Bastão de Yunmen (3) – Mulher de Pedra – Terceiro Teishô do Sesshin de Abril de 2005 em Eitai-Ji

Sesshin de abril de 2005 em Eitaiji
La Lettre de Maha-Muni 52
Corrigido por Tokuda Sensei no fim de junho de 2005

Teisho #3.

Durante este sesshin nós estamos estudando o caso do “Bastão de Yunmen” e vamos tentar agora estabelecer a ligação entre o bastão e a obscuridade, o que nos traz ao koan da mulher de pedra que dá a luz durante a noite.

Caso #5 das Crônicas do Penhasco Azul

O grão de arroz de Hsueh Feng

Introdução

Quem quer que tente manter o ensinamento de nossa escola deve com certeza ser um bravo camarada cheio de coragem. Somente aquele que é capaz de matar uma pessoa sem piscar pode se tornar um buda bem onde ele se queda. Em conseqüência do que sua iluminação e sua atividade são uma só coisa e o princípio e o fenômeno não são dois e ele pratica ao mesmo tempo o real e o provisório. Deixando ir embora o primeiro (o princípio), ele erige a porta que dá acesso ao segundo sentido (o fenômeno); se ele atravessa todas as complicações imediatamente, seria impossível que os praticantes retardatários de capacidades elementares achassem um lugar de descanso. Era assim ontem: o problema não pode ser contornado. Também hoje em dia é assim; erros e faltas enchem os céus. Mesmo assim aquele que tem uma visão clara não pode ser abusado pelo mundo nem no menor detalhe. Sem uma visão clara, deitado na boca do tigre, não se pode evitar perder o próprio corpo e vida. Testando, estou citando o seguinte:

O caso

Hsueh Feng, quando ensinava à sua comunidade disse, “Peguem toda a grande terra na mão, é tão grande quanto um grão de arroz. Joguem-no à terra diante de vocês: se como tapados não compreenderem, bato o tambor a fim de que cada um venha ver”.

Intervenção do Tokuda Sensei: “Nesta passagem a noite obscura não aparece? – não”. A interpretação é a seguinte: “Quando eu jogo um grão de arroz, se vocês não o vêem, é devido à obscuridade”, o que liga este caso ao de Kannon que durante a noite buscava seu travesseiro.

Segue o caso #5 das Crônicas do Penhasco Azul

A cabeça do touro desaparecendo
Aparece então a do cavalo.
No espelho de Ts’ai Chi, não existe qualquer poeira que seja.
Ele bate o tambor para vocês venham ver, mas vocês não vêem:
Quando a primavera chega, para quem desabrocham as centenas de flores?

Acabei ide receber a tradução para o inglês do Eihei Goroku de Mestre Dogen, e ali também Mestre Dogen fala da obscuridade. Esse livro é muito grande, eu não o trouxe comigo, mas tirei fotocópias de extratos que desejo tratar.

Leitura e tradução do Eihei Zenji Goroku P. 429

Viandantes que praticam o zen, ficando na plataforma ou sentando para a prática durante muitos kalpas, observem também o bastão negro único. Neste instante, existe ou não princípios a serem disseminados?
Depois de um momento de silêncio, Dogen disse: Achava que a barba do estrangeiro era vermelha, mas existe um outro estrangeiro que também tem a barba vermelha.

