Alimentação num Mosteiro Zen

Alimentação num Mosteiro Zen

Conferência proferida pelo Mestre Zen Ryotan Tokuda, em San Marcos de la Sierra, Argentina, em 8 de novembro de 1983.

Boa noite.  Hoje eu vou falar sobre a comida no mosteiro Zen, principalmente.  Dentro do mosteiro Zen, o cargo de chefe de cozinha é muito importante e sempre foi ocupado por grandes mestres.   Este cargo é muito diferente no mundo em geral.   Aqui, a cozinha geralmente pode ser deixada para empregados, mas no mosteiro, ou entre japoneses, isto é diferente, pois é a dona de casa quem a prepara sempre,  talvez por causa da influencia do ensinamento do Budismo Zen. No Brasil, uma senhora japonesa estava aprendendo yoga, e ela tinha um motorista e um carro Mercedez-Benz, mas quando chegou a hora disse: “eu tenho que voltar para casa para preparar a comida para meu marido.”  Assim, ela era esposa de um grande empresário japonês, mas ela mesmo preparava a comida para seu marido. Dentro do mosteiro nós temos 2 seções. Uma para receber os novatos. O mestre ensina a doutrina, as disciplinas, etc.   A outra seção é a parte administrativa, executiva.   Aí  temos os cozinheiros, os tesoureiros e também marceneiros e todas as demais atividades.    Num mosteiro grande existem mais de 80 tipos de cargos diferentes.    Entre eles, o chefe da cozinha é um dos 6 diretores, e talvez o mais importante de todos.   Porque?  Por que a alimentação é muito importante para nossa vida.   Quando chega um novato, eles não ocupam cargo algum.  Somente ficam na sala de meditação e meditam dia e noite.  E os cozinheiros são monges veteranos, com mais de 3 ou de 5 anos.   E são estas pessoas que preparam a comida para os novos Budas.
Os novos Budas são aqueles monges novatos que estão meditando na sala de meditação, com dores no joelho.    A sala de meditação nós a chamamos o lugar onde se escolhem Budas. Os cozinheiros preparam a comida de acordo com as tradições, com muito carinho, e antes de mandá-la para os monges, oferecem-na ao Deus da cozinha e fazem nove vezes reverencia antes de enviá-la também para estes novos Budas. Para receber este tipo de comida, os monges novatos precisam realmente se concentrar: “como podemos receber esta alimentação?”   Antes de comer as refeições nós temos uma pequena oração  que recitamos.  Em primeiro lugar pensamos, até que esta alimentação tenha chegado até nós, quantas pessoas trabalharam.  Por exemplo, um grão de arroz:   a letra arroz em japonês e chinês significa 88.   Isto quer dizer que se a pessoa analisar cuidadosamente um grão de  arroz, poderá dividi-lo em 88.  Quer dizer que até um arroz ficar bem feito, existe por trás disto 88 processos de trabalho que precisam ser realizados. Tem que primeiro escolher as sementes, tem começar a plantar, tem que tirar o mato e replantar.  Tudo isto e depois tem que secar, escolher.    Tem que bater a casca e dá muito trabalho. Com o  arroz é assim e com outros legumes também.   Em segundo lugar, pensando bem, eu que sou moço , será que tenho direito a receber, ou tenho mérito para tal?   Senão, estamos comendo com nosso desejo, mas na verdade estamos criando um karma pesado.  Analisando todo este processo de trabalho, nós o merecemos?   Em terceiro lugar, para receber esta refeição, devemos evitar apegos.    Todas as brigas e guerras surgem por causa da fome.  Por isso temos que saber controlar o apego, principalmente da comida, isto é o mais importante.   Quanto ao apego, quando ele não está controlado, caímos diretamente no estado de animal, de bicho, os quais, até mãe e filho, brigam por comida. Por isto, temos que saber controlar este apego.   Em quarto lugar, recebemos esta comida não para satisfazer o estômago, mas como um bom remédio.   Esta é uma filosofia de medicina Budista ou de medicina oriental.
