A mente não pode ser apreendida

PALESTRA PROFERIDA PELO MESTRE TOKUDA EM 27-6-82, DURANTE O SESSHIN DE OURO PRETO.

A mente não pode ser apreendida. Shakyamuni disse de certa feita: a mente do passado, a mente do presente e a mente do futuro não podem ser apreendidas. Este ensinamento foi transmitido por todos os Budas do passado. A única maneira de compreender o passado, presente e futuro é através do estudo de nossa própria mente indefinível. Use a sua mente indefinível para pensar e analisar. Tudo em nossa vida cotidiana deve ser uma função da mente indefinível. Todo Buda desde Shakyamuni procurou o principio da mente indefinível através do Zazen. Se os Budas e Patriarcas não tivessem alcançado esta mente nós nada teríamos para nos guiar em nossa busca.

Para percebermos a mente indefinível necessitamos um padrão elevado; tão elevado que mesmo eruditos Budistas não a podem conceber. Contudo este padrão não se encontra distanciado, mas muito perto de nós.

O mestre Zen Tokusan disse uma vez: eu dominei o Sutra do Diamante. A minha compreensão dos comentários de Seiryuji são incomparáveis. Eu sou o mestre supremo da interpretação deste Sutra. Tokusan também escreveu 12 volumes de comentários sobre o Sutra do Diamante e a profundidade de suas palestras era insuperável. Ele era o maior erudito de sua época e o último monge Zen que advogava a supremacia das escrituras.
Uma vez ele ouviu falar que havia um famoso mestre no sul que transmitia a Verdadeira Lei. Tokusan ficou com ciúmes e decidiu testar o conhecimento deste mestre sobre as escrituras. Ele levou junto consigo muitos dos seus comentários e anotações. A caminho ele ouviu dizer que haveria um Sesshin de Zen conduzido pelo famoso mestre Soshin Ryutan. Ele se encaminhou para o Templo, mas antes de chegar lá sentou para dar uma descansada. Logo uma velha veio e sentou ao lado dele. Tokusan lhe perguntou: “Quem és?” “Sou uma vendedora de bolinhos de arroz,” ela respondeu.
“Ótimo, gostaria de lhe comprar alguns,” ele disse animado.
“Para que?”, ela perguntou.
“Estou com fome”, replicou ele.
Então a velhinha lhe indagou: “Diga-me venerável Monge, o que é isto que carregas de tão pesado na tua sacola?”
Tokusan lhe disse; “Você já ouviu falar do mestre dos mestres do Sutra do Diamante? Eu sou o maior mestre que existe deste Sutra. Sei tudo que há para saber sobre este Sutra. Nesta sacola estão nada mais, nada menos, que meus comentários sobre este assunto.”
Ouvindo isto a velhinha comentou: “Eu tenho uma pergunta para você. Permites-me que a faça?”
Ele disse, “Tudo bem, pode me perguntar o que quiser.”
Ela então disse: “Há muito tempo atrás eu ouvi cantar o Sutra do Diamante e lembro especialmente da passagem: ‘A mente não pode ser apreendida nem no passado, nem no presente, nem no futuro.’ Se você comprar um bolinho de arroz, com qual destas variadas mentes irá comê-lo? Se puderes me responder eu te venderei um bolinho, se não terás que ir embora faminto.”
Tokusan, atônito demais para responder o que quer fosse, nada disse. Com isto a velhinha levantou-se e deixou Tokusan a ver navios.

Que verdadeiramente lamentável que um tão grande mestre Budista que leu milhares de volumes de comentários e que por muitos anos explanava esta teoria não tenha podido responder uma simples pergunta de uma velhinha. Existe uma grande diferença entre a aquisição de conhecimentos através de vias intelectuais e suas aquisições na prática. Pela primeira vez Tokusan aprendeu, muito para seu pesar que uma pintura de um bolinho de arroz não pode matar a fome.

Mais tarde Tokusan se tornou discípulo do mestre Zen Ryutan e transmitiu a Verdadeira Lei; mas mesmo então ele provavelmente se lembrava da velhinha com pavor. De qualquer forma, mesmo depois de anos de estudo, Tokusan não havia conseguido realizar a verdadeira sabedoria Budista, e se encontrava longe da iluminação.

