A aranha e o bicho da seda

Mushin, a teoria zen do inconsciente.

Palestra proferida pelo Mestre Ryotan Tokuda, durante o Angô de Abril-junho de 1992, no Mosteiro Zen Pico de Raios.

Boa noite , caros amigos.  Hoje falarei sobre Mushin, o  “Inconsciente“, uma das  teorias do Zen.
Uma senhora me perguntou:  “Em toda  parte existem muitas tensões.  Eu as sinto dentro de mim.  O que o Senhor poderia fazer para aliviá-las?”
Eu respondi:  “Você não deve pensar com a cabeça, mas com a barriga!
Ela não entendeu;  Eu precisei explicar mais e o tempo se passou.  ela mostrou muito interesse e comentou que desejava praticar o zazen.
É verdade que “mente” demais incomoda.  São Francisco de Assis dizia:  “Hoje em dia, as pessoas estão usando demais suas mentes.  E por isto elas ficam perturbadas.

Eu não me lembro em que época exatamente viveu São Francisco de Assis.  Ele dizia “hoje“, mas em nossa época o problema é o mesmo.  São Francisco dizia ainda:  “Por isto você deve ser igual a um cadáver.  Se você for igual a um cadáver, fica em pé.  Se  alguém deixar você cair, então você cai e permanece caído.  E se alguém quisesse lhe colocar um manto púrpura para que desse sermões e discorresse sobre  as doutrinas, então  você  nada teria a dizer.
Eu acho este exemplo do cadáver muito interessante.  Se somos hiper-espiritualizados, tampouco nada conseguiremos resolver.  Mestre Dogen dizia:

“Espantalho  em cima da colina.
Lá em baixo, o campo de arroz.
Como é inconsciente,
Como é inútil.”

Existem dois bichos muito interessantes:  Um é a aranha.  No fim do dia ela começa a tecer sua teia.  No começo ela fica esperando dependurada num fio, até que o vento a leve embora.  Chegando a um galho, ela segura o fio e procura um outro galho próximo.  E desta maneira consegue tecer sua teia completa.  Terminada a teia, fica esperando tranqüilamente no centro .  Caso um inseto entre em contato com sua teia, o movimento se transfere imediatamente até o centro, e a aranha consegue pegar sua presa.  O seu mundo é então aberto e amplo.

O outro animal é todo ao contrário:  o bicho da seda.  Numa certa época ele para de comer, fica tranqüilo e transparente.  Está começando a fabricar o fio da seda.  Mas totalmente diferente da aranha, ele tem o hábito de construir uma casca em volta dele. Não consegue se movimentar, parece imóvel, quase morto.
Assim é nossa mente.  Não podemos, como aquela aranha, construir um mundo amplo, sem perturbar nossa mente.   Mas ao mesmo tempo esta mente parece totalmente fechada em si mesma.  É por isto que muitas pessoas estão se queixando de que, mesmo pensando sem parar, nunca saem do lugar.  Na minha opinião elas não pensam, mas apenas torturam suas mentes.  Parece que nós usamos apenas 5% do nosso cérebro.  Ele tem uma capacidade maior que qualquer computador, mas nós não sabemos fazer uso total dele.  De qualquer modo, mente demais apenas incomoda.  Por isto praticamos o Mushin, o inconsciente.

Mushin às vezes é não pensar, sentir-se sem consciência, como um bebê.  Também na Bíblia está escrito:  “Sejam como as crianças e vocês entrarão no reino dos céus”.  Uma criança pequena costuma segurar todas as coisas com muita força.  Não conseguimos abrir a mão dela.  Se, contudo, lhe mostramos outros objetos interessantes, imediatamente ela larga o primeiro objeto e tenta alcançar o segundo.  Os adultos não são tão simples.  Mostrando  coisas  interessantes,  além   daquelas   que  ora  seguram, parecem não ter interesse em perder as primeiras.  Querem ficar com todas as coisas ao mesmo tempo, e nunca largar nada.  Mas tendo ambas mãos ocupadas, como vão conseguir pegar mais coisas ainda?  Como resultado, ficam perturbados e apavorados.

Mestre Dogen, fundador de nossa escola Zen, viajou para a China.  Após alguns anos de treinamento, voltou para o Japão.  As pessoas lhe perguntaram:  “O que você aprendeu na China?  O que está trazendo aqui para nós?”
Naquela época, muitos monges Zen costumavam viajar para a China trazendo de volta sutras, imagens de Buda e estas coisas ainda desconhecidas no Japão.  Por isto as pessoas fizeram aquela pergunta a Mestre Dogen.  Mestre Dogen respondeu assim: “Voltei com as mãos vazias.”  Estas palavras mostram uma autoconfiança muito grande.  Ele não trazia coisas materiais, mas a transmissão direta do Budismo.