Nós temos três tipos de remédios:  o primeiro é quando estamos realmente doentes; tomamos somente para curar, mas não durante muito tempo.  São como venenos.   Podem curar mas se continuarmos a tomá-los longamente, começam a atacar outros órgãos. Hoje em dia, na medicina moderna, temos por exemplo o antibiótico, que de certa maneira é poderoso, cura inflamações e este tipo de coisas, mas se continuarmos a tomá-los, não curam mais, e continuaremos doentes.  Às vezes precisamos tomá-los com leite ou depois da refeição.   Isto quer dizer que se for forte demais ataca o estômago ou o fígado.   Então, a primeira categoria de remédios é na verdade remédio, mas ao mesmo tempo também veneno.   O segundo remédio é o remédio comum.   Pode-se tomá-lo enquanto estivermos doentes.   Mas quando nos curamos, não precisamos mais tomá-los.  Hoje em dia, na medicina moderna, existem muitas doenças que podem ser curadas, como a tuberculose, antigamente perigosa, mas hoje em dia não tanto.  Mas outros tipos de doença, como por exemplo a pressão alta ou a diabetes, ou problemas de fígado, rim, crônicos ainda não podem ser curados.  Principalmente o câncer.   O terceiro tipo de remédios são de fato os melhores. E é a alimentação.
A alimentação nós a consumimos todos os dias; às vezes estamos fazendo dieta, mas comendo diariamente. E nunca faz mal, muito pelo contrário, mantém a saúde e por isto é que podemos encontrar os melhores tipos de remédios dentro da cozinha.   Onde exatamente na cozinha?  Não é mistério não: é dentro da cesta.  O repolho, a cenoura, o nabo ou gengibre, estas coisas todas. Nós aceitamos estas refeições como o melhor remédio, neste sentido. Quando  aceitamos e comemos esta refeição podemos realizar este caminho.   Não é para satisfazer nosso estômago.  Os monges Zen criticam muito este tipo de pessoas que vivem somente para comer.   A este tipo de gente se chama:  máquina de fazer cocô.   Estas pessoas até que morrem assim:  comem e fazem cocô, nada fazem que não seja isto.   Por isto mesmo é que da mesma forma que comer é importante, a forma correta de fazer cocô também o é.   Isto ninguém nos ensina.   Nem nossa própria mãe.
Cocô todo mundo faz, mas não sabem fazer direito.  Hoje de manhã eu já expliquei como se faz corretamente cocô.   Isto é algo que nós aprendemos dentro do mosteiro.   Interessante é que dentro do mosteiro existem 7 construções principais.   A entrada, o portão, depois a sala de Buda, a sala de cerimonia, a sala de meditação, a cozinha, o banho e o banheiro.   Estas são as 7 construções principais.  Entre estas principais, aquela torre ou pagode onde se guardam os ossos do Buda e a biblioteca não constam entre as mesmas. O treinamento Zen dá muito importância a esta parte, da vida quotidiana. Quando praticamos o retiro de meditação intensivo, muitas pessoas, principalmente as moças, ficam com prisão de ventre.   Neste caso, nós temos a massagem aqui na boca do estômago até embaixo, nos intestino, em 7 pontos.  De cima para baixo.  Depois passa para o lado direto e até a costela, com 5 pontos para cima.  Neste caso, já está no banheiro e está sentado na privada.   E aí, 5 pontos para baixo.  E três mais para cima e 3 para baixo.  Depois, com a palma, faz-se massagem, primeiro amplamente e depois diminuindo. E segurando este ponto de acupuntura do intestino grosso, inspira e levanta o braço esquerdo mais alto que o ombro.   Dentro do banheiro no mosteiro, sempre tem um pedaço de pau para segurar.  E com isto, o diafragma abre e dá pressão.  E assim, saem naturalmente as fezes.  Muita gente não sabe, mas quantas pessoas não morrem dentro do banheiro porque não sabem fazê-lo direito.  Elas têm vergonha e por isto escondem e não divulgam o que têm, e aí alguém entra e bate na porta: “o que está acontecendo aí dentro?”.  E quando abre a porta, constatam que a pessoa está já estrebuchando com um vaso qualquer do cérebro estourado.  Fecaloma.   Isto não tem nada de engraçado, isto é muito sério.   Por isto, sentando, tranquilo, faz-se da forma correta e então sente-se aquela vida e aquela felicidade. É um contato direto com a natureza.   E ao entrar no banheiro, devemos lavar as mãos, cantar versos para nos concentrarmos e para fazer estas coisas bem feitas.
