A Verdadeira Forma

MOSTEIRO ZEN PICO DE RAIOS
SESSHIN – JANEIRO 1994

Cada religião tem seus pontos de vista, seus preconceitos. Sempre houveram problemas, conflitos, até guerra, matando-se uns aos outros, como na guerra religiosa. Às vezes aconteceram e continuam acontecendo.
Mas, o que é a verdadeira forma? Todos já sabem: causas, condições, efeitos. Isso significa que se não existe nada, uma coisa fica. Não se pode dizer: “isto é certo, isto é errado”. Isto não existe. Mas no mundo do Dharma, na verdade universal, não há “isso é certo, isso não”. Significa dizer: “a verdadeira forma significa a não- forma, a não existência de forma”. Isso “não tem forma”, já é outro sutra na filosofia budista, como Prajna Paramita — Hannya Shin Kyo, o Sutra do Coração. Mas o Sutra do Lótus fala em verdadeira forma e como nós podemos vê-la em todas as coisas.

Na escola Tendai, o Sutra do Lótus é o mais importante. Este sutra tem o nome original de Sudharma Pundarika Sutra, Su significando correto, maravilhoso, profundo, grande, referindo-se ao Dharma maravilhoso, o Dharma correto. Pundarika é a flor de lótus branca. Existem muitas flores e lótus azuis, vermelhos e outros mais. Mas a Pundarika é branca. Sudharma Pundarika Sutra. O Dharma correto e maravilhoso é como a flor do lótus branca, que se abre dentro da lama e da sujeira. E com raízes na lama, ela sai da água e abre-se branca, pura, não contaminada. Essa é a expressão do Sutra do Lótus.

Então nós temos uma clínica, não é? De medicina chinesa e se chama Vitória Régia. Vitória Régia é uma flor da família do lótus, na Amazônia. No Jardim Botanico, no Rio de Janeiro, também pode ser encontrada, dependendo da época. Assim, se a flor do lótus é o símbolo do Budismo, Vitória Régia é o budismo se abrindo no Brasil. E com isso faz sentido o nome de Vitória Régia.

A escola Tendai se fundou baseada nêssa sutra — o Sutra da Flor do Lótus — o mais importante. Existem 3 livros importantes comentando êste sutra: Okegenji, Okemonk; oke é flor do lótus, okegenji; okemonk é o último. O terceiro é o Makaska; maka é maha: grande, ska é meditacão. O comentário do Sutra do Lótus é um comentário sobre a grande meditação. Esses livros, até agora, são os mais completos, explicando os processos da meditação em detalhes. O que acontece? Como é a preparação, como é o contrôle da mente, a respiração, o corpo, o ambiente, como se pode combater os desejos, que tipo de doença pode aparecer dentro do treinamento de meditação, etc. ,etc. E portanto para nós, praticantes Zen, êsse sutra é muito importante para nos ajudar. Agora, a diferenca do zazen entre a Tendai e o Zen é a seguinte: para a escola Tendai, é como uma medida, o processo de meditação; como se medita 1cm, 5 cm, 10 cm, 20 cm, 30 cm. 1 cm é dividido em 10 mm; 5 cm em 50 mm; explica-se, detalhes e detalhes. A prática de meditação Zen é diferente, é um enfoque oposto, onde não há nada de memória, medida, etc. É uma coisa só, uma tábua só. Isso significa: iniciantes, veteranos de 30 anos, 40 anos, quando praticam zazen é sempre da mesma maneira. Não há nenhuma diferença entre o zazen de quem começou a meditar hoje e de alguém com 30 anos de meditação. Não há nenhuma diferença. É o mesmo zazen. Mais interessante é a explicação do Sutra do Lótus, mostrando como se faz meditação. Meditando, nossa mente fica tranquila,….. no fundo do mundo, sem onda nenhuma, como um espelho. Aí começa-se a refletir as verdadeiras formas das coisas do mundo. O zazen é assim, mas quando você espera, não acontece; quando não se espera, a água pára e acontece! Eu sempre brinco com a história dos macacos. Em uma montanha haviam macacos. E o líder do bando queria pegar a lua refletida na lagoa. Então êle mandou que outros macaquinhos fossem por uma árvore alta, por cima da lagoa, numa noite de lua cheia. Um macaco segurando o galho, outro descendo segurando o galho e outro macaco e mais outros pendurados até o nível dágua. O líder foi pegar a luz; êle a pegou, mas enquanto pegava, partia-se a lua cheia. Outro ficava segurando o galho com muitos outros macacos dependurados . Aí não se aguentou das pernas e perguntou: “já pegou?”. “Peguei! ah!, não, não, não!”. “Pegue! Pegue rápido!”. “Ainda não, ainda não, não vem!”. Tentou pegar a lua, mas quando a pegava, ela se desfazia. Mais outro também não aguentou e todos os macaquinhos cairam na água. Portanto, querendo pegar, não se pega. Quando não se quer, pega. Esse é aliás o segrêdo da vida. Quando pega, perde-se, como na expressão “ pega ouro e se transforma em areia”. Existe uma expressão brasileira, “querendo pegar a manteiga, ela se esvai”. E não se consegue pegar, não se consegue. Aprender êsse segrêdo é muito difícil. Mas funciona, funciona; nêsse mundo quer-se cada vez mais e não se consegue muito. Mas quando as coisas começam a aparecer, aí aparecem. Não tem lógica, não tem. Agora, desculpem,…. já está na hora, só mais um pouco para concluir.