Esta expressão “a barba do estrangeiro” volta seguidamente no zen e eu acho que ela se origina com Mestre Obaku. Mestre Dogen emprega essa brincadeira com palavras (que nós podemos também encontrar em Wittgenstein). “A barba do estrangeiro era vermelha, mas aquele que tem a barba vermelha é um estrangeiro” pode ser linkado à prática: eu achava que esta prática era uma prática, mas descubro que esta prática é realização. Sentado durante numerosos anos, numa sentada sem gosto, sem cor, somente obscura, neste momento mesmo, existe ou não razão para deixar cair corpo e mente?
Quando Mestre Dogen voltou da China, muitas pessoas lhe perguntavam: “O que foi que você trouxe com você (qual material, quais sutras etc)?” Mestre Dogen respondeu: “Voltei com as mãos vazias, somente com uma mente flexível”.
No Hokyoki, Mestre Dogen relata uma conversa que teve com mestre Nyojo Zenji. Para a pergunta: “O que quer dizer deixar cair corpo e mente?” Nyojo Zenji respondeu: “O zazen é ter a mente flexível”.
Existe muito engano sobre o que quer dizer “deixar cair corpo e mente”. Acha-se geralmente que depois de muitos anos de prática, chegará o momento onde se poderá abandonar a mente e o corpo, então que o fato de estar sentado em zazen é precisamente o momento no qual se abandona corpo e mente. Se vocês fizerem o zazen achando que a realização virá através de tal prática, isso é um terrível problema. Mestre Dogen nos disse: Na realização de suas práticas se se desviarem nem que seja pelo comprimento de uma sobrancelha, então estarão mais distanciados que o céu e a terra.
Esta é a diferença entre a escola Rinzai e a escola Soto. Na escola Soto, o zazen é gyobutsu, “a prática de um buda”. Mas já que tal prática é a prática de um buda, como será possível se tornar um buda? Diz-se também que tal prática é zabutsu “buda sentado”. Se vocês não compreenderem tal coisa e estiverem buscando algo, seus zazen nunca se tornará um autêntico zazen. Estamos sempre engajados na busca de um gosto, de um sabor, e quando o obtemos, ficamos novamente insatisfeitos.
Quando buscamos pelo travesseiro na obscuridade, jamais o podemos agarrar. Não o podemos agarrar, nem compreender, com nossos sentidos, nossa visão, nosso pensamento. Ficamos aflitos porque queremos sempre “agarrar algo” e nunca chegamos a fazer tal coisa. A única maneira de chegarmos a tal é nos tornarmos completamente a noite obscura. “A noite obscura” quer dizer ficar desapegado, esquecer a si mesmo. Este momento do estado da noite obscura nos permite chegar ao fundo de nosso espírito.
Meister Eckhart disse: Quando atingimos tal fundo, este profundo fundo sem fundo, Deus também se abandona a si mesmo, porque o fundo de nossa lama é o fundo de Deus. Como no kekafuza, um lado toca em Deus, o outro lado toca no mundo profano, humano, a expressão sendo: um lado toca na eternidade, o outro lado toca na temporalidade, igualmente expresso por: buscando o travesseiro na noite obscura, sem poder sentir, tocar ou pensar. Também não pensando (fushiryo), nos quedamos com este não-pensamento, e chegamos ao estado de hishiryo “pensando além de pensar e não pensar”. Tal estado é também descrito no zen com a expressão “a tartaruga preta”. A tartaruga tem uma cabeça, um rabo e quatro patas. Quando um perigo aparece para ela, ela puxa tudo de volta para a carapaça e se um gato a tenta comer, ele não consegue. Com os cinco sentidos mais a consciência no interior da carapaça, é o sexto sentido que não queremos deixar sair, é o zazen.

Leitura e tradução de um extrato do Eihei Zenji goroku, p. 451.

Conversa na sala do Dharma de Buda por ocasião da iluminação do Buda, no oitavo dia do décimo segundo mês (1252)

Naquela noite lá o Tathagata (Shakyamuni) realizou o autêntico despertar. Com esforço e deixando cair corpo e mente, seus olhos se esclareceram. Junto com ele, todos os seres vivos de todos os tipos nos três mil mundos sorriram. Mesmo que isto seja assim, qual é a situação dos monges praticantes de Eihei com o manto remendado?
Depois de um momento de silêncio, Dogen disse: A cor de primavera das flores de pessegueiro na neve é maravilhosa. O preto incandescente do bastão único de um monge é puro.