Voltemos para o tema principal desta palestra, que é a alimentação.   Depois destas 5 concentrações, seguramos a tigela com os 3 dedos. Até hoje na Índia não se usam garfo e este tipo de coisas.  Comem com os dedos, com 3 dedos.  Existe uma técnica muito boa para isto.   Os outros dedos eles não os usavam por que antigamente não existia papel, então lavavam o cocô com estes dedos; por isto, não os utilizavam para comer. Mas há uma maneira de nos lavarmos após a defecação com 7 bolinhas de cinza com água.   Hoje em dia, não usamos mais, mas tem um método tradicional para isto.     Até hoje, nós no mosteiro não nos limpamos com papel higiênico com a mão direita, mas com a mão esquerda.   É engraçado, mas estas coisas todas estão corretas e nos foram transmitidas.  Portanto, segura-se a comida e a tigela  com estes dedos por este motivo.  A primeira  porção de comida é para se fazer todas as coisas boas.   A segunda, para cortar fora todas as coisas negativas.   E a terceira, para ajudar a todos os seres.   E comemos tudo para podemos com isto realizar o Caminho.    Assim, antes de comer, pegamos 7 grãos de arroz  e os colocamos num pedaço de pau pequeno que é usado para se lavar a tigela depois da refeição; em seguida, neste pauzinho, tem uma parte que molhamos com sopa com este dedo e comemos os 7 grãos de arroz.  Então, isto quer dizer que esta comida está sendo oferecida para os demônios famintos.   E com o mantra, todos os demônios famintos ficam saciados.
A Bíblia também tem esta história.   Tinha somente um pão, mas quando Jesus Cristo chegou, todas as pessoas comeram.   Mas como é que nós chegamos a tombar neste estado mental de demônios famintos?   Por que se estava apegado a si mesmo, não querendo dar a outros, não podendo pois receber.  Por isto, o treinamento Budista é em primeiro lugar começar a doar, isto é, o desapêgo.  Talvez este seja o segredo da vida.  Quando se pode dar, com isto recebe-se muito mais.   E nada faltará com este tipo de perspectiva. Com esta alegria de doar, a pessoa recebe muito.   E fica feliz.   Então, primeiro 7 grãos de arroz, ou se for macarrão, mais ou menos 5 cm. e coloca-se ali, no pauzinho.   Aí mentaliza-se e oferece para as pessoas que estejam passando fome.   E também, dentro da família, se o filho ou algum membro estiver viajando para longe, principalmente os jovens, a mãe, sempre prepara uma comida especial.   Quando a família come junto, uma parte é retirada e oferecida ao Buda ou a Deus, para que o filho que esteja viajando não sinta nenhuma falta de alimentos.  Estes costumes são muito bonitos, com muito amor e muito carinho. Dividindo antes de comer estes 7 grãos de arroz, não estamos apenas pensando em nós mesmos, estamos também pensando nos outros.
E depois disto, começamos a comer.  As comidas preparadas com estes tipos de cozinheiros têm muitas virtudes e méritos.   Geralmente, na parte da manhã, comemos papa de arroz.   Papa de arroz e gersal com sal.  E dois pedaços de picles de nabo.  Apenas isto, nada mais.  Mas esta papa no desjejum é uma alimentação perfeita.  Tem dez tipos de virtudes.   Agora, não me lembro de todos os dez tipos de virtudes, mas é fácil de digerir, tira a febre e não se pega gripe, é leve, dá força, tudo isto, dez tipos. A filosofia do Zen não é somente comer não, mas comer a menor quantidade de coisas possíveis e com isto se trabalhar o máximo que se pode.   Claro está que o Budista precisa comer, mas esta é a diferença com relação ao mundo comum.   Eis que no mundo em geral a pessoa crê que quanto menos trabalho tiver, melhor.   Assim, todo mundo quer trabalhar pouco e ganhar muito.