Contudo, não devemos apenas rir de Tokusan e elogiar a velhinha; apesar dela ter feito Tokusan de bobo, como podemos saber com certeza se ela era iluminada ou não. Tokusan ainda não era o verdadeiro Tokusan, ele ainda não tinha capacidade de avaliar a sua compreensão. Além disto ela não respondeu à sua própria pergunta. Se ela tivesse respondido nós teríamos certeza que ela tinha compreensão. Quem sabe ela não achava que estas linhas do Sutra do Diamante significavam que se a Mente não pode ser apreendida ela de fato não existe. Existe um ditado que diz: “A menos que a pessoa fale a verdade, não pode ser considerada iluminada.” Isto pode ser aplicado à velhinha. Por outro lado, Tokusan era culpado de se gabar do seu próprio conhecimento.

Vamos reconstruir agora a história nos colocando no lugar de Tokusan. Quando a velha fez a pergunta Tokusan devia ter dito: “Então não venda o bolinha para mim,” ou algo de parecido. Se tivesse dito isto estaria então claro que era iluminado ou que ao menos tinha uma muito boa compreensão da verdade.

Por outro lado se Tokusan tivesse dito “Eu não sei que Mente nós usamos para comer o bolinho de arroz” a velha devia ter respondido: “A tua mente está muito preocupada com o bolinho de arroz, você não sabe que tua mente já contem o bolinho de arroz. A mente mesma não sabe o que comer como aperitivo.” Se Tokusan não tivesse compreendido a velha devia ter lhe oferecido três bolinhos de arroz e dito o seguinte: “A nossa Mente não pode ser apreendido no passado, presente e futuro.” Quando Tokusan fosse pegar os bolinhos ela deveria ter jogado um bolinho nele e gritado: “Seu monge estúpido, para de ser um idiota.” Se Tokusan tivesse dado uma boa resposta ela podia ter ficado satisfeita porque ele aprendera a sua lição, se não, ela poderia ter tentado explicar mais um pouco a situação. Na história original, contudo ela lhe deixou ali e não mostrou qualquer intenção de lhe guiar para a verdade. Também Tokusan não disse “Eu não posso responder senhora, por favor me diga como responder.” Nem Tokusan nem a velha mostraram qualquer compreensão verdadeira no diálogo original. Isto é uma situação deveras triste.

A situação de Tokusan prosseguiu desta forma muito tempo depois disto. Ele estudou mais sob Ryutan, entrando em contato pela primeira vez com o verdadeiro ensinamento Budista, mas não alcançou a grande iluminação até uma noite quando caminhava por um corredor escuro, e seu mestre Ryutan repentinamente apagou a lanterna que iluminava seu caminho. A preparação para a iluminação é muito longa, mas finalmente ela chega de repente. Mas não pense que tal evento seja um mero acidente.

Para transmitir a Lei a pessoa deve ser diligente, sincera e humilde no seu estudo do Caminho Budista. Não devem ser preguiçosos! Nem evitar aquilo que é duro de praticar. Aquilo que é duro de praticar é necessário para o avanço. Isto vale para todo estudo Budista. Não tente definir tua mente. Tentar definir a mente é como tentar comer uma pintura de um bolinho de arroz.”

Ontem expliquei este caso do mestre Tokusan; de qualquer maneira nós praticantes de Zen precisamos aprender a avaliar o nosso treinamento, se vem a ser verdadeiro ou não. Não depende se a pessoa sabe explicar bem as coisas, se fala bem ou bonito. E o que também é muito necessário é que a pessoa precisa ter muito cuidado para não ficar orgulhoso demais com seu treinamento forte ou então com seu estudo, conhecimento e compreensão. Como ocorreu no caso de Tokusan, apesar dele ter tido a iluminação com seu mestre Ryutan por apenas uma noite, ele era muito forte: eu sou o rei do Sutra do Diamante. Quando soube que existia uma escola que se chamava Zen, ficou deveras curioso e visitou o mestre, mas finalmente perdeu totalmente para uma velhinha e depois disto foi que começou a aprender com o mestre Ryutan. Em apenas uma noite ele chegou a iluminação. Mesmo assim, em seguida a isto ele continuou sempre a ser muito violento, pois era conhecido por seu bastão, com o qual batia nas pessoas.

