A não-violência dentro do Budismo Zen

A não-violência dentro do Budismo Zen

Boa tarde, caros amigos.  Hoje vou apresentar uma pequena filosofia da paz e não-violência, desde o ponto de vista Budista.  Temos hoje em dia um grande intercâmbio entre todas as religiões.  Principalmente isto se verifica entre o Cristianismo e o Budismo.  No ano passado, nosso grande mestre e superior do Japão, visitou o Vaticano e naquela ocasião,  o papa depois de ter passado por toda América do Sul foi ao   Japão, onde  visitou nosso Mosteiro e houve uma entrevista entre as duas grandes figuras.   Eles neste momento conversaram naturalmente sobre a paz mundial  por que até hoje infelizmente, com nome de religião, quantas guerras não houveram.  A história da humanidade é ao mesmo tempo a história da guerra.  Mas pelo menos no âmbito religioso nós devemos tentar evitar a guerra.  Como o Cristianismo, o Budismo e também o Islamismo, que fazem parte das ditas grandes religiões mundiais, devem tentar evitar a guerra,  e talvez então de fato  muitas guerras possam ser evitadas.  Eu acredito neste intercâmbio ou diálogo com outras religiões e através  disto e também da compreensão, quiçá possamos aos poucos abrir caminho para a paz.   Procurando entender outros  tipos de pessoas, outros países, e outras filosofias isto se torna certamente possível.
Dentro da historia Budista, havia um Rei, um Imperador Hindu, que se chamava  Ashoka.  Há cerca de 10 anos atrás mais ou menos a UNESCO realizou um trabalho de pesquisa sobre sua vida, e assim ficou no foco de atenção do mundo.  A história dele é a seguinte:  Quando ele era ainda criança, estava brincando com areia.  Aí neste momento passou o Buda Gautama.  A criança vendo a figura de Buda, ficou tão impressionada, que ofereceu ao Buda a areia com a qual brincava, e verteu a areia dentro da tigela de mendigação do Buda, que é usada para alimentação.  Mas o Buda aceitou isto, porque para aquela criança, aquela areia podia ser talvez uma maçã, ou um avião, as vezes uma casa ou um cavalo.  Buda aceitou isto, e voltando para o mosteiro misturou isto com cocô de vaca e fez um cimento para uma pequena calçada onde se podia fazer meditação andando, que se chama kinhin em Japonês.
Com este mérito, exatamente cem anos depois disto,  Ashoka nasceu na Índia e se tornou um grande  guerreiro, acabando por conquistar a maior parte da Índia.  Ganhou várias batalhas e tomou quase a totalidade do território Hindu.  Mas suas últimas batalhas foram particularmente sangrentas e extremamente violentas.  Com a vitória assegurada, retornava ele para sua terra natal, quando passando pelo campo de batalha viu todos aqueles desastres,  os cadáveres daqueles que perecerem nas refregas.  Neste momento ele sentiu uma sensação muito forte, isto é, pela primeira vez sentiu a  impermanência e era como se tivesse sentindo uma muito forte e aguda dor.  Naquele exato instante ele abandonou este método de solucionar as disputas através das armas.  Até agora no mundo houveram inúmeros conquistadores famosos, mas ele foi o único entre todos estes, que tendo ganho todas as batalhas nas quais se envolveu, largou suas armas e abandonou a disputa armada como solução de problemas.  Em seguida a isto ele construiu 84.000 torres nas quais inscreveu a filosofia de Buda.
Este Rei Ashoka era Budista, mas particularmente, somente para si.  Mas o que é interessante é que ele aceitava livremente todos os outros tipos de credos e de religiões.  Foi neste momento de sua história que a Índia se tornou o centro e encruzilhada de uma série de culturas.  Para esta cultura contribuíram muitas outras, tais como a cultura Romana, a da China e aquela dos mongolianos através de Genghis Khan.  Criaram pois eles uma cultura extremamente diversificada, com várias religiões,  muito especial e destacada.  Então nestas torres ele inscreveria por exemplo:  “Quando percebemos que uma seita está querendo aparecer, brilhar, às custas de outras, e ao mesmo tempo falando bem de si própria, não será através disto que irá ganhar algo.”   O fato é que aquele que tem uma fé muito profunda dentro de seu âmbito religioso, ao mesmo tempo aceitam e reconhecem outras religiões, e isto com muito respeito.  Assim ele levantou estas torres e insculpiu estas palavras nas rochas das montanhas.  E em cima destas torres haviam aquelas cabeças de leões, que hoje em dia fazem parte do símbolo nacional da Índia, em sua bandeira. Esta cabeça de leão é o símbolo do Dharma ou ensinamento de Buda.   E o rugido do leão, o som que mais simboliza o Budismo.   Assim queria ele mostrar este ensinamento para o mundo inteiro e manteve uma política de enviar missionários para várias partes do mundo com este ensinamento, para divulga-lo.