Mas dentro da prática Zen, se não trabalhamos um dia, não comemos um dia.   Esta palavra não é como aquela dos comunistas.    Os comunistas estão reclamando seus diretos.  Mas não é isto que ocorre dentro da prática Zen. Se não trabalhar é a pessoa mesmo que não aceita a comida que está sendo oferecida.   Tem uma história muito famosa, de um mestre bastante velho com 80 e poucos anos. Ele trabalhava junto com todos os demais monges jovens.   Por isto, os monges tiveram pena dele e lhe disseram:  “por favor, não trabalhe mais.”   Mas ele continuava a trabalhar.   Aí um dia os demais monges ocultaram suas ferramentas, para que deixasse de trabalhar.  Quando não encontrou suas ferramentas, voltou ele a seus aposentos e não aceitou mais comer, em hipótese alguma.  Aí lhe disseram: “Por favor, coma.”  Ele disse: “Um dia sem trabalho é um dia sem comer.” Quando lhe devolveram suas ferramentas, ele as pegou e começou a trabalhar alegremente.  Nem todos os mosteiros são ricos.  Alguns são muito pobres.  Existe um sistema: quando aumenta o número de monges, a quantidade de arroz é a mesma, apenas aumenta a água. Um dia um monge estava comendo a papa de arroz e tinha um feijão da mesma. Ele ficou todo contente e tentava pegar o feijão, mas o diabo do feijão ficava escapulindo.   Isto por que era  teto de madeira que estava refletindo com a luz em seu prato e assim parecia um feijão na papa.  Desta forma, às vezes passamos fome consumindo comida muito simples, mas todos os monges na Sangha estão sempre cheios de saúde.   São fortes e muito longevos.  Quando morava no mosteiro, eu tinha mais 10 quilos que agora.  Agora estou muito magro.  Se estivesse pesando mais 10 quilos, estaria no meu peso normal.  Talvez neste mundo, com suas preocupações, gasta-se calorias a  mais.  Fora do mosteiro sempre foi assim.   Quando entrava no mosteiro, realmente engordava bastante.
A comida é assim. Quando tem festa no mosteiro, em geral é um banquete muito especial. Aí, neste tipo de comida nunca falta nada, são banquetes perfeitos e maravilhosos.
Estava falando dos 10 méritos, desta papa de arroz de manhã. O almoço tem 3 méritos.   Nestes 3 méritos, o cozinheiro escolhe materiais e os prepara com aquele método correto.  Depois, em terceiro lugar, tudo é feito com muito amor. Com estes três fatores, a comida fica muito bem feita.   Mesmo a dona de casa, quando quer receber visitas por motivo de festa, talvez veja sua empregada não muito afim de trabalhar, querendo mais namorar ou coisa assim. Mas com esta festa, ela é obrigada a ficar e trabalhar de manhã até de noite, com raiva. Com isto, a comida vai ficar muito mal feita.   Então é a própria dona de casa quem tem que cuidar de tudo.   Realmente, a comida Zen dá muito trabalho .  Por exemplo, temos tofu, que é o queijo de soja.   Só de queijo de soja temos mais de 100 pratos, 100 pratos diferentes.