Rinzai e o bastão de Tokusan ficaram muito famosos, como sinônimos verdadeiros daquilo que vem as ser o treinamento Zen. Por isto todo mundo hoje em dia acha que praticar Zen é ficar dando berros homéricos, e ficar batendo nos outros, com aquela postura de mestre. Mas não é isto em absoluto o que mestre Dogen coloca: na verdade ele diz que não é nada disto, não existe aqui nenhuma brutalidade; Mestre Dogen nunca fazia este tipo de coisas. Nem muito menos ainda agiam desta forma Bodhidharma nem o sexto Patriarca Hui Neng. Por que então estes mestres tais como Tokusan e Rinzai tinham este tipo de estupidez? Assim mestres também, são criticados, não somente suas atitudes, mas eles devem estudar a vida inteira desde o começo até o fim; com isto nós podemos calcular o valor verdadeiro daquilo que este mestre realizou. Por isto temos que tem muita humildade e ao mesmo tempo sinceridade. Como diz o ditado, “O verdadeiro valor das pessoas só é sabido depois que elas entram no caixão.” Enquanto a pessoa permanece viva, com aqueles poderes todos, pode aparecer muito, ser muito famoso e conhecido, mas depois que morre isto tudo pode desaparecer de repente. Isto já aconteceu muito. Ultimamente a escola Soto teve três ou quatro grandes mestres, entre eles mestre Savaki, Mestre Harada Sogaku, depois Kishizawa Ian, e outros que no momento esqueci. São três ou quatro grandes mestres. Naquela época mestre Harada foi da escola Rinzai, treinou e se iluminou, quer dizer passou por todos koans e casos Zen e ficou no lugar onde se pode ter aquela autoridade e usar do chipêi (Chipêi é um bastão, arqueado, de bambu). Então isto significa que ele tinha autoridade e a brandia; o símbolo de ser um mestre. Então depois ele voltou à escola Soto e começou a ensinar aos discípulos. Naquele época ele ficou na moda com suas habilidades. E assim ele criticava, criticava todos os outros mestres, como se fossem nada. Muitos jovens ficaram com ele. Finalmente ele dizia até que mestre Dogen, fundador de sua própria escola nada era, não tinha ainda chegado à verdadeira iluminação. Com tanta fama, com tantos discípulos, chegou até este estado, e até começou a criticar mestre Dogen, que ele nada era e que ainda não tinha atingido o grau último da iluminação. Ele era assim. Muito bem. Mas quando ficou velho, com 80 anos, começou a cansar. Quando morreu não tinha mais nenhum discípulo ou poucos discípulos. E morreu muito triste. Seus discípulos transmitiram aqueles mesmos modos e cada um levantava a bandeira: eu sou o único, cada um dizia , “eu sou o único e verdadeiro discípulo do mestre Harada. E entre eles começaram a brigar. Até hoje isto está continuando. Apesar de dentro da escola Soto a técnica de Zen Rinzai ser ministrada, eles não aceitam outras pessoas, mas cada um é dono da verdade, os outros são todos nulidades. Até hoje entre eles, os próprios discípulos estão brigando. Então Kapleau, que foi discípulo de Harada logo depois passou para mestre Yashutani. Mestre Yashutani, um dos discípulos de Harada Sogaku ficou tão orgulhoso como sucessor de Harada que criticou a escola Soto dizendo que o mestre da escola Soto agora nada mais é. Eu sou o verdadeiro mestre; assim ele saiu da Escola Soto. São 16 mil templos somente na escola Soto. Então Yashutani saiu da escola Soto levando consigo 4 mil templos, quer dizer, com seus discípulos que controlavam 4 mil templos. Ele levantou outra comunidade, chamada comunidade das três jóias. Kapleau é um discípulos de Yashutani. Outros discípulos continuam com ele, principalmente da linha de Hoshinji, Mosteiro de Hoshinji, onde Paulo César está treinando. Aí imediatamente as mesmas características se repetiram. Ele foi ordenado pelo superior de São Paulo mas logo quando chegou ao Japão ele fechou a matrícula na faculdade e começou a aprender com este mestre, discípulo de Harada. E com esta sua ação esta faculdade não mais quis receber outros brasileiros como alunos, visto que este abandonou vergonhosamente a faculdade desta maneira; ele separou da escola Soto e passou para outro mestre. Ele foi ao Japão com o trabalho de seu mestre, mas ao chegar ali esqueceu que já tinha aquele mestre e mudou de mestre por sua própria conta e risco. Este tipo de coisa é típica característica do mosteiro de Hoshinji. Quando chega ali, o treinamento é muito bom, talvez mais forte que qualquer outro mosteiro, e muita gente está treinando ali, inclusive estrangeiros em maior número que Japoneses; tem franceses, canadenses, europeus, brasileiros, argentinos etc. Então Paulo César já falava português, inglês, francês, espanhol e japonês. Aí dominou mosteiro inteiro. Então, hoje em dia ele é considerado, talvez como sucessor de seu mestre.