Mas quando ele envelheceu, os ministros começaram a ficar cada vez mais preocupados.  Porque ele gostava tanto de doar tudo que tinha, e doava livremente para as demais seitas religiosas também.  Finalmente os ministros se reuniram e decidiram entre si que ele deveria ser proibido de doar mais o que quer que fosse.  Então chegou um dia em que ele deu seu prato de prata, que era justamente a última coisa absolutamente que ele tinha.  E antes de morrer ele mais nada tinha que pudesse dar.  Mas ainda assim queria ele doar.  Então, já nos estertores da morte, lhe deram uma manga.  Consumia ele calmamente sua manga, quando percebeu que por ali passavam uns monges.  Deu então metade de sua manga para os monges.  Os monges a receberam e retornando ao mosteiro fizeram um suco de frutas, junto com outras frutas, e muitos monges se deliciaram com este suco.  Esta foi sua última doação.
Seja lá como for, o fato é que existia por esta época na Índia uma filosofia geral, dirigida para este tipo de atitude.  Mas nem bem faleceu o Rei Ashoka, e naturalmente começaram as infindáveis guerras novamente, como era de se esperar.  Porém mais tarde um pouco, surgiu um outro Rei,  Kanishika, que também procurou assimilar este tipo de virtudes ao seu governo.
Então, na filosofia Budista, que versa sobre como deve se comportar o Rei ou o Imperador, podemos encontrar ali que o Rei tem que possuir dez virtudes para ser capaz de bem governar seu país.  Isto é, dez virtudes realizadas em si.  E através disto ele tem o direito de defender seu país, atuando também como  responsável pela conservação da paz.  Quando então ele não mais merece manter a paz, então deve cair e ir embora e um outro qualquer o deve substituir.  A isto podemos chamar de vontade dos céus.
Desta forma o trabalho do Rei Ashoka e também do Rei Kanishika foram realmente incríveis.  E neste momento de nossa história esta fato está chamando muito  atenção.  Porque hoje em dia existem quase as mesmas condições que eram vigentes naquela época.  Estes encontros com vários outros tipos de religiões, e com outros países também, outras raças e línguas, tudo isto significa que todos estão procurando uma só direção.  Neste caso, aquela filosofia do Rei Ashoka pode se aplicar, pois que ele mesmo podia ter sua religião individual, mas jamais chegou a proibir qualquer religião que fosse de exercer livremente suas práticas.  Ele aceitava igualmente e respeitava todas as demais religiões.  Este grande diálogo entre outras religiões, então, não significa aprender uma outra religião para com isto atacar seus pontos fracos, mas quer dizer por exemplo, lendo a Bíblia como se fosse um Cristo.
Este movimento hoje em dia está acontecendo nos Estados Unidos.  Depois da Segundo  Grande Guerra, vieram as guerras da Coreia e do Vietname.  A guerra da Coreia terminou e todo mundo ficou sem saber o que havia se passado.  Ninguém entendeu nada do que realmente ocorreu.  Enquanto que a guerra do Vietname, será que os Estados Unidos a ganharam ou perderam?  Apesar de toda aquela tecnologia mais avançada e moderna, eles não conseguiram dobrar o Vietname.  Durante a Segunda Guerra mundial, eles ganharam de fato a guerra, mas não saíram dali com aquela sensação de vitória, pois o fato é que somente houveram perdedores nesta guerra. Todos saíram dali totalmente cansados e arrasados.  Foi então que começou aquela desconfiança com o aspecto científico das coisas.  A ciência está buscando a verdade e  criou através disto o mito de que a ciência era a base da verdade.  Mas se a pessoa não chegou a mergulhar dentro da subconsciência e se aperceber desta forma do que vem a ser a ideia do ego, ou o que vem a ser o egocentrismo, então aquela ciência ou aquela verdade pode então ser aplicada como arma nuclear.