Isto foi dito no dia do Rohatsu, ou seja, dia 8 de dezembro. Por que foi que Mestre Dogen disse: “A cor primaveril das flores do pessegueiro na neve é maravilhosa?” A neve representa o inverno, a neve é o dezembro, um mês que é muito frio, mas apesar de tudo a flor se abre. Normalmente, as flores desabrocham na primavera e para que se abram no inverno, devem vencer o obstáculo da neve e do inverno.
No ano passado, pela primeira vez, fizemos o Rohatsu com dez zazen (deveria na verdade dizer somente dez zazen), mas um dia é necessário que cheguemos a quatorze zazen, é inútil fazer dezesseis, quatorze é suficiente. Meu espírito quer isto, ignoro se meu corpo concordará, mas se eu não for capaz, vocês o podem fazer, Manuel o pode fazer, uma ou duas pessoas serão suficientes. De manhã haverão quatro zazen, dois deles antes do desjejum; dois outros zazen às quatorze horas; mais dois zazen antes do jantar; depois do jantar novamente dois zazen e com uma pausa, mais quatro zazen suplementares até a meia noite, o que dará um total de quatorze. Vocês podem fazer isso? Tentem. Na verdade eu fiz somente dois sesshin com quatorze zazen: quatorze zazen até a meia noite e de meia noite até as duas horas se dorme sentado. Fiz isto duas vezes na minha vida, não tenho nada do que me gabar.

Leiamos novamente a última linha do texto:
“O preto incandescente do bastão único de monges é puro”.

Depois de numerosos anos de prática, o bastão se torna preto, ou melhor o estado do zazen fica completamente preto, de forma que o bastão preto começa a brilhar. Mesmo assim essa escuridão não é somente uma questão dos anos de prática. Se vocês chegarem a tal estado de escuridão, de noite obscura, esta obscuridade dá uma luz pura. Aqui obscuridade e luz não são duas coisas diferentes, quando a obscuridade está no máximo, essa escuridão mesmo se torna uma luz pura. Se compreenderem tal coisa, compreenderão que se trata exatamente do mokusho zen “a luz do silêncio do Soto zen”. Moku “silêncio”, é a característica mais importante do maha muni. O que é o silêncio? Este moku, este silêncio, quer dizer que o cachorro preto corre na noite obscura. Se analisarmos os caracteres de moku em chinês, obteremos: o cachorro preto que corre na noite escura.

Aqui podemos nos lembrar da poesia de Mestre Hakuin:

Se você puder ouvir o canto do corvo sem escutar o som
Terá saudades de seu pai antes de ter nascido.

Essa poesia é considerada como um koan hosshin, primeira categoria dos koan. Esse poema descreve o absoluto, a verdade profunda. “A noite escura”, isso é o absoluto, um outro termo sendo “equanimidade”. Na noite escura, não existe canto algum, o corvo não canta. O corvo é preto, não se pode vê-lo durante a noite escura e como ele canta sem emitir um som, não se o pode ouvir tampouco. Neste primeiro verso, cada palavra descreve o absoluto, mas no verso seguinte, ele diz: Terá saudades de seu pai antes de ter nascido. No cristianismo existe a Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo. Se falamos de “antes de ter nascido” não existe o pai, já que para ser pai é necessário que se tenha um filho. Se não existe filho, como se o pode denominar pai? Quando dizemos “Deus criou o mundo” ou “No começo era o verbo”, este começo (principio) não é o começo do tempo, este verbo também é o logos. Mas vamos parando por aqui senão vamos entrar na teologia. É um domínio que não nos diz respeito, mas se algum de vocês o quiser estudar mais, pode ir em frente.
Assim se o pai não tem filhos, não é o pai, se Deus ainda não criou o mundo, não existe Deus, em alemão Gottheit, que alguns traduzem erradamente como “divindade”. Meu professor me disse que o sentido é mais de “antes da origem de Deus”, como a “natureza de buda”.