O Brasil sempre tem uma grande esperança. Paulo César foi participante de Santa Tereza, no Rio de Janeiro. Quando Santa Tereza fracassou um monge o convidou escrevendo-lhe uma carta. Aí disse que até ganhar a iluminação não mais voltaria ao Brasil, e continua até hoje a treinar lá. Assim o treinamento dele é muito forte, sério, pelo menos com muita vontade, mas alguma coisa está errada. Porque ele sacrifica tudo que estiver em sua frente para achar a verdade. Então, finalmente onde está a verdade. Em todo caso não é um caso apenas dele, mas juntamente com todos os outros monges deste mosteiro que está acontecendo muita coisa.

Não é por outra razão que até hoje eu jamais havia considerado o livro do mestre Kapleau, Os Três Pilares do Zen, como um livro que tivesse qualquer coisa de bom. Eu nunca indiquei este livro para vocês. Nunca critiquei, nunca fui contra, mas dentro de mim era talvez mais para contra.

Como praticante de Zen, não é conveniente que se comece uma prática pegando este livro como a primeira literatura para estudar. Talvez que mais tarde se possa ler este livro; claro, pode ajudar, tem muita coisa boa, mas como primeiro livro não, porque tem muita coisa forte demais para digerir e pode prejudicar.

Existia também um outro mestre Rinzai que se chamava Toin, também era muito forte. Então, também era dono da verdade, raivoso pela justiça. Ele pegava aquele bastão de Nanten (Nanten é uma madeira muito dura, e os monges Zen usavam este bastão feito desta madeira para viajar a pé). Então ele pegava este bastão de Nanten e viajava a todos os Mosteiros para criticar, para fiscalizar mestres de cada mosteiro. É forte, né? Porque muitos mestres diziam que já haviam passado vários casos e koans, mas às vezes isto não era verdade. Com isto ele ficava com raiva e ia entrevistar cada mestre dos mosteiros que estavam treinado seus discípulos. E começava aquela briga, aquela batalha; você tem que responder este koan, se ele não respondia aí ele falava para todo mundo: este mestre não é de verdade. E desta forma ele ia, um por um; Precisa muita coragem. Talvez que hoje em dia isto seja necessário. A intenção dele não deixava de ser boa, sério para o Caminho, muito bem. Aí derrubou todos; Ele era o melhor de todos. Mas ele também morreu muito triste.