Logo depois da guerra terminar houve uma corte marcial para julgar crimes de guerra no Japão e muitos militares daquela época  foram condenados a morte.   Mas e aquelas pessoas que jogaram  a bomba atômica e aqueles mortos civis que nada tinham a ver com isto,  estas não foram julgadas.  O que eu quero dizer com isto é que quem jogou a bomba atômica tinha o direito de fazer justiça com aquele que perdeu a guerra.  Isto foi somente a justiça dos vencedores, que impuseram o que criam que podiam impor através da força, como justiça.  Finalmente o que aconteceu foi que  quem ganhou julgou quem perdeu.  Não pode isto na verdade ser considerado como qualquer tipo de justiça, e de forma nenhuma se aproxima de um padrão correto de julgamento. Mas no meio dos vencedores haviam advogados e especialistas em lei internacional, juizes, que tendo compreendido a verdadeira situação, perdoaram ao Japão.   Foi como a palavra que Buda disse:  “Não será através do ódio que se haverá de liquidar o ódio, e sim através do não-ódio que se elimina o ódio.  Esta é a verdade.”  Este verso o podemos encontrar no Dhamapada.  E com isto de certa forma aliviou aquela tensão que se havia formado.  E até os dias de hoje os Japoneses são gratos por estas legistas que declararam a verdade sem partidarismos.  Quem primeiro falou esta palavra, isto é que o ódio chama outro ódio, creio eu que foi um Hindu.
Em geral o Imperador só detêm sua sede de conquista quando vai chegando perto do mar, do outro lado do continente.  Foi isto exatamente que aconteceu com o caso das Ilhas Malvinas.  Eu estou morando no Brasil  e fiquei realmente chocado com este episódio.  O fato é que ninguém esperava por isto,  por esta guerra.  Mas qualquer coisa pode levar a guerra, em qualquer lugar do mundo.  Até  os dias de hoje as guerras se davam em apenas uma parte do mundo.  Por isto a quantidade de pessoas que morria era menor.  Mas muitos estão falando já na Terceira Guerra Mundial.  Porque existe o desenvolvimento de novas armas letais, isto é, a ciência unida à guerra.   Com isto pode se chegar mais rápido, mais alto e mais longe.  Mas com esta armas modernas que temos, não podemos mais brincar.  Com este tipo de armas não se pode mais fazer experiências, não mais se pode mais brincar, jamais.  Uma bomba de hidrogênio é cem vezes mais forte que aquela que caiu em Hiroshima.
Eu tinha um tia que morava em Hiroshima.  Mas no dia em que caiu a bomba ela por sorte se encontrava fora da cidade.  E desde longe viu a bomba caindo.  As pessoas de Hiroshima até hoje descrevem o que aconteceu, o barulho:  PIKA-DON.   Foi assim que eles ouviram o barulho da bomba.   Não sabiam que tipo de bomba era aquela, nem o nome da bomba, um tipo de bomba moderna.  Este barulho descreve aquela luz mais forte e logo depois aquele barulho da bomba, avassalador,  TAAAAN.   Por isto as pessoas a chamavam de PIDA-DON.   Neste ínterim minha tia começou a ver pessoas que fugiam espavoridas da cidade, para algum lugar nas províncias.  As roupas todas queimadas, os cabelos também, as carnes tombando pelo chão afora.  A carne viva e estava todo mundo andando desta maneira, arrastando sua pele e carnes pelo chão afora.  Para nós Japoneses, esta forma de andar se parece com a forma de andar dos fantasmas.  São os fantasmas que assim andam, para nós.  Assim ela relatou que viu muitas pessoas assim andando,  uma multidão de fantasmas.  Porque isto?  Porque o couro cabeludo caia para trás, pela estrada afora, e as pessoas seguravam as partes que iam, caindo, com suas unhas.  Se largassem o braço,  a pele e o cabelo cairiam pelo chão.  Para não arrastarem suas peles pelo chão, levantavam os braços que estavam a segurar peles e cabelos, e desta forma é que iam caminhando.  Realmente era um inferno total.  Muitas pessoas corriam em direção aos rios, para tomar agua, sedentos.  Tomavam mas não mais tinham força para se levantar novamente.  Então os corpos iam caindo um em cima dos outros, morrendo e morrendo e o rio que passava pelo centro da cidade ficou cheio de cadáveres.