Depois dos três méritos, temos 6 sabores.   Dentro da medicina oriental, yin e yang e 5 elementos.   Mas o Zen coloca mais um, então ficam 6 sabores.   Os sabores são os seguintes: salgado, amargo, doce, picante, vinagre.   Estes são os cinco sabores.   Esta é a teoria dos 5 elementos da medicina oriental.  Temos 5 cores: verde, vermelho, amarelo, branco e preto.  E cada um dos 5 elementos tem ligação com os 5 órgãos, yin e yang; ao todo são 10 órgãos: fígado, coração, pâncreas, pulmão e rim.   Cada cor está ligada com cada órgão. Cada sabor está ligado com um órgão.   Cada sentimento está ligado com cada órgão.  Por isto, o importante é saber a comida correta e a quantidade e a hora em que é servida.   O melhor médico não cura a doença.   Por que    ele cura a pessoa antes que fique doente. O grande médico não cura a pessoa, mas cura as razões de vida errada que a pessoa está levando e que trouxeram esta doença. A terceira categoria de médico, mais inferior, trata a pessoa doente e a cura.
Então, esta ideia de alimentação, é muito importante.  Sentimentos, até mesmo os sentimentos, estão ligados a nossos órgãos.   Por isto, saindo um pouco fora do assunto, a raiva está ligada ao fígado.  Quando a pessoa está muito impaciente, pode apalpar o fígado, se ele está doendo ou não.    Fica com muita raiva quem tem problemas de fígado. Quem tem responsabilidades, tem que ficar mandando e gritando com outros e isto ataca o fígado. O rim está ligado ao medo.   Quando se tem medo ou insegurança, este tipo de coisas.   O coração, por sua vez, está ligado ao susto, o pâncreas à preocupação ou aos conflitos ou ao pensamento.  O pulmão é a tristeza.  Por exemplo, a pessoa que está com tuberculose, geralmente fica com a pele branca e o olho transparente e com um olhar agudo.   E se gripa muito.  Somente com uma olhadela e já se sabe mais ou menos onde está o problema.   Quando está triste e se abre e fala do assunto, com isto pode piorar.   Mas quando se tem problema de pâncreas, por exemplo, mesmo que se fale, não se pode esquecer.  Vejamos: o marido morre, de repente, em um acidente de avião ou algo assim, e se a viúva  contar para os outros não vai, é claro, se aliviar e não vai resolver nada do problema original, porque ele está morto.   Então fica pensando somente naquilo.   Com isto, o sangue fica todo estagnado.   E é assim que fica doente.   Primeiro isto ataca o coração com o susto, e depois vem o pensamento fixo.  Perde-se a força em cima do umbigo e com esta falta, fazendo pressão não se vê resistência ali.   Está como uma melancia podre. Não tem energia.   Esta teoria dos 5 elementos é maravilhosa, mas hoje não posso explicar tudo por falta de tempo.
E assim, nós temos os 5 sabores.    E além destes, temos mais um, que é um sabor muito superficial.  Por isto mesmo, não é um sabor.  Mas interessante, não sei se alguém já teve experiência disto: a melhor comida não é a forte, muito pelo contrário, é a suave.   Aqui na Argentina existem muitas pessoas que consomem enormes quantidades de carne. Antigamente haviam guerras por causa de especiarias.  As grandes companhias de navegação as buscavam em outros continentes.   As especiarias são utilizadas para disfarçar o cheiro de carne e temperá-la.  Por isto, surgiram.   Depois de 30 ou de 40 anos não temos mais condições de ficar digerindo coisas tão fortes quanto carnes em demasia.   Neste caso, quando comemos, usamos temperos bem suaves. Aí é que realmente sentimos o verdadeiro sabor das coisas: com um pouquinho de tempero.  Arroz integral cozido e bem feito, fica com aquele sabor maravilhoso.
No Brasil, eu me assustava, os brasileiros são considerados como formigas: quando eles tomam café, colocam açúcar com aquele açucareiro que se fica sacudindo, tchá, tchá, tchá,  até a metade da xícara.   Café com açúcar.  Mas na verdade é açúcar com café.  Realmente, o açúcar branco dizem que dentro dele tem muita coisa. Não sei se vocês conhecem, dentro da usina de açúcar misturam muita coisa ao açúcar. Até no suco de laranja.  E isto acaba tirando o sabor das coisas.   Tão condicionada a pessoa fica, contaminada, as crianças acabam perdendo os dentes, realmente é incrível.