Porque será que acontece isto? Esta brutalidade, violência precisa, mas ao mesmo tempo precisa de grande compaixão. Estas duas coisas tem que ter. Mesmo criticando outros, apontando os erros dos outros, no fundo tem que ter esta compaixão. Senão apenas aquelas atitudes de violência machuca muita gente e prejudica muito. Assim ele morreu muito triste também; hoje em dia o nome dele ainda é conhecido de uma ou outra pessoa, “Ah! O bastão de Nanten” Chegou e ficou muito orgulhoso; mas depois de sua morte, quantos anos já passaram? Talvez apenas 30 ou 40 anos e quase todos os praticantes de Zen não lembram mais o nome dele, como o Buda, o Sexto Patriarca, Bodhidharma, Sekito, Yakusan, Tosan, mestres de 1300 anos atrás, mas até hoje este nomes continuam transmitidos entre nós. Mas este, depois de apenas 30 ou 40 anos e já desapareceu, mesmo tendo naquela época em que estava no auge aquela energia fora do comum, depois de morto ninguém mais se lembra dele. Por isto é que eu digo: o valor das coisas nós o podemos reconhecer apenas depois que a pessoa se foi; esta é a realidade, e algo de muito importante. No mosteiro de Ibiraçu também aconteceu, o treinamento é realmente forte, então com apenas um ano a pessoa já muda de fisionomia. Então eles começam a passar o Kyosaku, o bastão, então alguns de vocês já sabem que é bom, mas depois com a continuação como ele está passando? Naquele momento é bom, cheio de energia, nós aprendemos, mas e depois explodiu e fica na mesmo o tempo todo. Assim, o treinamento Zen se é verdadeiro ou não, tem que ver do começo até o fim. Naquela época, quando ele tinha autoridade, durante cada sesshin quebrava até 3, 4 kyosakus. E um praticante principiante que estava lá quase ficou louco com isto, cada vez que passava o kyosaku sempre batia nele, um atrás do outro. O estado de saúde deste praticante não estava muito bom. Mas o veterano não estava reparando nisto, apenas queria mostra sua força, não com compaixão. Tem que pensar nisto, em que estado esta pessoa se encontra? Doente fisicamente, espiritualmente? Para isto ele não liga, apenas está querendo passar o símbolo de autoridade. Realmente com isto acaba prejudicando a pessoa, o pé dele estava geladinho, tremendo, gemendo, quando cheguei fiquei assustado, aí imediatamente mandei para o hospital. Era quase uma doença mental; e recuperou e nós temos amizade até hoje.

Exatamente logo depois de ler o livro do Kapleau aconteceu isto. Paulo César também exatamente logo depois foi lá no Japão e por acaso leu Yashutani e passou para Hosshinji. Vamos ver né, sempre podemos nos recuperar. Eu também passei pelo mosteiro Rinzai, vocês não podem imaginar o que acontecia na sala de meditação. Fica tudo roxo, sangrando, aí senta, fica com sangue e quando tira o pano então faz barulho. Aí toma banho. Mas eu não estou reclamando. Graças a Deus eu era muito magrinho mas aceitei tudo. Nunca mostrei minhas costas para eles. Porque meu sofrimento espiritual era tão grande, mais do que o físico, então aguentei tudo. Até agora eu tenho alguns tipos de forças para aguentar situações complicadas, eu acho que em parte se deve a isto. Então para mim foi bom. Mas hoje em dia eu vejo aquele tipo de treinamento, pelo menos para mim não serve mais. Várias coisas já são diferentes; as escolas Zen estão fazendo a mesma coisas; mas o sentido é totalmente diferente, a maneiras de sentar, o Kinhin, a refeição, ir ao banheiro, é tudo diferente. Então para mim não tem mais sentido voltar.

É desta forma que o treinamento da Escola Soto é considerado como se fosse soltando gazes dentro de uma banheira; então sai aquela espuma; quando aparece a espuma, sabe, então não tem mais cheiro. Este é que o treinamento Soto, não tem nada para segurar, nada para sentir oposição. Mas a escola Rinzai sim, ali o treinamento é muito forte, então podemos sentir aquela energia. Depois do sesshin, quando saímos para a cidade, uma multidão de pessoas abria caminho na frente da gente, porque a energia estava fluindo. Os turistas chegavam ao mosteiro, então nós descíamos, e alguns turistas diziam “Ah!! Monges!” e batiam fotografias, e para mostrar a nossa força nós dávamos aqueles gritos Zen. Hoje em dia eu tenho muita vergonha porque cheguei a fazer estas coisas. É bacana né? Era assim. Fazia mendigação, e nem pedia o dinheiro direito. Tinha o o suficiente, todo orgulhoso. Andava, pá, pá, pá. Os turistas corriam atrás de nós, espera! Espera! Para dar dinheiro para nós. Eu não ligava, não tinha carinho. Tinha neve, geada, frio, a cabeça ficava toda cheia de fumaça. Andava dentro da neve com os pés gelados e rachados, nós mostrávamos com orgulho, mostrávamos o treinamento forte. Hoje em dia tenho realmente vergonha destas coisas.