Tenho um quadro, uma pintura muito bonita. Eu posso vendê-la para você, mas custa muito. Eu só não dou é a agulha de ouro que faz a moldura, a tapeçaria e o tapete. Essa agulha de ouro não lhe vendo, mas eu ensino como se fazem essas obras. O que você está querendo é essa pintura, mas o que você precisa não é a pintura, é essa agulha de ouro.. Onde poderá encontrá-la? Isso tem que procurar. Está muito perto de você, até perto demais, está muito perto.
O Sutra do Lótus, portanto, não é só um livro com 28 capítulos. Há 1000, 1200 anos atrás, nobres publicavam sutras, copiando letra por letra, decorando com ouro, aplicavam ouro em cada capítulo e ofereciam a um templo importante. O Sutra do Lótus é até a jóia nacional do Japão. Nós temos a Bíblia também, com aquelas letras bem grandes no começo, com desenhos, iluminuras, assim se chama, não é? As letras são como desenhos, todas pintadas e cada letra é mais bonita que a outra. É do Sutra do Lótus que estamos falando… por isso recite-o constantemente, recitando, lendo, decorando, guardando, copiando.
O Sutra do Lótus é o mundo em que vivemos, tanto na montanha como na cidade, aquela criança na rua sem abrigo, sem família, sem casa, sem comida, dormindo ao relento. Isso é o sutra. Se você olha, pergunta a si mesmo: “porque está acontecendo tudo isso?” Todos êsses roubos, políticos desonestos, tudo isto está refletido naquela criança de rua. Dá para ver, isso é todo o sutra, dêste político até a crianca de rua ou favela, e toda a desonestidade que acontece por aí. Isso é o sutra, certo? Mostrando tudo, tudo, tudo o que existe……..Por isso ler o sutra não significa ler letra, mais letra, ah, essa página tem doze linhas, tem 29 letras, portanto essa página tem tantas letras; até agora é a introdução, isto é o primeiro capítulo, segundo capítulo, não é nada disso.
Quando você está meditando, a água está transparente, clara, sem ondas, você vê todas as verdades. Na cidade, vendo-se a fisionomia de alguém, vê-se que essa pessoa tem certas dificuldades, sofre com algum problema, precisa de ajuda. O corpo fala tudo, tudo .

Estamos trabalhando com shiatsu e acupuntura e tudo mais, e fazemos um diagnóstico. Às vêzes uma pessoa me vem e fala: “eu tenho tal e tal doença”, com os nomes mais complicados que nem se entende. O que significa isso? Mais nomes complicados, nomes científicos. “Eu me tratei anteriormente com o Doutor Fraun, muito importante, muito famoso, paguei muito caro”, e conta tudo. Então, o médico de medicina chinesa diz: “não fale nada, não fale nada! Deite-se aqui! Seu corpo fala toda a verdade”. Aí, fazendo shiatsu, pontos de assentimentos, pontos de alarme, meridianos, vê tudo, tudo, tudo, você não precisa colocar essas coisas, não é? Quanto pagou, com quem se tratou, nome da doença. Tocando o corpo, o corpo tudo fala.

E assim, a maneira de ler o sutra é diferente. Dentro do Shobogenzo, inclusive, tem um capítulo chamado Kanki. Kanki significa ler o sutra, ou olhar o sutra. Olhar o sutra , não necessariamente o sutra; olhar êste mundo. Entrando dentro do mundo, você vê a verdade, o sutra, o sutra é a verdade. Você pode ver. É por isso que meditar é importante. Nêsse período fora do angô, a gente faz peregrinação, andamos sem dinheiro, às vezes temos que dormir sem comida. Às vezes chove, temos que dormir em baixo do telhado, no banheiro da igreja, coisas dêsse tipo. E com isso você vê todas as coisas. É uma parte muito importante do treinamento. E vamos concluir rapidamente: “absorvido sob a árvore, como odiar ou amar?” Absorvido sob a árvore significa: sentando em baixo da árvore; isso é zazen. Quando se faz zazen, não existe “odiar ou amar”. Isso não entra, isso é montanha, isso é meditação. Às vezes entra sim; mas não se mexe, senta-se, apenas senta-se. Por isso a gente cruza as pernas, cruza as mãos, fecha a boca e concentrada a mente, não se faz nada. Agora, amar e odiar é muito importante, porque fora disso não existe nada. E a vida é muito sofrida, de um certo modo. Mas como é, vamos em frente? Com tudo isto! A verdade é que tudo isso é a vida, vamos! Precisa, não é?

Apreciar a dor não é masoquismo, apreciar essa dor, êsse sofrimento. Isso é o treinamento zen. Quando se tem 18 anos, sonhamos com um casamento cor de rosa, “la vie en rose”. Mas logo, sofre-se, 1 ano ou 2 depois; hoje em dia é mais rápido. Se continuar o casamento, as bôdas de diamante; cinquenta anos é raro, é raro, 25 anos também, 3 anos…raro, 1 ano! Oh! aguenta-se um ano!!! Às vezes as pessoas vêm para mim para fazer um casamento budista. Da próxima vez estou pensando em perguntar: “por quanto tempo vocês estão querendo morar juntos, ficar juntos? Por 3 anos? Querem por 10 anos? E às vezes ainda se casam uma segunda ou terceira vez, tentem entender. Bom, falando do sabor do Zen, êle não é doce, é amargo, amargo, amargo. Vocês entendem isso? Sentando em zazen, as pernas doem. Sabor de zen é dor, é amargo. Mas se você tem paciência, fica aqui até o quinto, o sexto, o sétimo dia… Então, dentro dêsse amargor, começamos a sentir algo doce, …. outros sabores às vêzes se misturando; um sabor não tem explicação, mas havendo muitas coisas misturadas nem tudo é amargo. Essa sabor não é ouro ou brilhante, é como prata. Isso sim é necessário.