Quem viu isto foi que começou a dizer esta frase, “No more war!”   A constituição do Japão de hoje em dia fala de como se resolver os problemas entre as nações, tendo já largado este método da guerra como arbítrio final da questões.  É necessário procurar a paz e largar o método da guerra, como método de se resolver as coisas.  Assim é que no dia 15 de agosto de cada ano, se reúnem naquele local onde a bomba caiu muitas pessoas, e também para ali se dirigem  muitos estrangeiros e fazem uma manifestação.  Eu acho que isto é a melhor coisa, a não-violência.
Assim foi que os Japoneses viram os resultados da bomba.  Isto não mais tem lógica, não tem razões, tem que terminar a guerra imediatamente.  É desta forma que o ódio não pode ser extinto através do ódio.  Dentro de nossa linhagem de Zen havia um Patriarca que havia sido discípulo do grande mestre Nagarjuna.  Foi ele assassinado, alguém de uma outra seita o matou.  Naquele momento ele disse para o assassino:  “Trate de fugir, mas não por onde você está indo , mas naquela outra direção.” Logo em seguida chegaram os discípulos, e como todos os discípulos, logo perguntaram:  “Quem foi que perpetrou tal crime hediondo?”  Ele respondeu:  “Não precisa saber.”  E acrescentou:  “Ele foi nesta direção!”  E indigitou a direção contrária àquela na qual o criminoso havia fugido.  “Mas não podem ir atrás dele para puni-lo, pois quem me trucidou não foi ele em absoluto, quem me liquidou foi meu Karma, na verdade!”  Assim ele nem sequer disse o nome do assassino e tampouco disse para onde ele tinha fugido.  Quando realmente nós entendemos este ensinamento do Buda, encontramos com a verdade, que é uma coisa deveras simples.  A verdade é que todo mundo gosta de si mesmo, logo não devemos machucar os outros.  É isto, somente isto.  Se chegarmos a compreender isto, compreendemos aquela sabedoria da igualdade.  Eu estou dentro de você e você está dentro de mim.  Um guerreiro estava viajando e chegou a uma aldeia onde todos sofriam com um demônio que morava na montanha.  Então ele disse:  “Eu vou por um ponto final nisto.” “Não, por favor, não vá lá.  Pois que muitos lá se foram mas não retornaram.”  Mas ele tinha decidido ir e com isto foi.  E entrando no fundo da montanha apareceu de fato  o tal demônio.  Primeiro ele o alvejou com uma flecha, com toda força.  Pegou no demônio mas ele nada de morrer.  A flecha meramente ficou dependurada nele.  Em seguida ele atacou com uma lança, e a lança o atravessou, mas o demônio continuou a rir.  Com a espada, esta lhe decepou o corpo no meio, mas era como cortar borracha, nada acontecia.  Finalmente como último recurso, ele atacou com uma faca, mas não podia mais esboçar qualquer reação que fosse.  O demônio o pegou e ria às gargalhadas.  Mas ele mesmo estava completamente tranquilo.  E o demônio lhe disse ameaçadoramente:  “Eis que agora eu vou te matar, te comer!” Ele continuou tranquilo.  Aí o demônio começou a estranhar: “Ué, você é diferente, porque?  Porque não esperneia, porque não pede socorro?”  “Mas porque necessitaria eu de fazer isto?”  “Se não fizer isto, nada do que eu te fizer terá graça:  vamos, grita, chora.” “Eu não, eu não.” “Mas porque?”  Então ele disse, “Que camarada realmente ignorante você é na verdade!”  “Porque?”  “Porque na realidade você está dentro de mim, por isto se você vier a me comer, estará apenas comendo a si mesmo.  Compreendeu?”   “Você é muito estranho, diferente, então vá embora, pode ir embora.”   O que esta história nos mostra, é que o diabo está dentro de nós mesmos.  Se ele atacar o inimigo, estará somente destruindo a si mesmo.  Hoje em dia isto é o que ocorre de fato.  Não somente nesta parte de Ecologia, de meio ambiente, mas também na guerra pode acontecer exatamente isto.  Se estivermos querendo destruir a outros, estaremos é destruindo a nós mesmos.  Por isto temos que aprender esta sabedoria da igualdade.  Mas será que se largarmos as armas em primeiro lugar, assim como  fez o Rei Ashoka, será que através disto poderemos ainda assim proteger a paz?  Será que os outros não atacarão em seguida ao tomarmos uma resolução tão radical?  Esta é a grande dúvida.  Esta guerra e esta ignorância são muito, mas muito fortes.  Isto é a ignorância coletiva, de Karmas e Karmas acumulados.  Mas assim como Gandhi mostrou o Ahimsa, não violência, através dos cinco preceitos, Panchasila.  Isto é coisa em que podemos confiar.  Muito obrigado, neste momento eu gostaria de receber perguntas de qualquer um, se as houver.