Mas sim, isto foi há muito tempo, agora eu já estou aqui há mais de 15 anos e as dificuldades nunca tardam a aparecer. Assim Mestre Harada criticava muito. Hoje em dia ainda tem discípulo de Mestre Harada, mas entre eles existe apenas confusões; dentro da Escola Soto já é uma coisas estranha; Mestre Yashutani separou 4 mil templos mas hoje em dia talvez 3 mil já retornaram para a escola Soto novamente. E talvez mil templos continuam a ficar isolados, tristes e solitários. Orgulhosos eles ainda não tem jeito de voltar, porque falaram tanta besteira. Mas fora do Japão este Mestre Yashutani focou deveras famoso, com seu treinamento Zen. Aqui não muita história, tradições Budistas, então ainda se aceita qualquer um que aparecer primeiro. Mas tem que ter olho Zen. Agora pode começar intercâmbio com outros países, não somente com o Japão mas também com os Estados Unidos e a Europa. Até agora no Brasil já aconteceram muitas coisas com nome de mestre. E naquele momento ele faz qualquer coisa e em seguida já vai se retirando. Mesmo não sabendo nada, mas tem nome de mestre, então faz aquela salada, e mistura tudo, mas como tempo temos que esclarecer estas coisas todas. Então a minha intenção é trazer, convidar um dia um mestre realmente para puxar uma linha legítima, de verdade. Esta é minha intenção. Este mestre pode ser brasileiro, pode ser meu discípulo de ordenação. Monge, discípulo de transmissão de Dharma ordenado, vai ao Japão treinar para transmitir a iluminação. Quando for mestre aí pode voltar. Espero que sim.

No Rio de Janeiro existem alguns monges brasileiros com título de monge Zen, misturado a linha Shingon. Diga-se de passagem que esta linha Shingon é realmente ridiculamente baixa e venal. O único que eles fazem é rezar quando a pessoa está doente, com dificuldades de vida e com isto eles ganham rios de dinheiro. Com isto eles podem também construiu um templo; tem muitos brasileiros que estão precisando; até milionários pagam muito, fica uma fila de carros estrangeiros. Mas nosso trabalho aqui não é nada disto, por isto custa a aparecer. Mas a verdade finalmente sempre aparece. Como dizem por aí, é quando o caminho é longo que pode aparecer a verdadeira força do cavalo. Quando o tempo é comprido pode aparecer a verdadeira vontade do praticante. Agora já falei muita besteira.

Aqui é importante, a Mente não pode ser apreendida; em japonês Shin é mente, Shu é não, Ka é pode, Toku é ganhar, segurar, receber. Então a Mente não pode ser ganha ou apreendida. Aqui está traduzindo, como não pode ser apreendida. Também tem este significado, mas só a palavra apreendida não cobre tudo, principalmente neste caso. Ontem não comecei com esta parte desde o inicio, porque não sei o que aconteceu com a tradução em inglês, como texto original, não tem nada a ver; então eu comecei com o texto. De qualquer maneira a Mente não pode ser apreendida. Então o que é mente? Descrição de mente estamos repetindo mais de uma vez, quando se fala em mente muita gente pensa naquela mente que pensa, sente calor ou frio, doce ou amargo, triste ou alegre. Isto é mente como consciência. Mas no Budismo quando se fala em mente, isto quer dizer que a Mente é o Buda, a Natureza de Buda, Budadata, o Universo Interior. Então Mente é como o Espaço; tem a teoria da Sunyata, o Vazio. Eu aprendi durante 2 ou 3 anos sobre a teoria de Sunyata com o professor Niamoto. Ele é diretor da associação Budista do Japão, grande professor. Sunyata ‘o Caminho do Meio. Mas quando fala vazio é mente como espaço, infinito, como vazio. Todo mundo pensa vazio como não tendo nada.

