderia achar seu koromo, seu kesa, suas sandálias, era necessário achar tudo isso na obscuridade. Este é um dos aspectos da prática, mas é possível de ser confrontado com uma outra situação: imaginem não somente que vocês nunca tivessem estado naquele lugar, mas além disso, que estivessem na noite escura. Onde estaria o kesa, onde estariam as sandálias, o rakusu, o koromo, o kimono? Não saberia dizer e contudo teria que achar estes itens. Então nos achamos exatamente na situação de pesquisar o travesseiro com o dorso da mão, na obscuridade. Não se pode ver, não se pode tocar, não se o pode achar.
O comentário de Dogen Zenji é o seguinte: confrontados com esta situação particular, primeiramente procuramos o travesseiro com a mão durante a noite; em segundo lugar vemos a montanha em plena luz do dia, ou as pessoas em pleno tráfego. Mas ainda é como ver a noite escura do ponto de vista da luz do dia, como se dia fosse, você sabe exatamente onde achar aquilo do que você necessita. Portanto segue-se o terceiro: é necessário ver a noite durante a noite escura, é necessário que os olhos se acostumem à escuridão, é necessário obter os olhos da noite escura. Aqui chegados, estamos naquela situação especial da qual falava Alain Tardan, a saber não se dar conta, depois de trinta anos de prática, do gosto da prática, ser incapaz de sentir qualquer coisa da prática, porque tudo está escuro, é a noite escura. E se neste momento você ainda achar que é possível de obter qualquer coisa, sentir gosto, toque, sensação, esqueça-se de tudo isto, fique somente com isto. Sentado durante vinte anos, continue a sentar por mais vinte anos mais nesta obscuridade, de forma que a noite mesma dará luz, para que todo mundo o possa ver bem que vocês não têm consciência disto.