As pessoas perguntaram ainda:  “Mas o que você aprendeu na China?” Mestre Dogen respondeu:  “Eu aprendi a estar com a mente em movimento.” Mente em movimento é muito importante para nós.  Uma mente quadrada ou triangular poderia ferir-se, por isso a mente precisa ser redonda e ágil. Mas que é mente em movimento e mente redonda? Mente em movimento significa que podemos  abandonar  esta  mente   e   este  corpo.   Mas   como  podemos abandonar corpo e mente?  Apenas fazendo zazen.  Dentro da teoria e prática Budistas, sempre se preconiza o treinamento do zazen.  Com as pernas cruzadas e a boca fechada podemos abandonar corpo e mente.  Então, se vocês vão praticar zazen, isto não é mais uma obra de homens, mas de Buda.   E  assim vocês podem chegar a obter esta mente em movimento, como um sino ao vento. Os sinos ficam dependurados num fio, com um pedacinho de papel preso ao badalo.  Mestre Dogen disse:  “Uma vez meu falecido mestre me mostrou o seguinte poema, de sua autoria:

O corpo  é como uma boca pendurada no ar.
Não importa em que direção venha o vento,
Norte, Sul, Leste, Oeste,
O sininho do vento sempre repete o som de Prajna:
Tlin, tlin, tlin, tlin.”

O vento vem, o papel se movimenta e o  sino toca.  Sopra o vento de sul a norte, o sino vai se balançando também  de  sul a norte, ou de oeste a leste.  Para ele não importa de onde provenha o vento, seja do norte ou do sul.  Isto significa mente em movimento.
Se um comerciante declarasse:  “Vou vender minhas mercadorias apenas para pessoas ricas,  caso contrário, não vendo nada!”,  ele com toda certeza nada venderia.  Eu conheci uma mulher, dona de uma loja.  Ela deu à loja o nome de “Gente Fina“.
Uma vez veio uma freguesa e disse:  “Ah, gente fina, eu não pertenço a esta turma.”  Então a dona da loja respondeu:  “A senhora não entendeu;  quem entrar na minha loja faz parte das pessoas finas!”  Que ótima justificativa, não é?

Um monge andando na rua passava perto de um açougue.  Um cliente importante perguntava naquele momento:  “Esta carne é realmente de primeira?” O açougueiro respondeu:  “Na minha loja jamais se vende carne inferior.  Tudo é bom.” Quando o monge ouviu estas palavras; tudo é bom,  teve uma compreensão da verdade.  Neste mundo tudo é realmente bom, não existem pessoas más.   Isto é mente aberta  e às vezes a mente se movimenta de tal forma que não existe mais mente, não existe mais mente sólida ou dura.  Os monges chamam isto de “Unsui“, que significa nuvem e água.  Unsui  significa:  monge Zen, nuvem e água. Mas que são nuvens e água?  A montanha mais alta nunca perturbaria  as nuvens.  Elas vão subindo e passando ao lado simplesmente, porque nuvens têm esta forma de movimentação. Na floresta de bambus, as plantas estão estreitamente entrelaçadas, porém a água se lhes flui pelo meio, sem obstáculos.  Isto é o símbolo do monge zen, nuvens e água.  Quem possui esta forma de movimento, não fica estagnado em lugar nenhum, nem se apega às coisas.  E por esta razão não vai apresentar suas próprias idéias e opiniões em primeiro lugar.  Para ser um mestre, precisa ser “como um morto“, dizia São Francisco de Assis.  Nós ouvimos, olhamos e falamos, e isto incomoda muito.  Muitas vezes não precisamos nem ouvir, olhar ou falar.