Então o Zen usa muito o vazio. É um nada; e com isto todo mundo pensa “Ah! A mente é nada, a mente é vazio,” e assim ficam pensando. Tem isto, explica muito isto. Mas por isto aconteceu este caso de Tokusan: com que mente o reverendo está querendo comer este bolinho de arroz? Então como a palavra já está armada pelo professor Budista, este não pode responder. Não sei se vocês estão notando, este Shobogenzo está sempre repetindo uma só coisa. Isto é a relação com o mundo cósmico e microcósmico. Quer dizer, Buda, o Universo Inteiro está dentro de cada um de nós, dentro da cada coisa. Então bolinho de arroz pode tocar mente de Tokusan, isto é universo inteiro tocando universo inteiro. Bolinho de arroz já é universo inteiro. Tokusan já é universo inteiro. É sempre repetindo a mesma coisa. Mas não adianta entender teoricamente, intelectualmente. Tem que ter experiência, se não na hora certa não funciona. Muitos professores Budistas explicam bem, falam bem, mas na hora da morte é como caranguejo que está dentro da água fervendo, contorcendo-se todo. Isto acontece. Cada um de nós, quando está à beira da morte está preparado ou não está preparado. É isto é a questão do medo, agora. E ninguém sabe quando vai morrer. A morte sempre vem de repente. Todo mundo sabe que com 45, 70 ou 80 anos, vai morrer. Mas se perguntarem a um doente terminal de 80 anos se ele vai morrer amanhã, ele dirá com certeza: eu nunca pensei nisto. Uma vez uma pessoa estava com câncer, à beira da morte, até amigos o visitaram. Médicos e familiares não lhe falarem que era câncer, mas os amigos já sabiam. Na visita os amigos o perguntaram: como está, tudo bem? “Ah, tudo bem comigo, tudo bem, a gente tem que morrer mesmo. Aí ele mostrou aquela tranquilidade muito profunda. Aí um dos amigos sem querer disse: “Pois é, você já está quase iluminado, mesmo com câncer já superou tudo, não sofre mais!” “Ah! Sim, ha ha ha!” disse ele rindo e todo mundo foi embora. Quando todo mundo foi embora ele disse: “Câncer? Eu tenho câncer?” E começou a sofrer com esta consciência. A palavra ele podia falar mas quando soube que era câncer, uma doença mortal, aí então ele sofreu, isto mexe muito com a pessoa.

Então, a mente do passado já foi, a mente do futuro ainda não chegou, agora a mente do presente o que quer dizer? Cada pessoa está pensando, pensando, pensando. Cada um de vocês esta pensando agora. Este pensamento a cada momento está mudando, mudando, mudando. Neste momento você está pensando uma coisa, mas noutro momento já é outra coisa. E repentinamente podem surgir muitos pensamentos. Dentro de mim existe até este tipo de pensamentos feios? Existem. Por que surgem estes pensamentos? Eles vem um atrás do outro. Tem alguma relação entre o atrás e o depois. Estas coisas são muito interessantes para estudar. De qualquer maneira até o presente é impossível de se segurar, não pode pegar. Com isto aconteceu que o futuro, é todo vazio, nada , por isto acho que não tem nada para segurar. Não é? Com já coloquei o universo inteiro é este cobertor, esta pedra, este papel, estas coisas todas. Por isto quando você está vivendo este momento, o passado está dentro disto. O futuro está sendo vivido neste momento. Isto você tem que entender. Senão, até amanhã, até amanhã, amanhã e nunca vai resolver as coisas.