PERGUNTAS E RESPOSTAS:

Pergunta:  Será que se os Estados Unidos se desarmarem, com isto a União Soviética não se aproveitará para dominar o mundo?
Resposta:  Eu acho que isto é uma verdade.  Por exemplo, estamos falando em paz internacional, mas esta palavrinha, internacional, já em um perigo dentro dela, isto é, já tem uma separação entre nacionalidades compreendida dentro dela.  E quando dizem então que estão procurando a paz internacional, isto já traz a guerra.  Quando não mais falamos em paz internacional, somente então é que a paz pode aparecer.  Mas quando falamos ainda em paz internacional, isto ainda subentende separação.  Exatamente é com o nome de paz que está ressurgindo a guerra.  Com este movimento de armas nucleares, por exemplo, os soviéticos são os algozes naturais dos Estados Unidos.  Então muito se lhes aproveita aos soviéticos aquelas marchas de pacifistas contra a produção de armas nucleares, isto se torna favorável para os soviéticos, e disto eles se aproveitam para criticar os Estados Unidos.  Então com esta palavra de paz, isto se vira ao contrário, e é aproveitado para a guerra.  Por isto falar em paz e em liberdade de nada adianta.  Podemos mentir com palavras.  O que tem que ser mostrado é a atitude.  Por isto também é que entre religiões não adianta nada falar de superior e inferior.  Ou em profundo ou não tão profundo.  Isto de nada interessa.  O que interessa é mostrar a verdade através de atitudes.
Pergunta:  Como podemos observar o mundo para manter a paz?
Resposta:  Para se observar este mundo tem várias maneiras, como o professor Kikuchi, que é um grande Mestre de macrobiótica, então tem a filosofia dos chineses e do Yin e do Yang.  Positivo e negativo.   Mas também tem a filosofia do Cristianismo, como o único Deus, e o mundo inteiro sendo este único Deus, único amor.  Também os Budistas, que muito falam no vazio. O vazio absoluto. E com isto talvez que podemos finalmente encontrar a paz.
Pergunta:  Qual é o aspecto ativo do Budismo, ou é ele uma religião totalmente passiva?
Resposta:  Nesta parte de coisas ativas a história Budista talvez seja muito fraca, mais fraca que o trabalho missionário dos sacerdotes cristãos. Por exemplo, durante a Segunda Grande Guerra, muitos sacerdotes Budistas ajudaram o militarismo, espiritualmente, dando razões lógicas para o surgimento dele e uma base filosófica para a preservação do militarismo.  Mas depois que o Japão perdeu a guerra e o mundo mudou, eles começaram a falar de outra  maneira.  Então, finalmente onde está a verdade?  Realmente isto é uma vergonha.  O Budismo japonês é considerado como Budismo Mahayana.  Desta forma o Budismo no Japão se espalhou por toda parte, não somente entre aqueles que buscavam o Caminho, mas também dentro do povo e dos cidadões comuns.  Mas de certa maneira, aqueles líderes da parte espiritual Budistas estão muito decadentes.  É isto que é conhecido vulgarmente como Budismo Mahayana quebrado.  Por exemplo, na época do Buda Gautama, também haviam guerras e outros clãs atacavam o clã dos Shakya.  Isto é, o clã de Buda mesmo.  Então Buda se dirigiu aquela estada que ia dar na capital e sentou-se em meditação debaixo de uma árvore ressequida e sem folhas.  Aí o Rei de uma das facções que chegava com suas tropas, perguntou:  “Porque você está sentado debaixo de uma árvore sem folhas, debaixo do sol inclemente?”  Buda disse,  “Estas sombras da árvore são deveras agradáveis. As sombras da família bem como a sombra do clã também me são muito agradáveis.”  Assim, prontamente este Rei compreendeu a mensagem e retornou com suas tropas.  Da segunda vez que a guerra ia começar, o Buda fez a mesma coisa, uma forma de protesto silencioso.  Novamente o Rei retornou.  