Mas este mundo é muito complicado,  especialmente para pessoas com uma certa responsabilidade.  Se nosso estômago está precisando de cuidados, ele vai doer.  E dói, e se não cuidarmos dele, continua a doer. Assim ele ocupa o lugar da pessoa toda.  Nuvens e pássaros são totalmente naturais.  O passarinho voa, voa, e sentindo cansaço, volta para seu ninho,  ele se comporta com maturidade e espontaneidade.  Mas dentro deste nosso mundo , não podemos nos comportar como os pássaros.  Nós temos  obrigações.  E por isto é tão importante viver sem mente. São Inácio de Loyola costumava dizer:  “Se Deus aparecesse para mim, neste instante, e me mandasse atravessar o oceano num barquinho pequeno, sem velas e sem remos, eu iria sem hesitar.  Porque eu ando onde Deus quer.  Se eu me afogar nas ondas, então eu me afogo, se eu flutuar no oceano, então eu flutuo.  Não sei como as coisas vão se resolvendo, mas isto não tem importância.  Assim como as coisas estão,  estão perfeitas para mim.
Isto é magnífico.  Ele não se preocupa com nada, entregando-se totalmente a Deus.  De onde provém esta confiança?  Havia de certa feita um monge.  Ele se deitava diante da imagem de Buda.  Um outro monge viu isto e lhe disse:  “Onde está o respeito que você deveria estar mostrando pela imagem do Buda?” “Meu  caro, aqui é a casa do meu Pai , não  preciso   estar  seguindo regras.  Talvez você é que seja apenas um filho adotivo, ou então um funcionário, e não um filho verdadeiro.” Esta história é um pouco ridícula porque para nós Budistas, estas três coisas são fundamentais:  Buda, Dharma e Sangha.  Mesmo assim, o comportamento do monge demonstra uma total confiança, um sentimento de paz entre ele e o Buda.  Aqui ocorre uma entrega total.  Uma vez ocorreu um violento terremoto na região onde morava o mestre Zen Ryokan.  As casas desmoronaram, houve incêndios por toda parte, muitos morreram.  Ryokan escreveu a seu amigo:  “Se vier uma catástrofe, é melhor que ela aconteça mesmo.  Se for para você morrer, melhor que morra mesmo.  Esta é a melhor forma de se evitar catástrofes.

Muitos líderes espirituais estão nos avisando sobre a chegada do apocalipse:  “Vocês precisam se preparar!” Algumas pessoas ficam assustadas e acabam vendendo suas casas e apartamentos e procuram se esconder em subterrâneos.  Mas  se o apocalipse acontecer mesmo, será que vão conseguir escapar desta forma?  Isto não é  apocalipse.  Apocalipse é o fim de tudo.  A única maneira de se escapar do apocalipse é aceita-lo.  Estas coisas não podem ser ditas com palavras lógicas, mas a confiança e a união com Deus ou Buda só existem quando tivermos esta experiência.  Quem já a teve, faz parte do corpo cósmico do Buda,  ele é cósmico, ele é o universo inteiro.  Caso o apocalipse ou a bomba atômica consigam destruir o universo todo, para onde vai então o universo, onde ele fica?  Meister Eckhart disse: “‘Os melhores presentes e a perfeição vêm desde acima, do Pai das luzes. Tudo aquilo que lhes chegar de Deus, será sempre o melhor possível para vocês.”  Se nós vivemos dentro deste mundo como um cadáver ou como um espantalho, então estamos inconscientes.  E  desta forma agimos dentro deste mundo.  Mas, vocês poderiam talvez indagar neste ponto, “e se perdermos a noção das diferenças entre certo e errado, não vai ser perigoso viver dentro deste mundo?”  Claro que os Budistas não perdem o intelecto de vista, o sexto sentido, a mente,  mas eles conhecem as limitações disto. Nós possuímos uma mente mais profunda, que é o inconsciente.  Por isto, os conhecimentos de nosso mundo são limitados.  Mesmo realizando as coisas , estamos aprisionados com a idéia de ego.  Conhecendo os limites de nossas percepções, podemos nos aprofundar no mundo do inconsciente, e através da meditação podemos alcançar o fundo de nosso inconsciente.

Assim encontramos uma forma de sabedoria diferente.  É a sabedoria não discriminatória, a intuição direta.  Isto quer dizer, aceitação das coisas como elas são, e não mais sermos perturbados pelo externo.  Então podemos constatar a forma verdadeira das coisas ,como se fitássemos um espelho redondo, sem preconceitos.  Por isto chamamos a este estado de fundo da consciência: Mushin, ou inconsciente. Durante a meditação, as ondas mentais começam a se esprairecer, como a superfície de um lago tranqüilo.  Normalmente nossa mente fica pulando de galho em galho com um macaco, ou então corcoveando como um cavalo selvagem. O macaco gostaria de alcançar com a mão a imagem da lua no lago.  Ele salta de galho em galho e ao tocar a superfície do lago a lua se desfaz.  Durante o processo de meditação acontece exatamente isto:  querendo acalmar nossa mente, ela já não é mais a mesma.  Durante a meditação, independente de nossa vontade, simplesmente através do método de zazen, da postura correta, e respiração correta, aparece o espírito correto.  A lua se reflete na água.  Mas a lua não fica molhada e sua sombra não faz um buraco na água.  Neste momento não existe nem a lua, nem a água.  Elas se tornam uma só coisa.  Como podemos denominar este estado? Chamá-lo-emos de “vazio” ou de “nada“.  Isto é o que ocorre durante a meditação.