Uma vez eu estava meditando em cima de um tronco, perto de um riacho, num tronco seco e grosso. Estava meditando e comecei a cortar o tempo: uma ano, 12 meses, um mês, 30 dias, um dia de 24 horas. Uma hora, 60 minutos, um minuto, 60 segundos, e um segundo. Comecei a meditar em um segundo e com este comprimento comecei a dividir ao meio. Então, 5 segundos, depois metade, metade, metade. Aí não pude mais cortar, indivisível. Com o microscópio da minha mente cortava mais uma vez, mais outra, e aí já era 0,0000…l segundos. Dividi até não poder mais, e nem sei quanto tempo estava absorto fazendo isto. Como na teoria da física sempre se pode cortar mais ainda, é claro que se tiver tamanho pode ainda ser cortado. Esta questão da física hoje em dia ainda não está resolvida. O átomo não pode cortar mais, dividir mais, mas dentro do átomo tem muita coisas. Então quando descobriram isto ficaram assustados, porque só quebrando o átomo já tem aquela energia nuclear, da bomba atômica. Se conseguir quebrar os neutrons, então a energia é enorme não se compara com a bomba atômica. Esta terra com esta explosão pode mudar de direção, de caminho, e até pode vir a morrer, a terminar. Então os cientistas tem que ser ao mesmo tempo religiosos. Eles já chegaram até esta conclusão. Budistas trabalham em cima disto, chama-se micro. Se existe ainda espaço então ainda existe em cima, embaixo, direita, esquerda, frente, atrás; são seis direções. Entretanto isto não é indivisível. Pode dividir ainda mais e sempre mais. Não tem fim. Tempo também, passado, presente, futuro, se pensar no fim do passado, muita gente pensa desta maneira. Isto também é erro, para facilitar as coisas, com isto o mundo funciona. Aí dividindo desta maneira, não sei quanto tempo levou, aí eu consegui entrar dentro de um momento. Quando mergulhei dentro de um momento aí o tempo abriu SSSHHAAAAAA. Passado e futuro. Um momento é futuro e ao mesmo tempo passado. Eterno. E com isto nós temos que viver aqui, neste momento realmente, e isto é que é a mente. Nós trabalhamos, de manhã até a noite, até depois da aula, até 10 horas trabalha, atende as pessoas que estão na cama, que não podem vir, até de madrugada às vezes atende. E com isto cansa ou não cansa? Não cansa, continua. Por que? Se está fazendo para você mesmo até cansa. Mas estou fazendo para outra pessoa, por isto não cansa. Se você está fazendo para outra pessoa você cansa, se você está fazendo para si próprio não cansa. Porque acontece? A única causa é a grande compaixão. Está fazendo para outra pessoa. Então não cansa. Se faz para si próprio, cansa. Quando você faz para outra pessoa sem compaixão, cansa. Mas faz sem compaixão para si próprio não cansa.

Assim procuramos, procuramos por muitos prazeres, prazeres, não importando se a outra pessoa está sofrendo.

Então vivendo dentro deste mundo, a relação do bolinho com a mente é isto. O bolinho é a mente e a mente é o bolinho. Eu sou você e você é eu. Eu tratando doente não canso, porque o doente sou eu. Se pudermos viver desta maneira, trabalhando para outras pessoas, ao mesmo tempo trabalhando para si próprio. Esta é a relação. Não tem lógica. A alegria quando acontece, é muito grande. Muita gente procura a felicidade, a alegria, o prazer para si mesmo apenas, não se incomodando com o sofrimento de outras pessoas; será que isto é a verdadeira felicidade. Quando a outra pessoa é feliz ai eu também fico feliz. Também tem este lado. E com isto nós podemos fazer muitos sacrifícios. Não é sacrifício, é prazer. Se cada um vai começar a trabalhar desta maneira, aí vai sentir: eu sou você, você é eu, descobriremos então este lado.

Por isto aqui se Tokusan tivesse dito: não sei que mente usamos para comer o bolinho; deveria responder: tua mente está preocupada demais com o bolinho de arroz. não sabes que tua mente contém o bolinho de arroz. A mente mesmo não sabe o que comer. Isto aqui, o bolinho de arroz para a mente, mas a mente para o bolinho de arroz. Por isto é mente para mente. Estas três categorias nós colocamos. Com o bolinho toca a mente, mas este bolinho já é a mente. Então de fato é a mente que está tocando a mente. Quer dizer, o universo inteiro é a Mente. Não é vazio, não é nada. Cada um de nós é a Mente, o universo inteiro, então como usar o universo inteiro? Usando seu trabalho, mãos e pernas, trabalha para outras pessoas. É isto. Tem algumas perguntas?
Por isto quando sabemos o que é a Mente não existe mais a terra, não existe mais o céu, mas cada um de nós. Então como seguramos a Mente, o universo inteiro? Usando nosso corpo para ajudar as outras pessoas. Este é o trabalho de Buda.

Fim.