Exatamente por esta razão é que colocamos este sexto sabor, o sabor suave, como uma sabedoria muito importante.   Às vezes a dona da casa faz doces, tortas, mas às vezes coloca muito açúcar e ninguém aguenta comer tudo, é enjoado.  Mas quando fica bem feito, com aquele sabor bem suave, fica tão gostoso e delicado.   Este é o segredo da preparação.  Por isto a colocação deste sexto sabor, que é o sabor  SUAVE. Depois dos 40 anos, não sendo mais tão materialista, começamos a procurar um caminho mais espiritual. Com este sabor nós sentimos aquele sabor verdadeiro. E sentimo-nos com aquela alegria e felicidade.  Não necessitamos de bifes e churrascos sangrentos.    E as cores também têm influencia na comida.   Parece que é mentira, mas a cor vermelha, por exemplo, ajuda o sangue.   A beterraba é muito boa para o sangue.   São 5 cores e 5 sabores e 5 sentimentos, 5 características. Por exemplo, a canela é quente e doce.   O gengibre por sua vez é picante.  Cada sabor ajuda determinado órgão.   E desta forma, quando conhecemos a arte culinária, é muito proveitoso.
A macrobiótica hoje em dia é mundialmente conhecida, ela segue aquela linha mais natural, mais suave.   A pessoa que vive nesta linha, geralmente é uma pessoa mais tranquila, calma.  De certa forma, a nossa história de seres humanos pode ser dividida em raças que consomem carne demais e as que não o fazem. Filosofia de carnívoro.   Não é uma questão de religião, mas de se consumir muito a carne ou não.   A raça que come carne fica extremamente agressiva, e sempre tem uma historia de guerra, agredindo e brigando com todo mundo.  Isto é natural.   Pois vejam bem, é a própria alimentação que faz isso.   Por isto, a alimentação dentro da história é muito importante.
Eu disse que os monges, em geral, no mosteiro são muito simples.   Mas, de certa forma, monges também comem muito.   Um leigo convidou alguns monges e disse para a esposa:   “Prepare macarrão, porque monges gostam de macarrão, e por isto prepare-o para os monges que nos visitarão.”    A dona da casa fez um montão de macarrão e ofereceu. Os monges comeram tudo.   Quando comem macarrão e biscoito, os monges podem fazer barulho.   Comendo outras coisas, não.  Mas com macarrão podem. Eles comem assim:   SHUISHI, SHUISH, SHUISH,  sem parar.   Comeram tudo, tudo. Aí o marido ficou muito triste, porque sabia que monges gostavam de macarrão e que acabou faltando.    Então reclamou para sua senhora: “Eu te falei, faça muito macarrão para os monges.”  A dona da casa disse: “Eu fiz muito, muito, para cavalos até.” O dono da casa então disse:  “Não, eu falei para monges, não para cavalos.”  Monges comem mais que cavalos.   Dizem que é por isto que boca de monge é como o fogão. Existe este ditado no Zen.  Porque o fogão aceita tudo e não há o que não queime.  Mas neste momento, o importante é não fazer diferença entre as madeiras de boa qualidade como o sândalo perfumado ou uma outra árvore de segunda; quando entra no do fogão, ele queima tudo. E transforma em energia. Recebe qualquer coisa, não reclama, mas come tudo e transforma em energia.   E isto é filosofia.    Por certo que não se trata somente de alimentação.   Quando encontra dificuldades, problemas, igualmente aceita, e estas dificuldades ele  as transforma em algo de positivo.   Quanto mais ele encontra dificuldades, mais cresce. No mundo, todos ficam reclamando, chorando, cheios de problemas. Estas pessoas se comparam a um fogão cheio de lenha, mas por onde não flui o ar; a fumaça entope e faz     TOSS, TOSS, TOSS.    O fato é que isto acaba ocorrendo porque eles não sabem queimar.   Ficam reclamando, reclamando, e estão cheios de problemas. Existe esta expressão:   “A boca de monges é como um fogão.”   Por que qualquer coisa que venha, ela queima.