Neste mundo nós temos sinos e badalos.  Quando eles vão um de encontro ao outro, o sino ressoa.  Agora eu pergunto. O que ressoa, o sino ou o badalo?  Quem produz este som?  Nós vivemos exatamente esta dualidade de sino e badalo, e às vezes nem disto estamos conscientes.  É a relação entre sujeito e objeto, assim como eu me encontro aqui neste momento:   eu faço uma visita, mas eu sou a visita.  Então eu deixo que as coisas aconteçam por si mesmas. Pessoas organizam, fazem programas, projetos, combinam horários, tudo por mim.  Eu apenas me encontro presente e me entrego a tudo isto.  Mas se vocês vierem me visitar no Brasil, onde eu posso resolver as coisas, então eu sou dono da casa e vocês são meus convidados. Então eu preparo tudo, convido vocês para um restaurante, ou um passeio, ou para trabalhar, e vou organizar tudo.  Assim as coisas acontecem.  Mas existem pessoas que não sabem agir corretamente.  De repente, entra uma pessoa e começa a fazer o que bem entende.  Isto incomoda. Para praticar o Zen,  primeiramente temos que controlar a nós mesmos, seguir nossos objetivos corretos, mesmo contra mil inimigos.  Mil flechas são disparadas contra nosso coração;  e se  crermos  que nosso objetivo está correto,  iremos defendê-lo contra tudo.  Este é o caminho Zen de vida.

Em segundo lugar, precisamos ter a postura correta.
Alguém chega em casa depois do trabalho. O filho ou o neto está esperando por ele, e chegando correndo, diz: “Quero montar a cavalo!”  Este homem, que combateu mil inimigos, abaixa então a cabeça, e se transforma sem hesitar num cavalo.  A criança monta então o cavalo cheia de felicidade.  Esta é a postura correta.   Podemos aprender a viver neste mundo, às vezes como anfitrião, às vezes como visita.  Um é o sino, o outro o badalo.  Precisamos saber quando sermos sino, quando badalo.

Agora, em terceiro lugar:  tudo é vazio e sem sentido,   tanto   sino quanto   badalo.    Porque   nunca   houve   uma identidade permanente, tudo é impermanente e passageiro.  Se sabemos disto, então tudo é sem sentido.  às vezes discutimos durante o dia com nossos amigos,  e durante a noite, nos recordando disto, perdemos o sono,   porque temos autoconsciência em demasia.  Então não gostamos de nos lembrar daquele dia, e tudo fica complicado.  Aquela discussão ocorreu por acaso, com todas suas consequências.  No fundo, nenhuma condição tem raízes.  Tudo é vazio.  Se não nos amarramos a nada, tudo é maravilhoso.  Por isto escolhemos as seguintes linhas como tema principal desta palestra :
Na primavera temos flores, no verão cantam os pássaros. Tão maravilhosos, no outono aparece a luz prateada da lua e no inverno cai a neve fresca.

Se não tivermos mente demais, a vida chega a ser maravilhosa .  O mundo original é tranqüilo e cheio de paz.  Se não sentimos ódio ou apego, imediatamente entramos no estado de iluminamento e o caminho aparece claramente à nossa frente.  Este exatamente é o estado do inconsciente.   Através da meditação ele aparece como a água refletindo a lua.   Nem a água nem a lua existem.  Elas são uma só coisa.

Ontem à noite fizeram-me uma pergunta a respeito deste estado.  Nós o chamamos de  samadhi.  Muitos confundem o estado de êxtase com o estado de mushin, a inconsciênciaMushin, com o prefixo Mu, que quer dizer negação, não quer dizer “não ter mente”.   Aquele  estado  de  voar  para  além das nuvens é pura alucinação.  Mas samadhi é o estado de plena atenção e de pleno equilíbrio.  Neste caso, todos os sentidos e todas formas de consciência estão plenamente despertas.  Mas como o lago refletindo a lua ou o pião em rotação, a pessoa descansa tranqüilamente dentro de si mesma. Se o pião gira perfeitamente em volta de si próprio, ele parece imóvel.  Quando enfraquece e fica sem força, ele começa a se movimentar.  O estado de samadhi é concentração profunda.  A pessoa persiste na postura correta, aquela do zazen, da meditação: nariz alinhado com o umbigo, orelhas com ombros, sem se inclinar para frente ou para trás, para direita ou para a esquerda.  Neste momento não se está dormindo.  Todas as formas da consciência estão tranqüilas, mas perfeitamente acordadas.  E é desta forma que podemos chegar a este  Inconsciente.  Que possamos nós chegar a esta compreensão, para tal nos ajude buda.