Mas quando soube que pela terceira vez o Rei havia partido para o combate, o Buda não mais se dirigiu para a árvore.    E assim agia ele,  de uma forma não muito ativa, muito pelo contrário, de certa forma muito passiva, dentro de meu conhecimento, dentro do Budismo não tem uma atitude muito forte e muito marcante.  Dentro da história Budista, quando há uma emigração de Budistas para outros países, isto sempre se deve à guerra.  Por exemplo, quando dentro da história do Budismo na China, começa a aparecer nomes de estrangeiros como tradutores, isto significa que estas pessoas eram refugiados, houve uma guerra qualquer em seus países e eles se refugiaram na China.  Budistas em geral nunca participam de guerras.  Isto de certa forma é uma falta de amor por seus países e pátrias.  Mas se trata na verdade de um amor mais universal.  Em vez de irem ao combate, eles meramente passam e se refugiam em outros países, fugindo. Assim o Budismo Tibetano passou da Índia para o Tibete, o Budismo tântrico passou para a China e dali imediatamente para o Japão.  Desta forma quando acontecia uma guerra, eles somente fugiam e sempre estavam fugindo, fugindo e fugindo. Então para responder a esta pergunta sobre a atitude ativa dos Budistas, a resposta é negativa.  A verdade é que eles são mais passivos, como aquele que morreu no Vietnã, queimando e imolando seu corpo em uma pira funerária.  Sacrificou seu corpo.  Morreu, suicidou-se, para  nós Budistas o máximo de amor é o sacrifício de si mesmo.  Dentro da história Budista na China, quando o Imperador,  filiado a religiões hostis, atacava os Budistas, eles nunca lutavam, mas cortavam seus dedos e pés, e continuavam vivendo com aquelas dores, até que a morte lhes chegasse ao coração.  Sacrificando-se e sacrificando-se, mostravam desta forma seus protestos.  Recentemente, há menos de 100 anos atrás, no Japão, houve a revolucão, a luta entre o Imperador de um lado e os Guerreiros Samurais adeptos do feudalismo do outro.  Acontece que os generais dos dois exércitos que estavam prestes a se chocar eram praticantes Zen.  A parte dos Samurais, os Tokugawa, estava em desvantagem.  Neste momento, um dos ministros, que era praticante Zen, saiu de seu acampamento, e sozinho invadiu o acampamento inimigo, à cavalo.  E aos gritos dizia:  “Sou eu, o inimigo do Imperador, quem está passando bem no meio de vocês!”  Ninguém entendia nada.  Deixaram-no passar, pois não entendiam.  Chegou desta forma até o general do campo inimigo, que era a facção do Imperador e disse,  “Caro amigo, o Japão está com isto passando por uma grande dificuldade.  Não tem sentido brigar entre nós mesmos, que somos todos Japoneses.  ‘Porque?  Porque nossos inimigos, que são os estrangeiros, os Ingleses, estão justamente esperando por isto para nos dividir e nos dominar.  E do outro lado dos Ingleses, estão os Americanos e os Franceses,  que nos vendem armas parecendo que são nossos aliados e contra os Ingleses, mas na verdade esperando eles também para dar o bote e nos dominar, como uma colonização deles.”  Conversando destes assuntos, eles prontamente chegaram a um acordo.  Este general abriu o castelo de Tokyo, sem derramamento de sangue.  Entregou sua parte.  Assim foi que o Japão não necessitou de se dividir em duas partes.  Por esta exata razão é que os Budistas colocam não uma coisa ativa, mas muito passiva.  Temos que aprender de fato a perder.  Perdendo, perdendo, perdendo até o fim, e através disto é que finalmente ganhamos.  Através da não-violência, passivamente.  Mas este passivo não é um coisa largada, existe tão somente com aquela coragem, verdadeira.   Neste momento, o passivo se transforma subitamente em ativo.  Os Budistas colocam que esta é a única forma de fato de poder se mudar e transformar a forma de pensar das pessoas.